O Último Dragão Rei

1 Uma noite de inverno


Notas iniciais
Olá a todos! Meu capítulo de estreia, com série nova, finalmente saindo da cabeça e indo pra papel.Queria desde já agradecer pelo seu apoio e espero ver você por aqui em breve! Deixo também mais um abraço para Denille e Mellorine, duas musas inspiradoras. Sem vocês, nada disso seria possível!

Estava frio. Naquele dia, mais do que de costume.

Isso já não era nenhuma novidade. Até porque era inverno. Um longo e sofrido inverno, que estava demorando demais para passar.

Era o fim da tarde. O sol começava a se por além das montanhas. Seus raios iluminavam a espessa camada de neve que cobria toda uma floresta, esquecida nos arredores do reino de Fiore.

O lugar mais parecia um cemitério de árvores secas, cujas folhas há muito tempo haviam se desprendido de seus galhos. Um tapete branco cobria o chão. O vento soprava, tentando congelar qualquer coisa que pudesse tocar. Fora isso, reinava o silêncio.

Taiki estava lá, à espreita, pendurado nos alto dos galhos de maneira desengonçada.

Ele era um garoto magricela. Devia ter uns nove anos. Tinha a pele pálida por conta do frio. Vestia calças surradas, uma luva marrom e um casaco azul com a manga comprida. Seu cabelo loiro contrastava com o branco da neve e com os olhos castanhos.

“Vento idiota...” – praguejou o menino – “Eu vou virar um picolé...”

Ele se abraçava, tentando manter o pouco calor que lhe restava. Lembrou-se então de algo que sei pai lhe disse. Usou os sapatos para se apoiar no galho e esfregou as mãos, uma na outra. Em seguida, aproximou-as de sua boca e soprou.

Sua respiração se tornou fogo. O sopro logo se dissolveu na ventania, mas ajudou. Não estava mais tão frio agora.

Taiki agradeceu ao pai em pensamento, voltando seu olhar para baixo. Talvez caçar não fosse mesmo a sua praia. Estava ali há horas, esperando alguma coisa. Um coelho ou uma lebre, talvez. Qualquer coisa serviria. Não é como se desse pra ficar escolhendo muito.

Quando estava prestes a desistir, sua espera foi recompensada. Um coelho de pelo branco apareceu pulando, alguns metros abaixo da árvore de onde Taiki estava. Só os olhos vermelhos do animal se destacavam do cenário à sua volta . Seus saltos deixavam pequenos buracos na neve à medida que se movimentava.

Um sorriso se espalhou pelo rosto de do garoto loiro. Ele, então, tentou arrumar uma posição boa. Estava pronto para pular.

“Mais perto”—murmurava ele – “Só um pouquinho mais perto.”

Taiki quase podia ouvir seu pai gritando com ele. “Fique calado! Espere ele vir até você! Qual o seu problema, eu não te ensinei nada?”. O pensamento o fez rir um pouco. Ultimamente, seu pai estava sempre zangado.

O coelho chegava cada vez mais perto. Lá de cima, Taiki já prendia a respiração. Começou a sua contagem. Ele estava pronto. Podia fazer isso. Cinco... Quatro... Três... Dois...

Um rugido ecoou floresta adentro. O coração do garoto deu um salto. Não podia ter ouvido direito. “Um dragão? Aqui? Impossível, estamos a quilômetros da cidade! Não podem ter nos achado aqui.”

Foi quando ele se lembrou do coelho. Tarde demais. O animal correu floresta adentro. E lá se foi o elemento surpresa...

Taiki disparou atrás dele. Pulou entre as árvores, tomando cuidado para não cair. O coelho era ágil, um borrão em movimento. Não conseguia correr tanto por causa da neve. A vantagem agora era do caçador.

“Te peguei!”

Ele tentou pular, mas o galho se partiu antes da hora. Taiki caiu cinco metros no ar, mergulhando em um monte de neve fofa. O impacto sacudiu as árvores próximas. O garoto acabou soterrado, sem conseguir se mexer. Só a cabeleira loira ficou de fora.

