O Amante

13 Conhecendo Sakura Haruno


Para Sasuke, era como se, mais uma vez, tivesse voltado do mundo dos afogados para o esplendor da vida. Só que, agora, não havia dor ou pânico, e sim prazer e paixão. Permaneceu no silêncio e na escuridão do quarto por intensos, felizes momentos, que lhe pareceram poder durar para sempre, livre como jamais se lembrava de ter estado. Era como se nada pudesse levá-lo de volta à consciência, exceto o doce prospecto de poder fazer amor com Sakura uma vez mais. Só que, agora, mais devagar, saboreando cada segundo, deixando que a paixão fluísse com lentidãoe delícia por todas as partes de seu corpo.

Sentia os lábios dela, muito suaves, beijando-lhe o queixo, e abriu os olhos. Queria aproveitar cada instante daquela noite para embebedar-se na beleza inebriante de Sakura.

— Devo dizer que tem excepcionais poderes de recuperação — Sakura murmurou com um sorriso. Livrou-se das meias, que ainda usava, e voltou para os braços dele, continuando: — Quem poderia imaginar que há menos de uma hora, mal tinha forças para segurar um sanduíche?!

Sasuke sorriu e buscou-lhe os lábios, para mais um beijo ardente. Depois murmurou, junto aos lábios dela.

— Qualquer paciente teria melhoras fenomenais sob seus cuidados, minha querida. E, quanto à minha recuperação, devo dizer que você ainda não viu nada.

Sakura olhou-o, carinhosa.

— Sabe, essas palavras, vindas de qualquer outro homem, poderiam parecer presunção, mas você é a pessoa menos presunçosa que já conheci. Porém, pelo que vejo, tem muito do que se orgulhar e até do que se vangloriar, meu querido. Na verdade, todas as pessoas que o conhecem só podem falar bem a seu respeito.

Sasuke apenas sorriu. Muitos o respeitavam, sim, ele sabia, mas sempre fora considerado um homem sem maiores atrativos, tanto em relação às mulheres quanto em relação a suas possibilidades de ter sucesso na vida e nos negócios. Inúmeras vezes sentira os laços apertados das convenções e do decoro segurando-o, puxando-o para baixo. Conseguira livrar-se deles apenas por um breve tempo, para conceder-se aquele romance maravilhoso com Sakura, porém sabia que seria loucura tentar abandoná-los por completo para seguir uma vida mais liberal. Sua natureza não era assim. Além do mais, sem a reputação de que gozava que identidade poderia terna vida?

— Também deve sentir-se orgulhoso de suas irmãs — Sakura prosseguiu, acariciando-lhe o rosto e olhando-o, absolutamente apaixonada. — Emily, certa vez, me contou que você praticamente criou as duas sozinho.

— Nós nos criamos juntos — ele explicou puxando-a mais para seu peito. — Mas as duas sempre foram garotas muito especiais. E tem razão, tenho muito orgulho de ambas, embora não seja eu o responsável pelo bom caráter que elas têm. — Sasuke interrompeu-se, pensou um pouco, depois,rindo, acrescentou: — Vê como sou esquisito? Que tipo de homem ficaria falando de suas irmãs enquanto está na cama com a sua magnífica amante, exatamente após ter feito amor com ela e com sérias intenções de fazer de novo?

Pela última vez. Tais palavras martelavam em sua cabeça, embora evitasse dizê-las porque elas estragariam a sensação maravilhosa que estava desfrutando. Aborrecia-se consigo mesmo porque jamais era capaz de viver um momento sem pensar no passado ou preocupar-se com o futuro. E não tinha certeza de que tipo de reação esperar de Sakura. O carinho das mãos dela em seu rosto não significava uma resposta, mas era suficiente para inflamar seu desejo de novo.

— Você não é esquisito. É um homem muito especial, isto sim — murmurou ela. — E muito bondoso e gentil também. Que se preocupa com suas irmãs mais do que consigo mesmo. Eu gostaria de ter sido criada por pessoas que fizessem o mesmo comigo.

