O Último Shirian [hiatsu]
8 Capítulo 8 - O baile - Parte II
Notas iniciais
—Hiroshi vá buscar algumas bebidas —Ordenou Dilan vendo o ruivo fechar a cara brevemente e ir buscar. O olhar de Dilan parecia indecifrável, os olhos azuis lampejando de raiva e ódio, as mãos suavam frias e a boca parecia seca.
Um arrepio subiu-lhe á espinha quando seu olhar cruzou com o de Edward, o mais velho o encarou perplexo sem acreditar, os olhos piscando várias vezes tentando ter certeza se aquela imagem era real, e era.
Um sorriso cretino cresceu por seus lábios, e aumentou mais ainda quando viu o loiro estreitar os olhos raivosos.
Dilan o viu se curvar pedindo licença e se aproximar do loiro, a cada passo que ele se aproximava as pernas de Dilan fraquejavam cada vez mais, e quando faltava menos de um metro de distancia as mãos do menor começaram a tremer mesmo que inconscientemente.
As luzes do salão diminuíram intensamente deixando o foco apenas nos casais que bailavam ao centro, contribuindo para que sombras escuras nos cantos se tornassem imperceptíveis, e era nessas sombras que agora Dilan se encontrava.
—Há quanto tempo— Começou Edward o olhando de baixo a cima, secando com um sorriso de deboche o corpo de Dilan —Como vai a vida Dilan? —Completou alargando o sorriso ao ver o modo estático que o outro estava.
—Melhor sem você —Cortou Dilan o encarando serio, os olhos frios escondendo o medo e magoas, os flashes do passado retornando a sua mente a todo instante, fazendo respirar com dificuldade.
Parecia que as dores ainda estavam intactas em sua pele, as marcas de mordidas e de tapas. Ainda podia escutar as palavras sujas ditas para si sem pudor, na garganta ainda estavam presos os gritos de dor que segurara para não irritar Edward e o mesmo não machucar Hiroshi.
Aquele arrepio percorreu-lhe a espinha quando as cenas ficavam cada vez mais límpidas, aquelas mãos passando por seu corpo, possuindo-o a força.
—Isso é modo de falar com seu tio? —Questionou Edward, e uma ânsia subiu em Dilan, a face franziu o cenho em nojo.
—Você me dá nojo —Falou Dilan firme recuando um passo para se afastar do outro, mas Edward também se aproximou, e agora eles entravam aos poucos ainda mais na escuridão saindo dos locais iluminados.
E um tapa forte desferido na parede atrás de Dilan, passando raspando por sua face fez o menor gelar.
—Não sabe a vontade que eu estou para te dar uma lição.
—Pena que se encostar um dedo em mim novamente posso te mandar preso —Advertiu Dilan.
E uma risada sarcástica foi abafada pelas mãos do próprio Edward que ria como se fosse uma piada de mau gosto dita.
—Tente, eles não acreditaram! Afinal isso pode ser apenas um trauma do príncipe pelo sequestro de oito anos atrás — afirmou Edward pensativo, a mão coçando o queixo tentando demonstrar a reflexão que fazia —algo trágico, muito trágico —E o tom irônico, fez Dilan perder a calma, a mão formigou querendo a todo instante socar com toda a força a face de seu tio.
Mas isso apenas levantaria suspeitas, não faria nada, não perderia a calma ainda, não agora.
Tinha uma carta na manga e a usaria na hora certa, tudo o que precisava era de mais uma confirmação, mais uma e poderia juntar toda a pesquisa que fez contra seu tio e entregá-la aos nobres.
Quando descobrissem os planos que Edward estava armando para tomar o trono o tranqueariam e o exilariam.
E se o trono fosse realmente tudo o que ele queria seria fácil, afinal era o segundo na liderança, como assim Edward pensava. Precisaria apenas matar Dilan, e foi com esse pensamento que o aprisionou, o sumiço do menor apenas fez com que rapidamente a corte se reunisse e avisasse que se não o encontrassem Edward ficaria como rei.
Porém Dilan conseguiu fugir com Hiroshi, destruindo tudo que Edward queria, e o tio na realidade poderia apenas sequestrá-lo novamente, o que abriria muitas suspeitas, tudo o que restava era matar o sobrinho quando ele completasse 17 anos, idade em que naquele reino poderiam assumir oficialmente.