O coelho se virou por um instante. Olhou para trás e viu o estrago. Curioso, ele saltou sobre monte de neve que antes não estava ali e pousou sobre o estranho mato amarelo. Bizarro.

Ele só saiu do lugar quando dois braços pequenos tentaram agarrá-lo, sem sucesso. Taiki saiu cambaleando, tremendo de frio, todo quebrado da queda. Não estava pensando direito. Dessa vez, o coelho disparou floresta adentro até que o garoto o perdeu de vista.

“Então era aí que você estava!” – uma voz ranheta acusou, do nada.

Taiki olhou para cima. Piscou os olhos e sacudiu a cabeça. Devia estar ficando maluco. Primeiro achou que ouviu um dragão, agora estava vendo um filhote de gato falante e voador. Bateu com as mãos em seu rosto duas vezes, tentando acordar.

“Ei!” – Taiki gemeu de protesto. O filhote de gato falante e voador lhe acertou um cascudo. – “Você é uma anta! Como conseguiu cair daquela árvore?”

“Sachi...” – murmurou o menino. Ele ainda estava meio zonzo da queda. O filhote fez uma cara de “Claro gênio! Quem mais seria?” – “O que está fazendo aqui?”

A estranha felina de pelo vermelho pousou em uma pedra ali adiante. Havia um laçinho azul amarrado na ponta de sua cauda. Usava um vestidinho florido, feito sobre medida. Pequenos flocos de neve escondiam os seus bigodes quase inexistentes. Um par de asas minúsculas brotava de suas costas.

“Procurando você, é claro.” – Sachi suspirou de tédio – “Sua mãe estava preocupada. Já está anoitecendo.”

Finalmente o tonto do garoto começou a se situar. Sachi não era uma gata, e sim uma Exceed. A mãe de Taiki a chamava assim. Tinha nascido de um ovo há dois anos. Desde então, ela se tornou sua amiga. Uma que, por sinal, sempre gostava de provocá-lo.

“Não se mete, Sachi!” – resmungou o menino, dirigindo a ela um olhar carrancudo – “Eu estou caçando! Você vai ver! Eu vou pegar aquele coelho da próxima vez!”

“Coelho?”—perguntou a gata, confusa – “O que é um coelho?”

Taiki dirigiu a ela um olhar incrédulo, como se não entendesse a pergunta. Será que ela realmente não sabia o que era um coelho?

“Não te interessa!” – respondeu, por fim. – “Eu só volto pro acampamento quando eu conseguir pegar um!”

“Ah.” – Sachi desdenhava dele – “Entendi. É assim que quer jogar, não é? Então se eu te ajudar a pegar um coelho a gente pode voltar. Entendi.”

Ela olhou em volta. Não esperou Taiki responder. Antes que ele pudesse protestar, a gata abriu suas asas e disparou floresta adentro. O garoto deixou escapar uma risada. Que amiga maluca que ele tinha... Como ia achar um coelho se nem sabia o que era um?

Mas não houve muito tempo pra pensar sobre isso. Não deu um minuto, a voz de Sachi estava gritando “Aqui! Achei um, Taiki! Corre pra cá!”. O garoto não entendeu. Ele perdeu a tarde toda procurando. Como ela tinha encontrado tão rápido?

Decidiu correr na direção da gata, que ainda estava chamando. E a cena a seguir foi a mais bizarra que Taiki já havia visto.

Sachi estava montada em um animal de porte médio, com quatro patas e um pelo acinzentado. Parecia um peão de rodeio. A diferença é montaria não estava só tentando derrubar Sachi. O animal rosnava e latia de frustração, tentando abocanhar a gatinha falante presa em suas costas.

“SACHI! LARGA ISSO!” –agora, Taiki estava realmente desesperado –“NÃO É UM COELHO, É UM LOBO!”

A gatinha, porém, não dava ouvidos. Estava ocupada demais tentando acertar o lobo com golpes de karatê, gritando aos berros: ”MORRA! MORRA! MORRA!”

