O Apocalipse do Sangue | Dramione
13 Aʟéᴍ ᴅᴏ Sᴀɴɢᴜᴇ
Notas iniciais

Hogwarts surgiu no horizonte não como a escola da infância deles, mas como uma fortaleza sitiada.
As antigas pedras do castelo estavam envoltas em uma cúpula de luz dourada, as barreiras de proteção máxima que os professores e os sobreviventes haviam erguido. No entanto, do lado de fora da barreira, a visão era de pesadelo. Milhares de infectados acumulavam-se contra a linha invisível de magia. A pressão era tanta que a cúpula emitia um zumbido constante, com faíscas violetas estalando onde os corpos em decomposição tocavam a barreira.
— Pelas barbas de Merlin — Theo murmurou, parando a vassoura no ar ao lado de Harry. — Há mais deles aqui do que em Londres.
— Eles são atraídos pela concentração de magia — Hermione disse, erguendo a cabeça do ombro de Draco. — O castelo é um farol para a fome deles.
Antes de iniciarem a descida, Hermione apertou um pouco mais a cintura de Draco. O vento gélido cortava as bochechas dela, mas a proximidade com ele gerava um calor que a impedia de tremer.
Draco inclinou a vassoura para baixo, apontando para a Torre de Astronomia, que se projetava para fora da cúpula principal com uma abertura protegida por runas que Blaise Zabini ativou do lado de dentro.
— Vamos entrar rápido — Draco comandou entre dentes. — Potter, cubra a Hermione se alguma coisa der errado na descida.
Eles mergulharam em direção à torre. No momento em que cruzaram a abertura de pedra, as vassouras tocaram o chão com um impacto seco. Hermione quase caiu devido à dormência nas pernas provocada pelo frio e pela tensão, mas Draco largou a Firebolt no chão sem qualquer cuidado e a segurou firmemente pelos braços, puxando-as contra o peito antes que ela perdesse o equilíbrio.
Com as mãos ainda na cintura dela, ele deslizou os dedos pelo rosto de Hermione, afastando os fios de cabelo molhados que colavam em sua testa. Seus olhos brilhavam com uma preocupação desmedida na semiescuridão.
— Olha para mim. Se machucou? — ele indagou em um sussurro febril, ignorando os outros que aterrissavam logo atrás.
— Estou bem, só estou com frio — ela respondeu, os dentes batendo levemente.
Draco praguejou baixinho e envolveu as mãos dela com as suas, soprando seu próprio hálito quente nelas antes de ajustar as luvas de couro dela para garantir que o calor circulasse. Ele aproximou o rosto, colando sua bochecha na dela por um segundo, um carinho desesperado e terno que fez o coração de Hermione errar as batidas.
— Suas mãos estão congelando, querida. Eu disse para não se afastar da minha proteção térmica — ele ralhou suavemente, os olhos ganhando um brilho gentil enquanto ele usava o próprio corpo alto para bloquear as rajadas de vento que vinham das arcadas abertas. Hermione sorriu fraco, aquecendo-se não apenas pelo feitiço, mas pelo cuidado obsessivo dele.
A pouca distância, Harry desceu de sua vassoura e, antes mesmo de guardar o equipamento, sentiu a mão de Theo pousar firmemente na base de seu pescoço, puxando-o para um abraço. Foi um momento de pura constatação de sobrevivência. Theo limpou uma gota de chuva do supercílio de Harry com o polegar e ajustou a gola de seu casaco em um gesto rápido, quase inconsciente, mas carregado de uma intimidade profunda.
Hermione os observou por cima do ombro de Draco. A forma como Harry relaxava instantaneamente, a maneira como a pesada armadura dele caía quando ele estava sob o toque do marido, era a definição mais pura de lar.
Eles venceram o peso dos seus passados juntos, Hermione pensou, sentindo o peito apertar.
Olhando de volta para o homem à sua frente, ela percebeu que o seu próprio conceito de lar havia mudado drasticamente. Ela queria exatamente aquilo. Queria desvendar cada camada daquele que se tornara o seu porto seguro. Não era apenas a adrenalina do fim do mundo; era um sentimento real, avassalador, que a fazia querer conhecer o homem por trás do mito de carrasco do Ministério.
A Torre de Astronomia estava fria, o vento uivando. Mas eles não estavam sozinhos. Da escuridão das escadas, duas figuras avançaram com as varinhas erguidas.
— Abaixem as varinhas, somos nós! — Harry gritou, adiantando-se com Theo logo ao seu lado, as varinhas de ambos brilhando em sincronia.
