O Apartamento (conto)
1 Partes I a VI
Parte I – O apartamento
A caminhada até o prédio não era das mais largas. Foi acompanhado por seu amigo e falavam de coisas fúteis; coisas que jovens costumam falar com frequência. Ele só reparou no trajeto quando teve que atravessar a avenida; esta estava movimentada, mas fora do horário de pico. O relógio da torre do prédio ao lado do que ele iria entrar marcavam três horas da tarde quando ele deixou seu amigo à porta do prédio e pela entrada seguiu.
Parecia mais um dia normal, mas ao entrar no elevador, sentiu uma sensação estranha. O elevador subiu e, ao passar por um andar que ele não viu qual era, sentiu o elevador balançar e as luzes piscaram por um instante.
— Isso é normal, senhor — o ascensorista o acalmou.
O andar chegou e ele atravessou o corredor pouco iluminado e adentrou o apartamento que lhe serviria de escritório. O trabalho não lhe era o problema, pelo contrário, lhe proporcionava um bem-estar financeiramente falando, não era o melhor da firma, muito menos o pior, mas era visto com bons olhos. Mas isso não o importava.
Trabalhou até notar que o sol se punha no horizonte. O vigésimo andar do prédio lhe proporcionava uma vista deslumbrante da sombra das montanhas que se formavam além da cidade e as janelas se dispunham de uma extremidade da parede até a outra extremidade, o que ampliava a visão panorâmica.
Deu por encerrado seu trabalho e agora os raios solares já davam lugar ao brilho das luzes da cidade. A luz da sala que ele estava dispunha-se harmonicamente pelo ambiente e ele a havia esquecido acesa quando passou para o cômodo onde a porta para o lado de fora estava situada. Era a primeira vez naquele apartamento, pois seu antigo escritório era muito pequeno e ele resolveu comprar um maior.
Os problemas começaram quando ele tentou sair e a porta emperrou. Ele suspirou imaginando que alguém estava brincando com ele.
— Seja lá quem for, saia do outro lado da porta — gritou, mas foi em vão, porque olhou pelo olho mágico da porta e não viu ninguém.
Tentou mais uma vez abrir a porta, mas mais uma vez não conseguiu. Estava irritado agora, difamou até o síndico do prédio por não verificar o bom estado das portas e se difamou por não ter visto isso quando visitou o apartamento com o corretor.
As luzes apagaram-se deixando parte da luminosidade externa adentrar.
— Que ótimo, não basta a porta emperrar, agora a fiação elétrica está com defeito — e tentou procurar algo para iluminar o lugar, que estava sombrio. Ele apenas via vultos e agora seu psicológico já destoava esses vultos e os dava formas. Obstante a isso, nada achou para iluminar o lugar.
— Uma brincadeira, cadê as câmera? Acendam as luzes, me pegaram, estou morrendo de medo!— disse em voz alta. “Que idiota”, pensou logo em seguida, pois não se tratava de uma brincadeira. Agora a situação já estava complicando-se, preso dentro de um recinto com luzes apagadas, nada para iluminar o lugar, até que de repente...
As luzes voltaram, mas voltaram piscando com uma frequência alternada e as luzes de forma disforme e o que o incomodava era que uma hora a luz voltava fraca, outra hora voltava forte, fazendo com que suas córneas ardessem por um instante. Agora ele se encontrava recostado à porta, sentado (encolhido) e, por mais que dissesse que era corajoso, o medo tomava conta.
As luzes establizaram-se, estavam acesas e ele novamente postou-se diante da porta para tentar abri-la. Novamente em vão, ela ainda estava cerrada e parecia que ia permanecer assim.
Ele voltou-se para a sala e viu um vulto movimentar-se na parede, passar para o chão e formar-se no centro do cômodo. Ainda recostado á porta, agora tomado de um temor extremo, virou-se e desesperadamente para tentar sair, mas não conseguia de jeito maneira. Virou-se e agora estava contemplando o vulto formado.
— O que você quer de mim? — disse com voz desesperada, mas firme
Parte II — A queda
O vulto nada lhe respondeu, parecia que não tinha vida, mas mesmo assim ele continuou insistindo, como se esperasse que o vulto fosse mesmo lhe responder.
— O que você quer de mim? — e ele parecia um bêbado com as mãos puxando os próprios cabelos e suas roupas estavam amassadas.
O vulto continuou imóvel e novamente não emitiu resposta. Em contrapartida, condensou-se no ar deixando alguns resquícios.
