Carla P.O.V

E mais um dia estava por acabar, a brisa da noite tinha um cheiro adocicado das flores, me sentei em um balanço que meu pai havia posto no jardim e fiquei indo e voltando, sentindo o ar do impulso vir sobre mim, por um momento tive vontade de cantar, me lembrei de como eu amava aquilo, de como minha mãe sorria quando me via cantando, me lembrei de como eu era feliz – tentei cantar algo que começava com “Today I feel better, you are to blame...”Mas falhei.

Fui dormir um pouco chateada comigo mesma, se até Tomás me dizia que eu tinha talento, eu havia de ter, mas onde ele estava?

Cai num sono profundo e só acordei no outro dia.

Na entrada passei ao lado da porta do teatro, ouvi uma voz familiar e não resisti, entrei e vi Tomás cantando.

“The room's hush, hush

And now's our moment

Take it in feel it all and hold it

Eyes on you, eyes on me

We're doing this right...”

Era uma linda melodia, ficava ainda mais perfeita em sua voz e a letra... Por um momento senti que ele cantava para mim. Quando me viu Tomás parou de cantar, desceu do palco e veio me cumprimentar:

–Olá Carla o que te trás aqui? Quer dividir o palco comigo por alguns segundos?

Tomás P.O.V

Olhei para ela e notei o como estava ainda mais linda esta manhã –Vai ficar aí calada? –Puxei-a para o palco –Venha Carla, suba aqui.

La em cima ela ficou olhando para as poltronas vazias, um olhar fixo e um tanto assustador. Achei normal, todo mundo tem um frio na barriga quando sobe no palco, mesmo isso não acontecendo com profissionais como eu...

–Carla isso é normal, da um friozinho na barriga sim, mas tente –fui em afastando e a deixei lá, no centro do palco, parada. Então comecei...

“Take my hand, I'll teach you to dance

I'll spin you around, won't let you fall down

Would you let me lead, you can step on my feet

Give it a try, it'll be alrigh…”

–Vamos continue… -pedi e após isso pude ver ela tomando fôlego:

Suddenly, I'm feeling brave

I don't know what's got into me

Why I feel this way

Can we dance, real slow?

Can I hold you

Can I hold you close?

Não acreditei, nunca tinha ouvido uma voz como a daquela garota, agora sim tinha certeza, ela tinha muito talento. Fui me aproximando a encarando firme, coloquei uma de minhas mãos em volta de seu corpo e dançamos lentamente.

Tomás me fazia sentir coragem, a intensidade de seu olhar me fazia ser mais valente, naquele momento as lembranças do acidente não percorreram minha mente, eu apenas fechei meus olhos e as lagrimas começaram a cair, bem devagar.

-Carla? Porque esta chorando? –disse Tomás se afastando de mim quando paramos de dançar –O que aconteceu?

-A musica, me faz lembrar do dia do acidente... –eu disse olhando para baixo –Tomás houve um acidente ao qual minha mãe acabou falecendo e meu pai ficou paraplégico, no dia do acidente estávamos indo para a minha apresentação de musica, eu cantava, sempre cantei desde de pequena, aí houve o acidente e depois disso eu nunca mais voltei a cantar, há um sentimento de culpa me perseguindo, me sinto culpada pela morte de minha mãe...

Tomás me olhava com duvida, não sabia como me consolar até que se levantou e disse:

-Mas Carla, você tem muito talento, não pode deixar um sentimento de culpa te impedir de cantar, e afinal você nem é culpada, o que aconteceu tinha de acontecer, não foi culpa sua!

Carla P.O.V

Ainda estava com os olhos inchados, quando entrei na sala e logo atrás de mim estava Tomás, todos nos encararam e assim que sentei Pedro, Téo e as meninas vieram até mim:

-Carla ele te machucou? Te forçou a fazer algo que não queria? Se ele fez algo de errado deixe comigo, eu dou um jeito nele –todos diziam apavorados.

-Não, ele não é tão mal como parece... –Todos me encararam com um olhar de duvida, mas ignorei. Tomás não era tão ruim assim, ele até estava me fazendo voltar a gostar de musica.

Os dias se seguiram assim, vez ou outra eu entrava no teatro e via Tomás cantando, me arrepiava ouvi-lo mesmo que de longe, eu não tinha muita coragem de me mostrar, ficava escondida apenas observando, Tomás era realmente bonito, seu cabelo bagunçado, seu olhar envolvente, sua voz levemente rouca... ele mexia comigo.