O Amor Não Está À Venda
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Kiku já estava ficando cansado.
Não que Arthur fosse um professor chato, pelo contrário: ele se mostrou bem tolerante e agradável para consigo, apesar daquela aparência de mal encarado. Só era um pouco cansativo todo dia, fim de aula, ele lhe pedir para realizar certas tarefas. Ok, tinha sua parcela de culpa nisso, já que era um dos únicos alunos que ficavam enrolando na escola sem participar de algum clube, além de ter se mostrado simpático com o inglês desde o início.
Alfred achava isso ótimo. Muitas vezes, por enrolar tanto o japonês, acabava dando o horário em que terminava os treinamentos, então ainda podiam caminhar juntos para casa. Porém, mesmo com esse lado bom, tinha avisado para o amigo tomar cuidado: o professor tinha uma cara de pedófilo! E, por Kiku ter uma carinha de gente nova, poderia estar o atraindo. Só foi um bom amigo de precavê-lo dos perigos.
Já Arthur estava matando dois coelhos com uma cajadada só: além de conseguir se aproximar de seu protegido, fazia com que ele e Alfred passassem mais tempo juntos. Agora não gostava mais tanto assim do americano. Quem ele chamava de Sr. Taturana?! E NÃO tinha cara de pedófilo! Todavia, não tinha escolha. Estava apostando todas suas fichas em um amor sincero surgir entre os dois. Só por isso ficava inventando coisas para fazer na escola depois do expediente.
- Me chamou, sensei?
Pela porta adentrava o garoto que chamara, logo girando a cadeira na qual estava sentado para fitá-lo com um sorriso.
- Obrigado por vir, Honda. E me desculpe por sempre o chamar...
- Tudo bem – balançou uma das mãos como se não fosse nada.
- Então... – Girou mais uma vez, agora mexendo em alguns papéis, enquanto o nipônico o observava. – Preciso de cópias dessas folhas.
Kiku ficou observando enquanto ele separava o que deveria ser copiado. Suspirou, voltando o olhar pela janela da sala, aparentando ficar meio alheio. Alfred deveria estar treinando com o clube naquele momento
- Parece um pouco preocupado, Honda.
- Ah? – Virou-se para o mais velho, percebendo que era observado. Corou, pegando os originais. – Não é nada.
- Certo – disse com um ar de quem não acreditava muito. Não iria insistir. – Por que não procura um clube para entrar? Seria bom para você...
“E para mim”, pensou o professor disfarçado, imaginando que poderia induzir o japonês a entrar no mesmo clube do estadunidense.
- Etto... – Sorriu amarelo. Nunca tinha sido muito de participar dessas coisas. – Vou pensar no caso. Agora, vou tirar suas cópias. Com licença.
Com uma breve reverência, despediu-se, saindo e ganhando o corredor. Mas talvez Arthur tivesse razão, assim poderia aproveitar melhor seu tempo e se distrair um pouco, quem sabe.
Será que era mesmo uma boa ideia? Os dias já estavam ficando mais e mais quentes... Passou o dorso da mão pela testa. Era o verão se aproximando.
x
Verão... Ah, o verão.
Época de comer comidas leves e refrescantes, ir à piscina e... campeonatos de baseball, como aprendera com Alfred. E isso estava irritando um pouco o nipônico.
Não, não era irritação, pois não conseguia ficar zangado. Só tinha se acostumado a sempre lanchar com Alfred, com ele o acompanhando sempre até a metade do caminho para casa. Agora, com jogos importantes se aproximando, quase não o via. Não era ciúmes do esporte: só estranhava a falta da presença dele. Mas não era nada demais, tinha vivido durante anos desse modo, voltar não deveria ser difícil.
Ao menos pensava assim, até se descobrir novamente solitário.
Suspirou, debruçando-se sobre o parapeito da janela, tendo um ar alheio. Nem ia mais ao telhado, ia ficar sozinho tanto na sala quanto lá que não valia à pena o esforço. Já tinha terminado de comer e, àquela altura, Alfred (que comia bem mais rápido) também, deveria estar aproveitando o tempo restante para treinar.
