O Último Pulso
3 Capítulo 3: O Estranho
Após o encontro com aquilo que um dia era algo conhecido, caminharam por horas pelo mundo transformado. O cansaço voltava a pesar, passo após passo, sem sinal de abrigo. Quando a vegetação começou a se abrir em um traçado irregular no chão, algo parecido com uma trilha, Ulisses diminuiu o ritmo instintivamente.
O silêncio ali era diferente. Ele observava ao redor, atento demais. Helena seguia alguns passos à frente quando sentiu o chão ceder sob seus pés. Antes que pudesse reagir, ouviu o estalo seco da madeira se partindo — um som curto, seguido pelo vazio.
O chão desapareceu.
Ulisses virou-se a tempo de ver Helena sumir, junto com tábuas quebradas e terra solta. O impacto veio logo depois.
— Helena! — gritou, correndo até a borda.
Ela havia caído em um buraco profundo. Madeira lascada nas laterais. Não era um desnível natural. Era uma armadilha.
Helena tentou se levantar rapidamente, movida pela adrenalina. No primeiro apoio, uma dor aguda atravessou o pé. O corpo cedeu, e ela voltou a se sentar, respirando fundo para não gritar.
Ulisses desceu de joelhos, o coração acelerado.
— Você está bem? — perguntou.
— Estou… mas meu pé — respondeu, com a voz tensa. — E isso aqui é alto demais.
— Fica calma. Eu vou achar alguma coisa pra te ajudar a subir.
Ele se levantou e olhou ao redor. Foi então que sentiu.
Da mata, à esquerda, surgiu um homem. Pele escura, cabelo crespo curto, roupas gastas cobertas por um capuz largo. Nas mãos, uma arma improvisada, firme, já apontada para Ulisses.
O tempo pareceu travar.
Ulisses ergueu as mãos lentamente.
— Calma. Não precisa atirar.
O homem não respondeu. Seus olhos passaram por Ulisses e desceram até o buraco.
— Foi você que fez isso? — perguntou Ulisses, tentando manter a voz estável. — Minha amiga se machucou. A gente não quer problema.
O silêncio se manteve por mais alguns segundos e então o homem falou:
— De onde vocês vieram?
Ulisses hesitou.
— A gente… ainda não sabe direito.
O olhar do estranho percorreu as roupas de Ulisses, demorando mais do que deveria.
— Você parece conhecer bem o lugar… — diz Ulisses com uma voz trêmula.
O homem, em silêncio, deu dois passos à frente. O estalo de um galho sob sua bota soou alto demais naquele silêncio pesado.
— Você fala demais… — diz o estranho.
Ulisses engoliu em seco. O peso do olhar do homem era pior que a arma.
Lá embaixo, Helena tentou mudar de posição e reprimiu um gemido de dor. O som ecoou pelo buraco.
Os olhos do homem se moveram imediatamente para o buraco.
— Mais alguém além dela? — perguntou.
— Só nós dois — respondeu Ulisses rápido demais. — Não estamos armados.
O homem inclinou levemente a cabeça, como quem avalia uma mentira.
Ele se aproximou da borda do buraco e olhou para Helena por alguns segundos. Não havia curiosidade no rosto dele, apenas calculando possibilidades.
— Você caiu onde não devia — disse, mais para o chão do que para ela. — Isso não foi acidente.
Helena respirava com dificuldade, tentando manter a dor sob controle.
— Se quisesse nos matar, já teria feito — disse ela, forçando a voz firme. — Então decide logo.
O homem sorriu pela primeira vez. Não foi um sorriso amigável.
— Corajosa… ou burra.
Ele deu um passo para trás e fez um gesto curto com a arma.
— Esvazie os bolsos... devagar.
Ulisses hesitou por um segundo. Depois obedeceu.
Tinha pouco consigo. Alguns objetos recolhidos durante as horas de caminhada, nada que representasse ameaça. Um por um, deixou tudo cair diante dos pés do estranho.
O homem observou em silêncio. Só então, com cautela, baixou a arma e a colocou no coldre.
— Nomes — disse.
— Ulisses. Ela é Helena.
Ele assentiu levemente, como quem registra uma informação sem se importar com ela.
— Vou ajudar vocês — disse. — Mas se fizerem qualquer coisa errada, acaba aqui.
Ulisses não respondeu. Apenas assentiu.
O homem puxou uma corda presa às costas e a lançou para dentro do buraco. Helena segurou com dificuldade. Com esforço — e dor — conseguiu subir. Ulisses estendeu a mão no último instante, ajudando-a a se firmar.
— Consegue andar? — perguntou, baixo.
— Consigo… mas vai ter que ser devagar.
Sem esperar resposta, o estranho virou-se e seguiu pela trilha. Ulisses e Helena o acompanharam em silêncio.
Poucos metros adiante, surgiu um chalé quase invisível entre a vegetação, camuflado com madeira escura e musgo.
