O-ARN

1 Alvorada


Seus olhos negros eram a noite sem luar e neles eu encontrava o transporte para outra dimensão, onde estranhamente, eu conseguia encontrar paz em meio à escuridão. A sua escuridão.

Sentia seu Dodge 67 vibrar em cada curva feita, o perigo assolava com o abismo ao nosso redor, um movimento em falso e jamais veríamos o sol em tamanha imponência outra vez. E sorriamos ao cortar o vento como laminas no ar, sem nos importar com a alvorada que engolia nossas almas, praticamente nos obrigando a contemplar a beleza natural do que jamais veríamos novamente. A alvorada. A alvorada como naquele dia. Única.

- Ainda quer voltar para o cinema com a sua amiga?

Ele sorriu. Uma curva se erguendo no canto do seu lábio, sedutor e inaceitável. Podia sentir o cheiro da gasolina.

- Eu prometi que veríamos o filme.

Mais algumas curvas assustadoras e revigorantes. Podia sentir a vida e a juventude entrando em mim através do vento que golpeava meu rosto com violência. Meus cabelos passeando em volta de minha visão. Escuros e sedosos. Rugi para o vento, e ele rugiu para mim e Heitor rugiu para nós.

Sentada sob a porta fechada do Dodge, escorada em sua lataria preta e fria. Quantos anos ainda eu poderia ter de frescor? Quantos anos ainda poderiam ser meus? Quantas vezes eu ainda poderia roubar o tempo? Eu poderia?

Aquele parecia ser o último momento de minha vida e eu teria morrido extremamente feliz se realmente fosse, mas para meu azar aquele não era o último momento de minha vida e nem chegava perto de ser.

O que o futuro reservava para nós? O que estava por vir?

Mais uma epidemia tola e sem sentido, ela não nos impedia de dirigir rápido, ir às festas cheias de pessoas e dançar até o mundo acabar.

Na verdade, para mim, não importava muita coisa depois de família, amigos e Heitor. Epidemias? Tolas e sem sentido. Epidemias não acabam com países, não desunem ninguém. Epidemias garantem uma higienização mundial de forma calma e sem polemica. Pessoas precisam morrer para que outras possam viver, é a leia da sobrevivência, não é?

Ignorei os pensamentos e voltei para o acento de couro.

- Eu te deixo no cinema.

- Ainda é cedo, fico em casa e depois vou ao cinema.

- Como quiser...

Sua voz aveludada e sempre calma. Podia ser apunhalada com as mais duras palavras através daquela sensual voz.

Peguei o jornal sob a bancada da cozinha.

“Mais dez mortes pela nova infecção O-ARN. Decretado estado de emergência.”

Baboseira. Larguei em cima da mesa e fui para a sala.

- Vai voltar que horas hoje?

Era Madelaynne, minha irmã. Lindos olhos azuis como o céu em sua mais imponente visão. Cabelos à altura dos ombros, negros. Bela como só a natureza podia se manifestar.

- Eu ainda não sei. Terei que ver com Luna.

- E as mortes continuam. Até quando?! Até quando nossa política será totalmente inútil sem um pingo de empreendimento em qualquer tentativa de, ao menos, conter esse desespero generalizado?!

- Desde quando começou a ver esses programas?

- Opiniões sem fundamentos, eu sei. Não me pergunte por que ainda estou neste canal.

- Não vou mesmo.

Sentei no sofá com ela. Era apenas alguns meses mais velha que eu, mas nos entendíamos muito bem, era como se dividíssemos a mesma alma.

- Você não está preocupada?

- Com o que?

- Ah, com que sabor de pipoca você vai escolher para acompanhar sua coca-cola.

- Que besteira, você sabe que eu não gosto de salgada – Nós duas gargalhamos. Ela ficava ainda mais linda sorrindo. – Eu não sei... Acho que no fundo talvez eu me preocupe um pouco, mas depois me pergunto: Pra quê?

- Porque isso pode ser nossa morte. Eu sei que é meio difícil encontrar alguém doente por aí e fazer contato direto com essa pessoa, mas sempre existem possibilidades...

A morte que tanto nos assusta e que todos nós um dia enfrentamos e tememos... Por que tememos? É uma batalha sem perdedor.

- Não sei se deveríamos ter medo de morrer.

- O medo que temos é instintivo, não é o medo da morte, e sim do sofrimento.

