O Anjo
7 Perdão
Notas iniciais
John sentiu um aperto na barriga tão forte e um desespero por ficar sem sentir os membros e boa parte do corpo que teve que se segurar para não entrar em pânico quando reapareceu em outro lugar. Não que fosse algum problema ficar com medo – ele estava apavorado quando aquele grupo encheu o quarto e começou a fazer perguntas e gritar – mas não parecia a coisa certa a se fazer. Aquelas pessoas haviam contado a ele muito mais do que poderia imaginar. Isso também não ajudava.
Ele ergueu os olhos, tentando analisar o ambiente. Parecia familiar, sua mente parecia gritar para ele a resposta, mas ele não escutava. Tinha a sensação de estar preso dentro de um cubículo anti-ruído. O pé direito do prédio era alto, com arcos decorados, formando desenhos incríveis no lugar. O chão era negro com pontos brancos, espalhados, como se formasse um desenho – porém, só era possível vê-lo de cima. Nas paredes residiam escudos, lanças, espadas e outras armas desconhecidas e afiadas. A luz vinha de candelabros, mas muitos dos tais estavam apagados. Olhando para trás, John viu uma porta grande e pesada, fechada com uma barra de madeira.
– John, venha – disse um garoto de cabelos e olhos escuros. Era Percy. John lembrou-se do olhar dele quando perdeu a “Marca” de que tanto falava. – Precisamos falar que viemos e levar você até os Irmãos do Silêncio.
John franziu a testa.
– Quem?
Percy fechou os olhos e suspirou antes de se pronunciar.
– Os Irmãos do Silêncio. Caçadores de Sombras muito, muito poderosos, que cuidam da medicina e outras coisas. Você... – a voz dele falhou. – Você morreu e voltou. Precisa se proteger. Quando morreu, a proteção que os Irmãos do Silêncio fizeram em você quando era recém nascido se quebrou. Assim, você pode ser possuído por espíritos ou demônios.
John arregalou os olhos ao longo que ele ia falando. Ser possuído? Demônios? Irmãos do Silêncio? Mesmo tento tentado explicar, ainda era muito, muito confuso.
– Ok. –Ele disse por fim.
Começou a seguir os outros, em direção ao que pareciam as escadas. O lugar ainda estava escuro, as velas nos candelabros apagadas. Era difícil andar naquele escuro, mas os outros não pareciam incomodados.
De repente, John sentiu um cheiro forte, mas agradável. Sua mente ainda trabalhava para tentar descobrir o que era e de onde vinha quando sentiu uma mão no cotovelo esquerdo, empurrando-o gentilmente para a direita. Ele olhou assustado para o lado e viu que era Mary, com os olhos claros observando-o.
– Se continuar a seguir por esta direção, vai bater contra a parede. – Sua voz era calma e tinha um tom particular, algo que só existia entre os dois. John se sentiu corar e fez o que ela disse. Logo, estavam começando a subir as escadas, um pouco mais iluminadas pela pouca luz que surgia das janelas cheias de neve.
Nenhum dos dois falou nada durante o resto do trajeto, que era bem mais claro, devido aos vitrais coloridos de um lado do corredor. De vez em quando, John olhava Mary, com o rosto colorido devido à iluminação. Ela parecia imersa em pensamentos, e não o notava – ao menos era isso que ele pensava. O garoto imaginava que algo havia acontecido com ambos, antes de ele perder a memória. Porém, era complicado pensar em alguma coisa sólida com tantas outras que aconteciam.
Logo, chegaram a uma porta aberta. Conversas escoavam do lugar, com assuntos como demônios, lutas, morte, mudanos aparecidos, semideuses e comida. O último assunto lembrou John que ele não comia algo há um bom tempo. Quando os dois entraram na sala, todos os olharam e se calaram.
O garoto olhou para o lado, esperando ver Mary, mas ela não estava lá. Então encarou Percy, que estudava os seus sapatos. Tentou a sua irmã, Annie, e ela parecia muito entretida ao cuidar das unhas. Por fim, ele desistiu.