A luz de um feitiço Lumos revelou o rosto de Ginny Weasley. Seus cabelos ruivos estavam presos em uma trança pragmática, os olhos mantinham a mesma determinação feroz de sempre. Atrás dela, Blaise Zabini guardou a varinha com um suspiro de alívio, sua elegância Sonserina de alguma forma intacta apesar das circunstâncias.
— Graças a Godric — Ginny disse, correndo para abraçar Harry, antes de se virar para Hermione. O abraço entre as duas foi rápido, mas carregado de uma dor compartilhada que não precisava ser nomeada. Ginny olhou para Draco, um aceno de cabeça que continha um respeito relutante. — Soubemos o que vocês fizeram no Ministério. O rapaz que vocês curaram, a mensagem chegou por um Patrono antes das comunicações caírem de vez.
— Onde estão as poções? — Blaise perguntou, aproximando-se de Draco. — As barreiras do castelo não vão aguentar mais vinte e quatro horas, Malfoy. A magia delas está sendo drenada pela própria infecção.
— Estão aqui — Draco respondeu, voltando à sua persona de comando intocável. — Mas precisamos de tempo para ligar o caldeirão de dispersão ao núcleo da torre. Hermione disse que pode transformar isso em uma névoa volátil.
O silêncio que se seguiu não foi decorrente do vento gélido ou do zumbido ameaçador da barreira rúnica. Foi o silêncio estupefato de quem testemunha as leis da física se dobrarem.
Blaise Zabini, estancou no lugar, seus olhos escuros, geralmente semicerrados em uma expressão de tédio, abriram-se um milímetro a mais. Ele ergueu a cabeça devagar, encarando Malfoy como se testasse a própria sanidade mental ou verificasse se o amigo não havia sido substituído por uma poção Polissuco malfeita.
A poucos passos dali, Ginny congelou no ato de ajustar a alça de seu coldre de varinha. Sua boca se abriu ligeiramente. Ela olhou de Draco para Hermione, e depois para Harry, caçando alguma piada interna que justificasse o que acabara de ouvir.
Hermione.
Não "Granger". Não "a nascida-trouxa". Nem mesmo o tom seco e formal que ele usara durante os primeiros anos após a guerra. Foi Hermione, dito com a fluidez natural de quem já havia repetido aquele nome dezenas de vezes entre quatro paredes, ou talvez na segurança de pensamentos protegidos por Oclumência.
— O que você disse? — Ginny disparou, a voz cortante quebrando a paralisia do ambiente. Ela deu um passo à frente, estreitando os olhos ruivos. — Desde quando você a chama pelo primeiro nome, Malfoy?
Draco nem sequer piscou, embora uma sutil rigidez tivesse tomado sua mandíbula.
— Estamos prestes a ser soterrados por cadáveres enfeitiçados, Weasley — ele respondeu, a voz arrastada, destilando seu habitual tom de superioridade, embora houvesse uma nota defensiva quase imperceptível. — Se a sua prioridade no momento é a etiqueta puro-sangue britânica, sugiro que desça e vá discutir semântica com a escória infectada lá embaixo.
— Não mude de assunto, doninha — Ginny rebateu, cruzando os braços, embora o canto de sua boca esboçasse um vinco de puro choque misturado com uma diversão ácida. — É que ouvir isso vindo de você soa quase como um feitiço de Transfiguração mal executado.
Hermione sentiu o rosto esquentar instantaneamente, as bochechas queimando apesar do vento cortante da torre. Ela pigarreou, ajeitando o próprio casaco e fixando os olhos nos diagramas rúnicos, tentando desesperadamente parecer profissional.
— Ginny, por favor. O Draco está certo, não temos tempo — Hermione interveio, mas o estrago já estava feito. No momento em que o "Draco" escapou de seus lábios, o silêncio retornou com o dobro de força.
Blaise soltou uma risada curta, um som nasal, antes de balançar a cabeça.
— Pelo visto, eu perdi mais do que apenas a queda do Ministério enquanto estava trancado neste castelo — Blaise murmurou, lançando um olhar de soslaio para Draco, um brilho de puro divertimento nos olhos. — "Draco" e "Hermione". Quem diria que o fim do mundo traria tanta flexibilidade social.
Harry, que assistia à cena encostado em uma das pilastras com os braços cruzados, soltou um suspiro audível. Ao seu lado, Nott apenas deu de ombros, um sorriso de canto nos lábios, claramente menos surpreso do que os outros, afinal, já havia notado a mudança de órbita do amigo de infância.