- De qualquer forma, eu não deixaria você sofrer e você não me deixaria sofrer. Estamos seguras enquanto estivermos juntas.

Sorrimos uma para outra. A lealdade entre nós era evidente e eu jamais iria deixar qualquer um que fosse machucá-la, e o sentimento era totalmente recíproco. O que por sangue foi unido, nenhum homem pode separar.

- Ás vezes me pego duvidando de todo esse estardalhaço sobre um vírus mutante.

Gripe e varíola em uma coisa só? Quem iria mesmo acreditar nisso?

- Acha que é a única? Estava com Heitor no Dodge hoje e me peguei pensando que isso tudo é uma grande baboseira. Deve ser coisa do governo para dar uma limpada no estado.

Rimos desta vez. O humor ácido era hereditário na família.

- Enquanto tentam me convencer esperarei sentada aqui com minhas pipocas.

Ela soltou seu sorriso vitorioso e mastigou um pouco de pipoca.

- Não se faça de inocente, sei que assim que eu sair daqui vai aproveitar suas horas, sozinha em casa. Será o dia mais feliz da sua vida! Eu no cinema, nossos pais viajando. Qual vai ser o sortudo a conhecer nossa casa?

Fui interrompida pela almofada que saltou em meu rosto, as gargalhadas de Madelaynne e Off To The Races vindo do meu celular.

- Fala moça!

Voz engraçada. Amanda.

- E ai, tudo bom?

- Numa boa. Você já viu os noticiários?

- Eu já vi os noticiários, quer prever como vamos morrer ou vai deixar isso para os X-men?

- Não, não. Estou falando das dez mortes.

- Tá e daí?

- Você lembra de Hera?

- Lógico. Quieta, amiga, na dela... O que tem?

- Ela estava entre essas dez mortes.

Eu não sabia como reagir, desliguei o celular. Hera era uma menina com quem estudei, eu mal trocava uma palavra com ela, mas ela passou pela minha vida. Eu conheci Hera. Eu a via nos intervalos das aulas, eu fiz meu trabalho de matemática com Hera... E agora, ela estava morta. Simples assim.

A doença parecia estar se aproximando lentamente das pessoas que eu conhecia, rondando minha vida, sugando aos poucos minha energia. A morte de Hera era como o presságio do que estava por vir.

Preferi ignorar qualquer pensamento referente a essa situação, era só Hera. Hera, a menina da quinta série do trabalho de matemática.

Afastei as reflexões enquanto deslizava o rímel pelos cílios.

Depois de pronta voltei para sala com Madelaynne.

A luz da alvorada penetra pela sacada e entra em contato com o chão de taco e nossos corpos. Estendo minha mão e a observo sob a luz do sol, posso ver minhas veias esverdeadas em contraste com minha branca pele. Elas se estendem como riachos pela minha mão, dividindo-se em seus afluentes. Sangue. Consigo senti-lo, fazer-se como água para meu riacho, alimentando-me, dando cor a meu corpo. Sangue.

Posso enxergar pequenas partículas fragmentadas flutuando sob o ar, dançando sob a melodiosa música da alvorada, do crepúsculo da natureza. Os azuis olhos de Madelaynne ganham nova cor e contraste através dos impiedosos raios de luz. Luz. Tem luz em seus olhos azuis. Raios de iluminação atravessando os olhos de minha irmã, enquanto ela encarava a beleza do intangível. As azuis asas de uma borboleta batem, pequenas linhas negras atravessam, cortam e desbravam a extensão de suas asas, como veias em um corpo, era um dos detalhes que a fazia demasiadamente bela. Suas asas batem lentamente, minha visão pode fazê-la parar, minha mente a observa em seus mínimos detalhes, captando suas negras veias atravessando seu corpo. Devagar. Devagar. Meu coração acompanha suas asas. Posso ouvir a voz de Aynne ao fundo.

- No hospital hoje, quando doei sangue, disseram que meu sangue é super raro, acredita? -O!

E a borboleta para, intacta no ar, sublime, com suas asas abertas, me encarando com seus indomáveis olhos azuis. Minha mente para. O sol para, o mundo para por um instante. Estamos todos apreciando esse momento. Éramos um só neste instante e o tempo fotografou nosso momento em nossas memórias. Azul.

Quantas borboletas azuis existem no mundo?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.