O Abraço da Geada
2 Capítulo I - O Pijama Branco
O tempo estava mórbido, triste, silencioso, obscuro, como se este cavaleiro dimensional estivesse descansando após uma longa batalha. Os mognos, retorcidos, frios e imóveis, faziam o estremecido sofrimento onipresente na vida dos mortais. Os cavaleiros de madeira, sempre vivos, cheios de energia e vida, agora jaziam quietos, paralisados, com medo do mar branco que tomara conta de seu reino. Metacarpos e falanges amigas se abraçavam, vestidas de veludos vermelhos, amantes em busca do calor que fora roubado pelo Mar Branco. Fios negros estavam cobertos. Não se via nada. Branco. Branco. White. Shiroi. Branco. Os dedos dos cavaleiros paralisados passavam perto de seu rosto, como se desejassem-lhe a cinética, estremeciam como se estivessem sendo machucados, mexendo-se com a dança de Bóreas. Flocos de neve, pálidos de medo, caíam numa dança extremamente bem treinada. Não havia animais, nada de pássaros, cachorros ou gatos, e o lago estava congelado, escondendo os peixes da crueldade gelada. O tapete cinza com a saliva do mar sob seus pés era caminho para casa. Longos caminhos de pedra se faziam ao longo do horizonte, levando a diversas bifurcações e vales silenciosos. É tenebroso pensar em quantas vezes teve, tem e teria que ser lambido pela saliva do Mar Branco... Nojento.
Obra de Deus, diziam seus vizinhos. Não acreditava nessa baboseira de deus, nem de espíritos, nem de Éden nem de Inferno, nem em nenhuma crença teológica sob a regência da Terra Média. Era simples a explicação: o véu chorava tanto, mas tanto com o sofrimento frígido que era ter como cobertos seres argilosos com chamas incendiadoras, que as lágrimas endureciam e, pesadas, caíam em uníssono, pois o sofrimento é perfeito. A terra, triste com a tristeza do véu, tentava consolar a amiga e, aproveitando o momento de fraqueza dos dois, o frio sofrido ganhava força e tomava conta do Reino.
Ao longo do tapete de pedra, andava ele, solitário. Havia feito uma pausa da Fortuna, pois estava com vontade de reencontrar sua querida amiga Maria Joana. Apesar do frio, seu sabor mentolado lhe agradava como bala de menta após uma tigela de curry ardente. Fortuna também lhe agradava, mas ela não fazia ver coisas diferentes. Ah... Como amava as duas. Mas confesso que tinha uma queda pelo Otávio Xavier Isidoro, que queimava os lábios... O que estaria falando? A Maria Joana dele devia estar me fazendo viajar. Gostava apenas das duas primeiras, a Maria e a Fortuna...
Suas chaves tilintavam em seus bolsos, a caminho de casa. Caminhava pela rua silenciosa e vazia, com alguns guerreiros petrificados e pedras humanamente deformadas. O chão estava um pouco escorregadio, mas nada que fizesse escorregar. Caminhava tranquilamente até sua casa, a casa da família Amazias. Um portal com o nome da família em seu topo, sustentado por duas colunas de pedra meio velhas e com um pouco de teia de aranha, aguardavam sua volta. Dois leões, sobre os pilares que sustentavam o arco familiar, pareciam os mesmos, com as bocas abertas e patas erguidas, parecendo hibernar tranquilamente, com o ar saindo de seus corpos em forma de nuvens brancas, enquanto ele, aqui, num frio infernal. Odiava esses leões. Por que seu pai gostava tanto deles? Talvez fosse para lembrá-lo do rugido de uma leoa que largou um leão por um tigre, pois aquele dormiu demais que nem viu o trabalho que a leoa tinha para juntar comida.
Bem, que merda.
Pelo jardim, o mar branco realizara um tsunami sobre o tapete verde. Porra! A saliva do mar branco ousava lamber até sua casa! Bem, cortaria sua língua depois, assim que arrumasse um piercing que pudesse acertar sua ramificação carótida.
