Notas iniciais
OI DE NOVO! E ai, como andam?

Atrasada. Ela havia batido seu recorde de atrasos este mês. Era a quinta vez consecutiva que se atrasava para chegar ao estúdio, sem contar, é claro, nas horas de almoço que ela acidentalmente prolongara um pouco mais do que o esperado. Não era exatamente esse o comportamento esperado de uma professora de dança, ainda mais em uma das academias mais conceituadas do país, mas Brittany simplesmente não podia evitar. Horários e datas constantemente a confundiam, assim como números em geral. Ao menos ela sabia que Mike já estava preparado para mais um de seus atrasos, então não estava tão preocupada.

Ela apertou o casaco contra o corpo. Estava frio naquela manhã, mas era de se esperar. Nova Iorque geralmente fazia ou um frio que faria Brittany congelar até a ponta dos dedos ou um calor que a faria querer trancar-se em qualquer lugar frio o bastante para espantar o calor. Mas ela não se importava. Nova Iorque era o seu sonho, e ela havia dado duro demais para conquista-lo. Nada iria fazê-la jogar tudo isso fora, muito menos as desconfortáveis temperaturas as quais constantemente tinha que enfrentar. Nem mesmo o seu vizinho que praticava flauta desde que ela se mudara para o apartamento. A mesma música. Há três anos.

Com passos largos, ela alcançou os degraus da porta do estúdio, lançando-se para ela. Sem, é claro, perceber a presença da mulher ao seu lado, a qual acabara de derrubar no chão junto de si.

- Ai! – A morena gemeu, massageando a cabeça.

- Ai meu deus, desculpa! – Brittany exclamou, ajudando a mulher a levantar. – Desculpa, é que eu sou muito desastrada. E eu estou atrasada, nem vi você ai.

- Tudo bem. – ela abriu os olhos devagar, mas não os focava em Brittany. As íris escuras pareciam fitar um ponto aleatório no chão, o que fez com que Brittany encarasse o mesmo ponto, perguntando-se o que havia de tão interessante ali.

Lentamente, ela começou a subir os olhos pelo corpo da morena. Ela era linda! Excepcional, por assim dizer. A pele era morena, cor de caramelo. Os cabelos negros pareciam tão macios que Brittany sentiu uma vontade imensa de se enrolar neles e nunca mais sair de lá. Os lábios carnudos deixavam à mostra uma parte dos dentes brancos que mordiam a língua, que aumentava ainda mais a tentação de Brittany de tocá-la. Mas os olhos a intrigavam. Eram escuros, assim como os cabelos. Mas havia algo… diferente neles.

- Você viu meus óculos? – A morena perguntou, quebrando o encanto de Brittany e a fazendo corar.

- Mhm. – A loura assentiu. – Estão bem aqui.

Brittany agachou-se e juntou o par de óculos escuros, estendendo-os para a morena. Mas ela não fez nenhuma menção de pegá-los, então a loura sacudiu-os em frente a ela.

- Pode pegar. – Brittany disse.

- Onde estão? – ela tornou a perguntar.

- Bem à sua frente. – a loira respondeu. – Olhe para mim e você vai ver.

- Isto é algum tipo de piada?

Brittany arqueou uma sobrancelha. Credo! Quanto mau-humor em uma única pessoa. Ficou tentada a dizer que não ficava bem uma mulher tão bonita com essa carranca, mas achou que ela poderia processá-la por assédio.

- Não. – Ela sacudiu a cabeça. – Onde está a graça nisso? É só pegar os seus óculos, eu não mordo.

- Ainda não estou vendo a graça nisso. – ela cruzou os braços, parecendo irritada.

- Eu estou falando sério. – Brittany murmurou. – Eu fiz alguma coisa errada?

A morena sorriu. Se ela já era linda antes, agora estava fenomenal. As covinhas em suas bochechas eram simplesmente adoráveis.

- Você não está falando por mal, está? – ela perguntou, colocando uma mecha escura para trás da orelha.

- Eu não sei nem ao certo sobre o que estamos discutindo. – A loura desabafou, fazendo o sorriso aumentar no rosto da mulher.

- Qual é o seu nome? – ela perguntou.

- Brittany Pierce. – A loura se apresentou. – E você é?

- Santana. Santana Lopez. Prazer, Brittany. – ela estendeu a mão, a qual a loira prontamente apertou. – Então, Brittany. Meu ponto é, eu não posso olhar para você.

- O que quer dizer com isso? – ela pendeu a cabeça para o lado, como sempre fazia quando estava confusa.

- Brittany, — Santana riu. – eu sou cega. Achei que pudesse perceber pela bengala e pelo meu cachorro no canto da sala.

Só então ela se deu conta. Brittany girou o corpo, encontrando um labrador negro que abanava o rabo para Santana. No chão, uma espécie de bengala branca estava caída mais ou menos no lugar onde ela havia derrubado Santana.

- Ah, deus! – Brittany bateu na testa com a mão. – Desculpe. É que hoje eu estou mais distraída do que normalmente. Desculpa, Santana.

