O Amor e Outras Maldições Imperdoáveis
1 Capítulo Único: Através do Espelho
Notas iniciais
━━━━━CAPÍTULO ÚNICO ━━━━━
ATRAVÉS DO ESPELHO
Eu nunca quis precisar de alguém. Pensei que poderia fazer tudo isso sozinho.
Me ajude a sair deste inferno.
Sia — Helium
SEUS PASSOS ecoavam, apressados enquanto caminhava pelo longo passadiço aparentemente interminável.
Olhou mais uma vez para trás, por sobre o ombro estreito, apenas para ter a trêmula certeza que não estava sendo observada por ninguém com exceção dos remanescentes espectros em seus quadros de moldura secular pendurados nas paredes como vigilantes honorários. Não se preocupava com eles, de fato; eram muito poucos àquela hora. A maioria dos retratos regozijavam-se na visão de sucos de abóbora e carneiro assado no Salão Principal, onde o jantar ainda era servido.
De sua mente fervilhando, não saíam as imagens de Harry chegando ao jantar com o rosto ensanguentado e a postura titubeante e enraivecida. Perdera a fome imediatamente e escolhera pela atitude mais irracional à sua disposição.
Quem poderia imaginar que um dia essa palavra antagônica estaria em uma mesma oração referida a ela? Irracional não combinava com o vocativo de seu nome. No entanto, ali estava ela. Talvez aquele fosse o prelúdio de uma decisão errada, mas todas as vezes em que cogitara retornar pelo caminho de onde viera, era inundada novamente por aquele assomo de raiva que fazia suas bochechas queimarem e um frêmito de vingança corroer suas entranhas.
Respirou fundo e firmou os dedos ao redor de sua varinha, aquele pedaço fino de madeira que lhe transmitia segurança para o que estava prestes a fazer. Guardou-a no bolso de suas vestes.
Com os passos um pouco menos incertos, tocou na porta que a separava daquele banheiro lúgubre e o invadiu silenciosamente, tão cuidadosa quanto a cobra de Slytherin e não o leão despretensioso e orgulhoso de si que honrava Gryffindor. A visão que teve do outro lado a deixou substancialmente paralisada um pouco à frente da soleira desgastada e antiga. Às suas costas, a porta se fechou com uma onomatopeia vertiginosa. Seus olhos se expandiram e seus batimentos cardíacos se apressaram para acompanhar o intenso reboar de seu estômago agitado.
O local estava mal iluminado, sombrio e sobre a pia imunda, um imenso espelho refletia os metros quadrados e a silhueta pálida, curvada e simplesmente deplorável cuja aura destruída, ainda assim, conseguia a dádiva de ser magicamente atraente.
Os dedos de Malfoy estavam apertados na superfície de mármore. Não estava realmente atento ao que o cercava, contudo, o barulho constante das tentativas de consolo de Murta Que Geme eram tão próprias de si, que percebeu imediatamente quando cessaram.
Erguendo os olhos para averiguar o espaço do banheiro e sua própria figura atro na face espelhada, encontrou um par de olhos cor âmbar o fulgurando com intensa curiosidade, revelando um ar de um coelho apreensivo. Sem que pensasse muito no assunto, sua primeira reação foi deixar um sorriso sarcástico repuxar os lábios finos.
A aflição dela o divertia, isso era inegável. Tirando a postura ofensiva e a boca comprimida como se quisesse segurar uma porção de palavras de baixo calão em local seguro, Hermione era quase o que sua pequena estatura predispunha: uma indócil coelha assustada de pele caramelizada, com a má sorte de ser um alvo em potencial para as frias pedras cinzentas que eram os olhos do Malfoy, herdados de gerações.
O sorriso dele aumentou gradativamente conforme a constatação se tornava mais óbvia. Como o símbolo da cobra que precedia sua casa em Hogwarts, Draco apreciava o medo da presa antes de dar o bote.
Talvez, até poupasse Granger e só brincasse com ela, afinal era uma mocinha de sangue sujo, e essas não mereciam nem que ele se dispusesse a perder o fôlego em uma caça. Todavia, se não fosse a impureza do sangue que corria nas veias daquela garota nascida trouxa, ninguém a faria menos justa. Os anos pareciam ter funcionado na aparência de Granger como tudo o mais funcionava no mundo em que eram obrigados a coexistir: como magia.
Os olhos semelhantes a avelãs mergulhadas em calda de hidromel e os longos cabelos volumosos, de cachos abertos e de aspecto macio que molduravam o fino rosto airoso, parecia a Draco, um desperdício do universo.
— Não acho que o banheiro dos meninos seja o local apropriado para garotas como você, Granger.
Tentou manter o tom de voz cruel e impassível que lhe era característico, mas percebeu quase imediatamente que falhara, pois em vez de ser repelida, viu o reflexo de Hermione Granger adentrar ainda mais o ambiente inóspito.
— Defina “garotas como eu”, Malfoy — Ela pediu com a voz tão macia e fria quanto a dele, arqueando uma sobrancelha castanha como se o desafiasse a provar que ela estava errada. — Não sabia que me conhecia o suficiente para me encaixar em estereótipos.
— Não seja tão esperançosa, Granger, embora eu possa asseverar que seria de sua imensa honra ser observada por alguém como eu. Apenas digo o que vejo e, sabe o que vejo quando olho para você, Granger? Vejo uma garota puritana que provavelmente ficaria traumatizada se presenciasse uma cena um pouco mais reveladora. A não ser, é claro, que você estivesse planejando encontrar seu amado Potter aqui. Nesse caso, preciso dizer que seu queridinho deu um bolo em você, mas a admiro pelo desempenho. Pensando bem, admirar é uma expressão um tanto forte demais, eu diria me envergonhar.
