O Último Olhar
2 O Encontro Silencioso
O dia seguinte chegou com uma neblina baixa a envolver Kyoto, transformando os telhados de telha vermelha e as ruas de pedra em sombras difusas. Hana sentia-se mais cansada que o habitual, o seu corpo protestava a cada movimento, mas a mente permanecia alerta, como se pressentisse que algo mudaria naquele dia. Decidiu ir ao mercado próximo do templo, não tanto para comprar comida, mas para sentir o pulsar da cidade, ouvir os murmúrios das pessoas e perceber que ainda pertencia ao mundo que a rodeava.
Enquanto caminhava entre bancas de legumes frescos, frutas coloridas e peixe recém-pescado, Hana percebeu algo que a fez parar. Entre os transeuntes, uma figura estava imóvel, quase escondida pela sombra de uma cerejeira ainda coberta de pétalas que resistiam ao vento outonal. A figura era alta, vestida de preto, com uma postura calma e enigmática. Os olhos pareciam fundir-se com os seus, e por um momento, Hana sentiu um frio que não vinha do ar, mas do encontro visual que os uniu.
Não era um olhar ameaçador, nem carregado de intenção, era apenas um olhar que parecia compreender tudo, como se conhecesse cada fragmento da sua vida. Hana sentiu o coração acelerar, mas não por medo, sim por uma estranha sensação de reconhecimento, como se estivesse a reencontrar alguém que sempre a tivera à espera.
— Bom dia — disse a figura, finalmente, com uma voz serena, sem pressa.
Hana engoliu em seco. A sua voz falhou por um instante, e ela respondeu apenas com um tímido “Bom dia”. O homem sorriu levemente, e houve naquele gesto algo que a fez sentir-se estranhamente confortável. Ele não tinha pressa, não procurava respostas imediatas, apenas estava ali, ao seu lado, como se o tempo fosse uma entidade sem relevância.
— Tem estado a cuidar-te bem? — perguntou, com a mesma calma que parecia envolver tudo à volta.
Hana franziu ligeiramente o sobrolho, confusa com a pergunta. Era demasiado direta, demasiado íntima, considerando que nunca o tinha visto antes. Mas, ao mesmo tempo, não sentiu invasão, apenas uma verdade silenciosa que a atingia de forma inevitável.
— Tento — respondeu, finalmente. A sua voz era baixa, quase um sussurro. — Mas... às vezes parece que há limites que não posso ultrapassar.
O homem acenou, sem julgar, como se compreendesse perfeitamente.
— Existem. E nem todos podem ser mudados, por mais que queiramos.
Hana respirou fundo e sentiu uma estranha sensação de paz misturada com uma ansiedade silenciosa. Nunca antes se tinha confrontada tão diretamente com o que estava para vir. Durante meses, a sua doença tinha sido uma sombra constante, mas intocável, distante. Agora, diante daquele homem, tornou-se real, quase tangível, e ele parecia encarnar aquilo que sempre a tinha rondado, sem nunca se revelar.
— Quem és…? — começou a perguntar, hesitante, como se nomear a presença pudesse de alguma forma reduzir a sua força.
O homem sorriu novamente, desta vez sem palavras. Mas no seu olhar havia tudo o que não precisava de ser dito. Hana sentiu a verdade a instalar-se no seu peito: ele era a inevitabilidade, o fim que se aproximava, a presença que havia sussurrado à distância por tanto tempo. Pela primeira vez, percebeu que não havia medo a ter, apenas aceitação a descobrir.
Passaram alguns minutos em silêncio, apenas a observar as pétalas a cair, o movimento da cidade, o mundo a continuar indiferente à sua pequena interacção. Hana sentiu-se estranhamente leve, como se o simples facto de ver a Morte de frente a tivesse libertado de um peso invisível que carregava há meses.
Quando finalmente se despediu, não houve correria, nem urgência. O homem apenas se afastou lentamente, mantendo-se à distância, como se aguardasse pacientemente o momento certo para voltar. Hana ficou parada, sentindo o eco da sua presença no ar e uma estranha certeza: aquele encontro não tinha sido por acaso, e a conversa que um dia teriam iria ajudá-la a aceitar o que a esperava.
E, naquele dia, entre cores de outono e mercados cheios de vida, Hana começou a perceber que a Morte não era apenas uma sombra a temer, podia ser também uma presença silenciosa, paciente, que lhe permitiria enfrentar o destino com calma.
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