O Amigo Do Meu Pai
44 Bobos apaixonados
Notas iniciais
Esperava já há uns minutos a chegada de Sam. Meu plano era simples e eu tinha convicção Contava com a ajuda de Michael, que nem hesitou em dizer sim quando pedi sua ajuda. O plano era tão simples que a única coisa que Michael precisou fazer foi atrair Sam ao Skywalk Observatory, um observatório da cidade de Boston em cima de um enorme edifício. Descobri o lugar por acaso, enquanto andava de volta ao hotel. Assim, decidi que ter uma conversa com Sam a metros e metros do chão seria uma boa ideia. E se não fosse também, ao menos eu poderia dizer que a paisagem era bonita. Além de meus trajes, claro. Uma camiseta personalizada com uma frase de efeito com uma saia de estampa engraçada ficava com cara punk rock graças a minha jaqueta de couro. Saltos altos pretos com tiras e meu celular em mãos eram tudo que tinha de acessório, sem contar o anel que Sam me dera. Meus cabelos estavam soltos e bagunçados e minha boca marcada por um batom vermelho. O vestido que vira na loja não tinha meu tamanho, então a solução foi improvisar.
Uma brisa gelada arrepiou-me inteira, fazendo-me cruzar as pernas de frio. Não poderia negar que o lugar era gelado além de bonito. Comecei a batucar os dedos no parapeito, onde me apoiava inclinada para frente. Decidira assim que chegara que, em hipótese alguma, viraria para trás. Ele iria achar-me de qualquer maneira. Olhei para a tela de meu celular, vendo o horário. De acordo com meu plano, Sam já deveria estar aqui. Respirei fundo e senti outra brisa gelada atingir-me. Fechei os olhos, sentindo o veto beijar minha pele. Ouvi passos perto de mim e senti a presença de alguém ao meu lado, parando e apoiando-se no parapeito próximo a mim. Abri os olhos, mas não o olhei.
–Isso é mais uma ideia mirabolante sua, não? – Ele perguntou ao meu lado.
Abri um sorriso e confirmei com a cabeça sem desviar os olhos da paisagem. Sam riu pelo nariz, sem tirar os olhos da paisagem também. Ficamos em silêncio, ambos observando a paisagem, porém sem realmente enxerga-la. Era mais um ponto de foco enquanto viajávamos em nossas cabeças.
–Acho que devia ter notado que isso era coisa sua – Ele comentou quebrando o silêncio – Michael vira uma garotinha medrosa toda vez que é obrigado a subir em lugares muito altos... – Ele comentou arrancando-me um riso baixo.
–Bem que eu desconfiei quando sua voz ficou um tanto quanto aterrorizada quando disse que executaria o plano aqui...
Sam deu um sorriso de canto e continuou com os olhos fixos na Boston vista de cima. Tentava achar a coisa certa para se falar, mas toda vez que abria minha boca, voltava a fecha-la imediatamente, temendo não ser a melhor coisa a se dizer. Por fim, suspirei e deitei minha cabeça em meus braços.
–Eu não sei por onde começar – Admiti frustrada em voz alta.
–Que tal começar dizendo por que parece que você complica tudo? – Ele sugeriu.
–Eu não complico tudo – Defendi-me com a cabeça baixa ainda, a voz saindo abafada – Eu só que as coisas não se tornassem estranhas entre nós.
–Estranhas? – Ele perguntou dando ênfase a palavra e fazendo-me imaginar sua expressão perfeitamente em minha cabeça, com uma de suas sobrancelhas arqueadas.
Suspirei novamente e levantei a cabeça, não me arriscando ainda a olha-lo, apesar de ele encarar-me a espera de resposta.
–Não acho que iria ser natural se eu virasse pra você e dissesse que meu pai me botou mais ainda no chão insinuando que eu iria te magoar como pessoas apaixonadas fazem uns com os outros às vezes... – Comentei encolhendo os ombros.
Sam molhou os lábios, não argumentando sob minha fala. Tomei coragem e virei-me para ele, encarando-o enquanto mordia meu lábio inferior insegura. Seu olhar parecia estudar-me.
–O que exatamente ele falou para você Anne? – Ele perguntou friamente calmo.
Respirei fundo e abaixei meu olhar Eu me recordava bem das palavras, uma vez que elas queimavam em minha mente a toda hora. Fechei os olhos e inspirei fundo uma vez mais.
–“Enquanto a Sam, espero que ele se de conta de quem você é. Porque sinceramente, ele não merecesse ser enganado por você como eu fui. E o pior é que ás vezes eu acho que ele te tem como mais que uma amiga. Pena, uma pena... Espero só que você não parta o coração dele, porque eu o tenho como um irmão. E irmãos protegem os outros, principalmente os mais velhos... E ainda mais de pessoas como você!”.