E era apenas por isso que Dilan passou adolescência ao lado de Alexander, à procura da verdade, tinha que ter uma carta na manga quando a hora chegasse.
A infância perdida, as lembranças apagadas, os sonhos que tinha dormindo pisoteados pelos pesadelos que vivia acordado. Viu a longe Hiroshi se aproximando, nas mãos as taças que Dilan pedira, pelo menos Hiroshi não se lembrava de nada, e assim talvez realmente fosse melhor. Talvez fosse melhor que Hiroshi o temesse achando que ele fizera aquelas marcas nele do que lembrar-se de tudo.
—Dilan meu querido —Cantarolou Daínely sorrindo, vindo em pulinhos, saltitando na direção do príncipe, Edward a encarou e depois a Dilan fechando a cara.
—Seus planos não funcionaram Edward —Sussurrou Dilan, vendo os olhos de seu tio se arregalar em surpresa pelo menor achar que conhecia seus planos.
—Veremos —E com isso Edward se afastou aos poucos sorrindo, o clima pesado e tenso se esvaziando aos poucos, o olhar amedrontado que Dilan segurava saindo e sendo demonstrado, enquanto respirava com dificuldade.
Alexander estava certo, ele ainda não conseguia falar de igual para igual com Edward, ainda sentia medo, as mãos ainda tremiam, não superará nada. Não havia ainda enterrado seu passado que o perseguia.
—Dilan —Repetiu Daínely finalmente o alcançando e parando ao seu lado, o sorriso sumindo enquanto se tornava uma expressão preocupada —Você está bem? Parece que viu o fantasma.
E realmente parecia, a pele estava mais pálida que o normal, os olhos por trás da mascara arregalados, a respiração pesada e as mãos tremendo. Agradecia mentalmente por ter conseguido ficar firme todo esse tempo na frente de Edward.
—Sim estou —Falou Dilan maneando a cabeça para cima e para baixa em assentimento. Se Edward achava que conseguiria algo estava ledo enganado, Dilan se vingaria, não morreria por tão pouco, não jogaria sua vida fora para que seu tio conseguisse poder.
Já descobrira muita coisa sobre ele, mas por algum motivo algo não se encaixava, e descobriria o que era.
—Majestade —Chamou Hiroshi estendendo a taça, Dilan passou as mãos pelos cabelos apanhando-a e a bebendo começando a puxar conversa com Daínely que empolgada movia os braços ou a mãos a cada palavra dita em euforia.
Edward ainda não vira Hiroshi, e talvez a mascara que trajavam ajudasse a não reconhecê-lo e com esses pensamentos se aliviou aos poucos, sorrindo em alguns momentos com as falas sem lógica de Daínely.
E do lado de fora do castelo a lua iluminava o garoto encolhido no chão, Toriam enxugou as lágrimas se levantando, os olhos vermelhos e abatidos pelo choro, os lábios ainda trêmulos pelos soluços mudos que saiam.
—Idiota —Murmurou para si mesmo, apanhando a mascara branca no chão e a colocando em sua face, cobrindo boa parte da expressão abatida.
Ajeitou o cabelo castanho que caia por cima da mascara jogando-o para trás. Então era assim que terminaria? Declarara-se a gritos para no fim escutar nada mais que o silencio. E ele no fundo já esperava por isso, pela negação, porém agora a dor que ele sentia parecia tão devastadora que não conseguia controlar.
Era como um buraco em seu peito, um buraco vazio e oco no lugar que ficava seu coração agora já despedaçado, e os cacos sendo levados para longe pelo vento.
Arrependera-se, queria voltar atrás, impedir que aquelas palavras tivessem sido ditas daquele modo, mas não seria ele que ficaria chorando pelo leite derramado. Era um príncipe, e como um príncipe agiria! Não derramaria lágrimas por um simples soldado, mesmo que isso significasse afastá-lo de si, o esqueceria.
A lua já estava alta quando retornou em passos pesados em direção ao castelo, se perdendo diversas vezes no caminho, esbarrando em troncos, arvores, pedras e muros, sentia o corpo quente, talvez estivesse começando a ficar doente pela friagem que estava se iniciando lá fora.