Arthur adentrou a sala, mesmo sabendo que faltavam alguns minutos para o sinal tocar, sem se importar caso parecesse chato. Sabia que Kiku estava lá e queria conversar mais.
- Honda...?
O menor despertou, virando-se para o professor, endireitando-se.
- Ah! Já bateu o sinal? – Conferiu o em volta e o relógio da parede. — Chegou cedo, sensei.
- Sim. Quis já deixar minhas coisas por aqui... – Caminhou até o menor, esboçando uma expressão preocupada. – Tudo bem? Por que está aqui sozinho?
Não que não soubesse.
Kiku ficou desconfortável. Tinha sempre ouvido que ingleses eram discretos... Arthur não era. Levou uma das mãos até a nuca, brincando com os cabelos que caíam por ela, desviando o olhar.
- Nada em especial...
- Cadê seu amigo? Ele é da sala 3-C, não é?
Não podia negar: Arthur era um bom observador ao menos.
- Etto... Como há um campeonato se aproximando, ele deve estar treinando com o clube.
- Entendi – pousou uma das mãos no topo da cabeça do moreno, abaixando-a um pouco, assim como seu tom. – Não se sente só...?
- Não. — Respondeu automaticamente, apesar dos olhos – mesmo bem escondidos pela franja – demonstrarem o contrário.
- Não te vejo falando com muitas pessoas... Fico preocupado, Honda.
O britânico o lia bem demais. Isso era um pouco perigoso... Entretanto, o que ele falava era um fato. Ou falava com Alfred ou com Arthur, o diálogo que mantinha com seus colegas de classe era apenas o estritamente necessário. Suspirou silenciosamente, uma lágrima escapando furtiva por sua face.
- Shh... Desculpe. Não chore...
Pediu baixo, tentando não transparecer o desespero que sentiu quando o viu começar a chorar, secando com o polegar os olhos do menor, não deixando que ele acabasse por se descontrolar, mas fitando-o dentro dos olhos. Kiku sentiu a face esquentar de pura vergonha, segurando as mãos do maior para afastá-las de si, desviando o olhar, desconcertado.
Arthur percebeu o quanto aquelas mãos eram frágeis. O que esteve fazendo até agora? Ficou irritado consigo mesmo.
- Vou falar agora com esse Alfred!
Desvencilhou-se do outro, já caminhando para a porta da sala quando ouviu uma exclamação e, em seguida, algo se agarrou a um de seus braços.
- Não! É importante para ele, não faça isso!
- Mas está te fazendo mal, Honda! Ele tem que te ouvir também!
- Mas... E-eu não quero atrapalhá-lo...
E, dando-se conta do que fazia, foi afrouxando o aperto que criara no braço do maior, afastando-se dois passos para só ficar segurando-o pela manga do terno.
Arthur respirou fundo. O nipônico estava sendo sincero – não se recordava de já ter o visto aumentando o volume da voz – mas ele era gentil demais. Se fosse um pouco mais egoísta, não sofreria tanto.
- Por que não entra no mesmo clube, então? Você ainda não participa de um, certo?
Sugeriu, apesar de manter o cenho franzido. Podia não ser japonês, mas não era acostumado com toques tão frequentes e dizia com toda certeza do mundo que só naqueles poucos minutos Kiku e ele se tocaram demais para o padrão de ambos. Estava sem graça, claro!
O mais novo ficou surpreso com a proposta, fitando o outro como se ele fosse um ser de outro mundo.
- Mas eu sou péssimo em esportes.
- Não vai saber se não tentar, droga! – Soltou o próprio braço, cruzando-os em frente ao peito. – Vá atrás do que quer.
O loiro estava realmente começando a perder a paciência. Ser um professor não era fácil. Devia ter escolhido vir como aluno... Mas respirou fundo, não podia acabar assustando seu protegido. Ele não era culpado de ter trabalhos e provas para corrigir, além de aguentar monstrinhos aprontando consigo (tendo de bronquear cada um deles).
