O Apartamento ao Lado - Barão Zemo

3 Conversa no Apartamento ao Lado


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“Gosto da forma como você acelera meucoração, e de quando você o acalmatambém.”- Caio Fernando Abreu

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Saulė teria ficado o resto do dia imersa em seus pensamentos, pensando em qualquer possibilidade que estivesse embaralhando os seus sentimentos, mas eles tiveram que ser interrompidos quando alguém bateu em sua porta.

Ela abriu a porta e deu de cara com Zemo, dando um pequeno sorriso para ela. Seu coração deu um salto e podia sentir suas bochechas corarem. Não esperava que o visse tão cedo, mesmo que tivesse se passado algumas horas.

— Olá, Saulė. – ele disse, sua voz era mais doce que antes, mas a expressão de seu rosto era um pouco tensa.

— Ah! Olá! Precisa de algo? – ela perguntou.

O coração de Saulė estava descontrolado, mas o rosto de Zemo fazia com que ela se “acalmasse” um pouco. Se acalmar pouco porque aquela expressão fez surgir uma preocupação dentro dela.

— Não exatamente. – ele começou. – Estamos esperando dar a hora para sairmos para encontrar certas pessoas, meus “colegas” não me suportam e eu gostaria de conversar com alguém.

— Creio que veio ao lugar certo então. Pode entrar. – ela deu um sorriso caloroso.

Saulė deu espaço para que o barão passasse. Ele passou por ela em passos lentos e Saulė pode sentir o perfume dele, que era maravilhoso, então seus olhos foram para as roupas que ele vestia.

Desta vez, ele estava sem o casaco com pele. Saulė podia ver melhor agora a blusa que ele usava. Era de gola alta, da cor bordô, e tinha uma tira que ia da gola até a lateral do corpo. A blusa era muito linda, provavelmente cara, e favorecia o rosto do barão.

Tudo bem, tudo bem. Não era o casaco com pele...”, ela pensou, sacudindo a cabeça como se aquilo fosse afastar o pensamento e fechou a porta.

Zemo analisava o apartamento de Saulė, seus olhos percorrendo devagar de móvel para móvel. Diferente do dele, que tinha vários móveis e objetos bem antigos, os dela variava da década de 70 a 2000. Para ele era uma surpresa, porque, apesar dessa mistura de décadas, tudo ornava perfeitamente.

— Seu apartamento é belíssimo. – ele comentou, seus olhos contendo um brilho de fascínio. – Você é colecionadora? – ele perguntou quando viu uma estante cheia de DVD’s.

— Não exatamente. – ela respondeu, se aproximando da estante. – Gosto de colecionar os filmes que gosto de reassistir. E como eu amo filmes, acabei arranjando um monte.

— Impressionante. – ele confessou, passando os dedos nas capas dos filmes. Tinha diversos filmes de diferentes gêneros. Como Duro de Matar, Batman: O Cavaleiro das Trevas, Como Perder Um Homem em 10 Dias, Orgulho e Preconceito, Platoon, e várias animações da Disney como A Bela e a Fera. – Eu também sou um tipo de colecionador, mas de discos de vinil. – comentou, tendo uma intuição que ela gostava.

— Sério?! – ela exclamou, seus olhos brilhando de curiosidade. Zemo gostou daquele olhar, ele estava certo.

— Sim. Gosta? – ele deu um pequeno sorriso, já sabendo a resposta.

— É claro! Tenho uma pequena coleção. – ela contou, já pensando em mostrá-lo.

— Quantos?

— É pouco... 78.

— 78 é muito.

— E você tem quantos? – ela perguntou.

— Ah... Perdi a conta. – ele colocou as mãos no bolso e olhou para baixo, em uma tentativa de segurar uma risada. — Acho que um pouco mais de mil.

— Mil?! – ela exclamou — E 78 é muito?!

Ele não respondeu, mas riu com o jeito indignado dela que logo se transformou em uma bela risada.

— Minha nossa... Isso é muito, MUITO. – ela comentou, se recompondo da risada que acabara de ter. – Coleciona mais alguma coisa?

— Bem... Carros antigos, livros e quadros. – ele respondeu.

— Isso é incrível! – ela arregalou levemente os olhos. — Você tem um ótimo gosto.

— Obrigado, você também.

Zemo lembrou-se de outro motivo que o fez ir até ali, sem que Sam e Bucky soubessem e sabia muito bem que arranjaria problema por causa disso, mas a necessidade de saber o porque Saulė estava do seu lado era maior.