—Príncipe Toriam —Chamou o Conde Rutwer, um sorriso malicioso se abria enquanto ele saia da entrada da mansão e caminhava em direção a Toriam que estava re-encostado em uma estatueta, a mão na testa respirando pesadamente.
Logo a trás vinha o mesmo empregado que Toriam havia visto antes, os cabelos negros em cachos, os olhos pretos opacos sem vida, nas mãos duas taças co um liquido vermelho, provavelmente vinho.
—Locse —Chamou o conde vendo o empregado cabisbaixo estender as taças para o conde que apanhou e balbuciou algo que fez o jovem se encolher e recuar alguns passos.
—Príncipe —Falou Rutwer estendendo uma taça para Toriam que a encarou indeciso, se sentia fraco.
—Não posso beber —Desculpou-se, sabendo que com sua idade a hierarquia não permitia.
—Ninguém vai saber, certo? — Incentivou o conde, Toriam olhou receoso para o liquido vinho que se movia com a brisa criando pequenas ondas dentro do copo, não seria a primeira vez que bebia, já ocorrera antes, quando criança, em que tentou experimentar pegando escondido uma taça, mas Gors o encontrou embaixo da mesa escondido antes dele poder completar o ato, e o repreendeu seriamente por isso.
E a lembrança de Gors fez seu peito apertar e o coração bater fraco. Não sabia se ainda restavam lágrimas mas sentiu os olhos marejarem novamente, apanhou a taça decidido, escutando um “Não faça isso” no interior de sua mente alertando o perigo.
O receio lhe bateu, encarou o conde que sorria ansioso, ansioso? Ansioso para que? Viu o empregado ‘Locse’ lhe encarando, os olhos alertando para ele não prosseguir, preocupados, e novamente as imagens de Gors lhe tomaram os pensamentos.
E a virou a taça em seus lábios, sentindo o vinho doce descer por algum motivo queimando em sua garganta.
Um sorriso se abriu nos lábios do conde que observava atentamente o menor tomar até a última gota em uma virada apenas. Uma sensação boa tomou a mente de Toriam enquanto o liquido fazia efeito sobre seu corpo, entretanto aos poucos apenas o alívio que sentia se misturou a algo a mais.
Fraqueza, sentiu o corpo mole, e a visão embaçar levemente, uma pontada em sua mente o fez franzir o cenho.
—Toriam— chamou o Conde vendo o liquido que misturara funcionar, segurou-o pelo braço, os olhos flamejando de desejo ao perceber que o príncipe começava a cambalear tonto.
O que estava acontecendo? Toriam se sentiu mais fraco a cada instante que passava, teve uma reação atrasada tentando puxar o braço novamente para si e soltar-se de Rutwer, mas não conseguiu. Recuou um passo quando uma energia negativa se aproximava o alertando do perigo, mas os pés tropeçaram neles próprios, caindo com força no chão.
E outro corpo caiu sobre o seu, um gemido de dor escapou por seus lábios enquanto abria seus olhos para encarar Rutwer sobre ele. Até então apenas a dor tomava seu corpo, mas a dor se misturou ao medo quando sentiu a mão do conde apalpando-lhe a coxa.
—O- O que -e pensa que está fazendo s- seu —Gaguejou Toriam irritado tentando afastar o conde, mas a fala não prosseguiu pois a mão grande e firme do outro tampou sua boca.
—Shhh —Falou o Conde —Não queremos fazer barulho certo?
Toriam sentiu o hálito de Rutwer quando o mesmo se aproximou de si, os lábios pararam em seu ombro mordendo o local com rudeza e um grito abafado foi solto por Toriam.
O jovem lembrou-se de quando as posições estavam invertidas, de quando era ele que fazia isso ao jovem empregado de Dilan, era a primeira vez que fazia tal coisa, e agora sentia a mesma dor, e o mesmo medo. Arrependimento e pavor tomaram seu ser, não ficaria parado, se debateu conseguindo soltar-se, mordendo a mão do conde com tal força que filetes de sangue saíram dela.
Sorriu orgulhoso e isso apenas irritou apenas mais Rutwer, sentiu os dedos longos envolverem seus cabelos e o puxarem para cima para depois jogar a testa de Toriam contra o chão. Sentiu um liquido úmido descer por sua cabeça enquanto uma dor forte pulsava, olhou para o chão vendo-o tingir-se de vermelho, estava sangrando.
