O Último Espetáculo

1 One-Shot - O Último Espetáculo


Notas iniciais
Então meus lindos, aqui está um textinho meu, fiquei um tempo sem postar pq estava viajando e tam, mas pra não lhes deixar sem nada, resolvi postar essa one... Logo menos saem os prox. cap. de Em Sangue.

E sempre esteve lá… Eu apenas precisava ser capaz de ver… A solução suprema, como nós poderíamos dizer, a solução para toda essa dor que sinto.

Agora eu estou aqui, encostada ao piano que sofreu junto comigo, o único que ouviu minhas dores sem reclamar, que me permitiu usá-lo para descarregar minhas frustrações tornando-as algo belo… Uma melodia furiosa e penetrante que um dia vocês conhecerão.

Infelizmente eu não chegarei a ver esse dia, eu tomei minha decisão à algumas horas… Estou apenas esperando o cair da noite, quero ver o brilho da lua uma vez mais. Quero ter como única platéia desse último espetáculo o brilho das estrelas.

Aguardo lentamente o sol se por, dor de trás da janela e observo atentamente a partitura a minha frente, eu a escrevera com calma, mas ainda assim, a intensidade de sentimentos, a intensidade do momento, era notada no frenesi das notas escritas. Essa melodia um dia seria lembrada como a minha última. A mais famosa.

Tive meu reconhecimento em vida, tenho minha fama e eu lutei muito para consegui-la, já toquei com as melhores orquestras do mundo, mas em algum lugar do percurso, eu me perdi, eu perdi o meu eu, a minha alma, o meu amor. Agora naquela última música eu depositava tudo, eu depositava minhas lágrimas e meu sangue.

A muitos anos já não vivo, pois nem mesmo meu amor pela música basta para me fazer viver, eu perdi todos que me amavam, eu troquei todos que me consideravam, e pelo que? Pela fama de grande pianista… E agora… Eu percebo… Tudo que eu realmente precisava era aquilo que eu perdi.

Eu precisava do amor dos meus pais, mas o tempo levou eles, eu não fui no enterro, era o dia de uma das minhas grandes apresentações. Eles se foram e eu não me despedi. Ontem eu os visitei em seu túmulo de descanso eterno pela primeira vez. No lápide escrito em letras bonitas estava a frase que escolhi sem prestar atenção. “Pais amados, descansem em paz”. Pelo menos eu lhes pagara um enterro digno.

O resto de minha família me abandonou por livre e espontânea vontade, ninguém me queria por perto mais, eles estavam certos, eu lhes dava toda a razão, eu me tornara um monstro sem sentimentos, tudo que eu via era a música, e por mais que me doesse a partida deles, eu não podia deixar me abalar, eu estava em uma escalada… Eu tinha que alcançar o topo, a qualquer preço.

Eu cheguei ao topo, mas agora eu vejo que o preço, foi alto de mais, quando eu finalmente alcancei esse topo, quando eu olhei para o caminho que percorri, eu me assustei comigo mesma, no meu caminho eu deixei todas as pessoas que um dia se importaram comigo. Eu deixara até mesmo “ela”. A última pessoa que se importava, a última que estava aqui por mim.

Ela surgiu em um momento de desespero… Ela me deu amor… Ela me deu atenção, carinho, ela me deu sua alma e seu coração… Mas quando eu tive que escolher entre ela e o último degrau, eu a despedacei, eu esmaguei seu coração e triturei sua alma, tudo para atingir meu objetivo…

Eu consegui, não é? Mas a que preço?

Já não durmo a meses, vendo seus olhos decepcionados e suas lágrimas de dor, já não respiro a dias lembrando de como seus beijos me reconfortavam em minha exaustão… Eu a destruí. Eu me tornei o monstro que eu tanto desejara… E só agora eu percebo… Eu matei minha alma também, eu matei aquilo que me tornava humana, eu abandonei minha consciência… Agora ela retornava para me assombrar.

Queria consertá-la… Queria reparar o crime que cometi… Mas já não tenho como… Eu a machucara tanto que ela escolhera não mais viver. Ela deixara esse mundo… Por minha culpa o mais puro dos anjos se fora.

Eu sinto a culpa me envenenar dia após dia… E essa última música que tocarei para as estrelas, É também a música que fiz para ela. Quando o frenesi das notas inundava minha mente e só ela era capaz de me salvar… Essa última música eu batizarei em sua homenagem e a assinarei com meu sangue.