Respirei fundo ao fim da citação, abrindo os olhos logo após. Levantei a cabeça e olhei a paisagem, passando as mãos nos cabelos. Sam não dissera nada, permanecera quieto. Eu virei meu rosto a ele, olhando-o em busca de alguma resposta sua. Ele me encarava penetrantemente, a expressão legível somente para séria.
–Isso... Te abalou? – Ele perguntou lentamente, quebrando o silencio entre nós.
Mordi meu lábio inferior, confirmando com um aceno tímido de cabeça.
–Por quê? – Ele perguntou confuso.
–Porque eu tenho medo que ele esteja certo – Desviei o olhar, olhando para Boston de novo – Eu tenho medo de que um dia eu magoe-o ou decepcione-o de alguma maneira e que... Afaste-o de mim para sempre.
Sam respirou pesado ao meu lado, passando as mãos pelo cabelo. Abaixei a cabeça, contraindo os lábios.
–Não tem como você fazer isso Anne – Ele pronunciou-se após algum tempo – Você já fez.
Mordi eu lábio inferior, não sabendo exatamente o que sentir.
–Mas não a culpo – Ele retomou a fala, fazendo-me levantar a cabeça e olha-lo – Se não tivesse o feito, talvez não estivéssemos quites agora.
–Como? – Levantei meu olhar confuso a ele, sem conter a pergunta na boca.
Sam sorriu-me, voltando-se a paisagem com o sorriso pregado nos lábios. Mais uma brisa abateu-nos e fez seus cabelos bagunçarem-se mais.
–Se você não tivesse feito isso, eu acho que eu nunca teria parado para pensar o quanto você se tornou importante para mim – Ele comentou molhando os lábios – Eu fiquei tão puto com você, que não conseguia fazer quase nada que não fosse de má vontade. Eu só conseguia pensar o quanto eu me senti traído pela sua omissão, ao mesmo tempo em que eu sempre checava meu celular atrás de alguma mensagem em que você pedia desculpas e marcava um encontro comigo – Ele abaixando a cabeça e rindo.
Ri baixo junto a ele. Ele se virou para mim com um sorriso no rosto que suavizava sua expressão.
–O que eu quero dizer, Anne, é que você fez um favor a mim e a você – Ele sorriu mais e abri um sorriso também – Se não tivéssemos brigado, eu não saberia o quanto eu não quero brigar mais com você.
Abri um sorriso a ele, não me contendo e pulando em seu pescoço para um abraço apertado. Sam riu, enchendo-me de maior alegria com o som de sua risada, e passou suas mãos em minha cintura e costas, trazendo-me para mais junto de si. Apertamo-nos tanto que me senti começando a ficar sem ar. Bati nos ombros de Sam e ele soltou-me entendo o que queria dizer. Eu olhei-o e ambos rimos. Olhávamo-nos rindo, eu sentindo uma felicidade abobada que não conseguia explicar.
–Estamos bem então? – Perguntei.
–Acho que sim...
Levantei uma sobrancelha e cruzei os braços. Ele riu.
–Estamos sim – Ele confirmou rindo.
Voltei a sorrir e descruzei os braços. Sam aproximou-se de mim e passou sua mão por cima de meu ombro. Passei meu braço por sua cintura e viram-nos para a saída.
–Nós vamos comer, certo? – Perguntei a ele.
–Claro – Ele confirmou.
–Aí que ótimo! Estou morrendo de fome! – Admiti fazendo-o rir.
–Estou começando a achar que você usa cinta ou alguma coisa do tipo para esconder a barriga – Ele comentou rindo.
Virei-me para ele e dei-lhe um tapa no ombro com minha mão livre. Ele só riu mais.
–idiota – Murmurei emburrando.
Sam abaixou sua cabeça ligeiramente, aproximando sua boca de meu ouvido.
–Mesmo assim, eu ainda te acho gostosa – Ele sussurrou.
Ri gostoso e virei-me para ele.
–Está falando igual a Michael – Observei-o sorrindo.
Paramos em frente aos elevadores, apertando o botão para descer.
–Está no sangue – Ele deu de ombros.
Concordei com a cabeça rindo.
–Bom, estando no sangue ou não, ainda bem que você é rico, porque quem vai pagar a conta do jantar é você – Comentei enquanto o elevador abria-se e eu me soltava dele.
Entrei e encarei-o parado do lado de fora rindo de meu comentário. Outras pessoas foram entrando e ele entrou antes que fechasse. Parando ao meu lado, eu e ele viramos os rostos um para o outro. Sorrimos e prendemos riso antes que esse ecoasse pelo elevador e nos fossemos xingados de bobos apaixonados.
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