– Oi – disse ele, hesitante.
Em um momento, toda a sala explodiu em sorrisos e vozes dizendo coisas como pensei que vocês haviam morrido!, ou por Raziel, onde se meteram?. John não tinha a menor ideia do por que estavam falando aquilo. Eram desconhecidos para ele, então, quando um garoto de aparência oriental se aproximou dele, afastou-se.
– John? – O garoto oriental, com cabelos negros escorridos falou, franzindo a testa.
– Olha, bem... Desculpem-me, mas eu não conheço vocês.
Os sorrisos e as vozes foram morrendo aos poucos. As expressões das pessoas que John já “conhecia” tornaram-se tristes. Os outros aparentavam somente uma enorme confusão.
– Isso é uma espécie de brincadeira, John? – Uma garota morena ao lado de Percy perguntou, com uma das sobrancelhas levantadas.
Ele não respondeu. Não sabia como fazer isso. Podia dizer sim, isso é uma brincadeira!, e esconder a verdade dos outros, descobrindo cada um deles devagar, ou podia falar: não, eu morri, salvei vocês, voltei e perdi a memória, mas as pessoas iriam perguntar como. E a resposta seria Mary. Mesmo não a conhecendo, ele já viu como os outros reagiram quando souberam que ela havia retirado a alma dele. Não seria uma alternativa muito inteligente.
Os outros começaram a ficar inquietos. Ele estava demorando demais a responder. Por fim, aconteceu algo que ele não esperava.
– Ele perdeu a memória – Mary se pronunciou escondida em um canto. – Ele é o mestiço. Precisavam da alma dele. Eu retirei-a e coloquei outra no lugar, então o entreguei para o inimigo. Resgatei seu corpo e pus sua alma novamente em seu corpo. Mas, infelizmente, houve um efeito colateral.
O lugar ficou em silêncio por um momento.
– Você fez o quê? – Murmurou uma garota de cabelos dourados.
– Ele poderia ter morrido – Mary disse, como se isso fosse uma boa desculpa para o fato de ela ter retirado a alma dele. – Ou ter ficado louco. Ou nós três poderíamos ter morrido no decorrer do feitiço. Mas John só perdeu a memória. E caso eu não fizesse isso todos nós morreríamos, junto com esse mundo.
A garota falava como se fosse algo cotidiano, como se não se importasse. Porém, observando-a bem, John notou tristeza e desapontamento no seu jeito. Estava se culpando mais que tudo, e só queria um lugar para poder ficar. Algo na memória sumida de John disse que o Instituto era sua única casa. Não sabia o porquê, mas tinha a certeza.
– Eu aceitei – ele disse, mas expressava falsa confiança.
O garoto oriental se manifestou.
– Você perdeu a memória.
John sentiu seu plano ir por água abaixo. Era verdade, não tinha como ele dizer que tinha aceitado, logo que só lembrava quem era. Nem isso direito ele fazia.
Porém, sua personalidade astuta não havia se perdido.
– Bem, mas eu teria concordado. Salvar o mundo. Ser um herói. Quem não quer isso? Perder a memória não é nada – ele fez um sinal de desprezo com a mão.
Todos o encaravam abismados com o sarcasmo dele. Realmente não esperavam por isso. John sentiu a esperança começar a surgir de um lugar bem fundo, mas para ficar. Logo, o garoto oriental começou a rir, e levou outras pessoas com ele.
– John, ainda bem que você é o mesmo! – Ele disse, ainda rindo, e colocou a mão sobre o ombro do garoto. – E até é bom que você tenha perdido a memória, agora posso criar um passado maligno para você!
– Gabriel! – Annie disse com as mãos na cintura, mas ela também sorria. Logo, todos perderam a tensão e começaram a olhar as coisas pelo lado positivo.
Mas John não prestava mais atenção na conversa. As vozes foram ficando cada vez mais longes quando observava Mary e esta dava-lhe um sorriso tímido de gratidão.
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