—Gors —Sussurrou em ajuda, mas seu soldado o deixara, ele próprio o dispensara e agora estava sozinho —Me largue cretino, me solta — Gritou Toriam e as mãos que lhe apertavam pararam.
Encarou o conde que revirou os olhos fechando a cara, atordoado caindo ao seu lado. Ainda com a taça na mão Locse ofegava, os cacos ao chão por ter quebrado na cabeça do conde.
—Fuja —Pediu o empregado vendo o Conde levantar bruscamente e caminhar na direção do empregado.
Toriam levantou-se rapidamente correndo para longe , se agachando por trás de arbustos altos, mas parou de fugir para olhar para trás, quando um grito soou. Viu Locse ao chão recebendo diversos chutes no abdômen, as próprias mãos tapando a boca para que qualquer som de sua boca soasse baixo, e aos poucos os dedos de pele alva se manchavam de vermelho enquanto tossia sangue.
O empregado já estava acostumado com tal tratamento, e quando decidiu ajudar Toriam tinha consciência do que lhe aconteceria. E mesmo agora apanhando seus olhos ainda tinham algo amais que o brilho opaco sem vida.
Ele mesmo já não sentia mais dor, ela havia se tornado uma companheira para ele em todos os anos que servia Rutwer. Toriam o olhou receoso, as mãos se fecharam em um punho, não podia fugir, não podia deixá-lo ali simplesmente e sair correndo para seu bem, ou podia?
Ergueu-se decidido apesar dos tremores e correu para mansão, iria ajudá-lo mas o que poderia fazer sozinho? Abriu as portas do salão com um baque, chamando a atenção de muitos, o peito subia e descia ofegante, a roupa desarrumada, a mascara branca caindo ao chão. Sentiu-se fraco.
—Toriam —Falou Daínely correndo até o jovem que caiu ajoelhado ao chão sem forças.
—Ajudem ele, o ajudem —Sussurrou Toriam e a jovem o olhou sem compreender —Na praça...
Toriam então caiu ao chão, Daínely se ergueu rápido, pegando na mão de um dos guardas e o puxando até a praça, todos entenderam o recado.
E empurrando as pessoas para conseguir passar Gors chegou a porta do salão, os olhos arregalados sem poder acreditar, aquele não poderia ser Toriam... não poderia. Correu até o menor se abaixando ao seu lado.
—Toriam —Chamou passando as mãos pelos cabelos castanhos sentindo algo molhar seus dedos, elevou a mão avistando o sangue ali quase seco manchar-lhe.
“isso não pode estar acontecendo” Pensou Gors aflito, aquele não podia ser Toriam , não o Toriam que conhecia, ele nunca passaria por algo assim ele nunca...
E então a culpa caiu como um manto cobrindo Gors, o jovem soldado respirou com dificuldade. Era a sua culpa, se não tivesse brigado com Toriam nada disso teria acontecido, se não tivesse ido embora naquela hora Toriam agora estaria seguro, tudo o que se dedicou em toda sua vida foi proteger o garoto e agora nem disso fora capaz.
Talvez ele estivesse certo em dispensar-lhe, talvez não fosse realmente capaz de protegê-lo, talvez.
—Ei acorda Toriam —Falou Gors novamente passando a mão sobre a face do menor sentindo a alta temperatura que ele estava. —Eu preciso de toalhas úmidas, rápido —Ordenou o soldado vendo algumas empregadas ainda sem reação se moverem apressadas.
Passou os braços esguios e fortes por baixo do corpo pequeno agora fragilizado o levantando sem dificuldades. O segurou firme em seus braços o acolhendo, sentindo a cabeça de Toriam tombar para o lado encostando em seu peito.
—Me desculpe, eu deveria ter te protegido —Sussurrou Gors subindo as escadas indo em direção aos quartos vagos, todos os olhares pregados neles, mas não se importou.
Abriu a primeira porta que viu, andando em passos rápidos até a cama colocando com cuidado Toriam deitado na mesma. Em instantes a porta foi aberta por uma empregada com toalhas úmidas nas mãos, ela se inclinou sobre a cama para passar em Toriam mas a mão firme de Gors em seu pulso a impediu.
