O último inverno
3 O corpo

Drake 10 °C
Tentei me convencer um milhão de vezes depois que vi Olivia de que Ed Sullivan era alguém ruim, mas vê-la chorar, vê-la arrasada ajoelhada no chão sujo do cemitério como um pequeno anjo negro que perdeu sua batalha, fez algumas memórias minhas sobre ele se apagarem de minha mente.
Quando a vi sair em um rompante do funeral eu a segui com medo de que pudesse se machucar também, eu não planejei muito bem o que faria, foi mais por instinto do que por qualquer outra coisa.
Depois quando ela parou subitamente pensei em dizer a ela que eu sentia muito, queria dizer a todos os parentes e amigos de Ed Sullivan que eu sentia muito, mas quando cheguei ao funeral e vi Olivia algo estranho aconteceu comigo.
Eu fui tomado por um sentimento tão genuíno, eu me lembrei na hora de que ainda tinha um coração, porque ele se descontrolou totalmente dentro do meu peito.
Eu queria toma-la em meus braços.
Queria entregar a ela o que havia de melhor dentro de mim.
E então ela me disse que era namorada do Ed Sullivan.
Olivia me mostrou uma nova forma de levar uma bofetada no estomago sem realmente levá-la.
A dor que ela me causou depois daquelas palavras parecia que nunca teria fim.
Ella me tira de meus devaneios entrando na Lamborghini preta com tudo.
— Aqui está! – ela diz animada balançando o saco plástico que faz um barulho nojento de algo mole e molhado dentro dele.
Estamos em frente ao nosso açougue favorito da cidade.
Sinto o cheiro do conteúdo do saco e meu estomago rugi, contenho um grunhido apertando com força o volante.
— Vamos cair fora daqui logo. – Ella diz me observando.
Acelero em direção as montanhas.
— Há quanto tempo não comemos? – pergunto ansioso e ao mesmo tempo punindo a mim mesmo pelo desejo.
— Você está nos punindo há uns cinco dias. – Ella responde tirando um pedaço de carne crua de dentro do saco.
— Não coma isso dentro do meu carro! – digo irritado.
— Olhe para os meus olhos, Drake! Olhe! – a voz dela fica mais estridente conforme vai ficando mais irritada.
Tiro os olhos da estrada por alguns instantes e faço o que ela ordena.
— Estão prateados! Estão prateados como meu sangue!
Ela morde, raivosa, um pedaço da carne crua e me estende outro.
— Coma!
— Não.
— Você é tão teimoso Drake O'brien, você vai morrer de fome, literalmente, seu grande imbecil!
Ela me da um soco no peito e eu freio o carro depressa, sei onde essa discussão vai parar, afinal somos irmãos sei bem como funcionamos.
Ella avança para cima de mim com tanta força que vamos parar fora do carro.
Está me enforcando com um braço e tentando enfiar um pedaço de carne crua na minha boca com o outro.
Debato-me tentando me soltar, trocamos rapidamente de posição rolando no acostamento da estrada, mas ao contrário de mim Ella já comeu, então está mais forte.
Ouço um barulho e paro o que estou fazendo imediatamente, abro a boca e mastigo o pedaço que ela me estende.
Ella me solta e fica em alerta também.
— Você acha que ele...? – pergunta assustada.
Olho para a estrada escura, eu também estou com medo.
Desde que nos mudamos Kane ficou muito doente, e conforme a doença piorou ele foi ficando cada dia mais agressivo e difícil de controlar.
Éramos eu e minha irmã contra ele, mas como Kane era mais velho era mais forte que Ella e eu.
Além disso, a alimentação dele era muito diferente da nossa.
Queríamos proteger a nova cidade onde vivíamos sem chamar tanta atenção para nós e o que acontecia acima das montanhas.
— Vamos voltar para o carro. – digo assustado.
— Por favor, coma. – Ella suplica.
Assinto e vamos os dois depressa de volta para a Lamborghini.
Quando chegamos ao topo da montanha, o vento joga os cabelos de Ella sobre o rosto sardento e pálido dela, e eu encaro a caverna tentando lidar com meus dilemas.
Não é a primeira noite que eu e minha irmã tentamos deter Kane, culpo a mim mesmo por ter falhado da última vez.
Sou o primeiro a entrar na caverna, tateio as paredes escuras e molhadas por alguns instantes, espero que Manuella esteja bem atrás de mim, mas paro bruscamente ao ouvir o som de alguém chorando.
— Olivia? – grito. – Olivia você está aqui?
— Você está louco?! – ouço a voz de Manuella atrás de mim sussurrando. – Quem é Olivia? Fique quieto, ele vai nos ouvir!
— Não consigo respirar. – escuto a voz de Olivia entre soluços e avanço depressa para dentro da escuridão.
— Drake! – Manuella me chama, mas eu não paro.