Aquilo não era uma repreensão, Sasuke compreendia, já que ela fizera tudo ao seu alcance para evitar que ele saísse em busca de Oliver e Emily, como pretendera. No entanto o que acabara de dizer atingia-o da mesma forma.

De fato, ao despertar de sua inconsciência, ficara alarmado, quisera agir, sair à procura da irmã, mas tal imediatismo passara. Se insistisse, Sakura jamais teria sido capaz de detê-lo ali a seu lado, porém quisera muito passar aquela última noite com ela e arriscar sacrificar todo o futuro de Emily bem como sua felicidade para satisfazer seus próprios desejos. Estava envergonhado por isso agora e tal sensação impedia-o de entender com precisão o que Sakura acabara de lhe dizer.

Na época em que haviam estado juntos, nunca tinham se preocupado em falar sobre seus passados, por que estavam mais interessados no presente, na paixão que os envolvia. O tempo que teriam seria curto demais e precisavam aproveitá-lo totalmente. Agora, seu tempo era ainda menor e um interesse repentino enchia a mente de Sasuke, fazendo-o querer saber mais, tudo, se possível, sobre a mulher que ele amava. Não sabia ao certo de onde ela viera quem havia sido sua família, quais eram seus sonhos, seus maiores temores, que experiências de vida a tinham tornado tão intensa, tão fascinante.

— Que idade você tinha? — perguntou de repente, quase sem sentir, ainda cariciando os cabelos dela e sentindo-lhes a maciez e a suavidade de seda.

Ela demorou a responder, o que o fez imaginar que o acordo inicial de seu romance, de absterem-se de saber sobre a vida um do outro, ainda estava em pé.

— Treze — disse Sakura, por fim, e sua voz soou triste. — Quando minha mãe morreu, e mal me lembro de meu pai. Não tive um irmão mais velho e responsável que cuidasse de mim, e meu avô estava sempre muito ocupado aumentando sua fortuna.

— Bem... Poderia ter sido pior — Sasuke tentou consolá-la. — Seu avô poderia estar sempre muito ocupado perdendo quantias enormes de dinheiro, como meu pai.

— É verdade. Mas eu sempre quis ter alguém sensato a meu lado, alguém que pudesse me consolar naquela época em que me sentia tão sozinha... Talvez eu pudesse, então, aceitar meu destino e minha sorte com mais racionalidade, entendendo que, afinal, eu tinha certos privilégios, embora outras coisas preciosas me tivessem sido tiradas.

— Sinto muito, Sakura. Não quis ser duro com você.

— Eu entendi o que quis dizer. Sei muito bem que centenas de garotas dariam qualquer coisa para poderem trocar de lugar comigo. Mas tenho certeza de que nenhuma de suas irmãs o faria.

Sakura afastou-se devagar, para não deixar que ele visse seus olhos marejados de lágrimas. Porém Sasuke percebeu-as mesmo assim.

— É muito bom ter dinheiro, sim — ela comentou, sem olhá-lo —, mas há muita sabedoria no velho ditado que diz que o dinheiro não compra a felicidade.

— Talvez tenha sido isso, então, que meu pai tentou fazer depois da morte de minha mãe — ele ponderou pensativo. E, pela primeira vez desde que era ainda uma criança, conseguiu pensar em seu pai sempre ausente, sempre mais e mais desesperado, e não sentir raiva dele, muito menos ressentimento. Era estranho, mas, de alguma forma, libertador poder olhar assim para seu passado agora.

Sakura dera-lhe as costas e mantinha-se virada para o outro lado. Continuou, como se não o tivesse ouvido:

— Meu avô deixava-me aos cuidados de um número sem conta de governantas estranhas, endurecidas, cuja única intenção era tornar-me uma moça extremamente refinada.

Sasuke olhou para ela, para o contorno de seu corpo delineado na penumbra do quarto, e aproximou-se a abraçando por trás. Apoiou a cabeça em seu ombro e comentou malicioso:

— Fico feliz por nenhuma delas ter conseguido.

