O Agente Sombra - Histórias do Submundo
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Esse cap. fala um pouco do outro lado de William, sua vida "normal". Descvulpem, se ficar meio chato ou espichado, mas eu tinha que falar do trabalho dele pra explicar sua relaçao com algumas pessoas e situações futuras. Espero que gostem
Acordei com o tradicional barulho do meu despertador de cabeceira. Eram 7 da manhã. Droga, pensei. Aquele barulho sempre me irritava, e eu havia jurado mais de mil vezes comprar um despertador menos irritante e atirar aquele contra a parede. Promessa até hoje não cumprida. Porém eu estava mais irritado que de costume. Havia dormido apenas 3 horas. Não que isso fosse problema, pois se fosse eu não serviria para Sombra. Afinal aprendemos em nosso treinamento certas técnicas para aproveitar ao máximo nossas poucas horas de sono por noite. E na noite passada eu havia aliado essas técnicas a uma que eu mesmo inventei: meio litro de uísque sem gelo, três aspirinas, um banho gelado, e em seguida um cobertor térmico. Tiro e queda.
Mas, obviamente, não são apenas os problemas de minha vida noturna que me incomodam. Há também os de minha vida diurna. E esses eu não posso resolver fazendo alguém sangrar até a morte com um punhal afiado.
Para explicar: trabalho em uma empresa de atacado e varejo de produtos de supermercado. Eu sou responsável por toda a compra, venda e estocagem geral dos produtos da parte de higiene. Podem imaginar a quantidade de informações que eu tenho que processar diariamente. E além disso, há alguns meses, tenho tido um outro “problema”.
Há uma garota, uma mulher, nós trabalhamos juntos, e eu acabei por me interessar por ela. Até aí tudo bem. Só há um problema: ela é casada.Seria fácil resolver. Mato ele discretamente, como bom Sombra que sou, estripo o desgraçado até a morte, fazendo-o sangrar quantidades inimagináveis de sangue, e depois ofereço meu ombro para que ela chore. Mas há dois problemas nesse plano aparentemente genial. Primeiro: não sou tão frio a ponto de matar um humano á sangue frio sem ter um motivo racional pra isso. E como todos sabem, motivos emocionais nunca são racionais. Segundo: nem sei se ela choraria mesmo por ele, afinal de contas, eles vivem brigando. Não que isso não me dê esperanças, mas...
Depois de alguns minutos pensando nessa situação, finalmente decido por me levantar e me vestir, já que, sabia, o dia seria longo. Abotôo a camisa e calço os sapatos. Antes de sair ainda tomo um xícara de café quente, para arrematar o efeito do uísque da noite passada.
Moro próximo de onde trabalho, então não há a necessidade de sair de carro. Ando apenas algumas quadras e já estou nas portas do prédio. Pego o elevador e subo até o terceiro andar.
-Bom dia Maryan! –como sempre, essa é a primeira coisa que faço quando chego: dar bom dia para ela. Não consigo imaginar meu dia sem ver o sorriso dela pela manhã.
-Bom dia Will! –ela respondeu, sorridente como sempre.
-É desnecessário eu lhe dizer o quanto está linda hoje, porque você está linda todos os dias.
-William, já não te pedi pra parar com isso?
-O que? Só estou te elogiando. Além do que ninguém ouviu nada.
Nossa convivência é sempre assim. Ou pelo menos desde o dia em que eu anonimamente mandei para ele um buquê de rosas vermelhas. Quer dizer, era para ser anônimo. Mas ela acabou descobrindo que tinha sido eu e me vi forçado a admitir meus sentimentos por ela.
Desde então eu vivo cortejando-a e ela, apesar de gostar, fingi não estar interessada e me diz que o que eu quero é impossível de se alcançar. Ela também vive me pedindo para ser discreto. Logo para mim, um dos melhores Sombras da década, ela vem pedir descrição. Se ela soubesse...
