O Último Reino da Terra

21 Capítulo 20: Destruir para recomeçar


Dalila subiu no palco improvisado, um lugar elevado no centro da praça onde os manifestantes estavam reunidos. A multidão se aquietou ao vê-la, seus olhos brilhando com a expectativa do que ela diria a seguir. Dalila olhou para os rostos ao redor, sentindo o peso do momento. A destruição do Casulo era apenas o começo de uma revolução muito maior, e agora ela precisava guiar o Domo para um novo caminho. Sua voz, firme e decidida, cortou o silêncio que pairava sobre a praça.

“Hoje, a monarquia acabou. Hoje, o parlamento acabou. O sistema que por tanto tempo nos controlou e nos fez acreditar que estávamos protegidos, acabou.”

Os gritos de aprovação da multidão ecoaram, mas Dalila levantou a mão, pedindo silêncio. Ela sabia que agora seria o momento crucial. A transição precisava ser cuidadosa, mas firme. O povo não queria mais promessas vazias, queria ação. E Dalila estava pronta para dar o próximo passo.

“Mas a mudança não será fácil, e não podemos permitir que o caos se instale no lugar da tirania que vivemos até agora. Por isso, anúncio oficialmente a formação de um Governo de Transição. Durante os próximos seis meses, organizaremos eleições para que cada distrito do Domo escolha seus representantes. Esses representantes, eleitos pelo povo, terão o poder de formar um novo governo.”

A multidão ficou em silêncio por um momento, absorvendo a magnitude da proposta. Dalila continuou, sem hesitar.

“Durante esse período, a monarquia e o parlamento cessam suas funções. A opressão e os jogos de poder acabarão aqui. O governo de transição será responsável por garantir a pacificação e garantir que as futuras eleições aconteçam de maneira justa e livre. Não mais acordos secretos, não mais manipulação. Agora, é o povo quem decide o futuro do Domo.”

Ela fez uma pausa, sua mão descansando sobre o peito, com o olhar firme na multidão. Sabia que seria uma decisão controversa, mas ela estava pronta para a luta. Sabia que precisava escolher alguém que fosse capaz de unir, alguém que já conhecia as dificuldades do Domo e que fosse respeitado por todos, sem laços com as mentiras do passado.

“Eu sugiro que, para garantir uma transição pacífica, escolham uma figura que tenha o poder de nos pacificar. Alguém que tenha o respeito de todos, sem ser envolvido nas reuniões que deram origem a essa mentira, que geraram sofrimento e dor. Eu acredito que June Walter pode ser a chave para essa transição.”

O nome de June ecoou por todo o espaço. Olhares perplexos começaram a surgir, mas Dalila sabia que essa decisão não era apenas política, era estratégica. June sempre foi a voz que se levantou quando mais ninguém ousava, a pessoa que questionava e desafiava o sistema sem temer. Ela representava aquilo que muitos haviam perdido: a esperança de que o Domo poderia ser diferente.

“Ela foi a responsável por iniciar a resistência, por não aceitar o sistema, por buscar sempre ajudar aqueles que sofreram com ele. Não há ninguém mais apto a representar a verdadeira mudança do que ela.”

Os murmúrios começaram a crescer na sala, e Dalila sabia que a resistência de June à ideia não seria fácil de contornar. Mas ela acreditava na força da jovem, na sua convicção e no fato de que, no fundo, ela era a única capaz de unir os diversos lados que precisavam ser ouvidos.

June, que estava mais afastada, observava a cena. Ela nunca quis estar em uma posição de poder, mas Dalila estava certa. Quando a injustiça se tornou uma parte indissociável do sistema, ela não teve escolha a não ser lutar contra ele. Agora, era o momento de levar essa luta a um novo nível.

Ela respirou fundo e se aproximou de Dalila, ciente do peso da decisão que estava prestes a tomar. Olhou para todos ao redor e sentiu o olhar da população sobre ela.

