O Agente Sombra - Histórias do Submundo
2 Capítulo 2
Poucas horas mais tarde, já nos encontrávamos na entrada subterrânea da Sede da Ordem, localizada em um antigo túnel abandonado do metrô de Montevidéu, no Uruguai. Trent e eu descarregamos o corpo imóvel de Samuel do vagão negro onde se lia: transporte exclusivo de Agentes Sombra, e o carregamos até a grande porta que dava para o subsolo do edifício.
\\t\\t No painel logo ao lado da porta, que estava, obviamente, trancada, eu digitei minha senha e me identifiquei. Logo em seguida a porta se abriu, revelando um grande elevador antigo de paredes douradas. Entramos e eu ordenei para o painel:
\\t\\t -77º andar. Sala do Conselho!
\\t\\t O elevador obedeceu de imediato e começou a subir em uma velocidade alucinante, embora nós do lado de dentro praticamente nem sentíssemos nada. Apesar de serem mais de 77 andares de subida (pois estávamos debaixo da terra) chegamos em pouco mais de um minuto. O elevador se abriu e anunciou:
\\t\\t -Sala do Conselho. 77º andar. Boa sorte.
\\t\\t -Obrigado –respondeu Louis automaticamente, enquanto retirávamos o corpo do cafetão do elevador e o deitávamos em um dos bancos da antesala, aquela hora vazia.
\\t\\t Era uma grande antesala, com paredes de vidro de onde se enxergava praticamente todo o centro da cidade.
\\t\\t Isso mesmo! O prédio da Sede Latina da Ordem de Noite localizava-se justamente no centro de uma das maiores cidades da América do Sul. Como poderia ser secreta então? Uma palavra: Discrição.
\\t\\t A primeira coisa que os membros da Ordem aprendem é a agirem discretamente. Não chamar a atenção dos leigos. Além do que nosso sistema de segurança era praticamente perfeito. Afinal quem iria desconfiar de um prédio velho de 6 ou 7 andares que servia de arquivo histórico da prefeitura. Pelo menos era esse o disfarce.
\\t\\t Sim, porque o prédio da Sede era algo inacreditável. Talvez quase uma maravilha arquitetônica. Era alto (77 andares, sem contar os andares secretos e subterrâneos), negro e espelhado, quase como uma torre de vidro e sombra negra como a noite se elevando em direção ao céu celeste da capital uruguaia. E logo acima do último andar, que é onde me encontro agora, se erguem duas antenas, quase como garras, que servem para monitorar as atividades no submundo e a localização das missões e dos Agentes fora da Sede.
\\t\\t Logo me dirijo a um dos recepcionistas da Sala do Conselho. Eram cinco no total, três homens e duas mulheres, todos Vultos. Me dirijo ao mais próximo, que sei se chamar Tom.
\\t\\t -Boa noite, agente Tom –falei tentando ser o mais polido possível. Ele não respondeu da mesma forma...
\\t\\t -O que querem aqui? –disse com sua voz rouca de guarda de câmara mortuária –A reunião do Conselho terminou faz meia hora. A maioria dos Warlocks já foi embora.
\\t\\t Já que ele foi mal-educado, decidi seguir na dança dele:
\\t\\t -Sazonay ainda está aí, não? –perguntei erguendo a sobrancelha
\\t\\t -É SENHOR Sazonay –ele ficou vermelho –Não deve se dirigir ao chefe do Conselho assim. Além do que não é da sua conta.
\\t\\t -O SR. Sazonay –continuei, mantendo o tom de voz inalterado –pediu que trouxesse isso.- e apontei para o inconsciente Samuel –quer mesmo deixá-lo esperando ou vai chamá-lo agora?
\\t\\t -Como posso ter certeza de que não é um truque?
\\t\\t Tive vontade de dizer: Se eu quisesse já teria matado você e inundado o chão com seu sangue imundo seu Vultozinho de merda. Mas me contive e apenas respondi:
\\t\\t -Recebi ordens expressas de encontrá-lo aqui logo que cumprisse a missão – como ele continuava me olhando, falei – ele me avisou sobre sua desconfiança, agente, e me mandou de dizer a senha: Águia Prateada
\\t\\t Ele fez uma cara de incredulidade, assim como os outros 4. Uma das mulheres se aproximou e disse, se dirigindo á mim:
\\t\\t -Como pode saber a senha de hoje?
\\t\\t -Ora, vamos Cláudia! –virei-me para ela –Esse imbecil já te infectou com a estupidez dele? Sabe que eu não viria aqui se não estivesse falando sério.
\\t\\t Ela me olhou. Me conhecia. Fomos a algumas missões juntos na minha época como Vulto. Ela sabia que eu estava falando sério. Me encarou por alguns segundos e depois se dirigiu ao interfone na entrada da sala.