Ele agora estava mais atormentado ainda, e para piorar a situação, as luzes novamente se apagam e ele foi acometido por um susto.
— Venha... Venha... — essa voz ecoava no recinto... Não, no recinto não, na mente dele. A mente dele achava que era o recinto.
— Não, não...! —e sua voz parecia distante... — ir para onde?! — nem sua mente sabia dizer, muito menos a voz respondeu. O medo constante em sua cabeça agora o estava fazendo delirar e qualquer coisa que visse ou ouvisse era tratada com receio, ainda mais com as luzes apagadas.
A luz voltou e ele notou que todos os objetos e móveis da sala desapareceram. A luz pisca novamente s eles reaparecem. Isso foi demais para sua mente, então foi para a janela. Ele não iria pular, iria? Sua mente não estava raciocinando a esse ponto, mas ele queria sair do apartamento e se tivesse que ser pela janela, seria.
Foi o que fez, colocou seu corpo para fora e pendurou-se na janela e tentou passar para o apartamento do lado, mas para sua surpresa ele se viu novamente no mesmo apartamento. Era como se tivesse andando em círculos.
Raciocinando friamente, decidiu fazer o “trajeto de volta”. Então ele pendurou-se novamente na janela, mas suas forças estavam quase esgotadas.
Com dificuldade ele passava de uma janela a outra; sentia seu pulso enfraquecer-se e pior ainda, começou a escorregar.
Esforçando-se ao máximo, viu que a próxima janela era a sua, mas seu pulso sem força somado com o suor, Fez com que ele caísse.
Parte III — Reviravolta
Acordou no hospital repentinamente, mas sem entender o que tinha acontecido. Seus pensamentos agora estavam focados no apartamento, as visões não lhe saiam da cabeça.
— Onde estou? — perguntou à enfermeira quando esta passou.
— No hospital, mas não se preocupe, você costuma ter devaneios mesmo. Logo tomará consciência de onde está — ela respondeu com um sorriso nos lábios, logo em seguida foi fazer a checagem dos aparelhos dele.
Isso não o confortou muito, ele havia mesmo sobrevivido à queda?
— Enfermeira? — chamou-a enquanto a mesma ia atravessando a porta — Eu caí do prédio?
— Não se preocupe, você ficará bem — e saiu fechando a porta.
Logo após isso, o cenário começou a derreter e então ele começou a gritar de horror. O quarto arejado e claro de hospital foi dando espaço ao ar carregado e o quarto quase sem luz nenhuma do apartamento já conhecido.
— Não... De novo não! — ajoelhou-se onde estava e desejou não ter comprado aquele apartamento.
As luzes novamente começaram a piscar e quando elas se mantiveram acesas, um escrito na parede havia aparecido: “Não há como sair”. Não obstante a isso, ele teve a ideia de pegar um objeto e arremessar contra a parede. Foi feito um buraco que logo em seguida foi consertado como se não tivesse sido mágica, e não havia nenhuma rachadura, parecia que não tinha sido feito avaria nenhuma no local.
Não tinha jeito, não iria sair dali. A menos que... Lembrou-se de que tinha um celular e resolveu tentar ligar. Inútil, nenhum ponto de sinal aparecia no telefone.
Nisso ele havia se dado conta que o apartamento estava pregando peças nele. Não havia atravessado a janela, muito menos caído da mesma, nem havia arremessado nada contra a parede. Tudo era culpa do apartamento. Espera... do apartamento? Apartamentos não têm vida própria. Sua imaginação estava criando delírios, seria isso? Ou seria uma forma de mais uma vez pregar peças? Ele não sabia.
Tentou então abrir a porta e dessa vez conseguiu. Correu até o elevador e apertou o botão desesperadamente, esperando que o mesmo aparecesse rapidamente, mas não veio.
Resolveu então descer pelas escadas, mas chegou a um ponto que ele não conseguia avançar mais. Tentou voltar e também não conseguiu. Teve então que entrar na porta de acesso ao corredor do andar. Lembrou-se que o elevador tinha parado em um determinado instante e julgou que fosse por culpa daquele andar. Ali talvez estivessem as respostas.
Parte IV – Eu estou vivo?
Logo após abrir a porta, deparou-se com um cenário diferente do que era habitual. Por mais que houvesse um hospital nos andares térreos do prédio, o décimo quarto não fazia parte desses andares. Isso o fez intrigar-se mais ainda... Estaria ele de fato enlouquecido?
— Olá... — uma voz amigável partindo próxima de uma das camas no final do quarto o saudou.