“Se for para que o Domo tenha uma chance de reconstruir, para que as vozes do povo sejam ouvidas e para que a verdade prevaleça, eu aceito a proposta”, disse June, sua voz firme, mas com uma leveza que denotava uma força silenciosa, quase como uma determinação construída ao longo dos anos.

Dalila se levantou, a sala agora tomada pelo silêncio absoluto. O peso da decisão ainda pairava no ar, mas ela sabia que o que precisava ser feito, precisava ser feito com firmeza.

“Como último ato de meu governo, declaro a prisão da rainha e de todos aqueles que foram identificados nos vídeos que mostramos. Que a polícia abra um inquérito para investigar a participação de mais indivíduos envolvidos nestes crimes e que estes paguem pelos crimes de assassinato, formação de quadrilha, corrupção ativa e quaisquer outros crimes que possam ser implicados a eles.”

A voz de Dalila era clara e resoluta, como se ela finalmente tivesse se livrado de um peso imenso, um fardo que carregou por muito tempo. As palavras dela ressoaram em cada canto da sala, e a população ali presente, finalmente, começou a sentir que o Domo começava a se reconstruir, mesmo que de forma dolorosa.

“Não haverá mais impunidade. Todos que se beneficiaram das atrocidades cometidas contra o povo serão responsabilizados”, ela continuou, seu olhar firme. “E por fim, declaro a representante oficial do Governo de Transição: June Walter.”

Os olhos de todos se voltaram para June, que estava à beira de uma nova realidade. Era ela agora quem assumiria o peso da reconstrução do Domo, com todas as promessas e desafios que isso envolvia. Dalila sabia que June seria capaz, sabia que ela tinha a força necessária para liderar.

June subiu no palco, os olhos da população fixados nela, com uma mistura de esperança, dúvida e, em alguns casos, resistência. Ela sabia que muitos ali não acreditavam em sua capacidade, especialmente por ser filha de um parlamentar. Mas ela também sabia que tinha algo mais a oferecer do que sua linhagem. Ela tinha algo que poucos no Domo possuíam: a experiência de ter sobrevivido ao Casulo e o desejo de ver o Domo livre das mentiras que o aprisionavam.

Ela respirou fundo, o microfone em suas mãos, e olhou para a multidão.

“Eu sei que muitos de vocês olham para mim e veem apenas a filha de um parlamentar, e talvez isso lhes cause desconfiança”, começou, sua voz firme, mas carregada de emoção. “Mas o que muitos não sabem é o que eu vivi para chegar até aqui.”

Ela fez uma pausa, permitindo que as palavras se acomodassem na mente de todos.

“Fui uma das crianças que passou pelo Casulo. Fui uma das que sobreviveram àquilo que muitos não conseguiram. Fui uma das que viu os horrores e as promessas quebradas pelas mãos daqueles que estavam em posição de poder. Mas, ao invés de me deixar ser destruída por isso, eu me recusei a aceitar essa realidade.”

Ela olhou para baixo por um momento, lembrando-se dos momentos mais sombrios, mas também do que veio depois.

“Durante todo esse tempo, construímos algo. A resistência não foi apenas uma ideia, foi um movimento. E não sou eu que devo ser celebrada por isso, mas todos aqueles que se levantaram, que ousaram questionar, que deram suas vidas, seus sonhos e suas esperanças para que hoje estivéssemos aqui. Agradeço a cada um de vocês que acreditou e que esteve ao meu lado. Mas, principalmente, agradeço àqueles que não puderam estar aqui. Aqueles que já não estão mais conosco, mas cujos sacrifícios não serão esquecidos.”

June olhou para Dalila, que estava em um canto discreto do palco, e um leve sorriso se formou em seus lábios.

“E acima de tudo, quero agradecer à coragem de Dalila Stewart. Ela foi uma das poucas pessoas que teve a coragem de tomar a decisão mais difícil de sua vida: colocar o povo antes de sua própria família e seu próprio legado. Não era fácil. Não foi fácil para ela. E eu não sei se eu seria capaz de fazer o que ela fez. Dalila, você mostrou a todos nós o verdadeiro significado de liderança. Sua coragem é um exemplo para todos nós, e por isso, sou eternamente grata.”

