O óculos

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Desafio:
Romance
Criança
?“culos
Favela

Era um dia quente, as pessoas sorridentes colocavam as cadeiras para fora e pegavam seus copos de bebida. Dona Terezinha varria a casa cantarolando alegre um hino de felicidade. Jurema reclamava da indecência dos shorts pequenos e blusas decotadas, das musicas altas e dos hospitais lotados, enquanto na TV um pastor gritava.

Pelas calçadas dos bares de esquina eram postas cadeiras vermelhas e amarelas, homens de barriga grande contavam saudosos causos de suas vidas, enquanto bebiam líquidos borbulhantes. Seu Joaquim já fora um exímio cortador de banana. Acordava cedo 5 da manhã, colocava a botina e bebia um café fresco feito pela esposa, Dona Marilia, beijava a testa dos filhos e partia numa dura jornada, fosse sob sol forte ou chuva pesada. Embrenhava-se no mato e colhia os melhores frutos pra vender na fabrica. Mas com a idade chegando, ele decidiu largar o trabalho duro e montar seu pequeno e humilde bar, numa rua esburacada naquela cidade de casas empilhadas.

Naquele barzinho de paredes amarelas, havia um menino que sempre se sentava sobre o degrau da porta. Diogo tinha pele morena e cabelo raspado, usava os chinelos do pai e bermuda do irmão mais velho. Notavam-se seus óculos de lentes grossas, que escorregavam pelo nariz. Estes que lhe davam o titulo de café com leite nos jogos dos mais velhos.

Todo dia ele ia para seu canto na porta, e observava. atento, os passantes. Com mais pontualidade e respeito do que um fiel ia aos cultos de domingo. Sua dedicação era por causa da Franciele. Dezesseis anos, de corpo esbelto e cabelo de muitas tranças pequenas que ficavam azuis nas pontas, pele negra brilhosa e olhos negros como noite de lua cheia. Parada na porta de casa, perto do bar, mexendo no celular ou conversando com amigas próximas, era a musa do garoto, somente cinco anos mais novo, que adornava seus sonhos inocentes.

―Cara, vem jogar!

Diogo entrava no jogo de futebol sempre na intenção de impressionar Franciele. Imaginava-se marcando um gol digno de Pelé ou Neymar, assim sua musa o aplaudiria de pé, com comoção nos olhos. Mas o problema era que Diogo era um pé furado, não marcava nem o mais fácil gol possível.

Parado no meio da rua sabia que ninguém era burro para lhe passar a bola. Por isso quando ela veio em sua direção, por culpa de algum passe torto, ficou surpreso e sem perder tempo a tomou para si. Foi rápido em chuta-la até a trave adversaria, dois chinelos. Mas ao levantar o pé para seu tão sonhado gol de primeira, escorregou no chinelo grande, indo de encontro ao chão. O baque jogou seus óculos longe, sem poder enxergar, sentiu uma mão delicada tocar a sua.

A dona da mão lhe estendeu os óculos grossos. Franciele olhava gentilmente o garoto. Ao notar de quem se tratava, Diogo sentiu o coração falhar e o corpo amolecer, sussurrou um breve e tremido ''Obrigado'', não podendo tirar os olhos da sua musa.

Ela voltou a roda de amigos, e Diogo voltou ao seu lugar na porta do bar, admirando fielmente seu amor.

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