- Você não fez por mal. – ela respondeu, colocando os óculos escuros e segurando a bengala que Brittany havia juntado. – É sério, tudo bem.

- Eu estou me sentindo horrível agora. – Brittany murmurou, baixando a cabeça.

- Algo me diz que eu não fui a primeira pessoa que você derrubou, Brittany. – Santana disse com um tom brincalhão. – Mas se for fazer você se sentir melhor, pode me acompanhar até a minha sala.

- Com quem você tem aula? – ela perguntou, encostando uma das mãos na base das costas da latina.

- Você. – Santana sorriu, mostrando mais uma vez as adoráveis convinhas.

- C-c-comigo? – ela gaguejou.

- Não é um problema, eu espero. – Santana disse, apreensiva. – Mike me disse que você já deu aula para outras pessoas cegas.

- D-d-de maneira alguma. – Brittany negou, conduzindo-a para dentro de uma das salas. – Eu acho que eu me perdi nos horários. Que horas a sua aula começa?

- Nove. – Ela informou. Brittany checou no relógio e sorriu. Na hora certa. Não era hoje que quebraria seu recorde de atrasos.

- Então acho que podemos começar. — Brittany falou, caminhando para o canto da sala e procurando um CD. Ao achar o que queria, sorriu satisfeita e caminhou para perto de Santana novamente. – Eu vou te mostrar uns passos iniciais, depois nós tentamos com música, ok?

- Ok. – Santana concordou.

Brittany colocou seu corpo por trás do de Santana e escorregou suas mãos para a cintura da latina, moldando-a a si. Começou a ditar os passos, mexendo a cintura de Santana de acordo com o ritmo imaginário. Após algumas poucas repetições, ela completava os passos sozinha com perfeição, e Brittany achou melhor colocar a música. Ela caminhou até o som e ajustou o volume, colocando o CD e deixando o ritmo fluir na sala. Começou a fazer a contagem e fixou seus olhos em Santana, que dançava com perfeição. Um sorriso lento se espalhou em seus lábios. Ela amava quando um aluno conseguia aprender a coreografia, ainda mais um aluno com deficiência, ou dificuldades de aprendizado.

- Muito bem, Santana! – Ela aplaudiu ao fim da música, fazendo um sorriso envergonhado tomar conta do rosto da latina. – Você é boa nisso. Já fez dança alguma vez?

- Não, eu nunca tentei antes. – ela murmurou, brincando com o colar. – Mas eu gostei.

- Fico feliz. – Brittany sorriu para ela, aproximando-se devagar. – Temos mais um tempo ainda, mas não vou conseguir te mostrar muita coisa. Acho que chega por hoje. Você volta quando?

- Quinta. – Santana respondeu. – Pode me acompanhar até a porta?

- Será um prazer.

Brittany direcionou uma das mãos para as costas da latina, levando-a para a recepção. O labrador negro prontamente levantou, como se já a esperasse, e caminhou até Santana, que agarrou a coleira dele. Brittany ajoelhou-se e começou a fazer carinho no animal, que pareceu ter adorado a loura.

- Ele é um amor. – Brittany comentou. – Qual é o nome dele?

- Scooby Doo. – ela respondeu com uma risada. – Minha afilhada que escolheu. Ela o adora.

- Eu queria um cachorro. – Brittany comentou. – Mas é proibido no meu prédio. – Uma expressão frustrada tomou conta de seu rosto, mas logo desapareceu. – Como você vai embora?

- Minha amiga vem me buscar. – Santana respondeu, distraída. – Nós vamos trabalhar juntas.

- Em que você trabalha? – a loira perguntou curiosa. – Desculpe se eu estou sendo muito invasiva.

- De maneira alguma. – Santana sorriu. – Eu sou professora de música em uma escola para crianças deficientes visuais e auditivas. Quinn é psicopedagoga lá, então ela sempre me dá carona.

- Parece legal. – Brittany levantou, sorrindo para Santana. Mesmo sabendo que ela não podia ver, não conseguia evitar.

- San? – Uma mulher loura de olhos esverdeados, que Brittany supôs que fosse Quinn, entrou no estúdio. – Pronta para ir? Ah, oi. – ela estendeu a mão para Brittany. – Eu sou Quinn.

- Brittany. – a loira respondeu, apertando a mão oferecida. – Vejo você quinta, Santana.

- Tchau, Brittany. – a morena despediu-se com um sorriso.

A loira mais alta observou enquanto as duas mulheres saíam do estúdio. Mesmo com o cão-guia, Quinn mantinha uma das mãos nas costas de Santana, assim como Brittany fizera antes. Um sorriso estava estagnado em seus lábios, enquanto ela assistia a morena ir embora.

- Quem é aquela? – Uma voz perguntou, fazendo Brittany girar o corpo para trás.

Mike a olhava com um sorriso curioso nos lábios, esperando que Brittany se pronunciasse. A loura apenas deu de ombros, ignorando a pergunta do amigo.

- Bom, seja quem for, eu já gostei dela. – ele informou. – Qualquer pessoa que faça você chegar no horário é muito bem vinda por aqui.

Notas finais
E então? Sim, podem ser cruéis comigo