O Amigo Do Meu Pai
46 A nova Anastácia Cooper
Notas iniciais
–Que demora Anne! – Sam bufava impaciente da sala do apart-hotel.
–Mais um minutinho! – Pedi terminado de botar meus brincos.
Eu e Sam iriamos sair pra jantar em um restaurante. Ele não quis me falar qual no começo qual era, mas descobri quando o ouvi falando ao telefone sobre as reservas. Era um restaurante altamente requisitado da cidade com uma vista ótima, pelo que dizia no Google.
–Nós vamos perder a reserva Anne! – Ele gritou impaciente.
–Ok, já estou pronta! – Apareci na sala.
Eu vestia um vestido de comprimento mídi, a saia estampada e o busto azul. Meus altos eram beges e simples, se não fosse pelo detalhe da tira preta nos tornozelos. Um bracelete em ouro velho e um brinco gigante casavam com minha certeira azul royal. Lábios em laranja vivo e cílios turbinados com rímel terminavam a produção, que tinha direito a meus cabelos soltos e despojados. Sam abriu a boca assim que me viu, mas não disse nada. Ele ficou literalmente de queixo caído.
–Você está maravilhosa, Anne – Ele elogiou conseguindo abrir um sorriso lindo.
–Obrigada. Você também está bem – Retribui o elogiou, mesmo sabendo que “está bem” era singelo demais a ele.
Ele vestia uma camiseta polo preta com uma jeans rasgada nos joelhos e uma tênis social marrom. Seu cabelo estava penteado para trás com gel e sua barba estava por fazer como gostava. Caminhei até ele e peguei em seu braço e saímos do quarto, trancando a porta.
*
Chegamos ao restaurante e logo todos os olhares recaíram sobre nós. Sam sendo quem ele era e eu sendo filha do Chris e melhor amiga do Sam, eu até me impressionava por continuar a me surpreender com isso. Entramos no restaurante calmamente, eu segurando no braço de Sam como uma boia salva-vidas. A recepcionista recebeu-nos com um sorriso profissional na cara e nos guiou a nossa mesa.
–Acho que não vou me acostumar com isso nunca – Cochichei a Sam enquanto caminhávamos.
–Não se preocupe: eles estão te invejando por ter um cara tão gostoso assim ao seu lado – Sam fez palhaçada.
Ri de sua idiotice. Sam sempre sabia o que dizer e agir para deixar-me mais confortável. Paramos de frente a uma mesa para quatro, posta de frente a uma vista esplendida do mar. A mulher nos sorriu uma última vez antes de se retirar. Sam puxou a cadeira ao lado da janela para mim e sentei-me sorrindo agradecida. Ele deu a volta na mesa e sentou-se a minha frente. Olhei a vista e sorri. O mar estava calmo com ondas baixas e calmas enquanto o sol acima se punha em vermelho e laranja. Essas cores misturavam-se perfeitamente ao verde cristalino e puro do mar, fazendo uma imagem que valia a pena ser fotografada.
–Anne? – Sam me chamou.
Balancei a cabeça e desgrudei os olhos da janela para olha-lo. Ele sorriu-me e sorri de volta, porém constrangida.
–Terra chamando – Ele riu, zombando.
–Desculpe, é que a paisagem é linda – Suspirei.
–É, eu sei – Ele voltou os olhos a janela.
Olhei para a mesa e só nesse momento me toquei que era uma mesa de quatro e nós éramos dois. Até onde sabia só nós íamos jantar.
–Esperamos mais alguém? – Perguntei fazendo Sam me olhar.
–Que? – Ele perguntou distraído – Ah, sim – Ele confirmou pegando o cardápio de bebidas a sua frente.
–Quem? – Perguntei interessada.
–Chris – Ele respondeu natural.
Eu, entretanto, não achei tão natural. Levantei as sobrancelhas e encarei-o incrédula.
–E você pretendida me dizer isso quando? Depois que ele chegasse e eu ficasse com cara de tacho? – Zombei irônica.
–Por aí... – Ele respondeu sem olhar-me.
Bufei e arranquei sem gentileza o cardápio de suas mãos. Ele levantou as sobrancelhas, surpreso, e riu baixo. Isso me irritou mais ainda.
–Por que está tão irritada? – Ele perguntou sorrindo.