E ela estava realmente linda, de blusa preta e calça rosa, sandálias prateadas. Seu rosto era de um anjo. Pele bem clara, com pequenas sardas rosadas nas bochechas. Cabelos quase negros, um pouco acima da altura dos ombros, e olhos castanhos como mel. Era baixinha, assim como eu, e ostentava um falso ar de indefesa, o que me deixava ainda mais atraído. Outro detalhe era sua voz: suave como vento e de palavras calculadamente pausadas. Além do seu perfume, adocicado e suave, que eu jurava ser capaz de reconhecer á quilômetros de distância.
Fiquei olhando nos olhos dela alguns instantes antes de me dirigir ao meu trabalho. Que por sinal não era pouco. Só na parte da manhã, três fornecedores. Nem tive tempo de almoçar. Á tarde, levantamento de estoque e clientes para contatar. O dia passara voando e quando percebi já estava anoitecendo. Decidi que na adiantava insistir mais naquelas planilhas e resolvi ir embora. Enquanto me dirigia ao elevador com Alex (o único ali a quem eu podia contar quase tudo) ouvi um barulho no corredor.
Toc, toc, toc,: barulho de saltos.
-Quem será? –perguntou Alex
-Maryam! –respondi de pronto. Meu coração deu um salto.
-Sabe que é ela só pelo barulho dos passos?
-Pela leveza dos passos, para ser mais exato –respondi
Então ela apareceu no final do corredor, com o telefone celular na mão e uma expressão desapontada no rosto. Nem precisei perguntar o que ela tinha pois já percebi. Já Alex, nada sutil, como sempre (por que, tirando Louis, nenhum de meus amigos sabe ser sutil???), não se conteve.
-O que houve com você? Por que essa cara?
-Nada! –disse ela, esboçando um sorriso fraco. Mas para mim qualquer sorriso dela, mesmo que fraco, já era suficiente para iluminar a cidade inteira.
Descemos até o térreo e nos dirigimos á rua. Olhei ao redor e não vi o carro do marido de Maryam. Um sentimento que não sei explicar tomou conta de mim. Ela se dirigiu acalçada e gritou por um taxi.
-Seu marido não vem te buscar? –perguntou Alex. A inconveniência dele me irrita às vezes.
-Não. –ela respondeu, cabisbaixa –Ele não pode vir. Compromisso importante e...
-Quer que te leve para casa? –a pergunta eclodiu da minha garganta quase involuntariamente –Minha casa está perto. Posso ir buscar meu carro e...
-Não precisa. Não se incomode comigo — disse ela entrando no taxi –Nos vemos amanhã!
Pode ter certeza que sim meu amor foi o pensamento que me veio a cabeça. Embora eu soubesse que voltaria a vê-la ainda naquela noite, quando finalmente deitasse na cama e adormecesse, já que ela povoava meus sonhos todas as noites desde aquele dia com as flores.
Alex e eu fomos caminhando para casa, já que morávamos perto. No caminho ele disse que tinha combinado de encontrar uns amigos pra beber e perguntou se eu não queria ir junto. Por força do hábito, disse que não.
-Você precisa se distrair –disse ele – Tirar essa mulher da sua cabeça.
-Valeu! – respondi – Mas fica para a próxima.
Nos despedimos e ele seguiu pela rua já meio escura até o bar onde eu sabia que ele sempre encontrava os amigos.
Tirá-la da cabeça? Como eu poderia tirá-la da minha cabeça? E mesmo que eu conseguisse, teria também que tirá-la do meu coração, que era a parte mais difícil.
Fui andando até em casa. Entrei, tirei os sapatos e decidi tomar um banho gelado para colocar a cabeça no lugar. A água sempre me fez bem. Me faz pensar, refletir. Depois do banho me sentia um pouco mais tranqüilo. Peguei meu celular, enquanto comia alguma coisa rápida da geladeira.