— Eu... Eu ainda não consigo entender o porquê de você não me achar um monstro... De querer que eu fosse solto. – ele disse, com a voz baixa, evitando olhar nos olhos dela.

— Porque você não é monstro.

Naquele momento, Saulė via um homem que sentia que não merecia perdão. Alguém que não conseguia compreender como ela não enxergava uma pessoa que cometeu tantos erros, que fez tanta crueldade. Que agiu como um verdadeiro monstro quando perdeu tudo que amava.

— Você é humano, humanos erram. Apesar de que você errou bem feio, eu consigo compreender a sua situação. E acredite, não consigo ver uma gota de monstruosidade em você. Só vejo alguém machucado.

Zemo finalmente olhou nos olhos de Saulė e via que ela falava a verdade, o que fazia seu peito apertar um pouco. Ela conseguia ver como ele realmente era.

— Então sabe o porquê fiz tudo aquilo. — ele disse, mais como uma afirmação.

— Sim. E sinto muito pelo que passou. – seus olhos foram para o chão, tentando não se lembrar da dor de não ter seus pais, o que era inútil.

A tristeza nos olhos de Saulė não passou despercebida por Zemo. De repente, ele se lembrou de uma fatalidade na vida da Sra. Bērziņš que ouviu anos atrás: a morte de seu filho e nora. Definitivamente, Saulė entendia a sua dor. Não do mesmo modo, pois ele não só perdeu a família como também seu país. Mas ainda assim, ela o entendia e aquilo era o suficiente para ele.

— Obrigado... Sabe, você é a única pessoa que não fica com medo de mim depois de tudo.

— Não deveria ser assim. – os olhos de Saulė ainda eram tristes, mas agora continham uma certa revolta.

— Mas é. – ele deu um meio sorriso. – A vida é assim e eu mereço passar por isso.

— Eu não acho.

Zemo não disse nada, incapaz de argumentar contra a mulher que tinha uma visão dele completamente diferente do resto do mundo. Ela o intrigava, mas também o fazia se sentir humano novamente. Não era como as outras pessoas que apontavam o dedo em seu rosto e dizia todas as coisas terríveis que fez. Não, ela era diferente. Ela conversava com ele como se ele fosse uma pessoa normal, uma pessoa que nunca tivesse machucado alguém. Uma pessoa que nunca tivesse matado alguém.

Ela não fazia ideia do que estava fazendo com ele.

— E a sua situação com aqueles dois? – perguntou depois de um tempo, se referindo a Sam e Bucky.

— Eles me tiraram da prisão para que eu pudesse ajudá-los sobre a questão dos Apátridas. De certo modo, eles até me toleram, eu só não posso abrir a boca.

Saulė deu uma curta risada e Zemo sorriu.

— Eu até gosto de irritar um pouco eles. – ele confessou.

— E pelo jeito que eles te adoram, vão até demorar para te procurar. – ela brincou. Ele revirou os olhos, mantendo o sorriso.

— Quem dera. – ele disse sem pensar.

Aquela pequena frase poderia ter duas interpretações. A primeira era que ele queria ficar longe de Sam e James. Já a segunda era que ele queria ficar mais tempo com Saulė. Na cabeça de Zemo, era um pouco dos dois, mas ele sabia muito bem que no fundo era inteiramente a segunda opção. Ele só não queria admitir para si mesmo.

Saulė corou com a possibilidade de que ele a queria por perto por mais tempo e seu coração deu outro salto. Se a sala ficasse em silencio absoluto Zemo poderia escutar seu coração descontrolado. Ela respirou fundo, não querendo deixar que sua mente a enganasse.

Ele quer ficar longe dos dois Vingadores, apenas isso... Certo?

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Eles estavam na cozinha, conversando sobre outras coisas. Alguns acontecimentos em suas vidas, algo que viu na TV, uma curiosidade em um livro que leram, e etc.

No dia anterior, Saulė havia feito alguns biscoitos amanteigados com uma cobertura bem doce e decidiu oferecê-los ao barão. Zemo aceitou de muito bom grado.

— Adoro doces. – ele comentou. – Gosto muito de Delicia Turca também. Você gosta? – ele perguntou, pegando um biscoito.

— Nunca experimentei, acredita?

— É muito bom, deveria experimentar. No meu apartamento tem, se quiser posso pegar alguns para você. – ofereceu.

— Se é bom como você fala, então sim. – ela sorriu, com o coração alegre por causa da gentileza dele.

