O Último Suspiro
5 Ganho um Presente Inusitado
— O que? — essa foi à única coisa que consegui dizer enquanto todos me encaravam.
Mas Emilly disse que me explicaria tudo melhor depois que pegássemos minhas coisas no chalé de Hermes e levássemos para o chalé de Apolo. Não que houvesse muitas coisas minhas por lá. Enquanto juntávamos as poucas coisas que me pertenciam Margaret chegou carregando uma mochila e me entregou, por um momento temi que ela houvesse furtado aquilo de outro campista apenas para me dar. Depois que abri a mochila, percebi que eram algumas das minhas roupas e pertences, mas eu havia os deixado em casa.
— Martin trouxe isso de volta alguns dias depois que chegou. — disse Emilly. — E agora que sabe a qual deus pertence a sua descendência.
Margaret nos acompanhou até o chalé de Apolo e me ajudou a arrumar minhas coisas. O lado bom era que eu não iria precisar de um saco de dormir por ali, todos tinham uma cama, inclusive eu.
— Era sobre isso que Emilly e eu fomos conversar com Quíron naquele dia que você e Michael apareceram. — disse Margaret. — Quando Emilly a viu tocar, ela soube quase que imediatamente que eram irmãs. Então, Michael apareceu com aquela história de você ter se curado. Ficou claro para todos. Você era uma filha de Apolo.
Irmãs. Eu ainda não tinha me dado conta, Emilly Rushman era minha irmã. Continuei em silêncio enquanto fazíamos minha cama e ajeitávamos minhas roupas no baú aos pés da cama. Margaret parecia me observar. Eu estava em transe. Agora que estava me acostumando com a galera de Hermes. Teria de passar por toda aquela fase de aceitação novamente, ter que lidar com outras pessoas. Suspirei pesadamente e fiquei jogando conversa fora até que, pouco a pouco, os campistas de Apolo foram chegando. Alguns me cumprimentavam ou sorriam, outros me analisavam e achavam melhor não se aproximar.
— Não se preocupe com eles. — disse Emilly. — Leva um tempo para se acostumar com eles e eles com você, mas não teremos problemas.
Quando Margaret se foi eu me senti completamente sozinha. Emilly parecia muito à vontade conversando com seus irmãos, mas eu tinha que me acostumar se quisesse me adaptar ali. Pouco a pouco todos foram se encaminhando para o banho. Como fui a última tive que secar o banheiro, coisa que nunca havia feito na minha vida, mas não me saí tão mal quanto havia pensado. A grande maioria ainda estava de pé, sentados na cama uns dos outros batendo papo, mas uma vez me senti excluída.
— Bem-vinda ao chalé Sete! — disse uma menina de pele escura, ela aparentava ter uns 16 anos. — Sou Charlotte Pinero, a concelheira-chefe!
Charlotte acomodou-se em minha cama e conversou comigo sobre o que eu estava achando da minha adaptação no acampamento, minha vida fora dali e contou um pouco da sua vida. Ela tinha uma família lá fora, mas passava a maior parte de seu ano no acampamento por não querer que a família corresse riscos. Tinhas um irmão mais velho, mas esse já estava prestes a casar.
— Consegui uma autorização para ir ao casamento. — confidenciou-me ela. — Você não tem irmãos?
— Bom, tirando o pessoal daqui… não! — contei. — Eu não me lembro de muito sobre minha mãe, fui criada por Olga, minha governanta.
Charlotte Pinero sorria ou balançava a cabeça conforme eu lhe contava sobre minha vida e logo havia muitas outras pessoas na conversa, falando sobre suas vidas e tudo o mais. Naquele momento eu senti vontade de chorar como uma garotinha. Sempre havia tido vontade de ter irmãos, agora eu tinha muitos ali e muitos outros lá fora. Quando a hora de dormir foi anunciada fui inundada por uma onda gigantesca de “boa noite, Jey” ou “espero que goste daqui”. Naquela noite eu dormi incrivelmente bem, pena que não durou até o amanhecer.
Acordei antes de qualquer um no chalé e me prontifiquei a tomar um banho. Depois voltei para minha cama e esperei até que todos despertassem. Charlotte instruiu cada um a tomar seu banho e arrumar a sua cama, quando a trombeta soasse iríamos todos até o pavilhão tomar café da manhã.
— Despertou cedo. — disse Emilly quando me aproximei para ajudá-la com a cama.
— Acho que foi a ótima noite de sono. — dei de ombros.
— Não teve pesadelos?
Neguei com a cabeça.
— Ouça, quando tiver algum pesadelo não se assuste e nem se alarme. — instruiu-me ela enquanto dobrava a coberta. — Sonhos ruins são naturais para nós semideuses. Agora, se for um sonho que realmente a deixe assustada, vá falar imediatamente com Quíron.