— É, mas elas tornaram minha vida um inferno enquanto tentavam Com todas aquelas repreensões, aqueles sermões infindáveis, aqueles castigos... — Havia amargura em sua voz, e Sasuke sentiu pena da criança alegre, cheia de vida, que haviam tentado trancar dentro dela. Sakura continuou, aceitando o abraço: — Embora sua irmã não seja o tipo de esposa de que Oliver necessita, sua vivacidade é encantadora. Imagino que você tenha se sentido tentado a mantê-la dentro de certos limites, impondo-lhe restrições às vezes, para torná-la mais respeitável, mas jamais para colocá-lo em uma situação embaraçosa.

— É... Às vezes — Sasuke admitiu. — Mas devo dizer que não me esforcei muito. Na verdade, sempre adorei a exuberância do caráter de Emily; quase cheguei a invejá-la. Talvez eu tenha, bem no fundo, um pouquinho da sua audácia. Quem sabe? Por exemplo... — Ele apertou Sakura contra si. —Imagino o que os meus respeitáveis conhecidos diriam se me vissem aqui, agora, com você.

— Ah, com certeza haveria assunto para fofocas durante muito tempo— ela concordou. E, voltando-se, aceitou o beijo que ele estava pronto para lhe dar.

Sasuke sorriu durante o beijo. Reconhecia que nenhuma mulher poderia ser tão sua, estar tão de acordo com suas atitudes quanto Sakura, e isso lhe agradava profundamente. Nenhuma mulher tinha, também, inflamado seu desejo dessa forma, ou feito com que seu coração batesse tão depressa, absolutamente apaixonado.

— Imagino, então, que seja nossa obrigação criar algo mais para que tenham do que falar — sugeriu ardente, junto aos lábios dela.

— Com certeza, meu amor — Sakura concordou, entreabrindo os lábios para seduzi-lo com mais um beijo alucinante.

Poderia ser apenas força de expressão, afinal estavam vivendo um momento quente, carregado de paixão, mas as palavras "meu amor" reverberavam na mente de Sasuke e o faziam pensar.

— Você tem muito mais imaginação do que eu — sussurrou. — O que sugere que façamos para as fofocas serem ainda mais apimentadas?

— O que acha disto? — Ela o empurrou de leve para trás, fazendo-o deitar-se. Depois, ousada, sentou-se sobre seu corpo, tomando para si as rédeas do amor que fariam em seguida. Tinha habilidade, talento e vontade suficiente para mostrar a ele que poderiam ambos, ir até o ápice da paixão e do prazer juntos, devagar, muito devagar, para fazer durar ainda mais o tempo de que dispunham. Seria, de fato, sua amante, fazendo-o delirar de desejo, querer sempre mais e mais, até poder satisfazê-lo, e a si mesma, por completo.

Sasuke sabia que depois seria ainda mais difícil poder separar-se dela. Amanhã chegaria e os encontraria abraçados, e seria terrível para ele ter de deixá-la ir, sair de sua cama, de sua vida... Desde o momento em que tinham se conhecido, e depois, quando ela o desafiara a ser seu amante,passara a admirá-la, a admirar seu gosto pela vida e seu desprezo pelas normas rígidas da sociedade em que viviam. Assim, ela era quase se oposto e, embora isso o preocupasse às vezes, esta com Sakura fazia-o sentir-se completo como jamais se sentira.

O fato de saber que a perderia era terrível e fazia-o pensarnum dia em que o sol simplesmente desaparecesse da face da Terra. A vida cessaria totalmente, como a sua sem Sakura. Havia tantos obstáculos entre ambos que seria necessário ter muita força de vontade para lutar e poder ficar juntos. Já encontrara muitos e grandes obstáculos em sua vida, criara suas irmãs sozinho e recuperara parte da fortuna de sua família com muito esforço e perseverança. E sabia que tudo que valia a pena merecia o sacrifício da luta. Também Sakura merecia seu sacrifício e sua luta.