— É aqui que você mora? — arriscou Ulisses.
— É aqui que eu sobrevivo.
O interior era simples, mas organizado e funcional. Helena, ao passar o olhar pelo ambiente, notou um cômodo mais escuro ao fundo. O brilho metálico não deixava dúvidas.
— Nem pense — disse o homem, sem sequer olhar para ela.
Helena se conteve.
— E você? — perguntou. — Qual é o seu nome?
Ele demorou um instante antes de responder.
— Silas.
Em seguida, puxou um pequeno kit de dentro de um compartimento e estendeu para Ulisses.
— Cuide do pé dela.
O homem já se afastava quando falou novamente:
— Já está ficando tarde. Durmam aqui. — Silas fez uma breve pausa. — Amanhã vai ser um dia longo.
Ninguém respondeu.
O cansaço acumulado dos últimos dias falava mais alto do que qualquer desconfiança.
Helena acomodou-se em um pequeno sofá encostado à parede. Estava longe de ser confortável, mas ainda era melhor do que o chão frio do depósito onde haviam passado a primeira noite naquele mundo.
Ulisses estendeu-se sobre um tapete gasto ao lado dela. As costas reclamaram imediatamente, mas ele ignorou.
O silêncio tomou conta do chalé aos poucos. Do lado de fora, galhos estalavam ao longe. Insetos cantavam escondidos na escuridão.
Helena demorou a pegar no sono.
Ulisses também.
Mas o esgotamento venceu antes que qualquer um deles pudesse organizar os próprios pensamentos.
O frio da manhã os acordou antes mesmo do sol atravessar as árvores.
— Está melhor? — perguntou Ulisses.
— Sim. Acho que foi só uma torção. Ainda dói um pouco, mas já consigo apoiar o pé.
Ulisses assentiu e foi até o quarto.
— Silas?
Nada.
Ao sair do chalé, notou pegadas recentes na terra úmida, quase apagadas pela vegetação.
Voltou para dentro.
— Ele não está aqui.
Helena baixou a voz.
— Quando entramos, vi um cômodo… parecia um arsenal. A gente pode pegar o que der e ir embora.
— Isso é demais — respondeu Ulisses.
— Ele nos deixou sozinhos.
Ulisses respirou fundo.
— Rápido.
O cômodo escuro revelava armas improvisadas: facas, lanças, armas adaptadas de sucata.
Helena pegou uma bolsa, uma faca pequena e uma arma estranha. Ulisses escolheu um arco e reuniu as flechas que conseguiu.
Saíram em silêncio, seguindo na direção oposta.
Horas depois, Silas voltou ao chalé.
O cômodo estava diferente.
— Filhos da mãe…
A floresta se fechava ao redor de Helena e Ulisses. Sons metálicos ecoavam entre as árvores, primeiro distantes, depois próximos demais.
Um som agudo veio de cima. Helena ergueu o olhar devagar.
No topo da árvore, uma criatura observava. Corpo comprido, escamas irregulares, bico grande e afiado. Não atacava. Ainda.
Eles apressaram o passo até uma formação rochosa. Ao tentar escalar, perceberam tarde demais.
Não era um só. Eram três animais grotescos, que certamente sofreram mutações, provavelmente oriundas do que aconteceu no fatídico dia. A dupla rapidamente se aprontou, esperando um possível ataque.
O animal que estava ao centro deles, olhou fixamente para Ulisses e rapidamente bateu suas asas e com o mesmo som metálico ecoando o ataca.
Com o arco que havia pegado do arsenal, Ulisses disparou. A flecha cortou o ar e atingiu de raspão a asa da criatura, abrindo apenas um corte superficial. O animal soltou um som agudo, metálico, mas continuou avançando sem perder velocidade.
Helena mal teve tempo de reagir.
A outra criatura mergulhou em sua direção. Helena tentou se manter firme, mas ao apoiar o peso no pé machucado,não teve tanta força quanto achou que teria. O equilíbrio desapareceu e ela caiu contra a pedra. Instintivamente, ergueu a faca. A lâmina encontrou o pescoço da criatura. O animal se debateu violentamente, emitindo estalos abafados enquanto recuava, espalhando gotas escuras pelo chão.
O terceiro Garro surgiu acima deles.
Antes que alcançasse o ataque, uma onda sonora atravessou a floresta.
O impacto atingiu a criatura em cheio, lançando-a contra as árvores. O som foi grave e distorcido, como metal sendo rasgado à distância.
O animal ferido por Helena ergueu voo imediatamente. Seu comportamento mudou no mesmo instante, como se tivesse reconhecido algo pior do que eles. Em poucos segundos, desapareceu acima das copas.
O outro, atingido de raspão pela flecha de Ulisses, hesitou. O olhar da criatura percorreu a mata escura atrás deles antes de abandonar o ataque. Com um movimento brusco, alçou voo e sumiu entre as árvores.