Era bem chato pensar que a sua moradia, apesar de grande, branca, com a arquitetura gótica e linda, fosse tão... Chata. É chato pensar na chatice chata de uma coisa chatamente chata. Era sempre assim: chegava da escola — que seu pai pensava que frequentava -, ele dizia, do sofá da sala com uma lata de whisky, "A comida está na geladeira", comia, assistia à TV em seu quarto — porque o pai vivia assistindo na sala e não o deixava usá-la -, fazia suas necessidades, dava uma fumadinha — dizia pro seu pai que era incenso — e ia dormir. Sempre. Sempre. Forever.
Pôs a chave na fechadura, que só poderia ser aberta por uma chave, afinal, ela é fiel a seu leão. [Imagino, agora, uma coisa: seria uma boa ter uma chave que abrisse todo tipo de fechadura, mas não uma fechadura que é aberta por todo tipo de chave... Quer saber? Esquece.] Observava a barreira de mogno, estupenda, com seus detalhes escuros, barrocos, cheio de contornos e detalhes de luxo e ouro (que seria lindo se não fosse velho), esperando a mesma chatice chata da coisa chatamente chata. Pôs a mão na maçaneta de bronze que... Que fria! Doía até nos ossos! Desse jeito nem a Maria Joana iria acordar hoje! Girou-a dois-pi e empurrou com o torque. A porta gemeu. Não se preocupe, é normal em casa de gente chatamente chata ter a alguma coisa gemendo.
Observou a úvula alaranjada balançar levemente à entrada sua e do vento. O corredor de entrada estava estranhamente escuro e diferente. Bem, parecia que a chatice chata não estava com força total por hoje. O mancebo, com o chapéu preto e o sobretudo negro de meu pai, aguardava pelo seu casaco, mas estava muito frio para tirá-lo e resolveu ignorar. O armariozinho que sustentava um baú parecia sofrer diante do peso, além do frio. O espelho, quebrado como sempre. O abajur, estranhamente, estava com teias de aranha. A boneca macabra à Annabelle — a da vida real (Raggedy Ann), não a do filme -, com seu rosto "sorridentemente" triste e de um vestido meio que de velha, de maquiagem tipo Bozo, com a usual caixinha de música bronzeada que só tocava — porque parou de funcionar — Marionette. Por que ela estava com o cabelo maior? Deixa pra lá. Afe. Ninguém entendia esse gosto estranho de seu pai.
Escuro. Só se via a luz da cozinha acesa ao fundo do corredor. Provavelmente seu pai fora dormir. Que preguiçoso do caralho! Mas, pelo menos, poderia assistir TV na sala. Que barulho foi esse? Deve ter sido seu pai andando. Enfim...
Foi à cozinha, pegou o pedaço de pizza de sempre e lavou a mão. Estranhamente, sentia alguma coisa atrás dele, observando-o. Via um vulto parado na porta da cozinha pelo reflexo da louça, sem falar nada, como se esperasse que virasse para olhar. Devia ser seu pai, aquele vagabundo. Afe, agora esse gordo ia querer usar a sala mas, mesmo não gostando dele, dar-lhe-ia um olá só de educação.
–Oi... pai...
Ele esperava seu pai olhando, como se dissesse "Não vai falar comigo, seu idiota?", mas não tinha ninguém, devendo ter sido apenas sua imaginação (ou o efeito de ter abusado da Maria Joana). Bem, que seja. Foi ver se estava passando alguma coisa na TV. Pegou o prato de pizza, colocou-o na mesa de centro e se sentou na poltrona de couro negro no canto da sala, em frente à TV. A lareira estava com o fogo quase sumido, e a cabeça de veado empalhada parecia nos olhar. Calafrios. Passava seus olhos observando a sala de estar. Escura, grande. Tinha uma katana em cima do armário, uns retratos dos leões antes da leoa ficar com o tigre, outra boneca macabra em cima da estante olhando... Seu cabelo também estava maior... A janela rangia. Merda, por que estava nervoso? Essas baboseiras espirituais não lhe fazem parte, afinal, a tela era sua e não ligava se seu pincel fosse torto. Crer ou não crer, eis a questão... Não cria e ponto final. Espera... O que era aquilo? Olhos avermelhados, obscuros, escondidos na ausência da luz, na fenda da porta da sala? Por que estava paralisado?! Eles olhavam para ele, calmos, mas mortais... Esfregou os olhos e olhou de novo... Não havia nenhum olho de olho nele. Ele jurava ter visto dois olhos escuros, vidrados, cálidos, tristes, mas também altivos. Era como se um leão estivesse caçando um veado... Péssima comparação. Reformulo: era como se um leão estivesse caçando um gnu. Maldita Maria Joana... Deve ter sido plena ilusão.