Taiki tinha que ser rápido. Tomou sua distância e pulou, chutando o lobo para trás. Sachi tentou voar e continuar sua briga, mas não teve a chance. O garoto magricela conseguiu arrastá-la para longe enquanto o lobo se recuperava do chute e disparava na direção dos dois.

Começou uma corrida floresta adentro. O sapato de Taiki afundava na neve. Não ia dar tempo. O lobo estava quase neles. Sachi não estava ajudando, se debatendo toda nos braços do garoto e exclamando: “DEIXA ELE COMIGO! DEIXA ELE COMIGO!”

Taiki já estava arfando. E quando ele achou que teria que usar seu último recurso, o lobo parou. Fez também uns barulhos esquisitos, aqueles choros de cachorro. O animal deu meia volta e disparou para longe dali.

“É isso aí!” – afirmou Sachi, fazendo pose de durona – “Foge mesmo, bobão! Há! Quem é a gata?”

“Ei!” – Taiki sacudiu a amiga com os braços, fazendo-a olhar em seus olhos – “Isso é sério! Não teve graça! Lobos são perigosos!”

“Ah, claro!” – a gata sorriu, ironicamente – “Não viu como eu botei aquele ali pra correr? É claro que eu... Espera, não era um coelho?”

“CLARO QUE NÃO!” – o garoto berrou bem alto – “Você não ouviu o que eu disse? Qual o seu problema? Você precisa parar de procurar briga desse jeito!”

Sachi parecia chateada. Taiki não sabia por quê. Talvez estivesse triste por não ter encontrado um coelho ou talvez ela só quisesse terminar de dar a surra no lobo. Era difícil dizer. Ele sempre achou que a noção da gata veio com alguns parafusos faltando.

“Ok então, senhor gênio.”— Sachi estava de volta no ar, sacudindo a neve que se acumulou em seu vestido. – “Se aquilo não era um coelho, então como um coelho é?”

Taiki já estava perdendo a paciência. Respirou fundo duas vezes. Em seguida, disse:

“Olha. Para começar, os coelhos daqui tem o pelo branco. BRANCO, entendeu? Não cinza...”

Sachi fazia que sim com a cabeça. Não parecia estar prestando atenção. Então, Taiki percebeu uma sombra enorme se levantando, logo atrás dele. Ele engoliu o seco. Os olhos da gatinha se arregalaram e ela apontou para a sombra, dizendo algo como: “Achei! Pelo branco!”

Taiki chingou. É claro que o lobo tinha fugido de alguma coisa. Um animal de mais de dois metros de altura rosnou e se colocou de pé, tentando parecer mais alto. Um urso gigante de pelo branco. Seu rugido era similar ao que o garoto tinha ouvido poucos instantes atrás.

Ele se atrapalhou com o jogo de pés. O urso, por sua vez, ergueu as patas de maneira ameaçadora, jogando todo o seu peso para frente. Mais um segundo e só ia sobrar pudim de Taiki.

Sachi foi mais rápida. Ela ergueu o corpo do seu amigo no ar no momento exato em que o urso se jogava no chão. Foi por pouco. Taiki se apoiou em um tronco, grato por não ter sido esmagado. Ele se virou para agradecer à sua salvadora, mas ela não estava mais lá.

A exceed maluca se lançou contra o urso em linha reta. Tentou atingi-lo com socos e chutes de gato, gritando “MORRA!” a cada golpe. Nem chegou a arranhar o urso, mas parecia estar incomodando bastante.

Taiki correu até ela. Mas antes que pudesse tirá-la de lá, o urso empurrou-a para longe com uma patada, fazendo-a se chocar contra uma árvore e cair no chão.

“SACHI!”— o garoto a chamou. Sem chance, a gatinha já estava desacordada.

Foi a vez de Taiki ir pra cima do urso. Com um salto, ele tentou contornar e atingir o animal por trás. Qualquer coisa que pudesse afastá-lo de Sachi.

Que plano idiota.