É meu pedido inútil de desculpas… Espero que ela o ouça… Mesmo que o recuse.

A lua acaba de chegar ao céu… ela está bem diante da janela… as estrelas ao seu lado espiam curiosas para mim.

Estou vestida dignamente para um grande espetáculo. O mais importante de minha vida, o último e o primeiro em anos que eu tocaria por amor a algo além da fama.

A navalha afiada me aguardava sobre o piano… Mas ela esperaria até o último segundo…

Fechei os olhos por um breve momento… Apenas para visualizar melhor a face dela. E imaginá-la entre as estrelas que agora me assistiam. Meus dedos começavam a deslizar pelo piano como se fosse a coisa mais natural do mundo, seu som soava único e inundava o ar… Sua pureza e minha loucura se fundiam em uma composição de lágrimas e sons… De notas e dores… De melodias e culpas. E pela última vez deixei que meu corpo se fundisse ao piano abandonando a realidade para mergulhar nas teclas. Eu sabia que ao final daquele espetáculo eu não teria os aplausos do público eu teria apenas o silencio reconfortante do vazio.

Mas eu não tocava para os outros, eu tocava para ela por que acreditava que ela ouviria… Eu acreditava que ela entenderia… Ela me conhecia melhor que eu mesma, ela saberia a verdade…

Pela primeira vez eu não buscava os aplausos… Eu buscava a paz de espírito.

A música continuava a preencher todo o ambiente tornando-o insuportavelmente pesado, a língua das notas falavam de toda a culpa, de toda a dor, de tudo que eu causara, para atingir o ápice, a loucura extrema. E então… a paz que chegaria… as notas contavam minha história… As notas contavam a história dela.

E então o silencio.

A música terminara o espetáculo não.

Me levantei e peguei a navalha, fui até o peitoral da janela e com os olhos voltados para o céu, dei o Gran finale, permiti que a lamina deslizasse pela minha pele, criando um talho único e profundo, rompendo veias e músculos… Tingindo tudo com a cor favorita dela… Manchando meu vestido branco… Minha pele, o chão tudo… Estava tudo vermelho do meu sangue… e então meu corpo caiu inerte no chão.

Eu continuei de pé, a única observadora daquele espetáculo macabro protagonizado por eu mesma… Mas não estava sozinha… Uma estrela parecia se aproximar… Seubrilho me cegava, mas eu era incapaz de tirar meus olhos dela. Aquela luz começava a tomar forma e eu sabia quem era, era ela, senti lágrimas escorrerem e meus joelhos cederem, caí de joelhos sobre a poça que meu próprio sangue já derramado formava.

- Meu amor… – sua voz ainda era tão doce quanto eu me lembrava. – eu ouvi o seu pedido, eu quero aceitar suas desculpas. – como ela podia ser tão boa? Como ela poderia perdoar o que eu fizera? – Venha comigo meu amor… Passaremos a eternidade juntas… Só você e eu minha pianista.

- Eu não mereço. – disse entre lágrimas.

- Não me importa meu amor… – ela secou minhas lágrimas e se ajoelhou ao lado do meu corpo inerte no chão. – Eu nunca seria capaz de deixar de te amar. Por pior que fossem suas ações. – ela fechou os meus olhos delicadamente. E então me ajudou a levantar.

- Eu me arrependo tanto… Eu não poderia continuar…

- Diga-me.

- O que?

- O que quer me falar, sei que algo a perturba, sei tem que algo que deseja me falar. Fale-me meu amor, farei o possível para te fazer feliz.

- Eu te amo. – falei abraçando-a.

Ela findou a distancia entre nossas faces com um beijo… Um beijo apaixonado. Eu apenas a retribuí, com todo meu coração.

Meu corpo seria encontrado dali a alguns dias e eu seria a capa de todos os jornais, minha obra prima assinada com sangue será lembrada por décadas se não séculos… Mas tudo isso me é indiferente, pois tudo que me importa agora é reparar meu erro, tudo que me importa agora é fazê-la feliz… Só para a eternidade, enquanto estivermos juntas, seja como estrelas, seja como almas vagantes… eu apenas desejo fazê-la feliz.

Eu tive que perder tudo para dar valor ao que possuía… E eu tive sorte… que ela me amasse a ponto de me perdoar…

Notas finais
Espero que tenham gostado e me deixem alguns reviews *-*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!