Zemo deu uma mordida no biscoito. Seus olhos se fecharam por um breve momento enquanto degustava. O biscoito chegava a derreter na boca e a cobertura estava no ponto perfeito.

— Hum... – ele gemeu em aprovação. — Isso é divino. Posso pegar mais um?

— Fique a vontade. – ela riu, suas bochechas ficando ruborizadas, e ele pegou mais um.

Um barulho de alguém batendo à porta chamou a atenção dos dois. Zemo fechou sua cara instantaneamente. Devido ao tempo que estava ali, era obvio que era Sam e James atrás da porta a sua procura. Em um suspiro, Saulė saiu da cozinha e foi para a sala em passos lentos.

Abrindo a porta, encontrou os dois homens parados com a expressão séria, pareciam até um pouco preocupados.

— Precisam de algo? – perguntou ela.

— Zemo está aí? – Bucky perguntou, seus olhos percorrendo a sala de Saulė.

— Ah, sim. Ele está na cozinha...

— Olá, rapazes. – Zemo apareceu ao lado dela, com um falso sorriso inocente, enquanto Sam e Bucky o encarava com raiva.

— Olha aqui, você não pode sumir assim. – Sam apontou um dedo em sua direção.

— Eu só estava tendo uma conversa com a minha nova amiga. Sabiam que ela tem uma coleção de DVD’s? — Zemo inclinou a cabeça para o lado, dando um sorriso debochado para os dois homens.

Bucky estava por um fio em pular para cima de Zemo e estrangulá-lo, enquanto Sam se segurava para não dar um soco nele.

— Não vem fugir do assunto não. – Bucky deu um passo a frente.

— A gente pode dar um sermão em você depois. Já deu a hora de irmos. – disse Sam, querendo que a situação não saísse do controle.

— Certo. – Zemo se virou para olhar Saulė. – Foi um prazer conversar com você. E tenho que dizer de novo que os biscoitos estavam divinos.

— Fico muito feliz que tenha gostado. – ela disse, seus olhos brilhando em agradecimento enquanto dava um pequeno sorriso.

Zemo sentiu-se um pouco perdido com a forma que os olhos de Saulė brilharam com o elogio dele. Eram tão doces e parecia que havia pedras preciosas. Ele pegou delicadamente a mão de Saulė e depositou um beijo, sem desviar os olhos dos dela. O coração de Saulė disparou e seus pés começaram a fraquejar com a intensidade do olhar dele.

Ele saiu do apartamento e deu um pequeno sorriso de despedida para Saulė, que correspondeu com um sorriso maior. E assim ele foi embora, acompanhado dos outros dois homens.

Saulė fechou sua porta, mas não saiu do lugar. De repente se sentiu estranhamente triste, como se tivesse perdido algo. Ela sabia que estava assim por causa dele e se culpava por isso. Estava indo tudo muito rápido e ela não consegui ter controle sobre aquela situação. E o pior de tudo, estava sentindo um pressentimento ruim e não entendia bem o porquê.

Sam e Bucky caminhavam atrás de Zemo, já que ele era o único deles que tinha as informações do local do velório. Normalmente, Zemo faria algum comentário, ele não ficava em silêncio por muito tempo, mas durante todo o percurso ele ficou quieto. Eles se entreolharam com uma expressão de duvida, sem entender ao certo por que ele estava daquele jeito. Mas eles tinham certeza que tinha a ver com Saulė.

Zemo estava imerso em seus pensamentos, e eles sempre apontavam para Saulė. Ele não achava justo uma mulher como ela perdoar seus crimes, querer ele solto. Toda vez que olhava no espelho ele só via um monstro, mas os olhos dela quando o viu pela primeira vez brilharam de um jeito tão belo. Ele não merecia aquele olhar, não de novo.

Eu mereço algo depois de tudo? Não me arrependo do que fiz, exceto as vidas que tirei. Mas ainda assim eu mereço algum perdão? Nunca me importei com o perdão dos outros, dos super heróis e desses líderes supremacistas, mas ela... Ela não é como eles. Ela é a única que vê a verdade. E a única que realmente se preocupa comigo. Isso não é justo. Ela não deveria se importar com alguém como eu, alguém que machucou tanta gente. Mas ela sabe tudo o que já fiz, então nada vai fazê-la mudar de opinião.

Ela me faz me sentir tão calmo. Me faz sentir humano novamente.

Meu Deus, eu não mereço isso. Não mereço ela.”