O urso só rosnou mais uma vez e acertou o garoto com a outra pata. Foi em cheio. Taiki ficou vendo estrelas, com a visão turva. Tentava de todo jeito se colocar de pé, mas não dava. Podia ouvir a voz do pai dizendo: “De pé! É só isso que pode fazer?”

O nariz do urso se ergueu, farejando alguma coisa. Perdeu o interesse no garoto caído e começou a caminhar na direção da gatinha de pelo vermelho. Taiki congelou. Se ele não fizesse nada, Sachi iria morrer.

Com calma, ele fechou os olhos e se concentrou. Seu pai o tinha proibido de fazer aquilo. Mas agora, não tinha escolha. Teria que se preocupar com castigo depois.

Naquele momento, o ar à sua volta começou a ficar mais quente. A neve em sua roupa evaporou. Em instantes, os braços de Taiki foram tomados por uma chama azul. Fogo puro, que parecia não queimar seu invocador, mas foi o suficiente para chamar a atenção do urso. O animal logo se virou e rugiu de volta para o fogo.

“Quer brincar, cabeça de neve?”—Taiki provocou. Socou a palma da mão aberta, sorrindo de modo desafiador. O fogo explodia em suas mãos – “Agora sim eu estou empolgado!”

(...)

Já tinha escurecido.

A mãe de Taiki estava realmente preocupada. O filho já estava há muito tempo na floresta. Pensou que mandar Sachi o faria se apressar. Talvez tenha sido uma má ideia. Não dava pra confiar naqueles dois sozinhos por muito tempo. Sempre arrumavam um jeito de se meter em confusão.

Olhou triste para o cenário à sua volta. Não é de se admirar se o garoto quisesse ficar longe dali.

Ela estava olhando para um acampamento improvisado. Um pouco de comida aqui, roupas ali. As poucas coisas que eles tinham estavam sempre embaladas em sacolas e mochilas. Aprenderam que não podiam ficar parados em um lugar só. Não era seguro. Precisavam sempre estar prontos para fugir.

Uma fogueira crepitava no centro do acampamento, ocasionalmente expulsando um pedaço em brasa. Duas barracas estavam montadas ao redor dela. A mãe de Taiki concluiu que não estava tão ruim assim. Era necessário.

Rapidamente, a jovem buscou entre seus pertences e encontrou seu espelho. Reuniu sua coragem e olhou através dele.

Uma jovem com um sorriso falso olhou de volta. Havia neve em seu cabelo loiro, solto por trás dos ombros. O nariz estava vermelho, como se estivesse doente. Havia uma dor inimaginável, escondida por trás daquele sorriso. Do seu jeito, ela ainda estava linda. Mas não do jeito que costumava ser.

Com um suspiro, ela guardou o espelho no lugar e sentou-se mais perto da fogueira. Nem reparou o quanto o seu vestido azul e branco estava amarrotado. Suprimiu um protesto, ficando novamente em silêncio.

Por mais que tentasse, não conseguiu escapar de suas lembranças dolorosas. E lá estava ela de novo. Chorando como uma criança. Impotente. Fraca. Indefesa.

Sozinha...

Tinha que tomar cuidado. Não queria que seu filho ou o pai dele vissem-na daquele jeito. Tinha que ser forte. Já era difícil manter todos unidos o suficiente para do jeito que as coisas estavam.

Ela não ia se entregar. Relutante, enxugou as lágrimas quentes com a manga do vestido e pediu calma para si mesma.

“Está tudo bem.” – Repetia ela – “Natsu dará um jeito. Ele sempre...”

Sua boca se calou no mesmo instante. Só de falar aquele nome, doía. Natsu agora estava tão diferente de como ela se lembrava... Isso a assustava, às vezes. Os dois passaram por muita coisa juntos. Tinham um filho juntos. Tinham seus amigos. Tudo estava perfeito.

E de repente, eles não tinham mais quase nada. A dor de Natsu era compreensível. Tolerável, até. Mas essa dor se transformou em um ódio incontrolável. Como se uma fagulha tivesse acendido um incêndio que não descansaria até queimar tudo à sua volta.