Ela pausou novamente, o peso de suas palavras se espalhando pela sala.

“Eu não esperava essa indicação. Nunca imaginei que seria eu a assumir essa responsabilidade. Não estava preparada para isso, não da maneira que todos imaginam. Mas eu aceito porque acredito que, finalmente, temos a chance de recomeçar. Temos a chance de corrigir os erros do passado e construir um Domo onde todos, independentemente do que são ou de onde vêm, tenham um futuro digno.”

June olhou para o público com sinceridade nos olhos.

“Mas não será fácil. A jornada à frente será longa, e haverá desafios. Não sou uma salvadora. Não sou a solução para todos os problemas do Domo. Mas, juntos, podemos ser a mudança que todos sonhamos. Não tenho todas as respostas, mas acredito que, com coragem e união, podemos encontrar o caminho. E, acima de tudo, prometo que a nossa voz, a voz de todos vocês, será ouvida.”

A multidão começou a aplaudir. Não era uma aprovação unânime, mas era um começo. Um começo para um novo Domo.

De longe, os pais de June, Lucia e Marcus, observavam a filha no palco com sentimentos misturados. O orgulho era inegável. Eles a viam ali, em meio ao caos e à revolução, sendo reconhecida por sua coragem e determinação. No entanto, ao mesmo tempo, havia uma sombra de temor em seus corações. Sabiam que a filha estava agora imersa em uma responsabilidade imensa, em um cenário onde os riscos não eram apenas políticos, mas também pessoais.

Lucia olhou para Marcus, seus olhos um tanto distantes. Ela sempre soubera que June tinha um espírito rebelde, uma força interior que a tornava diferente das outras crianças, mas vê-la ali, naquele momento de transição tão crítico, fazia seu coração apertar.

“Ela tem coragem... mais do que qualquer um de nós jamais teve,” disse Lucia, sua voz baixa, mas cheia de emoção.

Marcus suspirou, olhando para o palco onde June se erguia diante de uma multidão que a observava com os olhos da esperança, mas também da dúvida.

“Ela vai ser alvo de todos, Lucia. E nem todos serão gratos por ela estar aqui. O que ela faz agora, pode nos colocar em risco... a todos nós,” disse Marcus, a preocupação estampada em seu rosto.

Lucia pegou sua mão, apertando-a com um gesto de entendimento.

“Eu sei, Marcus. Sei que ela está dando tudo de si, mas... será que ela entende o quanto isso vai custar? Que o mundo agora não será só uma luta contra a monarquia, mas contra tudo que o sistema construiu? É um peso enorme para uma jovem como ela.”

Os dois pais se calaram por um momento, observando a filha. No palco, June não parecia perceber o peso da responsabilidade que estava assumindo. Ela falava com paixão e determinação, mas, para os pais, o medo de que os inimigos de seu passado se voltassem contra ela, de que o governo de transição se tornasse algo muito mais perigoso, estava sempre presente.

“Ela foi a responsável por iniciar a resistência, por não aceitar o sistema. Sempre acreditou que poderia mudar as coisas, e, agora, está sendo testada mais do que jamais imaginamos,” disse Marcus, com uma voz mais suave, como se tentando se convencer de que June estava pronta.

Lucia olhou para ele, seus olhos um pouco marejados.

“Eu sei... mas ela vai precisar de mais do que coragem, vai precisar de muita sabedoria. Eu só... espero que ela não perca a essência dela no meio disso tudo. Eu espero que ela consiga fazer as escolhas certas.”

Marcus olhou para Lucia e, embora as palavras não saíssem, havia uma compreensão silenciosa entre eles. Ambos sabiam que a filha estava prestes a enfrentar um mundo que não seria gentil com ela. Mas, ao mesmo tempo, não podiam deixar de sentir um orgulho imenso de ver como ela havia se tornado alguém tão forte, alguém com o poder de mudar o Domo.