— Deixem os dois em paz — Harry pediu, embora também houvesse um leve brilho de satisfação em seus olhos verdes. Ele olhou para Hermione, um aceno silencioso de apoio que dizia tudo o que ela precisava saber. — Blaise, as runas de inversão estão prontas ou não?
Zabini suspirou, recuperando sua postura impecável e estendendo o pergaminho rúnico.
— Estão. Mas o feitiço de expansão atmosférica vai exigir que sintonizemos nossas varinhas. — Ele olhou diretamente para Hermione, os modos impecáveis voltando ao lugar, mas com um novo tipo de respeito no olhar. — Se você puder me dar a honra, Hermione, podemos começar a reverter a polaridade rúnica da torre.
Draco ergueu os olhos para Blaise, um aviso silencioso e gelado cruzando suas feições com a velocidade de um feitiço de ataque. Blaise apenas ergueu as sobrancelhas, achando a óbvia possessividade de Malfoy a coisa mais divertida que aconteceu em Hogwarts nos últimos dias.
— Vamos — Hermione confirmou, adiantando-se e tentando focar no trabalho para afastar o vergonha que ainda sentia. — Mas preciso que você me ajude com o feitiço de expansão atmosférica, Blaise. A estrutura rúnica de Hogwarts foi projetada para repelir o clima; temos que inverter a polaridade para que ela espalhe a névoa por toda a região.
Ginny se aproximou de Hermione, se inclinou perto do ouvido da amiga, sussurrando rápido:
— Nós vamos conversar sobre isso detalhadamente se sobrevivermos a esta noite, Mione. Mas — Ginny olhou de relance para Malfoy, que já discutia rispidamente com Theo sobre o perímetro de segurança. — tenho que admitir que o complexo de proteção dele combina com você.
Hermione não respondeu com palavras, apenas com um meio sorriso cúmplice.
A tensão na Torre de Astronomia ainda era palpável, o exército de mortos continuava a arranhar os limites da cúpula lá embaixo, mas, pela primeira vez em semanas, as divisões que outrora definiram suas vidas pareciam completamente pulverizadas.
No topo daquela torre fria, restavam apenas sobreviventes.
Enquanto começavam a montar os equipamentos no centro da torre sob a supervisão de Hermione, Theo e Blaise e a guarda atenta de Harry e Ginny, Draco caminhou até o parapeito de pedra, olhando para o exército de mortos lá embaixo. A névoa da noite subia dos terrenos de Hogwarts, misturando-se ao cheiro de magia queimada.
Hermione se aproximou dele, deixando Theo e Blaise discutindo os diagramas rúnicos por um momento. Ela pousou a mão no braço de Draco, sentindo os músculos dele rígidos como rocha.
— O que foi? — ela perguntou suavemente.
Draco olhou para a mão dela e depois para o horizonte escuro. Suas feições aristocráticas pareciam esculpidas em mármore sob a luz da lua, mas havia uma sombra profunda em seus olhos que ela reconheceu imediatamente.
— Foi aqui que tudo começou a morrer de verdade para mim, Hermione — ele sussurrou, a voz cheia de um pesar sombrio. Ele estava olhando para o exato lugar do parapeito onde Albus Dumbledore havia caído anos antes. — A noite em que eu não consegui abaixar a varinha, a noite em que me tornei o monstro que todo mundo esperava que eu fosse. Eu passei anos tentando apagar o eco daquela noite da minha mente.
Hermione apertou o braço dele, deixando seus dedos deslizarem até a mão dele, entrelaçando-os com firmeza. Ela queria saber mais, queria entender o garoto que chorava no banheiro dos monitores, o homem que carregava cicatrizes invisíveis tão profundas quanto as dela.
— Eu via você, sabe? — ela disse baixinho, fazendo-o focar nela. — No sexto ano. Eu via o peso que você carregava, embora na época eu estivesse ocupada demais tentando odiar suas atitudes. Eu queria ter entendido antes quem você realmente era quando a máscara de cinismo caía.
Draco soltou um suspiro trêmulo, os olhos fixos nela com uma vulnerabilidade assustadora que ele só revelava na presença dela.
— Eu era apenas um covarde tentando manter meus pais vivos, Granger. Não há glória nisso.
— Não há covardia em querer proteger quem amamos, Draco. Veja o Harry e o Theo — ela apontou sutilmente com o queixo para onde o Grifinório e o Sonserino trabalhavam juntos, Theo rindo baixo de algo que Harry dissera, um momento de leveza genuína no meio daquele apocalipse. — Eles passaram por cima de preconceitos, de dores, e construíram algo real. Eles são felizes hoje, apesar de tudo estar desmoronando lá fora.
