Oi mamãe, oi papai, oi família e todos os meus amigos. Queria poder entregar a vocês essa carta, gostaria de conseguir materializa-la.

Era vinte e dois de março e uma noite calorosa, Ana chegou ao meu apartamento, estava com sorvete e refrigerante, lembro-me de ter ouvido a campainha, mas não pude atender.

Lembro-me de voar, de sentir o vento em meus cabelos que cheiravam a cigarro, foi uma das melhores sensações que eu já havia sentido, recomendaria se isso não se transformasse em uma tragédia, pois depois de voar senti um baque, bati cada parte do meu corpo em um chão duro, frio e sem acolhimento algum.

Depois, não consegui sentir mais nada, não pude dizer nada e nem deixar uma última declaração. Senti que aquele corpo ali no asfalto já não me pertencia mais, o olhei no asfalto como quem olha um estranho, não conseguia me ver ali, só sabia que aquele corpo tinha me pertencido um dia.

O porteiro me viu no asfalto, sangrando e ligou imediatamente pra policia e para ambulância, Ana logo desceu as escadas no maior desespero e chorou por cima de meu corpo, logo papai e mamãe chegaram.

Mamãe, ao me ver ali como uma boneca quebrada, desmaiou, e papai não está se aguentando de tanta dor. Doeu ver todos ali e não poder fazer nada, estavam tão preocupados com meu corpo que não viram minha alma ali do lado, o que de fato importava à eles era o corpo sangrando e sem vida que um dia fora meu.

Arrombaram a porta do meu apartamento e encontraram uma cama bagunçada, um cheiro de cigarro, uma louça por lavar e o rádio com o CD daquela cantora que me da sono, mas que eu sempre ouço quando estou pensativa. Abriram a minha vida e quiseram concluir algo sem nem me consultar.

A perícia concluiu que foi suicídio.

Mas papai e mamãe, como eu queria que vocês soubessem que eu jamais tiraria minha vida, não sem dar-lhes uma explicação no papel, não sem dar-lhes um último abraço, não sem agradecer tudo que fizeram por mim durante toda a vida.

Como eu queria que vocês soubessem a verdade, soubessem que todas essas pessoas fardadas não têm certeza do que dizem, mas dizem mesmo assim.

Olha mamãe, olha papai, era minha folga neste dia, estava tudo bagunçado porquê eu simplesmente queria aproveitar o dia e colocar toda a minha preguiça pra fora, descansar de todos os dias trabalhosos que vinha tendo, não é porquê eu estava em uma crise existencial como supuseram os caras da pericia.

Veja bem, meu dia tinha sido ótimo, ouvi os meus CDs prediletos e dancei sozinha, me diverti sozinha e estava esperando Ana para colocarmos o papo em dia.

Qual o motivo daquele CD melancólico? Bem, eu precisava pensar e ele me permitia isso, eu precisava me acalmar e ele me acalmava. Eu raramente fumava, mas resolvi que estava afim de fumar essa noite — sem nenhum motivo vicioso, era só para entrar em um clima que talvez vocês não entendam — e sentei-me na janela para refletir, olhar e ouvir todo o barulho da cidade, ver que no meio daquilo tudo ainda existia um Sol se pondo, um céu em degradê de laranja, ver que existiam sorrisos e calor entre as pessoas, ainda que ninguém perceba isso quando está lá em baixo, mas ali de cima eu via tudo, sentia por todos.

Mamãe, papai, eu não estava na janela pensando em me atirar como disseram os caras da perícia, talvez tenha me passado isso pela cabeça, mas nunca tive a intenção de morrer, na verdade, mamãe e papai, sempre acreditei que se vim até esse mundo enorme, eu ia até o final, e fui. Quando Ana chegou e tocou a campainha eu me assustei, quando tentei descer da janela, vacilei e cai, não é um vacilo que deveria acontecer, mas aconteceu.

Sei que meu irmão ficou dias com os olhos inchados de chorar e mamãe não pode ver uma foto minha, sei que o papai está tentando ser forte, mas não suporta a dor de ter perdido uma filha, sei que o meu velório foi doloroso para todos vocês e pra mim também, porque talvez a morte seja algo marcado, talvez a morte tenha um prazo e não adianta fugir, pra cada um acontece de um jeito e eu aceitei o meu, mas vocês não.

Mamãe, papai, o que me entristece não é a morte, não é ter morrido aos 25, recém formada, com uma vida pela frente e solteira. O que mais dói de verdade, é que vocês nunca vão saber que morri feliz, é que vão acreditar nesses caras que nunca viram na vida e disseram que eu arranquei minha própria vida por uma crise existencial, que infelizmente, costuma acontecer entre os jovens; vocês nunca vão saber o quão maravilhoso foi desfrutar do prazer de voar antes de morrer, o quão maravilhoso foi sentir o vento em cada parte do meu corpo; e vocês nunca vão saber o quanto eu amei a vida, e agora, como eu amo a eternidade que está em minha frente.

Um beijo, de sua amada filha.

PS:Fui para um lugar bonito, mas que ainda não posso intitular, talvez seja o céu, acredito que aqui será meu eterno lar.

Aline Mendes

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