–Não sei, talvez porque o pai que me renegou um bocado de tempo e agora quer se aproximar de mim deve estar a caminho daqui e eu talvez nem ficasse sabendo... – Sugeri sonsa.
Sam riu e abriu a boca para falar, porém nunca soube o que ele iria dizer, já que a mulher que nos recepcionou voltou à mesa com Chris de encalço. Ele estava sério, um tanto cabisbaixo, arrumado para a ocasião. Seu cabelo para trás e diferente de Sam, a barba bem aparada. A mulher parou diante de nossa mesa e sorriu. Chris nos olhou e abiu um sorrindo agradecido à mulher sem mostrar os dentes. Ela sorriu saindo novamente. Chris nos sorriu da mesma maneira e eu retribui na mesma moeda, ao contrário de Sam que parecia bem contente. Chris puxou a cadeira ao lado de Sam e sentou-se.
–Mais alguém para nos fazer companhia, Sam? – Perguntei venenosa.
–Não que eu me lembre... – Ele deu de ombros – Mas nunca se sabe quando o Michael pode aparecer com uma nova namorada ou sei lá.
Revirei os olhos. Se não tivesse irritada, teria rido. Senti um olhar queimando sobre mim e notei de rabo de olho ser de Chris. Decidi ignorar e peguei o cardápio que tinha arrancado de Sam e examinei-o. Era a carta de vinhos, na verdade. Apesar de gostar de vinhos, quase nada conhecia sobre, então mais fingi estra lendo-a do que realmente fazendo isso.
–Que tal um Le Clos du Fou 2006, tinto? – Sam sugeriu.
–Por mim... – Baixei o cardápio e dei de ombros.
–Chris? – Sam olhou o amigo.
–Tudo bem – Ele concordou.
Um garçom apareceu naquele instante em nossa mesa e Sam pediu o vinho. Ele assentiu e prometeu voltar com o vinho e o cardápio logo. Olhei a Sam, encarando-o de olhos semicerrados enquanto ele batucava os dedos na mesa e olhava para tudo ao redor. Ainda podia sentir o olhar de Chris queimar sobre mim. Fechei os olhos, contando até dez e inspirando e expirando profundamente. Molhei rapidamente os lábios e abri os olhos, encarando-o Sam novamente. Sua calmaria, os olhares indecisos de Chris, as conversas alheias e o silêncio mortal em nossa mesa: tudo estava me irritando. Peguei minha bolsa e olhei aos dois homens a minha frente.
–Se me dão licença, vou ao toalete – Avisei-os e me levantei da cadeira sem esperar suas respostas.
Afastei-me dali na maior compostura que poderia ter. Andei entre as mesas até o indicado banheiro feminino e entrei no mesmo. Era enorme e de mármore claro com uma iluminação amarela cálida, quatro boxes com portas de vidro esfumaçadas e quatro pias com torneiras de sensor. Caminhei até uma das pias e apoiei minhas mãos nessa, abaixando a cabeça. Respirei fundo mais uma vez. Levantei a cabeça com lentidão e encarei minha imagem no espelho. Perfeita por fora, perturbada por dentro. Contrai meus lábios. Ouvi passos se aproximando e fechei os olhos. O barulho de saltos agulhas ficou mais próximo e abri os olhos no instante que uma loira siliconada de vestido vermelho colado que saltava seus peitos e realçava sua bunda, também de silicone, entrou no banheiro com seus saltos preto dez centímetros. Ela sorriu-me com seus lábios de preenchimento e parou na pia ao meu lado. Sua bolsa laranja chamativa estava em suas mãos. Ela abriu-a e pegou um batom de dentro. Para não ficar observando-a, abri também minha bolsa numa desculpa de procurar algo.
–Esqueceu o batom? – Ela perguntou-me passando o seu em seus lábios
–Não, está aqui no fundo da bolsa. Cabeça meio cheia sabe como é – Suspirei pegando o meu batom e estampando-o.
–Sei – Ela confirmou se admirando – Também, com um homem daqueles a sua mesa...
–Ah, não estava me referindo a isso... – Neguei, abaixando o batom após retoca-lo sem necessidade.
–Não precisa envergonhar-se – Ela disse mesmo eu não tendo usado um tom envergonhado – Todas morreriam para estra no seu lugar – Ela guardou a maquiagem na bolsa – Mas se me permite, ele é bem dotado como dizem? – Ela perguntou pegando um papel e limpando o borrado.