Ele já a pegou, Kane deve estar usando seus poderes com ela.
Tenho a certeza de que ela está desmaiando.
— Olivia! – grito desesperado.
Mal a conheço, mas é como se ela já tivesse tudo de mim.
Só quero deixa-la a salvo.
É minha culpa!
Tudo isso, é minha culpa!
Esbarro em algo duro e caio no chão.
— Meu Deus, Drake! – escuto a voz de Kane e me arrepio. – Estou surpreso! Você realmente é mais sentimental do que pensam.
Ele não está usando seus poderes com ela, ele os está usando comigo.
Ouço um rugido atrás de mim que quase me ensurdece.
— Vocês podem me explicar quem Diabos é Olivia? – a voz de Manuella ecoa pela caverna, embora eu não possa vê-la, sinto o bafo quente dela bem atrás de mim.
— Drake não contou para você que ele teve a transição mais importante de sua vida? – Kane diz com riso na voz. – Você quis guardar esse segredo só para você, seu safadinho?
Um rugido me escapa dos lábios, mas me contenho parado no lugar onde estou.
Se eu der um passo para o lado errado, estou morto.
Eu não contei para Manuella porque ainda não estava entendendo o que estava acontecendo comigo.
Eu me sentia completamente diferente depois de ver Olivia, me sentia protetor e ao mesmo tempo vulnerável, como se algo pudesse me atingir a qualquer momento.
— Do que ele está falando Drake? – A voz de Manuella ecoa novamente e eu percebo seu movimento na escuridão, está agitada.
Pelo menos agora sei para que lado ir.
— Drake teve um exchequer. – a voz de Kane parece mais próxima. – Ninguém nunca explicou a vocês porque eram muito novos, mas agora já tem idade suficiente para saber.
Já havia lido isso em um livro uma vez.
Exchequer era definido como amar alguém como se a pessoa fosse o seu tesouro.
Era intenso e durava para sempre.
— Não acredite nele Ella. – digo me aproximando em direção ao vulto da minha irmã. – Kane, deixe a cidade, vá para o Alasca. Já conversamos sobre isso!
— Eu sempre quis testar seus limites Drake. – Kane responde rindo. – Você negar deixa tudo tão mais interessante. Estou tentado a mostrar para Manuella que estou certo agora.
— Vá para o inferno! – Ella diz irritada e um enorme vento passa por mim.
Corro contra o vento o mais depressa que posso, saio para a noite fria que belisca o meu rosto antes da caverna se iluminar inteira com o fogo.
Quero me transformar, mas não consigo.
Quero ajudar a minha irmã.
Tem algo muito errado comigo.
Arfo desesperado.
Corro em direção ao carro, ligo o aquecedor no último e esfrego minhas mãos uma na outra.
A caverna é pequena demais para os dois, eu tenho pouco tempo antes que algo de ruim aconteça.
Meus olhos ardem e sinto um embrulho no estomago.
Agarro o saco de carne crua e enfio mais pedaços do que minha boca permite.
Sinto a familiar dor nas costas, sinto minha cabeça doendo quase como se fosse explodir todos os meus miolos, saio do carro depressa, no mesmo momento que dois enorme vultos saem da caverna rolando sobre a neve.
Minha visão está turva então sei que estou cada vez mais perto.
Os dentes de Kane mordem o pescoço de minha irmã, e então me lanço sobre eles já em um corpo diferente.
Não sou mais eu.
Não penso mais como eu.
Quero apenas manter Ella a salvo.
Quero nos salvar do perigo.
Kane me olha e eu o ataco.
Agarro a cauda dele com minhas presas, ele bate os seus chifres na lateral do meu corpo.
Ella avança sobre ele, bufando, sua pele em escamas vermelhas como o diabo, os espinhos sobre o corpo, os chifres avançando perigosamente no ar em direção a nós.
Há alguns dias a cena era aquela também, mas Ed Sullivan apareceu do nada diante de nós, segurando a mão de uma garota de longos cabelos negros.
A garota deu um grito chamando atenção de Ella, nos viramos os três para os dois intrusos.
Ed Sullivan empurrou a garota na direção de Kane e correu.
Kane engoliu a garota tão rápido quanto Ella podia voar, e foi o que ela fez enquanto eu voei atrás dela.
— Não! – minha voz ecoou pelas montanhas.
— Ele nos viu! – a voz dela atingiu meus tímpanos e eu acelerei o máximo que pude.
O garoto caiu, Ella o agarrou pelas pernas, tentei segurá-lo pelos cabelos.
Minha irmã fez força suficiente para separar a parte que eu segurava da que ela segurava, e engoliu a parte que ficou com ela me encarando com fúria.
Kane surgiu de repente no meio de nós.
Três enormes dragões, e metade de um cadáver sobre a neve.
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