Com paciência e resolução, conseguira muitas coisas na vida, podia conseguir Sakura também, assegurava a si mesmo. De alguma forma sabia que a chave para qualquer futuro para si mesmo e Sakura devia estar escondida em algum lugar do passado dela. O problema seria descobrir onde sem afastá-la de sua vida.

അഅഅഅഅഅഅഅ

Estando ainda com a cabeça deitada sobre o peito dele e ouvindo as batidas ritmadas de seu coração, Sakura jamais se sentira tão segura e libertada. Era como se a força que emanava de Sasuke fosse absolutamente confiável e constante, dando-lhe confiança e segurança para qualquer atitude que viesse a tomar.

Nessa noite, por exemplo, ele a levara a agir na cama. Tomara a liderança, deixara-se levar por sua paixão. E dera a ele um prazer incalculável porque fora com esse objetivo que quisera estar com Sasuke. E o resultado de seu carinho, de sua preocupação em fazê-lo vibrar de paixão fora seu próprio prazer, nunca antes tão intenso.

E era estranho pensar agora que seu mais profundoencontro com um homem fosse, ao mesmo tempo, o último. Sentia seu coração gelado, entristecido, magoado, pelo que teria de fazer ainda. Porque não podiam ficar juntos.

Alerta como nunca quanto às necessidades silenciosas de sua amada, Sasuke estendeu a mão e puxou as cobertas sobre Sakura, imaginando que o arrepio que sentira passar pelo corpo dela fosse devido ao frio. Se soubesse... avaliou-a, com o coração apertado. Uma montanha de cobertores não seria capaz de aquecer seu corpo como os braços dele ou o timbre de sua voz conseguiam.

— Alguma vez tentou comprar a felicidade, Sakura? — ouviu-o perguntar, quase sem voz.

Mesmo percebendo que ele procurava usar um tom suave em sua pergunta, Sakura sentiu suas entranhas se contraírem ao ouvi-la. Poderia, talvez, desviar a conversa com uma brincadeira qualquer, mas não o fez. A intimidade partilhada do momento que estava vivendo e o segredo que escondia de Sasuke exigiam todos os seus poderes de discrição, deixando-a não muito bem preparada para ser discreta em outros assuntos.

Sorriu de leve e respondeu um tanto hesitante:

— E... Como achou que eu tenha... Aprendido a me alegrar? Assim que meu avô faleceu, comprei o marido mais bonito e melhor nascido que o dinheiro poderia comprar! Imaginei que, assim, estivesse também comprando minha liberdade, mas acabei percebendo que não havia nada de feliz e nem de vantajoso no negócio que havia feito.

Um pesado silêncio caiu entre ambos, e ela entendeu que, com ele, vinha também a reflexão de Sasuke sobre o assunto e sua profunda compreensão dos fatos. E sentiu-se falando antes mesmo de poder controlar suas palavras:

— Eu tinha uma noção ridícula de que, se estivesse casada, poderia escapar de todas as pessoas que tentavam me controlar: governantas,tutores, parentes... Mas foi então que conheci minha sogra e entendi o que é, de fato, cair na teia de uma aranha gigante. — Sakura estremeceu só em se lembrar. — Aquela mulher era terrível. Pior do que todas as minhas governantas juntas. Nunca perdia uma só oportunidade de insinuar que a minha fortuna, adquirida no comércio, era uma nódoa para a sua família, uma enorme mancha de vergonha da qual procurava ocultar-se o tempo todo. E o tempo todo seu filho estava apenas fazendo o possível para gastar cada centavo do que eu tinha.

— Miserável! — Sasuke não pôde deixar de opinar entre os dentes.

Sakura sorriu, percebendo a sinceridade em seu tom. Seria tão fácil viver com ele, avaliou. Sasuke era tão diferente de seu falecido marido! Mas tinha se enganado, e muito, antes. Não podia pensar com o coração mais uma vez.