–Somos só amigos – Afirmei seca fechando minha bolsa.
–Sei – Ela comentou desacreditada – Amigos ou não, ele continua sendo um gato – Ela deu de ombros amassando o papel e jogando-o no lixo.
–Então por que você não vai lá e dá seu telefone a ele? Ouvi dizer que ele tem queda por siliconadas atiradas – Sorri falsa.
Sua olhou-me sem saber o que responder. Não esperei para ver seu olhar transformar-se em raiva, pois me retirei do banheiro fazendo tanto barulho com meus saltos quanto ela fez com os dela. Caminhei de volta a mesa e reparei que Chris e Sam conversavam. Eles tinham a cabeça meio baixa e falavam quase aos cochichos. A me ver de longe, Sam empoleirou-se na cadeira e moveu os lábios, fazendo Chris virar em minha direção e imitar o amigo. Cheguei à mesa e sentei-me, reparando que minha taça e as demais estavam cheias do liquido roxo purpura. Botei minha carteira de volta ao canto da mesa e peguei minha taça sem olhar para nenhum dos dois a minha frente. Senti o aroma de uvas misturado a uma grande quantidade de álcool e apreciei um gole, deixando o liquido alguns segundos no meio da língua em contato com o céu da boca como certa vez um tio meu me ensinara. Abaixei a taça e girei-a em meus dedos. O silêncio na mesa era profundo e pesado. Quase apalpável. Suspirando, deixei a taça na mesa e levantei meus olhos aos dois em minha frente.
–E então? Quem vai ser o primeiro a falar? – Perguntei direta.
Eles se entreolharam e Sam suspirou.
–Anne... – Ele começou a dizer procurando um tom certo.
–Sem essa de “Anne” – Cortei-o seca – Vocês não marcaram esse jantar só para comermos e rirmos, até porque com o clima que está aqui, rir seria como sorrir num velório. Então, por que não paramos de enrolação e vocês digam logo o que querem dizer. Porque se eu comer e depois ouvir o que tenham a dizer, irie passar mal.
Sam botou as mãos no rosto, apoiando os cotovelos na mesa, e virou-se para Chris olhando-o como se esperasse seu pronunciamento. Chris suspirou e levantou seu olhar diretamente para mim.
–Eu pedi para Sam marcar esse jantar entre nós três porque queria me desculpar com você e conversar – Ele explicou calmo.
Comprimi meus lábios e o olhei fria. Não precisava ser nenhuma PhD para adivinhar isso.
–Estou ouvindo – Sorri seca.
–E sendo sarcástica também – Sam murmurou.
Olhei-o fuzilando e voltei-me para Chris de novo.
–Eu queria me desculpar por tudo, Anne – Ele olhou para seu colo, sem coragem de encarar-me nos olhos – Eu sei que agi mal com você, mas estava convicto de que você não era minha filha. Só fiz esse último teste porque sabia que você não iria desistir.
Olhei-o pensativa.
–Então você está aqui me pedindo desculpa por tudo que me fez? – Perguntei retoricamente.
–Sim – Ele confirmou.
–Por que eu sou mesmo sua filha e você está arrependido por isso?
–Sim – Ele tomou coragem para subir seu olhar para mim.
–Hm, e se eu não fosse sua filha? – Perguntei num tom que minha mãe chamaria de “calma perigosa”.
–Como assim? – Ele pareceu confuso.
–E se aquele teste desse negativo e eu não fosse sua filha? Mesmo assim você marcaria esse jantar e me viria pedir desculpas? – Expliquei melhor.
–Não, mas...
–Então você está só me pedindo desculpas por seus atos porque eu sou sangue do seu sangue? – Cortei-o.
Ele abriu a boca para responder, mas voltou a fecha-la sem ter emitido som algum. Sorri fria e vitoriosa.
–Sabe, Chris, eu era louca para que esse dia chegasse: o dia em que você iria pedir-me desculpas – Comentei olhando para o teto e voltando a encara-lo de forma fria – Mas não sou mais.
Ele olhou-me confuso e até Sam, que mantinha a cabeça baixa ou prestava mais atenção em seu vinho, fixou seu olhar igualmente confuso em mim.