Ok, era culpa dele sim. Não exatamente por culpa dele... Mas por causa dele. Só estava ali por isso. Apesar de que, se tivesse feito seu trabalho direito, não estaria passando por isso. Hora de pensar racionalmente. O problema de ser humano é estar sujeito a todas aquelas emoções – e cada vez mais.
- Desculpe, não quis ser rude. Mas... Você deve parar de pensar só nos outros. – encarou o menor, sério. – Busque o que quer. Se algo está o incomodando, fale. Ou aceite a situação ou tente mudá-la. Mas ficar parado não vai te ajudar em nada, Kiku...
Sentiu como se falasse de si mesmo. Tinha ficado desatento ao que fazia, cometido muitos erros. Se o japonês era daquele jeito, tinha sua parcela de culpa. Suspirou, bagunçando os cabelos e também desviando o olhar.
- Não me leve a mal... Eu só quero o seu bem.
O oriental estava um pouco assustado com toda aquela mudança. Talvez Kirkland estivesse estressado, mas se esforçava para falar consigo e, no fundo, sabia que ele estava tentando animá-lo. Sorriu timidamente, assentindo, no final mantendo a cabeça baixa.
- Sim. Vou tentar fazer algo.
Arthur curvou o canto dos lábios, satisfeito, afagando os cabelos negros do menor.
- Sei que consegue, Kiku.
E corou até as orelhas. Não só pela mão quente que lhe acariciava, mas por atentar que tinha sido chamado pelo primeiro nome. Quando começou? Não se deu conta, apesar de na verdade não achar de todo ruim. Juntou as mãos em frente ao tórax, concordando mais uma vez. Percebendo o estado do mais novo, Arthur também ficou com a face avermelhada, afastando a mão no momento em que o sinal tocou, indo para frente da sala, enquanto Kiku voltava para sua carteira.
Olhou pela janela, sentindo-se um pouco aliviado. E, de agora em diante, se concentraria naquelas palavras para não fraquejar.
x
A noite já predominava no céu quando o treino do time terminou, fazendo Alfred se espreguiçar com satisfação. Estava confiante! (Sempre estava...) Se o time seguisse corretamente sua formação, apostava que iriam ganhar o jogo. Adorava comandar e ver que suas dicas auxiliavam a todos.
- Ufa! Espero ter hambúrguer para janta!
Riu sozinho, terminando de guardar suas coisas e saindo do vestiário. Costumava sempre ser um dos últimos a ir embora. Com toda essa disposição, apesar de todos odiarem o jeito mandão do americano, ninguém falava que ele não era esforçado.
Como nesses dias não tinha a companhia de Kiku no caminho de volta, estava vindo com a bicicleta, assim ganhava tempo. Sempre chegava com uma baita fome! Correndo como de praxe até o local que a prendia, parou quando viu uma silhueta próxima a mesma, piscando os olhos azuis como quem não entendia.
- Kiku? – Voltou a sorrir, abraçando-o pelos ombros no exato momento que ele se virou para si. – Hahahha! Cute! Não precisava me esperar.
O menor corou, movendo um dos braços de modo a encostar na barriga do outro, afastando-o de si. Já tinha dito para ele não sair o agarrando do nada! Era vergonhoso e uma falta de respeito com seu espaço, mas ao menos ele se distanciava quando fazia algum gesto que pedia para tal.
- Eu só estava na biblioteca... Quando vi a hora, estava perto de você sair, então estava o esperando.
- Ohh, entendi! Você gosta muito de ler, né? – Alfred riu, só lia quadrinhos mesmo. – Isso é legal. Mas não fique até tarde! Para alguém tão fofo é perigoso, pedófilos podem te atacar na volta de casa!
O pior era que o norte-americano falava sério, fazendo com que Kiku apenas sorrisse sem graça. Quase podia sentir uma gota escorrendo por sua cabeça. Provavelmente, o loiro se esquecia, mas Kiku estava no terceiro ano assim como ele, apesar de ser realmente mais baixo e ninguém lhe dar a idade que realmente tinha... Frustrante.