— Sabe, ele era até muito gentil no começo — continuou. — Chegou até a tomar meu partido contra a própria mãe. E eu tentei ser uma boa esposa para ele. Tentei muito, com todas as minhas forças. — A voz de Sakura, em suas lembranças, ia sumindo devagar, até tornar-se um mero sussurro sobre o chiar da madeira que se consumia na lareira. — Mas de nada adiantou, já que falhei no principal dever de uma esposa...

Sasuke não se moveu, nada disse. O que pensava a respeito do que acabara de ouvir era segredo. No entanto era como se ela pudesse sentir todo o peso de suas próprias palavras. Porque sabia que, se alguém poderia entender a humilhação de falhar em seu dever, esse alguém era ele. Por isso prosseguiu:

— Minha sogra, então, passou a ter prazer no que falava contra mim, porque percebia que estava, no fundo, com a razão. Até que se deu conta do que isso poderia significar para a sua preciosa família. — E, Sakura sabia,mais do que tudo o mais, fora exatamente isso que contribuíra para o rápido declínio dos Hataki. — E Kakashi não ficou ao meu lado, então. Se eu soubesse...

— Se soubesse o quê? — Sasuke indagou, quando ela se interrompeu.

A pergunta sacudiu-a, tirando-a daquela espécie de enlevo no qual as recordações a tinham colocado. Estremecia, sentindo o coração apertado, o estômago agitando-se. Não precisava mais de prova nenhuma para saber que, ao lado de Sasuke, deixava-se levar, abria-se, entregava-se. Precisava ter mais cuidado!

O compreensivo silêncio dele e sua simpatia a seduziam, como seus carinhos eram capazes, sempre, de seduzir-lhe os sentidos.

Parte de seu ser queria deixar o assunto de lado, beijá-lo novamente, incendiá-lo... Fazer qualquer coisa que a resgatasse das águas perigosas em que se deixara apanhar. Mas precisava encontrar uma forma de afastar-se dele, ou acabaria contando-lhe tudo sobre o bebê. Então, conhecendo o desenvolvido senso de dever que havia dentro de Sasuke, jamais poderia afastá-lo de si. Por isso continuou, tentando parecer casual:

— Se eu soubesse que a viuvez é o melhor estado para uma mulher rica! Sim, porque se pode ter todos os prazeres de um casamento sem se perder a independência.

Sasuke retesou-se, e ela o sentiu. Mordeu o lábio, sem olhar para ele, porque sabia que, se o fizesse, iria vacilar tornar-se vulnerável. Além do mais, garantia a si mesma, como forma de consolo, Sasuke merecia uma leve alfinetada, já que fizera ressurgir a paixão entre ambos e a deixara esquecer toda a dor de sua iminente separação.

Preparou-se para receber uma resposta dura, para poder rebatê-la e encontrar um motivo para deixar aquela cama e sair em busca do que seus criados tivessem descoberto. Assim que a manhã chegasse e os dois tivessem de se separar para sempre, talvez ainda sentisse algum arrependimento, mas precisava ser assim, assegurou a si mesma.

Contudo, para sua surpresa, Sasuke nada disse, apenas abraçou-a ainda mais, carinhoso. E assim permaneceu por alguns segundos, até que murmurou:

— Minha querida... Não é de admirar que você se rebele contra qualquer coisa que tente deter seus atos.

A inesperada compreensão deixou-a muda. Era bom ser tão bem compreendida, mas era assustador também. E ele prosseguiu, deixando-a ainda mais pasma diante de sua reação:

— Não é de admirar também que se recuse a desistir do controle que tem sobre tudo em sua vida. Mesmo que isso signifique ter de sair no meio da noite atrás de seu sobrinho, quando eu mesmo poderia tê-lo feito sozinho.

Sakura respirou fundo. Como poderia ir contra tamanho senso de bondade?! Ele conseguia fazer com que ela se abrisse! Conseguia deixá-la vulnerável com sua compreensão! Como ela podia estar certa de que Sasuke algum dia não usaria esse poder que possuía sobre ela?!