Ligou a televisão e botou em um canal qualquer, buscando algum conteúdo que valesse a pena. [Botar... Por que se bota uma calça e por que se calça uma bota? Deixa pra lá.] Estava passando um filme que ele, sinceramente, nunca tinha ouvido antes. A Menina da Lacuna... Era de terror, não acredito nessas histórias, e era por isso que não iria assitir. Não tinha nada de bom passando! Desse jeito teria que assistir Animal Planet e... ah!, que seja! Veria animais trepando mesmo, melhor que as baboseiras de um filme de terror. Mas é uma coisa chata, sabe, quando você quer assistir a uma coisa legal e o que você assiste? Kama Sutra animal. Viu um pouco do documentário, mas, sem querer, acabou por pegar no sono.
Dormiu pesado e por tempo demais, pois, agora, já era de noite. Estava nevando forte de novo e ventando muito. Onde estaria sua pizza? Ah, deve ter comido e deixado na cozinha... A boneca macabra continuava encarando... Por que seu cabelo estava bem maior do que antes?
Fechou os olhos e dei uma baita bocejada. Quando os abriu, atrás da porta estava uma menina de vestido branco, meio que assustada, olhando para ele.
–Quem é você? Eu não me lembro de você estar aqui antes — falava calmamente, buscando esconder seu susto.
–Eu... Eu sou sobrinha de seu pai... Cheguei enquanto você dormia — disse ela, ainda atrás da porta, olhando-o meio que pela fenda. Seus cabelos eram negros, lisos e sedosos. Seriam lindos se não fossem tão escuros.
–O que foi, garotinha? Não precisa ter medo — levantou-se da cadeira, indo em direção a ela, até parar a uns dois metros dela.
–Senhor... Você brinca de esconde-esconde... Comigo? — ela perguntou, saindo meio que timidamente.
–Claro que sim. Quem começa se escondendo?
–Pode ser eu...
Dito isso, a menina saiu correndo e foi se esconder.
Começou a contar até cem. Um, dois, três... Foi demorado, mas terminou e começou a procurá-la. Estranho. Suas mãos estavam mais brancas que o normal.
Começou pela cozinha. Era meio óbvio que ela não iria se esconder no térreo, mas era melhor checar em todo lugar. A luz cinza sempre lhe deu calafrios. A geladeira ronronava, a torneira pingava. Abriu todos os armários, um a um, mas nada da menina. O lustre, de repente, balançou bruscamente, e ele olhou para trás levando um susto. Não havia nada, tendo sido talvez o vento que entrava pela janela. Foi, então, para o lavabo do lado da sala de estar.
Lá dentro, somente a pia pingando e uma toalha do lado. O vaso estava fechado e o armário também. Interessante como aquele vaso era consideravelmente bonito de se ver, com suas curvas e suas linhas extravagantes.
Logo que saiu do lavabo, ouviu um barulho lá de cima, parecendo uma porta se fechando... O armário! Só pode ser lá! Ele saiu correndo e foi subindo as escadas quase tropeçando no ar e no carpete vermelho, com algumas dobrinhas no meio do caminho. Virou no corredor e andou até a terceira porta do lado esquerdo, uma marrom com a maçaneta dourada. Entrando em seu quarto, foi direto para seu guarda-roupa e, em um movimento rápido, abriu-o com toda a sua força. Então lá estava... Estaria ela. Ficou confuso, de fato, e olhou ao seu redor, procurando algum sinal de vida. Dentro do armário, somente alguns casacos balançavam em seus cabides.
Porém, ao ouvir uma risada vinda de trás, seu corpo parou e refletiu: a menina fez isso para enganá-lo. Justo no momento em que ia se virar para ir atrás dela, uma mão segurou sua roupa, puxando com força, impedindo-o de se mover. Tentou fugir, mas logo foi puxado para dentro do guarda-roupa, e as portas se fecharam, deixando tudo escuro como breu depois da meia-noite.
Fale com o autor