Triim, triim, triim...

Tá bom, já acordei, esse barulhinho irritante já pode parar! Segunda feira. Mais um dia naquela maldita escola, com aqueles malditos professores, aqueles malditos alunos e aquela maldita comida gordurosa da cantina. Mentira, eu amo os meus amigos e quase todos os meus professores, mas aquela comida gordurosa realmente não ajuda com a minha dieta. Levantei da cama e fui tomar o meu banho pra chegar linda e cheirosa na escola. Talvez não tão cheirosa porque vou a pé pra escola todos os dias, mas isso não vem ao caso.

Me mudei recentemente para o condomínio ao lado da escola, então eu, como boa cidadã, resolvi ir e voltar a pé para lá todos os dias. Claro que não é a coisa mais agradável do mundo andar por 15 minutos logo depois de acordar, mas pelo menos não vou poluir o planeta e ainda vou manter a forma.

Cheguei na escola ofegante e com o coração disparado. Quando entrei na sala, todos os olhares se voltaram pra mim, como sempre. Não, não é porque eu sou linda e nem nada disso, é porque o professor já tava dando aula e eu estava interrompendo, mais uma vez.

- Atrasada de novo, Camilla? Quem diria! – brincou o professor.

- Ai, Leozinho, foi mal, não vai mais acontecer! – não sei porque, mas depois dessa fala, a turma inteira caiu na risada, inclusive o professor, e eu fui sentar indignada perto das meninas.

- Credo, por que todo mundo sempre ri quando eu digo isso?

- Primeiro porque você tá hilária com o uniforme todo amassado e com a respiração de quem correu uma maratona, e segundo que você chega atrasada todos os dias, não sei porque ainda se incomoda em tentar se justificar – explicou Petra, minha melhor amiga. Revirei os olhos e prestei atenção na aula que já tinha recomeçado.

***

Aquele cara realmente já tava me assustando. Qual é o problema dele? Ele sai por aí seguindo qualquer garota que passa andando sozinha? Cruzes, ele tá é parecendo um pedófilo, velho nojento!

- Tem certeza que não vai querer uma carona, princesa? Você não precisa andar tanto, eu te levo com o maior prazer – repetiu aquele ser inconveniente que não me deixava em paz.

- Não, moço, muito obrigada, mas a minha casa é bem aqui. Aliás, olha ali o meu namorado. Oi, amor! – gritei e corri em direção ao garoto que estava chegando em casa do outro lado da rua – Desculpa a demora, você sabe como eu sou meio lerdinha caminhando – e com isso lhe lancei um olhar de desculpas, pedindo a Deus que ele entendesse o que estava acontecendo e me ajudasse a escapar daquele maluco.

- Tudo bem, linda, o importante é que agora você já tá aqui pertinho de mim – sorriu de um jeito que tirou o meu fôlego, não vou mentir, e piscou pra mim. Soltei um suspiro de menina apaixonada e sorri de volta, aproveitando que o senhor ainda estava assistindo tudo de dentro do seu carro. Quanto mais convincente, melhor, certo? Depois do meu sorriso, ele desistiu e saiu a toda com o carro. Há, cadê toda aquela educação agora?

- Hm, mil desculpas, mas aquele homem já tava me perturbando há um tempo e quando eu te vi aqui, tive essa idéia maluca. Bom, na hora não pareceu tão maluca, mas agora...

- Não precisa se desculpar não, imagina! Esse cara é que devia se tocar e parar de perseguir as pessoas – ele me tranquilizou e lançou outro daqueles sorrisos. E agora que eu já estava mais tranquila pude reparar naquele deus grego parado bem na minha frente. Como assim ele mora na minha rua e eu nunca reparei? Oi? Ele tinha olhos verdes, os mais profundos que já vi, um sorriso perfeito com todos os dentes brancos e alinhados, e um cabelo de aparência tão macia que logo me deu vontade de tocar. Alto e forte, mas não demais. Aquele meio termo, entre o lindo e o maravilhoso, sabe qual é? Então, esse aí mesmo.

- E então, qual é o seu nome mesmo? – perguntou ele constrangido. Ops, será que eu fiquei encarando por muito tempo?

- Camilla, mas pode me chamar de Mimi. Você?

- Harry, muito prazer.

- Bom, Harry, agora que ele foi embora, eu vou indo também, já te atrapalhei demais – sorri sem graça. – Tchau, muito obrigada mesmo!

- Não me atrapalhou em nada, Mimi. Quer que eu te leve em casa? Sabe como é, caso algum outro idiota apareça – sugeriu ele com um sorriso brincalhão nos lábios. Ah, como eu quero! Mas já atrapalhei demais o coitadinho, não quero abusar.

- Não precisa não, eu moro aqui no fim da rua mesmo – falei meio a contra gosto. É claro que eu queria!

- Bom, então... Acho que a gente se vê por aí – falou ele me olhando com um olhar desapontado e coçando a nuca daquele jeito que faz toda garota com hormônios babar. Ai, que estúpida, e daí se eu tava atrapalhando ele? Ficar mais uns dois minutinhos perto dele não ia fazer mal nenhum... Que seja, agora já foi. Melhor eu ir embora antes que passe mais vergonha. Não sei porque, mas tô sentindo que não vai mais ser tão ruim voltar a pé todos os dias.

No dia seguinte contei a novidade para as meninas assim que pisei na escola. Vou logo avisando que eu sou uma eterna apaixonada. Conheço o garoto em um dia e no próximo eu já to planejando o nosso casamento. Mentira, nem tanto assim, mas pelo menos imaginando como ele vai me pedir em namoro. E sim, eu tava meio empolgada com o Harry, mas vocês podem me culpar? Ele é lindo, fofo, cheiroso e simpático. Quer mais ou tá bom? E tá, pensando bem, não aconteceu nada entre a gente, ele só me ajudou a escapar de um babaca e pronto. Talvez a gente nem se veja mais. Porra, Camilla, para de fantasiar! Eu prometo, aqui e agora, que com ele eu não vou criar expectativas e vou manter meus pés no chão. Prometo!

E foi pensando nessa promessa que voltei pra casa e o encontrei de novo. Eu estava passando em frente a sua casa quando o vi. De braços cruzados, uma perna casualmente apoiada no muro da sua casa, e um sorriso lindo que se abriu assim que eu entrei na rua.

- E aí, hoje eu vou poder te levar pra casa?

Notas finais
continuo com 1 review