Mas ele parecia estar absorto em seus próprios pensamentos para perceber que ela mudava de atitude.

— Não é de estranhar que você tenha se contentado apenas com romances — ele ponderou. — Porque não quer mais se submeter à tirania de um marido!

— Ora, como ousa Sasuke Uchiha! — Sakura protestou, afastando-se de vez dele. Olhou-o, irritada, os lindos olhos verdes flamejantes de indignação. — Como ousa julgar-me e sentir pena de mim?!

— Mas, minha querida, eu não quis...

Ela deixou de olhá-lo. Aquela expressão de surpresa no rosto dele deixava-a ainda mais vulnerável, com vontade de atirar-se novamente em seus braços e esperar que, de alguma forma milagrosa, Sasuke fosse capaz de consertar tudo que dera errado em sua vida. Detestava estar exposta assim diante dele.

— Oh, deixe para lá suas palavras de consolo! — exclamou querendo escapar daquela situação quanto antes. Passou a mão nas roupas e continuou, zangada: — "Apenas com romances"! Pois sim! Pois saiba que esses romances passageiros podem ser tão cansativos quanto um marido quando levam tempo demais para acabar! E um amante pode ser tão tirânico quanto um marido quando se recusa a manter-se a uma distância segura!

— Calma Sakura. Eu estava apenas tentando dizer que entendo e que me preocupo com você. Isso é tão ruim assim?

Ela se vestia bem afastada da cama.

— Nunca lhe pedi que entendesse nada — rebateu querendo apenas que ele parasse com aquelas palavras gentis que a tocavam cada vez mais e a faziam fraquejar. — Nunca lhe pedi... — Interrompeu-se devido a um soluço involuntário. — Nunca lhe pedi para que se preocupasse comigo!

Ela foi até a cômoda e despejou um pouco de água numa bacia. Não queria mais ouvi-lo. Queria apenas escapar dali, daquela situação, dos sentimentos que invadiam seu peito e a atormentavam.

Molhou a ponta de uma toalha na água e começou a passá-la pelo corpo, sentindo-o, de repente, frio e arrepiado. Era melhor assim, pensou. Assim esqueceria os momentos de paixão que haviam acabado de viver e poderia pensar melhor. Quando terminou, estendeu o braço para pegar seu vestido e viu que Sasuke havia se levantado e estava ao lado da cama, ainda nu. E sentiu-se novamente presa de uma violenta paixão por ele. Forçou-se a encará-lo, imaginando que ele poderia estar furioso por sua atitude intempestiva.

Não entendeu, porém, o que viu em sua expressão. Poderia ser calma ou raiva controlada, fria, ou ainda uma angústia muda ou uma decepção amarga. Ou tudo isso misturado, além de algo mais que a atingia mais do que tudo, mais do que queria admitir.

Sasuke não olhava para seu corpo ainda despido. Olhava-a nos olhos e fazia, com os seus, uma pergunta muda, mas imperiosa, que, no entanto, Sakura não conseguia entender, muito embora a resposta estivesse com ela, sem que a quisesse dar.

— Eu já lhe disse uma vez — ele começou calmo — que não podemos escolher quem irá se preocupar conosco, gostar de nós... Não lhe estou pedindo nada, Sakura, e jamais tirarei coisa alguma de você. Mas não pode dar ordens ao meu coração, como eu mesmo não posso.

Ela apertou os lábios, reconhecendo que Sasuke devia estar furioso. Tinha todo o direito de fazê-lo, sim. Todos, em sua vida, tinham dado-lhe as costas quando ela não agira à altura do que esperavam. Por que Sasuke Uchiha seria diferente? Perguntava-se, amarga. E a resposta, em sua mente, desafiava seus sentidos: porque ele "era" diferente, porque não dava e nem mostrava amor facilmente. Mas, quando o dava, sua afeição era constante e dedicada, sempre pronta a fazer-se notar por atitudes muito mais do que por palavras.