—Deixa que eu faço —Falou o jovem soldado vendo a garota assentir e sair do quarto, o silencio se instalando novamente. Molhou o pano no balde deixado o torcendo e colocando sobre a testa de Toriam, e com outro começou a tirar o sangue seco de seu rosto.
“Foi minha culpa” Era única coisa que Gors pensava, deveria protegê-lo, não deveria ter se afastado, não deveria...
—Gors —Sussurrou Toriam totalmente tomado pelo sono, e aquela voz que tanto queria ouvir sussurrando seu nome parecia até mesmo irreal.
As lembranças do jovem se declarando lhe voltaram à mente, Toriam não poderia estar falando serio quando disse aquilo, e mesmo se tivesse agora não importava, Gors estava convicto que depois desse acontecimento Toriam jamais o olharia na cara.
Daínely abriu a porta apressada, os cachos negros presos em um rabo já estavam se soltando pela correriam, as mãos na barra do vestido longo para que tropeçasse no tecido.
—Como ele está? —Questionou ela se aproximando.
—Com febre.
—Está machucado?
—Nada serio —Falou Gors encarando o ombro com a marca roxa em formato de dentes, em nenhum instante encarando a jovem, apenas com a cabeça abaixada respondendo.
—Quem fez isso? —Perguntou Gors mas para si mesmo que para Daínely, mas ouviu um suspiro pesado sair pelos lábios dela, ela sabia quem fora.
E isso fez com que ainda atordoado Gors ergue-se o olhar para encará-la “quem fez?” Insistiu, o olhar fez a jovem engolir em seco.
—E- eu não sei —Gaguejou Daínely —Disseram que foram rebeldes que invadiram a mansão mas não achamos nenhum, na praça encontramos um empregado e o conde Rutwer...
Não foi preciso dizer mais nada, Gors ergueu-se saindo do quarto apesar dos protestos de Daínely, abrindo todas as portas que achava a frente, encontrando finalmente o quarto que queria.
Na cama sentado estava Locse, o jovem passando o pano pela face limpando o sangue, e numa poltrona ajeitado estava Rutwer. Gors caminhou em passos pesados na direção do Conde que ao reconhecer o soldado se encolheu como um gato amuado.
—Seu filho de uma... —Começou Gors levantando o punho para desferir um soco na face gorda do Conde.
Mas um toque sutil em seu braço o fez para, o jovem de cabelos cacheados os olhos pedindo que não fizesse. Gors encarou Rutwer que abriu um discreto sorriso e em seguida para o empregado, o segurou pelo pulso abrindo a porta do quarto e o empurrando para o corredor.
—Eu só vou perguntar uma vez, quem foi que bateu em Toriam
Rebeldes... —Mentiu Locse acuado
—NÃO MINTA —Gors estava a ponto de perder o pouco da paciência que lhe restava, encarou o menor que se encolhera mais ainda com o grito, ele estava mentindo, sabia disso.
Esticou a mão para abrir a maçaneta e acabar com a raça daquele desgraçado, mas novamente a mão de Locse pousou na sua.
—Por favor, não faça isso —Pediu o jovem.
—Ele que te bateu certo? —E com um maneio o menor concordou.
—Mas ele estava bêbado, ele nunca faria isso com o príncipe se estivesse sóbrio ele sabe das consequências... —Tentou desculpar.
—Se é esse o motivo que tenta usar para me impedir, então saia da minha frente —Ordenou Gors empurrando o jovem.
—Se fizer algo ele descontara em mim —Revelou sincero por fim o menor, e a mão de Gors parou na maçaneta sem movê-la —Então por favor, eu não tenho para onde ir —Pediu Locse.
—Você ajudou Toriam —Afirmou Gors —Então terá para onde ir.
Então o soldado entrou no quarto, fechando a porta atrás de si, deixando Locse sozinho no corredor.
O sol já vinha manhoso no horizonte quando Toriam abriu os olhos, tentou se levantar mas uma dor em sua cabeça o fez cair novamente no travesseiro. Olhou em volta reconhecendo o quarto, estava em sua casa, mas por que? Os flashes lhe voltaram fazendo-o se encolher.
Virou a face para o lado dando de cara com Gors, o soldado sentado de modo desajeitado na poltrona, os braços músculos cruzados por cima do peito, a face seria enquanto cochilava.