O silêncio caiu sobre a floresta outra vez e uma figura surgiu lentamente entre as árvores.
Era Silas.
A arma improvisada ainda vibrava em sua mão, emitindo pequenos ruídos metálicos enquanto a fumaça se dissipava pelo cano adaptado.
O olhar dele passou pelos dois, avaliando os ferimentos, as armas roubadas e as criaturas desaparecendo entre as copas.
— Estou vendo que vocês ainda precisam da minha ajuda… — disse, sem qualquer traço de humor.
Ulisses ainda tentava recuperar o fôlego.
— Que… que coisas eram aquelas?
Silas desviou os olhos para o céu por um instante, atento ao silêncio da floresta.
— Garros Voadores — respondeu. — E vocês tiveram sorte. Pouca gente sobrevive quando eles começam a caçar em grupo.
Helena apoiou a mão na pedra para se levantar. A dor no pé ainda estava ali, pulsando.
— Obrigada… de novo.
Silas observou a faca em sua mão por alguns segundos antes de responder.
— Espero não me arrepender de ter ajudado vocês outra vez.
O silêncio voltou entre os três.
Mas agora havia algo diferente para Ulisses e Helena.
Sensação de desconfiança… e dívida. E a sensação incômoda de que, naquele mundo, sobreviver sozinho talvez fosse pior do que sobreviver ao lado das pessoas erradas.
Silas ajustou a arma no ombro e voltou a caminhar.
— Venham. Antes que eles decidam voltar.
Os três caminhavam em silêncio pela trilha estreita. O som das folhas secas sob os pés era a única coisa quebrando o vazio da floresta.
Helena ainda olhava para trás de vez em quando, como se esperasse ver aqueles bichos retornando.
— Aquilo… — começou ela, ainda sem recuperar totalmente o fôlego. — Aqueles bichos… o que eram?
Silas demorou alguns segundos para responder.
— Hoje em dia? Difícil dizer o que qualquer coisa realmente é.
O silêncio voltou por alguns metros.
— Eles são chamados de Garros Voadores — continuou. — Mas ninguém sabe exatamente como se transformaram depois do Ano Zero.
Ulisses franziu o cenho.
— Ano Zero?
Silas olhou para frente enquanto caminhava.
Helena parou por um instante.
— Espera… que ano é esse?
— Ano 36 — disse Silas.
Helena desacelera. A resposta caiu pesada demais.
Ulisses trocou um olhar rápido com Helena.
— O tal Ano Zero, o que aconteceu? — perguntou, mais cauteloso agora.
Silas respirou fundo antes de responder.
— Foi o ano em que o mundo acabou sem perceber e o meu começou… — disse Silas.
Nenhum dos dois respondeu.
— Depois daquilo… as coisas começaram a nascer erradas. Lugares e animais mudaram… e as pessoas também.
Helena engoliu em seco.
— Mas o que causou isso?
Silas soltou uma breve risada sem humor.
— Se alguém soubesse… talvez esse mundo ainda existisse.
Ninguém respondeu.
Partiram em silêncio pela trilha. O mesmo silêncio de antes, mas com peso diferente. Helena olhava para o chão enquanto caminhava. Ulisses para o horizonte. Como se cada um estivesse sozinho com algo que ainda não conseguia nomear.
O chalé surgiu entre a vegetação alguns minutos depois.
— Chegamos — disse Silas, sem diminuir o passo. — E espero que não me roubem de novo.
Eles entraram no chalé. Ulisses seguiu direto para o cômodo das armas, levando tudo o que havia pegado.
— Não precisa devolver — disse Silas, antes mesmo que ele entrasse no quarto. — Fiquem com isso. Vocês vão precisar.
Ulisses olhou para Helena por um instante antes de baixar as armas novamente.
— Depois do que vimos lá fora… acho que vamos mesmo — disse Helena.
Silas soltou um breve resmungo.
— Não me agradeçam, ainda…
O silêncio caiu por alguns segundos enquanto ele retirava o casaco gasto e o jogava sobre uma cadeira.
— Vi como vocês reagiram hoje — continuou. — Ainda são inexperientes… mas sabem se virar melhor do que imaginei.
Helena cruzou os braços, desconfiada.
— E o que isso quer dizer?
Silas pegou um pequeno cantil sobre a mesa.
— Amanhã cedo vou sair para caçar. Vocês vêm comigo.
Ulisses franziu o cenho.
— Caçar o quê?
Silas demorou um pouco para responder.
— Algo que não se enfrenta sozinho.
Helena inclinou levemente a cabeça.
— Você sobreviveu esse tempo todo sem ajuda.
Silas encarou os dois por um instante.
— Sobrevivi justamente porque aprendi quando não ir sozinho.
Lá fora, o céu começava a escurecer entre as árvores. O frio aumentava rápido.
Fale com o autor