E, nesse momento, Sakura nada mais queria além de poder atirar-se nos braços de Sasuke e aceitar o que ele lhe oferecia. No entanto uma náusea intensa formava-se em seu estômago, deixando-a aflita. Nunca se sentira assim tão mal, avaliou. E, sem ousar dizer uma palavra, com medo de vomitar, vestiu-se, apressada, e passou por Sasuke e saiu depressa para o corredor. Seguiu por ele, sem olhar para trás, e atingiu a porta dos fundos da hospedaria.

Continuou, na densa escuridão da noite, até os estábulos. Lá, o cheiro dos animais a fez vomitar. Apoiara-se à parede, tentando seguir adiante, mas parando muitas vezes para aliviar seu estômago revolvido.

Sentia-o vazio como sua vida fora antes de Sasuke aparecer. Talvez, analisava, enquanto respirava fundo recobrando-se de um último espasmo, fosse melhor reconsiderar seus planos para o futuro. Planos nos quais não havia espaço para um homem, muito menos para o pai de seu filho.

Mas primeiro precisava colocar certa distância entre ambos, para poder pensar em tudo com clareza e decidir-se sem sofrer influências de outras pessoas. Afinal, havia tanto em jogo! Seu bem-estar, o bem-estar de seu filho! Não podia deixar-se influenciar pelos sentimentos agitados e profundos que Sasuke lhe provocava. Muito menos podia deixar que ele descobrisse sobre sua gravidez, porque, assim, iria insistir em se casar com ela apenas para cumprir com seu dever. Ela merecia mais do que isso, e seu filho também. Até mesmo Sasuke merecia algo melhor em toda aquela situação.

Assim, por todos, devia pensar com mais cuidado, avaliar as possibilidades, seguir atrás de seu sobrinho e, ao encontrá-lo, voltar para a sua vida rotineira e pensar bastante sobre o caso. Se, ao final de suas reflexões, decidisse arriscar seu coração e aceitar Sasuke, saberia onde encontrá-lo.

Ouviu passos apressados se aproximando e afastou-se da parede. Foi então que viu Sasuke entrando no estábulo.

— Sakura? — A voz dele mostrava claramente sua preocupação. Ao vê-la, segurou-a pelos ombros, tentando ampará-la, pois percebia-a fraca. — O que está fazendo aqui?! Por que saiu correndo daquele jeito?!

Ela o puxou consigo para fora, evitando que percebesse que vomitara.

— Eu é que pergunto o que está fazendo aqui fora, neste frio, com essas roupas ainda úmidas!

Ele sorriu e explicou:

— Achei que seria bem melhor arriscar um resfriado do que um processo por atentado ao pudor, se eu saísse nu do quarto. Agora, vamos voltar e nos aquecermos, está bem? Prometo não aborrecê-la de modo algum, certo? Prometo até sair do quarto, se é o que você quer.

— Olhe Sasuke, eu... — Sakura buscava palavras que explicassem seu comportamento estranho, mas outros passos chamaram-lhe a atenção.

Havia também vozes no ar frio da noite. Vozes que ela reconhecia.

— Sr. Hixon, Ned, são vocês? — indagou.

Os dois criados apareciam por entre as sombras, e suas expressões eram de surpresa.

— Senhora! Esteve esperando por nós aqui?! — perguntou o cocheiro, abismado. — E o senhor, Sr. Uchiha! Já em pé!

Sakura rebateu as perguntas com a sua:

— Encontraram a Srta. Uchiha e meu sobrinho? Onde estão hospedados? Precisamos seguir imediatamente até eles!

O Sr. Hixon pareceu hesitar. Até que falou:

— Estivemos em todas as hospedarias de Gloucester, senhora.

— Duas vezes! — Ned acrescentou.

— E? — Ela começava a se afligir.

— Nem sinal dos dois, senhora.

Sakura respirou fundo. Agora, o que mais poderia fazer? Indagou-se, mas ficou sem resposta.

Notas finais
Acabei de fazer bolo de leite. Querem uma fatia? Até mais. Bjjss ^♥^