Ele andou pelo quarto e notou que todas as camas dele estavam vazias. Chegou ao ponto de onde a voz tinha partido e viu um senhor que não estava vestido de médico. Ele tinha vestes claras, tinha um ar dócil e falava calmamente.
— Eu não... Conheço o senhor... — esfregou os olhos não acreditando no que via — Eu estou mesmo vivo?
— Não... — disse docemente o senhor.
— O que aconteceu então?
— Você caiu... — disse isso com um sorriso nos lábios.
— Eu sei, mas eu sobrevivi.
— Não. O que aconteceu é que você tinha delírios. Você não escorregou e caiu, você se jogou.
Após isso, o senhor viu-o ajoelhar-se e lamentar-se. Estava meio frustrado, no final, não teve tempo de despedir dos seus amigos, da sua família...
— Não era o quarto? Não era aquele maldito o culpado de tudo? — disse levantando-se com algum esforço.
— Tudo era coisa da sua imaginação, mas não se preocupe, vou me certificar de que tudo transcorra da melhor maneira possível, você está em boas mãos
Parte V – A culpa
O senhor o conduziu até uma porta no final da ala hospitalar.
— Você ficará bem, não se preocupe... — então abriu a porta no final do quarto e o empurrou para o outro lado e fechou a porta.
— O que é isso? — tentou abrir a porta, mas não conseguiu — Por que a trancou? O senhor disse que eu estava em boas mãos... — mas quando viu que era inútil prosseguir com isso, decidiu olhar ao redor e contemplar onde estava.
Um arrepio o acometeu: ele estava de volta ao apartamento. Concluiu que nunca havia saído de lá, muito menos caído, muito menos morrido.
As luzes piscaram e novamente apareceram os dizeres “Não há saída”. E realmente não havia saída alguma, qualquer coisa que fizesse ia ser “mandado” de volta para o apartamento.
Como não tinha mais o que ser feito, decidiu não se abalar com a situação. Sentou-se em um canto próximo à janela e agora vultos, piscar de luzes não incomodavam mais.
Mais uma vez o vulto passou a vaguear pela parede enquanto a luz estava acesa. Postou-se novamente no centro da sala.
— Dessa vez não falarei mais nada, ficarei quieto. Não me assustará mais — disse com desprezo para o vulto.
— Não é essa minha intenção.
— Olha, ele fala... — disse ironicamente.
— Você sabe porque está aqui.
— Eu acho que não... Não sei porque você afirmou isso — disse ainda sem olhar para o vulto
— Você sabe sim... — essa resposta o fez sentir um arrepio que lhe subiu pela espinha. A voz normal do vulto foi substituída por uma voz conhecida dele.
— Não pode... — disse olhando para o vulto. Mas... não tinha a forma do vulto, tinha a forma de sua esposa.
— Sim, pode sim... e você sabe porque está aqui.
— NÃO! Você não morreu por minha culpa!
— Lembre-se do dia... Se você não tivesse reagido ao assalto, ele não teria atirado...
— Mas a culpa não foi minha! NÃO FOI! — e estava tão desesperado, que queria abraçá-la.
Quando tentou, ela dissipou-se no ar. Agora as lágrimas lhe escorriam a fronte; a morte de sua mulher era a coisa mais terrível para usar para abalar seu psicológico.
— Maldito! Minha pior lembrança! — urrou para o nada.
Nisso as luzes novamente começaram a piscar.
Parte VI – Final
Elas não paravam de piscar e a dança do claro com o escuro tronava o ambiente estranho. Juntamente com isso, as paredes começaram a dissipar-se e a sala onde ele se encontrava, desapareceu lentamente.
Subitamente ele levanta da cama todo molhado de suor. Constatou que não passava de um pesadelo. Olhou para o lado e viu a foto de sua mulher. Morte em uma tentativa de assalto fazia dois anos.
Arrumou-se rapidamente, pois ia com o corretor visitar um apartamento no centro. Estava atrasado, para variar, então tomou um café da manhã rápido e colocou qualquer roupa para sair de casa.
Encontrou-se com o corretor quase na frente do prédio que ele ia visitar e já achou estranho ter reconhecido os arredores, mas não se importou com isso. Passaram pela portaria, subiram pelo elevador e tudo lhe parecia familiar demais.
— É o melhor apartamento que tenho para lhe mostrar, senhor — e abriu a porta. Um choque: era o mesmo apartamento de seu pesadelo.
Deixou o corretor sozinho na porta e saiu do prédio; não pretendia mais voltar lá.
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