Por mais que odiasse isso e não quisesse sentir tal coisa o coração bateu forte e um conforto tomou Toriam, o amava e não negaria isso para si mesmo.
“Cama maldita” pensou Toriam quando tentou se levantar e a mesma rangeu acordando Gors, o soldado abriu os olhos encarando o menor que se ajeitava na cama se sentando a mão sobre as têmporas tentando se acostumar com as leves dores latejando em sua cabeça.
—Como se sente? —Questionou Gors, respostas como “o que você acha?” ou “Péssimo idiota não está vendo?” Vieram como possibilidade de serem ditas, mas o olhar de Gors, repleto de preocupação não merecia alguma resposta assim.
—Já estive melhor —Comento Toriam abrindo um sorriso frágil —E Locse? Como ele está? —Perguntou atordoado, os olhos sérios exigindo uma resposta.
—Ele está bem —Falou Gors, se virando para porta que estava prestes a ser aberta, e foi assim de meia em meia hora desde que voltaram à mansão.
Locse a abriu talvez pela milésima vez encarando surpreso ao encontrar Toriam acordado.
—Locse —Balbuciou Toriam surpreso, o jovem agora trajava as roupas típicas dos empregados de sua família, o moreno curvou-se em reverencia abrindo um sorriso, a vida voltava-lhe aos olhos novamente.
—Ele disse que eu poderia trabalhar aqui, se você permitisse —Falou o jovem moreno apontando para Gors.
A expressão de Toriam se tornou seria por alguns instantes totalmente pensativo, Locse se encolhia a cada segundo com receio da resposta.
—Locse —Falou Toriam firme vendo o garoto que deveria ter praticamente a sua idade lhe encarar —Traga-me um suco caprichado para mim, agora —Ordenou sorrindo vendo o Locse curvar-se alegremente saindo do quarto.
O quarto se fez novamente silencioso, o vento que entrava pela janela refrescava brevemente o rosto febril de Toriam, as folhas em cima da escrivaninha ameaçavam voar ao chão ao todo instante, o carpete vermelho ao chão, nem um pouco chamativo era a rota da visão de Gors.
Ele ergueu o rosto para encarar Toriam, dos lábios nem um único som saia, até a respiração parecia silenciosa, o que dizer a ele? Não sabia. Os cabelos pela primeira vez em anos estavam solto, as mechas grandes caindo por suas costas. E a fita vermelha deixada de lado, jogada ao chão no canto do quarto.
Gors já estava decidido, deixaria Toriam, ou pelo menos assim tentaria, não conseguia mais o olhar nos olhos, sentia repulsa de si mesmo por ter deixado que aquilo acontecesse a Toriam, e ainda mais depois da discussão e do ocorrido não se via digno do direito de permanecer ao seu lado.
As imagens de Toriam se declarando lhe voltaram à mente, lembrou-se de suas falas se esvaziando por sua garganta, ficando mudo, sem saber o que dizer. Aquela era a última coisa que Gors esperava que Toriam dissesse.
Entretanto agora não parava de pensar em tal fato, poderia corresponder àqueles sentimentos? Nunca parou para pensar em Toriam de tal modo, apesar de que sempre que o via, aquela face ingênua e sorridente, com aquele toque travesso nos olhos, sentia vontade de protegê-lo, mas seria por conta do trabalho ou por algo a mais?
—Toriam —Chamou Gors, a voz rouca e firme fez com que o menor o encarasse atento, contemplando nada mais do que face do soldado cabisbaixa —Me desculpe, foi por minha culpa que sofreu isso.
“Foi mesmo” pensou cinicamente Toriam, mas era apenas um modo de abafar a própria culpa. Se não tivesse caído no papo do Conde; se fosse forte o suficiente para defender-se sozinho; se não tivesse ido naquela maldita festa. Se não tivesse de declarado... Nada disso teria ocorrido.
Toda aquela discussão por algum motivo para Toriam parecia distante, como uma simples lembrança do passado, ou um pesadelo que não tivesse ocorrido, a raiva momentânea esvaziara-se, as palavras duras suavizaram, os sentimentos cresceram.
E diante do silencio de Toriam Gors se encolheu, a imagem de Toriam chorando e pedindo por ajuda o fez sentir-se cada vez mais culpado, como podia ter deixado que aquilo acontecesse logo com seu Toriam? Seu? Mais o que raios estava dizendo?