— Sonhos ruins. Falar com Quíron. — repeti. — Entendi!
Ela sorriu e entrou no banheiro para tomar banho. Quando a trombeta soou estávamos todos arrumados e com o chalé em ordem. Charlotte sorriu parecendo satisfeita, então nos mandou ficar em fila e assim partimos para o pavilhão. Juntamos-nos a multidão de semideuses famintos e, por fim, chegamos a mesa do chalé sete. Depois de queimarmos parte de nossa refeição para os deuses e comermos muito, fomos dispensados para nossas atividades. Michael se aproximou sorrateiramente enquanto eu voltava ao chalé para pegar meu material para a aula com Margaret.
— Eu disse para você que não fui eu quem fez aquele machucado sumir. — gabou-se ele sorridente. — Aula de hoje no horário de sempre!
Revirei os olhos e praticamente corri para o chalé, como ele era presunçoso e convencido. Encontrei os livros que Margaret estava me ajudando a ler em um canto do baú totalmente separado das roupas. Eu estava tão distraída que quase não o vi. Quase. Por pouco não deixei passar e outro campista poderia ter encontrado-o no meu lugar. Na minha cama, sobre meu travesseiro estava um envelope branco e, por um momento, achei que Ohana havia me mandando outra carta. Que Quíron havia dado um jeito de entrarmos em contato, mas então notei o selo que o lacrava e quase perdi o ar. Uma harpa. Como a da noite passada.
— Por que está demorando… — a voz de Margaret sumiu. — Oh, eu vou… Vou esperar. Lá fora.
Só tive coragem para pegar o envelope minutos depois. Eu não sabia como deveria reagir aquilo. Emilly havia-me contato que os deuses não podem entrar em contatos com os seus filhos, que era proibido. Eu não sabia o que deveria fazer. Sentei-me na cama e analisei o selo, era dourado. Respirei fundo e abri o envelope, retirando um papel e um pequeno objeto dourado, em formato redondo. Desdobrei o papel com cuidado, parecia muito frágil e fino.
Querida filha,
Se estiver lendo esta carta é um sinal de que já descobriu tudo sobre a sua origem, ou quase tudo. Se estiver lendo esta carta significa que sobreviveu e que Olga e Martin fizeram um ótimo trabalho cuidando de você. Eu queria ter visto você crescer, se desenvolver, ver sua transição de menina para mulher. Sinto muito, não sobrevivi tempo suficiente para isso. Eu fiz seu pai me prometer que lhe entregaria isso, mesmo que não fosse pessoalmente, ele não pode vê-la.
Jennett, eu conheci seu pai quando estava no meu último ano da faculdade. Alguns amigos e eu fomos até a praia para torcer por alguns colegas em um campeonato de vôlei, e nós nos encontramos. Foi uma rápida troca de olhares, mas eu soube ali que o amava. Quando voltamos a nos ver, foi na mesma praia. Trocamos telefones e começamos a conversar e nos ver quase todos os dias. Quando descobri que estava grávida, graça a Deus (ou aos deuses) já estava formada e trabalhando. Seu avô morreu pouco antes do seu nascimento, mas como eu era filha única toda herança foi destinada a mim e depois a você. Use-a com sabedoria.
Não vou falar o que houve comigo, apenas saiba que ainda sou sua mãe e que te amo. Sei que deve ter pensado que eu a abandonei, mas a verdade é que nosso tempo me foi roubado. Perdoe-me! Perdoe seu pai também, ele te amou tanto quanto eu. Espero que seja uma grande heroína e que trave grandes batalhas, para que mostre ao mundo seu valor!
Com grande amor,
Sarah Brenner.
Sua mãe!
Sua mãe. Sua mãe. Sarah Brenner. Encontrei Margaret do lado de fora do chalé e precisei usá-la como ancora para nãoc cair de cara no chão. Eu não sabia explicar o que sentia naquele momento. Havia esperado anos e anos por algum sinal de minha mãe. Ouvi história horríveis sobre ela, mas eu não sabia o que fazer. “Nosso tempo me foi roubado”. Aquilo era claro o suficiente para mim. Algo ou alguém havia levado-a para longe, para que eu nunca mais a visse. Eu precisava encontrá-la, mas e se já não estivesse mais viva? O que eu faria? Não queria alimentar falsas esperanças para depois ver meu coração despedaçar como um vaso de porcelana que se quebrou. Mas, por outro lado, ela poderia estar viva e esperando por mim em algum lugar. Esperando que eu fosse salvá-la e trazê-la de volta para nós.
— Melhor falarmos com Quíron! — a voz de Margaret arrancou-me de meus devaneios.
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