O Anjo
5 Memórias
Notas iniciais
– Quem são vocês? — Ele repetiu, a voz elevando-se. — E o que você quer dizer com feitiço e efeitos colaterais?
Davi viu Mary engolir em seco. John não havia direcionado a pergunta à alguem em especial. Logo, ele percebeu que não conseguiria nenhuma resposta de Mary, que encolhia-se contra a parede, e então olhou com ferocidade para Davi.
Ele era de uma aparência excêntrica. Os olhos eram dourados, a pele bronzeada, o que era estranho para alguém de Nova Iorque, e os cabelos castanhos estavam negros na escuridão do quarto. A expressão do garoto ficou pior quando Davi demorou a responder.
– Meu nome é Davi Kreenman — ele respondeu rápido, porém tudo o que John fez foi franzir ainda mais a testa. — Sou Nelphilim. Moro no Instituto de Londres. Essa é Mary Laurence. Ela mora no Instituto de Nova Iorque, junto com você. Foi ela quem salvou sua vida — Davi acrescentou, com a voz suave.
John olhou para ela, agora com uma expressão mais branda. Ele abriu a boca para dizer algo, mas então reconsiderou e fechou-a. Um silêncio foi instalando-se sobre o lugar, fazendo com que Davi pensasse que ele iria ter outro ataque.
– Você lembra de quem você é? — Tentou perguntar, na voz mais suave possível. Para sua sorte, o outro garoto não gritou ou pareceu furioso. Somente confuso.
– John Boss. Sou de Nova Iorque. Eu...
Sua voz foi diminuindo até ele parar de falar. Olhava para o chão, como se ele tivesse todas as resposta, porém, negava-se a dá-las. Ele olhou para Davi. Agora, sua expressão estava desamparada.
– O efeito colateral — Davi disse, percebendo que Mary não faria mais nada além de ficar encolhida com as sombras. — Olhe, ahn... você não quer se sentar? Tem gente aqui que te conhece, que mora no mesmo Instituto que você, e elas podem...
– Ela mora no mesmo Instituto que eu — John disse, olhando para Mary, que não estava tão bem escondida assim. — Pelo menos, foi o que você disse.
Os dois garotos agora observavam-na. Ela balançou devagar a cabeça, em um gesto afirmativo. Engoliu em seco e saiu um pouco de seu esconderijo, porém Davi ainda via que as sombras pareciam curvar-se sobre ela.
– Moro lá há cerca de três meses — sua voz estava mais arrastada do que costume. — Vocês me acharam no Central Park, em Nova Iorque. Eu havia perdido-me da Caçada. Fui para o Instituto, e permaneci lá após a vinda de um Oráculo. Numa guerra embarcas, sem final feliz. / Onde há monstros, eis demônios, / leva dois povos à raiz. / Num golpe desesperado voltarás da morte, / mas o preço do mestiço não há fim.
Mary parou de falar e encarou-o. John escutou tudo sem expressão, mas não pareceu lembrar de nada disso. Com a voz mais fraca, ela continuou.
– Depois disso você ficou como meu treinador. Achei que eu fosse a mestiça, e depois de alguns dias fugi para o Acampamento Meio Sangue, meu lar. Então você foi atrás de mim, e foi reclamado. Você é o mestiço. Não apenas um Nelphilim, mas um filho de Apolo também. Não muito tempo depois, houve uma batalha. Nós jamais iríamos ganhar, não até os monstros e os demônios pegarem sua alma. Então fiz uma troca. Coloquei a alma de outro alguém em seu corpo, e guardei a sua aqui — ela levantou a caixa negra, contrastando com suas mãos pálidas. — Fugi antes que descobrissem, e coloquei-a novamente em seu corpo.
Davi estava confuso com tanta informação, e esqueceu que tudo aquilo era para fazer com que John recuperasse a memória.
– Mas como aquelas coisas não voltaram? — Ele perguntou.
Mary olhou para ele, sem expressão.
– O portal de onde eles saiam só poderia abrir-se uma única vez. Com a alma de John, eles conseguiriam deixá-lo aberto para sempre. A alma dele precisava ser trancada em uma caixa demoníaca. Somente a dele. Agora, como isso não ocorreu, demorará décadas, até mesmo séculos para que consigam fazer isso novamente.
Então ela voltou a olhar John, esperando uma resposta. Ele balançou a cabeça.
– Não me lembro.
As sombras ao redor de Mary pareceram se intensificar. Ela pareceu triste, mas ao mesmo tempo vendo que isso era o esperado.
– Desculpe — sussurrou. — Esse era o único jeito de salvá-lo.
Então ela saiu do quarto, deixando a porta aberta. Davi pensou em segui-la, mas outros Nelphilins entraram. Eles começaram a falar com John, querer chegar perto dele. Antes que Davi pudesse avisar, ele se afastou, indo parar mesmo canto que Mary estava antes. Eles pararam de querer se aproximar de John.
– Ele perdeu a memória — Davi suspirou.
– O quê?– A garota de cabelos negros perguntou. Era a mesma que havia gritado tanto com ele antes.
– Isso que você ouviu. Agora, caso não tenha percebido, você está assustando-o.
Ela olhou para John mais uma vez, com uma expressão ferida. Davi quase sentiu pena, mas ela havia tratado-o muito mal para que ele pudesse perdoá-la.
– Você... você não lembra de mim? — Ela perguntou, a mágoa claramente presente na sua voz.
John balançou a cabeça.
– Mas John... eu conheço você desde que era uma criança! Desde que cheguei ao Instituto, e...
– Eu não lembro de nada — ele cortou-a, com a voz seca.
A garota pareceu engasgar-se com as palavras. Então, alguém esticou o braço e colocou-se na frente dela. Era Percy Mark. Davi o conhecia devido suas viagens à Idris, terra natal dos Caçadores de Sombras. Seus cabelos negros estavam totalmente bagunçados, e os olhos escuros estavam alertas , além de carregar um pouco da tristeza da outra garota. Olhando-os assim, Davi pensou que talvez fossem irmãos.
– John — falou Percy, com a voz suave, como se falasse com uma criança. — Sou Percy. Percy Mark. Seu Parabatai. Lembra-se disso?
O garoto não o respondeu, mas pareceu mais calmo. Meio que instintivamente, levou a mão para logo abaixo da clavícula, e Percy repetia o gesto. Percy puxou o casaco e as blusas longas e mostrou uma marca negra, acima do coração. Davi reconheceu instantaneamente: era a Marca do Parabatai. Uma cerimônia que unia duas pessoas, para tornarem-se irmãos, não só na batalha, mas também na vida. A cerimônia era realizada até os 18 anos de idade e irreversível. Por causa disso, poucos tinham um Parabatai.
Porém, quando John fez o mesmo gesto que Percy, tal perdeu a cor da face.
Sua Marca estava cinzenta, desbotada. Logo, a do outro também tornou-se desta maneira. Davi viu mortes de outros Parabatai o suficiente para saber o que havia acontecido. Percy engasgou, e suas palavras foram falhas e fracas.
– Você... morreu? Mas como?
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