O Anjo das Estradas: História de Amor Sobre Rodas
1 1 - O Beijo
Notas iniciais
Meu nome é Henrique, e esta é a história mais maluca e engraçada de como conheci alguém.
Vou contar tudo, cada fato, como se fosse um conto de fadas moderno, só que com muito mais poeira da estrada e cobras a solta.
Era um dia normal de trabalho. Eu sou uber- moto, um cavaleiro das rodas, levando pessoas para lá e para cá. Naquele dia, tinha que levar alguém ao hospital Santa Aurora, e logo em seguida buscar outra pessoa no Campo Rápido. Plano simples, certo?
O universo, claro, riu do meu plano.
Deixei a primeira passageira no hospital e já estava ligando a moto, pensando no horário, quando ouvi um grito. Não um grito qualquer, era um grito desesperado, quase uma súplica operística.
— Moço! Por favor, eu preciso de ajuda!
Virei e vi uma moça correndo em minha direção, os olhos cheios de lágrimas.
Era katarina...
Eu nunca a tinha visto na vida, mas ela afirmava, com uma convicção de quem recita a tabuada, que me conhecia desde o fundamental.
Confesso: na escola, eu era mais do tipo “cabeça nas nuvens”. Se não fosse uma bola de futebol ou um lanche, dificilmente notava algo ao meu redor.
— Você tem que me levar em casa, Rápido! É uma emergência! — ela falava, quase sem respirar. — Preciso do documento do Luíz para conseguir a traferência para o hospital são Lucas!
— Luíz? — perguntei, perdido.
— Meu filho! Luíz Henrique, ele está muito doente! — ela explicou, além de ter meu nome, veio a pérola da história. — O pai dele resolveu “economizar” e mudou o leite dele sem autorização médica!
— Sabe, o leite do Luíz é caro, e o pai dele achou que qualquer leite servia… e agora o bebê, com seus dez meses, está péssimo!
Eu fiquei parado. A situação era séria, mas a razão…
“Economizar no leite do bebê”?
Parecia o enredo distorcido de uma série de comédia, com humor pastelão.
Eu tinha uma passageira agendada, ia me atrasar, e aquela mulher, que eu nem conhecia, queria que eu fosse seu herói improvisado.
— Katarina, eu tenho compromisso… — tentei recusar.
— É uma emergência! Por favor, você é a única pessoa que posso pedir! Todo mundo virou as costas para mim, até a minha família!... — ela implorou.
E foi aí que a minha “bondade”
(ou seria a minha incapacidade de dizer não para um drama tão bem encenado?)
falou mais alto....
Pensei: “Vai desagradar a outra passageira, Henrique. Vai ser um problema”.
Mas também pensei no bebê com dor de barriga por causa de um leite genérico.
Não deu.
— Então pula logo! — disse, resignado.
A aventura começou...
Levei Katarina a jato até sua casa Rápidamente... Ela entrou, pegou os documentos num piscar de olhos e voltou.
Deixei-a no hospital de Santa Aurora de novo e saí em disparada para buscar minha passageira original.
Por um milagre (ou por minha habilidade ao volante, gosto de pensar), cheguei a tempo. A passageira nem desconfiou do meu desvio de missão.
Depois, voltei para buscar Katarina e trazê-la de volta ao hospital.
Foi um vai e vem digno de um filme de perseguição, só que com menos explosões e mais buracos na estrada.
Ao final daquele dia de fevereiro, ela pegou meu número. E eu, sinceramente, achei que era só isso.
Um cliente agradecido, uma história esquisita para contar.
Não tinha o menor interesse romântico.
Como poderia? A mulher tinha um bebê doente e um ex que achava que ser pai era fazer compras no atacado.
Mas, oh, surpresa! Alguns dias depois, ela começou a marcar viagens comigo. O pequeno Luíz Henrique foi transferido para o hospital de são lucas, e eu me tornei o transporte oficial da família. Levá-la ao hospital, trazê-la para casa para pegar fraldas, mantinhas, um ursinho… Ainda não éramos nada. Apenas “o uber-moto” e “a passageira com o bebê que tem problemas digestivos”.
Fui conhecendo-a aos poucos...
Soube que ela tinha terminado com o Ricardo, o pai do Luíz e economista de leite, havia uma semana. A situação era um caos, mas ela tinha um humor negro incrível para lidar com tudo.
Certo dia, resolvi fazer uma visita. Não uma corrida, uma visita de verdade.
Fui ao hospital de são Lucas, vê-la e conhecer o tal do Lucas, o bebê que indiretamente havia me arrastado para aquela confusão.
Ele era um garotinho franzino, mas com um olhar esperto.
Passamos a tarde toda conversando.
Ela me contou sobre seus sonhos, suas frustrações, e rimos muito das desventuras dela.
Rimos tanto que, por um momento, esquecemos que estávamos num hospital.
Quando chegou a hora de eu ir embora, já estava escurecendo. Fui me despedir, na porta do quarto.
— Obrigada por tudo, Henrique... De verdade — ela disse, com uma seriedade que não combinava com a tarde de risadas...
— Imagina, Katarina... foi um prazer.— respondi, meio sem jeito.
E então... aconteceu. Num movimento rápido e totalmente inesperado, ela se inclinou e me deu um beijo suave. Na boca. Um beijo rápido, mas definitivo.
Eu fiquei paralisado. Meu cérebro simplesmente desligou.
“O que acabou de acontecer? Por quê? Ela está muito agradecida? Acha que eu sou um anjo da guarda sobre duas rodas? Ou a água que ela bebeu tem alguma propriedade alucinógena que eu não sabia?”
Ela se afastou, um sorriso tímido nos lábios.
— Foi só para agradecer... por ter salvado a gente. Naquele dia, ninguém quis me ajudar... só você... e apareceu do nada... — ela explicou, como se beijar o uber-moto fosse a forma mais normal de dizer “obrigada”.
Eu saí do hospital andando em linha reta, mas com a cabeça girando mais que a roda da minha moto.
“Kkkk… Que poha foi essa, cara? Kkkk”, pensei, rindo sozinho do absurdo da situação.
E foi assim que tudo começou...
Não com uma carruagem de abóbora, mas com uma moto;
não com uma fada madrinha, mas com uma mãe desesperada;
e não com um feitiço, mas com uma troca de leite que deu terrivelmente errado.
Quem diria que meu conto de fadas teria como vilão um pai mão-de-vaca e como herói um bebê com intolerância à lactose?
A vida, às vezes, escreve as comédias mais imprevisíveis.
E a minha, definitivamente, tinha acabado d
e virar a página mais engraçada. 🧚🧚♂️
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