Por que estava tão mal? Não... Não podia ser por gostar do garoto, isso nunca, pelos Deuses olhe para ele, é uma criança, ele não poderia estar gostando dele. Talvez o único motivo de estar se sentindo tão mal fosse por não ter conseguido completar o trabalho, é , talvez fosse isso, no fundo torcia para que realmente fosse por isso.
—Me desculpe, me desculpe Toriam, me desculpe —Repetiu freneticamente não reparando na postura de Toriam que ficou rígida, viu ali o soldado que tanto gostava se remoer em culpa por algo que no fundo não precisava passar.
E Toriam sabia que aquelas não eram palavras vazias, que simplesmente eram ditas para ouvir um “tudo bem” do outro, podia sentir entre elas o remorso e a decepção que Gors estava sentindo por não conseguir protegê-lo.
Inclinou-se com dificuldade, sentindo os músculos reclamarem mas ignorou, esticou a mão pequena tocando a face de Gors, passando os dedos pequenos pela bochecha do soldado que ainda não o encarava relaxando aos poucos com a carícia.
Gors não abriu os olhos, temia olhar para Toriam e ver nada além de decepção em sua face, mas não pode deixar de arregalar os olhos quando sentiu os lábios do menor sobre os seus.
O coração deu um salto e começou a bater mais rápido como nunca, nem ao menos a sensação da melhor luta que tivera se comparou a aquilo. “Afaste-o, afaste-o, afaste-o” era o que sua mente ainda sã dizia, porém quando encarou os olhos de Toriam, repletos de paixão e desejo guardado não conseguiu repelir aquele beijo.
E deixando-se levar inclinou mais o corpo para frente, passando os braços em volta do menor o puxando para si, os lábios se abriram dando passagem as línguas que dançavam em sincronia no ritmo daquela paixão. Explorando uma a outra.
Apenas quando sentiu o leve toque das mãos de Toriam em seu peito o afastando para que pudesse puxar ar para os pulmões que se deu conta do que fizera. Beijara-o? E o pior não era isso, não era o ato mas como reagiu aquilo. Gostara, e só por ter consciência disso que o rosto enrubesceu ainda confuso. Os passos no corredor se tornaram mais altos alertando a chegada de Locse. Toriam encarou Gors que se sentara na poltrona com as mãos no rosto.
Arrependera-se? Será que após isso ele notaria que talvez não gostasse dele? Temendo isso Toriam se inclinou sussurrando um “eu te amo” que deixou Gors mais atordoado.
—Não precisa responder agora —Alertou Toriam, se ajeitando na cama, o coração batendo a mil pelo desejo realizado, ainda temia que aquele fosse realmente um sonho, que aquele beijo não passou de algo de sua mente, e que acordaria a qualquer instante.
Mas para sua felicidade não era, Locse abriu a porta do quarto, nas mãos a bandeja com o copo, entregou a Toriam o olhando atento. O jovem empregado esticou a palma da mão para encostar na testa de Toriam que o olhou sem compreender.
—Que estranho —comentou Locse confuso —Você está vermelho, mas não está com febre —Ah doce ingenuidade que o outro tinha quando se tratava de romance, afinal desde que nasceu o afeto que recebeu se resumia as últimas horas que tiveras de cuidado quando contratado na casa de Toriam.
E com o comentário Gors e Toriam enrubesceram mais ainda, abaixando as faces para que passasse despercebido.
Depois daquele ocorrido à festa já terminara, nem Daínely estava com pique para continuar, a lua estava alta e serena, e na carruagem de cavalos brancos Hiroshi cochilava encostado ao vidro da janela, do outro lado em silêncios Dilan olhava a paisagem passar, sem sono.
“Algo não se encaixava, algo não se encaixava, algo não se encaixava” Porém sabia que repetir isso para si mesmo não faria com que magicamente descobrisse a peça que faltava.
A boca se abriu em surpresa quando uma conclusão chegou a sua mente, não poderia ser isso que Edward faria? Poderia?
Inclinou-se para frente pedindo para que fossem o mais rápido possível para a mansão, e sentiu os cavalos cavalgando mais rápido, precisava falar com Alexander, o mais rápido possível.
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