\\t\\t -Senhor Warlock Sazonay! –disse ela quase com os lábios colados no aparelho. Eu sabia que Trent nutria um certo desejo por ela, então fiz questão de me deslocar para o lado para que ele visse com clareza a proximidade da boca dela e do falante. Ela continuou – William Caster, Agente Sombra está aqui para vê-lo. Está acompanhado dos Agentes Vulto Trent Gale e Louis Galore, além de um indigente inconsciente. Diz que o Sr ordenou que viesse. — Do outro lado, ele deve ter respondido algo que não ouvi. Alguns segundos depois, a porta se abriu.
\\t\\t Não pude ver nada dentro da sala, pois estava totalmente escura. Eu estivera ali apenas uma vez, e me lembrava de algumas coisas, como a grande mesa circular com cadeiras onde os Conselheiros Warlock se sentavam, cada um com seu lugar cativo. Também lembro dos vários níveis de arquibancadas (vamos chamar assim) de onde os membros convidados poderiam assistir as reuniões. Haviam também telas enormes dispostas ao redor da mesa e das arquibancadas, para quando fosse necessária a participação de membros de outras Sedes nas reuniões, por videoconferência.
\\t\\t Então a silhueta de um homem magro e um pouco alto apareceu no arco da porta. Todos os 7 Agentes Vulto presentes se empertigaram e ajeitaram um pouco as roupas, dentre eles Trent e Louis. Eu apenas fiquei na mesma posição, encarando o local onde, eu sabia, logo apareceriam os olhos azuis do Warlock Mor. Quando o rosto de Sazonay ficou visível, pude perceber algo diferente nele. Era um homem alto, como disse, de mais ou menos 60 anos. Seus cabelos ainda eram negros, porém era careca no topo da cabeça. Para compensar, usava um bigode ralo. Sua presença era notada, porque o único mais alto que ele entre os presentes era Trent, que mesmo assim parecia se encolher para ficar no mesmo nível do Conselheiro. Já eu, o mais baixo de todos, encarei aqueles olhos azuis como se estivessem na mesma altura dos meus. E ele estava vestido como eu. Embora usasse o sobretudo fechado por sobreas vestes, diferente do meu, que eu usava aberto par facilitar o acesso ás minhas armas durante uma batalha.
\\t\\t Apesar de todas essas características já conhecidas, notei algo mais nele. Não sei por que mas ele parecia mais preocupado que de costume. Mais frio talvez, se é que era possível. Algo que lembravam rugas ladeavam seu rosto dos dois lados, e olheiras escuras circundavam os olhos, contrastando com o azul vivo de sua íris. Quando ele falou, se dirigiu á mim, pomposo como sempre. Ele sempre fora pomposo, mas quando se tratava de minha pessoa, havia um pouquinho mais de pompa em sua voz. E a mesma quantia de algo que sempre me pareceu um calculado desdém.
\\t\\t - Então Agente William. Vejo que minhas ordens de que você fosse designado para a missão foram cumpridas à risca. E conseguiu cumprir com sua tarefa?
\\t\\t -Como sempre, Warlock Sazonay. –respondi com o mesmo tom de pompa, misturada com indiferença. Nunca fui um fã convicto de Sazonay, mas devo admitir que ele merece crédito. Ultimamente seu trabalho está ficando muito mais complicado.
\\t\\t -Muito bom –disse ele olhando para o corpo inerte de Samuel –não esperava menos de você –então virou-se para Louis e Trent – e esses são os seus escudeiros, imagino. Não lembro se já os vi pessoalmente. Agentes Vulto Galore e Gale, certo?
\\t\\t -Sim senhor conselheiro –respondeu Louis quase automaticamente. Sabia que ele tinha um respeito excessivo, talvez até um contido receio, pela maiorias dos Warlocks, mas aquela sua atitude sempre me deixava meio irritado.
\\t\\t -Senhor Sazonay – perguntei, me sobrepondo á Louis –posso lhe fazer uma pergunta sobre essa missão de hoje?
\\t\\t -Na verdade, esse não é o momento, Sombra, sinto muito. Estou ocupadíssimo. Voltamos a falar com mais tempo. – disse-me ele, se esquivando. Estalou os dedos e dois dos Agentes Vulto pegaram o corpo de Samuel que começava a despertar. –Levem-no para a sala de interrogatório do 40º andar – os dois entraram no elevador com o desacordado cafetão e desceram. Sazonay voltou para dentro da sala e trancu a porta. Ficamos sozinhos na antesala.
\\t\\t -Ia perguntar por que ele te mandou? –pediu Trent.
\\t\\t -Sim –respondi –Mas acho que ele já sabia minha pergunta antes de eu fazê-la.
\\t\\t -E agora?
\\t\\t -Que se dane! – respondi- Vamos pegar o vagão pra casa. Tenho coisas pra fazer e o dia já vai amanhecer. Além do que, eu trabalho de manhã.
\\t\\t Os dois não me perguntaram mais nada enquanto descíamos o elevador, pegávamos o vagão no subsolo e em poucos minutos, como se viajássemos à velocidade do som, já estávamos de volta ao Brasil.
Notas finais
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