–Eu percebi, talvez ontem quando você deixou a sala após o resultado definitivo do teste, que não aceitaria suas desculpas facilmente como sei que faria antes – Continuei a explicar no tom de “calma perigosa” – Eu percebi que eu quero mais do que queria antes.
–Anne, o que...? – Sam se curvou a frente, olhando-me como se eu fosse maluca.
Levantei a mão, fazendo-o se calar e encostar-se ao banco de novo, mais confuso do que antes. Limpei a garganta e continuei.
–Eu concluí que eu não poderia aceitar fácil suas desculpas. E sabe por quê? Porque não seria justo comigo mesma – Olhei a Chris, que abaixara a cabeça – Sabe o que eu passei com você? Com suas recusas e grosserias, suas palavras mais afiadas do que facas? Sam sabe quantas vezes eu chorei no ombro dele por algo que você me disse ou a maneira como você agiu comigo. Foi horrível. Nenhum ser humano merecia ser tratado daquela maneira. Tudo bem, você poderia achar que eu era uma charlatã insistente, mas nunca passou por sua cabeça que, em meio a toda minha insistência, um fiozinho de verdade poderia existir? Você nunca ficou na dúvida ou desconfiou do resultado daquele primeiro teste? Nunca achou nem por um segundo que eu poderia mesmo ser sua filha e um engano havia sido feito?
Ele ainda mantinha a cabeça baixa, sem coragem de olhar-me diretamente. Sam, do contrário, passara a encarar-me como se me estudasse. Suspirei, fazendo uma pequena pausa.
–Nunca passou pela sua cabeça que se eu fosse mesmo sua filha e viesse a descobrir isso, o que aconteceria depois de todas as suas atitudes para comigo? – Perguntei pausadamente, não fria ou venenosa, mas sim machucada e ressentida– Provavelmente você pensou que eu aceitaria suas desculpas fácil, não foi? Eu não posso te culpar, afinal, eu teria feito isso mesmo. Mas, infelizmente para você, Chris, seus atos me fizeram mudar. E como eu acabei de dizer, mudar para melhor para mim, mas nem tanto para você.
Peguei minha bolsa, levantando. Sam mudou seu olhar, expressando confusão e se levantando também.
–Aonde você vai? – Ele perguntou para mim.
–Embora – Respondi simples.
Olhei a Chris, que continuava sentado de cabeça baixa, mas que a levantou assim que manifestei meu desejo.
–Anne, por favor, não vá – Ele pediu me olhando suplicante – Vamos conversar mais...
–Já conversamos o que tínhamos por hoje – Afirmei convicta, me virando para a saída – Ah, mas antes – Impedi-me, voltando a virar para Chris – Aquela coletiva que teria para esclarecer toda a confusão sobre o DNA que deu na TV, sabe? Eu não quero participar dela. Inventem que eu estou doente ou qualquer outra desculpa que seja cabível para eu não estar presente. Eu só quero voltar a vê-lo ou ser procurada por você quando realmente souber o que dizer para me convencer de que merece meu perdão. Enquanto isso, não quero ser incomodada – Sorri fria e virei-me definitivamente.
Caminhei entre as mesas decidida, ciente dos olhares que recebia. Anne Cooper, filha e amiga/affair de membros da Contarvi deixando um jantar com seus famosos conhecidos daquela maneira era um ótimo motivo para se prestar atenção e depois fofocar a qualquer veiculo de imprensa. Estampei um sorriso a eles e andei confiante até a porta. Senti ao parar de frente a porta da saída uma mão se fechar em meu braço. Olhei para trás e vi Sam segurar-me.
–Eu vou com você – Ele afirmou sem uma expressão ou tom de voz definido.
Assenti, aceitando sem protestar. Saímos do restaurante juntos e ele entregou o cartão ao manobrista. Refleti enquanto Sam estava longe cuidando para que logo o carro estivesse ali, que eu não mudara hoje de manhã como havia tido a Chris. Eu sempre tive esse lado. Eu só não sabia e nem tinha certeza que ele existia. Mas depois de tudo que passei, de alguma forma, esse lado expôs-se ao mundo. E estava feliz com isto. Chega de deixar os outros e a mim mesma pensarem que sou fraca. Chega de ser a pobre Anastácia Cooper, órfã de mãe e rejeitada pelo pai, que aceita as desculpas do último sem hesitação. A partir de agora, uma nova Anastácia entrou no jogo.
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