O Último Reino da Terra
2 Capítulo 1: Ao casulo ou o cesto
Nascer no Domo era um privilégio reservado a poucos. Mas, com esse privilégio, vinha um peso esmagador: a obrigação de ser excepcional. A cada nascimento, havia expectativa. Em poucos minutos, um simples exame de sangue revelava tudo. O DNA respondia às perguntas antes mesmo que a criança pudesse pronunciar sua primeira palavra. Força sobre-humana? Telepatia? Controle dos elementos? O talento definia o destino. Até que algo começou a dar errado. Crianças comuns nasceram de famílias extraordinárias. Sem habilidades especiais. Sem dons sobre-humanos. Apenas humanas. Um erro na linhagem. A dúvida ecoou nos corredores do governo: o que fazer com aqueles que não atingiam a expectativa? Pais desesperados tentavam esconder seus filhos, mas não havia escapatória. O exame de sangue era obrigatório. Os dados chegavam diretamente às mãos do parlamento. Nenhuma família estava isenta, nem mesmo as mais poderosas. A solução foi imposta. As famílias tinham apenas duas escolhas: O Casulo ou o Cesto. Os que escolhiam o Casulo entregavam seus filhos aos grandes laboratórios. Lá, as crianças eram colocadas em câmaras de indução genética, onde tentavam despertar habilidades latentes. Um processo incerto, doloroso. Alguns saíam de lá como prodígios. Outros jamais saíam. A segunda opção era o Cesto. Uma cápsula selada, lançada para fora do Domo. O destino dos bebês rejeitados ficava nas mãos do mundo exterior. Se sobrevivessem, nunca mais poderiam voltar. O Domo não aceitava falhas. A perfeição tinha um preço. E, pela primeira vez, alguns começavam a questionar se estavam dispostos a pagá-lo.
June conhecia o silêncio melhor do que qualquer um. Por três anos, ela viveu no Casulo, flutuando entre a inconsciência e a dor. O tratamento era um processo meticuloso de manipulação genética, doses calculadas de substâncias desconhecidas e sonhos distorcidos. Ela não se lembrava da luz do sol, do toque de outra pessoa, do som da própria voz sem que fosse acompanhada pelo eco de outras mentes. Quando emergiu, sua família celebrou. Os parlamentares ergueram brindes de cristal ao sucesso da ciência, ignorando o fato de que June tremia ao menor sussurro. O dom da telepatia fora despertado, mas ninguém questionou se aquilo era, de fato, um presente. Os pensamentos não tinham volume. Eram gritos, sussurros, tempestades de vozes se sobrepondo. Ela tentava concentrar-se no que era real, mas a diferença entre palavras faladas e pensamentos não ditos se tornava cada vez mais tênue. Os sorrisos eram fúteis, pois June escutava as dúvidas por trás deles. As promessas de seus pais de que tudo ficaria bem vinham acompanhadas do medo sufocado de que algo tivesse dado errado. June começou a evitar o contato visual. Era pior assim. Os olhos eram janelas abertas. Um relance e ela sabia tudo. Sabia que sua mãe se arrependia de tê-la colocado no Casulo. Sabia que seu pai via nela um experimento bem-sucedido, mas nunca uma filha. Sabia que os outros membros do Parlamento a admiravam, mas temiam que um dia ela escutasse demais. Ela tentou bloquear as vozes. Nada funcionava. Cada palavra pensada vinha como um superconjunto de emoções, de verdades nuas e cruas, despidas da civilidade. A raiva era mais quente que fogo. O medo vinha como um calafrio que atravessava sua espinha. O desejo, a inveja, a mentira—tudo era visceral. No Domo, o poder era tudo. Mas June sabia que aquele poder era uma maldição. Na terceira noite após sua libertação, ela não conseguiu dormir. As paredes do quarto eram grossas, mas não o bastante para conter os pensamentos dos serviçais, dos guardas postados no corredor, dos ministros nas salas de reunião. Todos pensavam. Ninguém conseguia silenciar a própria mente. Seu coração martelava. Ela agarrou a cabeceira da cama, pressionando os dedos contra a madeira fria. O quarto girava. O ar parecia rarefeito. "June?" A voz de sua mãe veio suave da porta. A garota não precisou responder. Sua mãe já sentia o que acontecia. June sabia disso porque sentiu também. Preocupação, medo, um desejo infantil de abraçá-la e garantir que tudo ficaria bem. June deixou escapar um suspiro trêmulo. "Não consigo desligar." Sua mãe hesitou, os lábios se comprimindo. "Talvez... com o tempo..." Mas June sabia a verdade. Leu isso na mente dela antes mesmo que pudesse terminá-la. Não havia tempo suficiente no mundo para consertar o que haviam feito com ela. Quando sua mãe saiu do quarto, June fixou os olhos no teto escuro. Pensamentos zuniam ao redor, incessantes, insuportáveis. Se não pudesse fugir dos outros, teria que fugir de si mesma. Naquela noite, tomou sua decisão. Se o Domo não aceitava falhas, então ela se tornaria a falha que eles temiam.
Mas June não era a única. Desde sua infância, milhares de crianças haviam sido lançadas para fora do Domo, condenadas ao destino incerto do Cesto. Algumas sobreviveram, acolhidas por aqueles que viviam nas ruínas do mundo exterior. Outras foram engolidas pelo desespero, sucumbindo ao frio, à fome ou aos perigos invisíveis do desconhecido. Seus nomes nunca eram mencionados. Seus rostos nunca apareciam nos registros. Elas eram os erros apagados da história do Domo. Dentro dos Casulos, o destino era ainda pior. Muitas crianças nunca saíram de suas câmaras de indução genética. Seus corpos não resistiram às mutações forçadas, seus corações falharam antes que qualquer dom pudesse despertar. Para cada sucesso como June, dezenas pereciam em silêncio, enterradas sem cerimônia nos laboratórios subterrâneos. A verdade era clara: o sistema não funcionava. Mas ninguém ousava dizê-lo. Até agora. June não queria ser uma mártir. Não queria ser uma heroína. Mas, ao sentir o peso das incontáveis vozes sufocadas—crianças que nunca tiveram escolha, que foram rejeitadas e esquecidas—ela soube que não poderia continuar fingindo. O Domo precisava cair. E ela seria o começo da revolução.
A fuga começou com um sussurro—ou melhor, com a ausência dele. Pela primeira vez, June conseguiu bloquear as mentes ao seu redor. Foi um esforço doloroso, uma barreira que exigia cada fragmento de sua energia. Mas era o suficiente para enganar os guardas, o suficiente para escorregar pelos corredores sombrios do complexo governamental. No subsolo do Domo, ela encontrou o arquivo proibido. Um banco de dados com registros de todas as crianças rejeitadas. Com um toque trêmulo, acessou os arquivos e viu os nomes, os rostos, as vidas apagadas pela busca insana pela perfeição. E então, enviou tudo ao mundo exterior. A revolução não começaria com explosões ou batalhas. Começaria com a verdade.
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