Alfred terminou de abrir o cadeado, guardando a corrente, batendo na garupa ao voltar a face para o japonês com um largo sorriso.
- Vem, eu te levo!
Kiku parou para pensar. Tinha a intenção de irem andando juntos normalmente até a metade do caminho, mas não reclamou, pois seria mais eficiente utilizarem-se do meio de transporte que detinham no momento. Alfred subiu primeiro, o menor se sentou atrás após deixar sua pasta escolar na cesta. Não falaram nada mais, o ocidental começou a pedalar o caminho de volta. O moreno abaixou a cabeça, pressionando o metal da garupa entre os dedos, hesitante.
- Anno... Como vão os treinos, Alfred-san?
- Hahaha! Já falei que não precisa desse prefixo... Ou sufixo? Tanto faz! Mas estão bem! Com minha ajuda, nós vamos ganhar o campeonato!
E soltou uma das mãos da bicicleta, socando o ar, fazendo com que o menor se segurasse mais firme. Alfred deveria ter mais noção das coisas!
- Ahh... Eu estava falando com o professor Arthur–
- O quê? – Virou-se para trás, franzindo o cenho. – Kiku! Tome cuidado com este pervertido! Ele está te perseguindo!
E começou a gesticular, largando a direção, fazendo com que o mais baixo soltasse uma exclamação.
- O-olhe para frente, Alfred!
- Opa! – Chamado a atenção, conseguiu controlar o veículo antes que batesse em um poste, tornando a ficar atento no caminho. – Como falei! O Mr. Taturana tem uma cara de pervertido! Eu ficaria longe, se fosse você.
Fez biquinho, falando sério, fazendo com que Arthur rangesse os dentes enquanto observava. Este garoto era um dos maiores motivos de seu estresse! Mas balançou a cabeça, desfazendo-se do pensamento. Como ele estava longe, não podia fazer nada; só restava ao anjo observar e esperar que seu protegido não compartilhasse das mesmas ideias daquele diabinho americano.
- Não é assim... Ele apenas se preocupa com seus alunos – encolheu os ombros, ficando sem graça por lembrar-se da cena de mais cedo. Tinha praticamente o abraçado...
- Pff! Ele atirou um giz em mim outro dia.
Kiku riu. Era óbvio que Alfred estava dormindo, então, fez por merecer, mesmo que pensasse que a violência era desnecessária. Todavia, não importava! Precisava manter o foco.
- Bem, nós estávamos conversando. Ele disse que seria bom eu entrar em um clube...
Mais uma vez o maior ficou surpreso, voltando a face para trás.
- Ué? Mas ele sempre tira esse tempo para te assediar. Estranho.
Franziu o cenho, recebendo um cutucão nas costas para que olhasse para frente, obedecendo.
- N-não é assédio! – Mais uma vez, enrubesceu. – Apenas conversamos... Mas ele disse isso. E deu a ideia de entrar no mesmo clube que você, ha... ha... – Riu fraco, nervoso. Abaixou a cabeça, só queria ouvir a opinião do amigo sobre o assunto. – Não é idiot...?
- WOOOW! – Freiou, virando-se para fitar o amigo. – Então ele tem boas ideias também! Amanhã mesmo te levo lá!
Rindo alto, não esperou resposta, já saiu pedalando com o dobro da velocidade. Kiku apenas ficou boquiaberto, sem nem se preocupar caso caíssem com aquela aceleração impensada. Quando se deu conta, ficou um pouco feliz. Ele ainda queria ficar perto de si... Isso era um alívio.
- Obrigado...
Murmurou, sem intenção de o outro ouvir, acabando por ficar com o corpo tenso quando ele parou. Tinha medo de ter de explicar por que estava agradecendo, somente fitando o outro quando ouviu a pergunta:
- Para que lado é sua casa, mesmo?
Alfred sorriu amarelo, o que fez o japonês quase cair. Rindo forçadamente, endireitou a postura para guiá-lo.
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