Ela revirou os olhos e o encarou por um momento antes de afrouxar o aperto nos lábios. Não parecia furiosa, o que o deixou intrigado e impaciente. Se já não bastasse a suja tarefa que recebera naquele ano letivo — a de matar Alvo Dumbledore —, ainda teria que lidar com ela: uma tarefa ainda mais suja e perversamente atraente.
— Não me faça rir, Malfoy — pediu com a expressão inflexível de uma pedra. — Para combinar com todo o resto, você nunca teve um humor prestativo.
Draco negou com a cabeça, zombando.
— Ah, então estava esperando a cria Weasley? Acho que estou surpreso, Granger. Para os padrões de uma nascida trouxa, até isso é baixo demais. Eu particularmente preferiria beijar essa pia ou o vaso sanitário. Não quero nem imaginar o que mais vocês fazem. Poderia ter uma crise de êmese bem aqui.
Hermione se aproximou deliberadamente, acompanhando o olhar dele pelo espelho como se ele fosse muito perigoso para ficar longe de suas vistas por um segundo que fosse. Ela pôs seu quadril contra o duro material do lavatório, ficando de frente para o perfil dele com um ar de zombaria que ele não fazia ideia de como tinha sido aprimorado. Algo havia amadurecido em Granger durante aquelas férias. Ela ainda parecia frágil, mas menos frágil. Ela ainda parecia um animalzinho indefeso, porém mais como uma lebre e menos como uma coelha.
Sim, algo definitivamente tinha acontecido durante aquele tempo. Uma decepção amorosa que a deixara numa versão mais dura de si mesma? Um dementador a passar muito próximo de sua face e deixar o rastro de frieza e tristeza corpulenta em sua alma?
Embora inesperadamente curioso pelos métodos que levaram Granger a amadurecer sua esquisitice outrora infantil e ousada, aquilo não lhe dizia respeito. Passou as mãos pelo rosto para se livrar do fantasma molhado das lágrimas e do suor.
— Isso é muito interessante, sabia? — Ela perguntou e com um suspiro resignado ele levantou o olhar para ela. — Logo você quer me falar de padrões baixos, Draco Malfoy? Você que vive cercado de sua trupe, mas sempre irremediavelmente solitário? Se prestar bem atenção, seu sangue puro não vale de muita coisa quando está aqui, sozinho comigo em um banheiro fétido e chorando como se não houvesse um amanhã. Sinto ferir o senso de importância que só você dá ao seu próprio julgamento, mas sua opinião para mim é tão válida e crível quanto fezes de tronquilho, Malfoy e eu...
Hermione subitamente se calou. Não porque não haviam muitas outras palavras a serem ditas, sequer porque perdera o fio da meada, mas porque sua boca foi subitamente tomada pela de Malfoy.
Nunca fora beijada daquela maneira antes. Os beijos que chegara a trocar com Vítor Krum tinham sido todos mornos e dentro do esperado: um enrolar de línguas e lábios à procura de contato superficial. Nunca tivera aquela pressa desejosa que lhe fazia subir o sangue e que se tornou ainda mais intensa quando a mão fria de Malfoy subiu por sua capa, tocou a pele exposta de seu pescoço e embrenhou-se em seu cabelo maciço e enrolado.
Draco ainda estava ofegante quando separou os lábios da boca feminina avermelhada e deliciosa demais para uma sangue-ruim, sentindo-os dormentes pela força que fizera para dominar a performance nervosa de Granger.
Antes que pudesse se recuperar plenamente da miríade de sensações que era beijar aquela pequena criatura impetuosa, porém, foi atingido por um forte tapa na lateral do rosto que fez crestar sua pele. Moveu a mão pela área atingida, sentindo um ardor inofensivo no canto de sua boca que deixava escapar um fino filete de sangue que limpou com a língua. Rindo, virou-se de volta para o imenso espelho, analisando o pequeno corte na linha de seu labro.
Por sua visão periférica, viu Hermione Granger puxar a varinha de suas vestes e apontá-la em riste para ele.
Riu maldosamente, gesticulando na direção dela com escárnio.
— Você não teria coragem, Granger.
— Você acha? — No segundo seguinte: — Estupefaça!
O feitiço o acertou e ele sentiu o impacto derrubá-lo na direção do chão. Sua cabeça bateu contra o mármore sujo. Ele viu minúsculos e milhares pontos pretos inundarem sua visão.
— Isso foi por ter pisado em Harry e abandoná-lo no vagão sob a capa de invisibilidade, Malfoy — Aqueles dedos macios e quentes percorreram sua face.
Ele conseguia ver as pequenas manchas mais escuras na íris dela, tamanha era sua proximidade.
Experimentou a sensação dos lábios dela nos seus novamente, pressionados com força em uma sensação completamente nova que fazia seu sangue correr com rapidez pelas veias aparentes na pele pálida. Teve seu lábio mordido e acariciado com a língua úmida. Ele mal sentiu a dor que vinha acompanhada com aquilo. O efeito do feitiço e sua própria excitação eram por si só ilusões bastante férreas e esmagadoras.
— Isso foi por me subestimar e por todo resto — O cheiro dela se afastou. — Estou vigiando você, Draco Malfoy.
Os passos dela se afastando e a porta do banheiro batendo suavemente foram o epítome para que a escuridão o dominasse.
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