Lucia e Marcus sabiam que, independentemente do que acontecesse, estariam ao lado de June. E que ela, mesmo com todos os riscos e desafios, estava destinada a moldar o futuro. Mesmo que esse futuro fosse incerto, havia uma coisa de que eles tinham certeza: a coragem de June era capaz de mudar tudo.

June subiu ao palco, sentindo o peso das decisões que acabara de tomar. O silêncio da multidão era ensurdecedor, todos esperando por suas palavras. Ela segurou o microfone com firmeza, respirou fundo e começou:

"Eu sei que, para muitos de vocês, este é um momento de incerteza. Não esperavam que eu fosse a indicada para representar este governo de transição, e, para ser honesta, nem eu. Nunca me vi aqui. Mas estamos diante de uma nova era, onde precisamos de coragem para reconstruir o que foi quebrado, e é com essa coragem que faremos o trabalho."

Ela fez uma breve pausa, varrendo os rostos na multidão antes de continuar:

"A primeira escolha que faço é Isabela Martins, a jornalista que tem sido fundamental na luta pela verdade e na fundação do movimento 'Fato ou Fake'. Isabela tem demonstrado, ao longo de sua carreira, uma habilidade rara: a coragem de colocar a verdade acima de tudo, sem se curvar às pressões do poder. Ela foi quem mais nos ajudou a revelar as mentiras que alimentaram o Domo, e eu acredito que ela trará a mesma transparência para este novo governo."

June percebeu algumas expressões de aprovação e continuou.

"A segunda escolha, talvez a mais difícil, foi a de Dalila Stewart. Sei que muitos a veem como alguém que, até aqui, representou a monarquia, mas sua coragem em enfrentar os erros do passado e seu conhecimento único dos arquivos secretos a tornam a pessoa mais capacitada para nos ajudar a lidar com a verdade sobre o que aconteceu. Ela terá acesso a tudo, e isso é algo que todos precisamos agora. Sua experiência será vital para que possamos construir um governo que não repita os erros do passado."

"A terceira escolha é Maddox. Ela será minha guarda-costas, mas também terá a função de comunicar-se diretamente com a população. Seus poderes de calma têm sido fundamentais para garantir que as manifestações de raiva e frustração não se transformem em violência. Ela tem um papel importante a desempenhar não apenas pela segurança, mas também pela paz que precisamos neste momento."

Ela fez uma pausa maior antes de seguir para o nome mais polêmico.

"Escolhi também Ethan. Sei que muitos podem se perguntar por que ele. Ethan, por mais que seja uma pessoa misteriosa, é um dos maiores gênios que o Domo já conheceu. Sua inteligência não pode ser ignorada, e sua presença ao meu lado garantirá que este governo esteja protegido das manipulações que o sistema anterior tentava impor. Sua mente será essencial para formular políticas eficazes e evitar que voltemos a um estado de opressão."

Houve burburinhos, mas June já esperava. Então, ela respirou fundo e continuou.

"E por último, mas não menos importante, escolhi Camila Ortega, uma das vozes mais ativas dos distritos mais pobres. Camila viveu a vida inteira nas regiões mais negligenciadas do Domo e sabe, melhor do que qualquer um aqui, as dificuldades que esse sistema impôs sobre as pessoas. Se queremos construir um futuro justo, precisamos garantir que todos tenham representação. Sua presença aqui não é um símbolo — é uma necessidade. O governo de transição não pode ser formado apenas por aqueles que estavam no centro da política, mas também por aqueles que sofreram com ela."

June observou os olhares na multidão mudando. Camila já era conhecida entre os mais pobres, e sua nomeação parecia trazer um senso de justiça ao governo de transição.

"Eu escolhi essas pessoas não porque elas sejam perfeitas, mas porque, como eu, elas sabem o que é viver sob o peso da opressão e têm a coragem de lutar para mudar as coisas. Não será fácil, mas não estamos sozinhos. Estamos juntos nessa jornada, e é com vocês que vamos reconstruir o Domo."

Com um último olhar para o público, June deu um passo atrás, sentindo o peso das palavras que acabara de proferir. O futuro estava em suas mãos, e ela não tinha a intenção de falhar.