Ela usou o próprio corpo para forçá-lo a desviar os olhos do vazio do despenhadeiro e olhar diretamente para ela.
— Você não é um monstro, Draco. Monstros não sangram para salvar desconhecidos em um salão destruído. Você é o homem que está prestes a salvar todos eles, incluindo este castelo. O passado não existe mais. Só o que fazemos agora importa. Você mudou, nós mudamos.
Draco engoliu em seco, a rigidez de sua mandíbula cedendo por completo. Ele soltou a mão dela por um segundo apenas para passá-la pela nuca de Hermione, os dedos enterrando-se em seus cachos rebeldes, puxando-a para si com uma urgência contida, mas profundamente dócil. Ele se inclinou e pressionou a testa contra a dela, fechando os olhos e respirando o mesmo ar por um segundo longo, intenso e dolorosamente doce.
— Se sairmos vivos dessa porra, querida — ele sussurrou contra a pele dela, com uma ternura que fez o peito dela se expandir de esperança. — Vou te levar para longe de Londres, para longe deste caralho de castelo. Malfoy ou Grifinória, foda-se essa merda toda. Vamos para algum lugar onde o céu seja azul de verdade e não tenhamos que lutar por cada maldito palmo de chão. Quero que você me ensine a ser o homem que você vê em mim.
— Eu vou com você — ela prometeu, com os lábios roçando os dele em um pacto silencioso de sobrevivência, um vislumbre de um futuro que eles finalmente se permitiam desenhar juntos.
O roçar de lábios, que começara como uma promessa sussurrada, rompeu a última barreira que existia entre os dois. Draco soltou um suspiro baixo, um som que pareceu arrancar de seu peito anos de solidão e fardos autoimpostos, e cobriu a boca de Hermione com a sua.
Foi o primeiro beijo deles, e não teve nada de sutil; foi uma colisão avassaladora de almas. No instante em que seus lábios se selaram com fome e entrega, uma onda de choque puramente mágica e cintilante se instalou ao redor deles. Não era a magia instável e necromântica que sitiava o castelo, mas uma pulsação morna e dourada que emanou diretamente do ponto de contato de suas peles, expandindo-se em círculos invisíveis pelo ar frio da torre.
Por um segundo eterno, o zumbido perturbador da barreira lá embaixo e o uivo do vento simplesmente desapareceram, silenciados pelo eco daquela conexão, Hermione envolveu os ombros de Draco, enterrando as mãos no tecido pesado de sua capa, puxando-o para ainda mais perto enquanto se entregava ao toque. A boca dele era quente, firme, mas carregava uma reverência desesperada, como se ela fosse a única coisa sagrada que restara no mundo. A assinatura mágica de Draco, aquela mesma força pura que havia salvado o auror no Ministério, envolveu Hermione como um manto protetor, fazendo cada fibra do seu ser vibrar em resposta.
Quando finalmente se afastaram, apenas o suficiente para respirar, as testas ainda coladas, os olhos cinzentos de Draco brilhavam com uma intensidade quase mística sob a luz da lua, completamente desarmados.
Hermione sorriu contra os lábios dele, o coração martelando no peito, sabendo com absoluta certeza que, não importava o tamanho do exército lá fora, eles já haviam vencido a escuridão dentro de si mesmos.
— Puta merda — a voz de Ginny soou estrangulada do outro lado da torre, rasgando a bolha de silêncio. — O que diabos foi isso?
Draco e Hermione se separaram, ainda ofegantes, virando-se para o centro do cômodo. Harry, Theo e Blaise estavam parados como estátuas, os olhos arregalados para os resquícios da luz dourada que ainda cintilava e se dissipava nas paredes.
— Magia de alma — Theo murmurou, o sorriso de canto agora substituído por puro assombro. — Vocês dois acabaram de gerar um pulso de magia pura e não corrompida.
Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, o zumbido da barreira lá fora pareceu rugir. Um estrondo abalou a fundação da Torre de Astronomia, e faíscas explodiram com violência ofuscante. A cúpula de proteção havia cedido alguns metros.
— Muito poético, de verdade — Blaise interveio, a voz subitamente apressada. — Mas a nossa barreira acabou de rachar. Se vocês já terminaram de reescrever as leis da magia antiga, nós temos uma névoa curativa para espalhar antes que sejamos devorados por aqueles desgraçados.
Draco entrelaçou seus dedos nos de Hermione uma última vez, o olhar agora afiado e letal. A vulnerabilidade havia sumido, substituída pelo instinto implacável, pronto para proteger sua promessa de futuro.
— Vamos acabar com isso, querida — ele disse, puxando a varinha. — Juntos.
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