Toquei a tela do celular com meu anel da mão direita (esqueci de mencionar o anel. É um símbolo dos agentes da Ordem. Cada nível usa um diferente) e a tela se transformou. Ficou preta, assim como o teclado. Agora eu estava conectado com a rede da interna dos Agentes.
Verifiquei minhas mensagens. Tinha uma de Louis: Me encontrem no terraço do meu prédio ás 22:00 hs. Terminei de comer, vesti minhas roupas pretas, inclusive o sobretudo, apesar do calor (nossas roupas eram feitas de tecido termicamente adaptável) e saí pela janela, trancando-a ao sair, e subindo até o telhado do prédio vizinho, de onde fui pulando de telhado em telhado.
Eu sempre me encontrava com Trent primeiro quando íamos para a Sede, mas decidi mudar o trajeto. Não sabia o quanto aquilo me afetaria.
Quando estava à apenas algumas quadras do prédio de Louis algo me fez parar no terraço de um prédio comercial. Um cheiro estranho, que não consegui identificar e um barulho de vozes na rua. Olhei para baixo tentando localizar afonte do barulho e meus olhos recaíram sobre algo familiar. Um carro que eu conhecia bem estava parado ali. O carro do marido de Maryam.
Só então me dei conta de onde vinham as vozes. Havia um estabelecimento com luzes acesas no térreo do prédio onde eu me encontrava. Várias pessoas, em sua maioria homens, entravam pelas portas abertas. Me camuflei nas sombras e me esgueirei até um ponto escuro próximo á porta (outro detalhe que esqueci de mencionar: eu, como Sombra, tenho um certo controle sobre as sombras, podendo movê-las à bel prazer sempre que for necessário me ocultar nelas). Notei várias vozes masculinas no interior do lugar, que julguei ser um bar qualquer. Mas o que ele estava fazendo ali? Ela disse que ele tinha um compromisso importante. Se fosse isso, então não deveria estar trabalhando? Ou será que esse era o seu compromisso importante?
Meu sangue começou a subir para a cabeça e uma sensação estranho tomou conta do meu corpo. Meus dedos formigavam e meus olhos ardiam. Como ele poderia estar ali, deixando sua esposa ir sozinha para casa após um dia longo de trabalho? Come ela poderia não se importar com o cansaço dela? Como ele podia simplesmente ignorá-la, nem ir buscá-la á noite, para ir a um lugar desses? Nesse instante, ele saiu pela porta. Era um homem encorpado, um pouco mais alto que eu, e certamente alguns bons quilos mais gordo. Tina o rosto largo, cabelo era ralo e tinha por volta de 40 anos (bem mais do que ela). Enquanto ele saia, outros cara, provavelmente amigos dele, gritavam em despedida. Me aproximei para ouvir:
-Até mais então! –disse um magro, que parecia meio bêbado.
-Vai logo se não sua mulher te bate! –disse outro, mais alto, que parecia ainda estar sóbrio.
-Não vai não. –respondeu ele, sorrindo com aquela cara larga – Ela vai gostar do que vou fazer com ela quando chegar. –completou, esfregando as mãos.
Minha raiva quadruplicou. Senti ódio só de saber que ele tocaria nela, naquele corpo angelical, com aquelas mãos de gorila. Desgraçado! Tive vontade de segui-lo, parar o carro, arrancá-lo para fora e matá-lo antes que chegasse em casa. Quase sai atrás dele, então meu celular tocou. Era Louis.
Quase tinha me esquecido dele, e parti rapidamente atravessando a pouca distância que separava o lugar onde eu estava da casa dele. Quando cheguei ele parecia nervoso.
-Onde estava? Por que não atende o celular? Marquei com você há 10 minutos –disse ele, ranzinza.
-Desculpe. –respondi, ainda meio perdido com o que tinha visto. Aquele desgraçado, como ousa tocar nela depois de tudo? –Vamos encontrar o Trent? –perguntei, tentando sair do meu devaneio. Aquele gorila ainda me paga...
Notas finais
E peço mais reviews por obséquio!!!!!
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