Até que tudo à sua volta se torne cinzas.

“Aquele idiota...” – murmurou Lucy, suspirando e olhando para o céu. – “Onde quer que você esteja, é bom que volte para mim.”

Ela piscou os olhos castanhos, saindo de seu transe. Primeiro, os problemas que ela ainda podia resolver.

“Onde estão o Taiki e a Sachi? Aqueles dois sempre...”

Logo adiante, na direção da floresta, alguma coisa começou a se mexer. Uma grande sombra vinha na direção do acampamento, se aproximando devagar.

Lucy sentiu o suor escorrendo de seu rosto. Ela se colocou de pé e buscou em seu cinto um molho de chaves douradas. Apossou-se de uma e estava prestes a pronunciar o encantamento para invocar um de seus espíritos estelares quando uma voz ranheta gritou da mesma direção:

“Ei, Lucy! Sentiu nossa falta?”

Sachi surgiu do meio das árvores. Lucy não entendeu. A gata voou um pouco mais na frente da sombra grande e parou, olhando para trás. A sombra se transformou em um urso, de dois metros e meio de altura, que se arrastava vagarosamente pelo chão.

“Cuidado!” – Lucy apontou para o urso – “Sachi! Atrás de você!”

“Fica tranquila, Lucy!” – garantiu a gata – “Esse coelhão já está no papo!”

Lucy franziu as sobrancelhas. Coelhão? Do que Sachi estava falando? Com as mãos no molho de chaves, estava pronta para atacar a qualquer momento. Para sua surpresa, o urso não reagiu. Estava, na verdade, com as quatro patas sendo arrastadas em direção à fogueira. Suas garras faziam linhas sobre a neve.

Com um gemido, o urso tombou no chão. O dono do gemido não era o urso, e sim o garoto magricela que estava carregando o animal sabe-se lá há quanto tempo.

“Taiki?” – a voz de Lucy soou desesperada.

“Ei mãe...” – disse o garoto, arfando e suando, mesmo naquele frio todo. – “Voltei.”

Na mesma hora, as pernas de Taiki falharam. Ele viu o mundo ficar escuro, a mãe correr em seu auxílio. De repente ele apagou geral.

(...)

Mais tarde, naquela mesma noite, Taiki abriu os olhos.

Estava em uma barraca. Usava uma roupa limpa. Havia curativos no rosto e nos braços. Alguém havia tentado arrumar a bagunça do seu cabelo, sem sucesso. Um cobertor cobria o seu pé descalço. Um travesseiro branco e fofinho abraçava seu pescoço.

Com grande esforço, Taiki conseguiu sentar. O abdômen também doía, mas não estava ferido. Agora, já conseguia ver a luz da fogueira do acampamento que crepitava à sua frente.

“Saia.” – ordenou uma voz medonha, vinda do lado de fora.

Taiki engoliu o seco. Conhecia aquela voz. Sabia dizer quando aquela voz soava irritada.

Aquilo era perigoso de várias maneiras.

Sem demora, o garoto obedeceu. Calçou os sapatos que estavam do lado direito da cama improvisada e saiu. Ocupou seu lugar de costume ao redor da fogueira e arriscou olhar para cima, devagar.

Sem olhar para ele, Lucy continuou trabalhando nos espetos de carne ao redor da fogueira.

“Arrume essa gola.” – mandou a loira – “E calce esse sapato direito.”

Mães. Todas iguais.

Em outras ocasiões, Taiki protestaria. Mas hoje, ele obedeceu cada palavra, mesmo que não tivesse nada para arrumar. Lucy se aproximou com um espetinho de carne. Não foi preciso dar a ordem. Taiki já estava devorando tudo.

“Então...” – disse Lucy, com um tom falsamente calmo – “Você gostou da minha carne especial de coelho?”

Ela se demorou de um jeito que Taiki se assustou. Aparentemente, a mãe já havia ouvido a história de Sachi. A gata, que tinha uma espinha de peixe já comida ao seu lado, ronronava alguma coisa estranha em seu sono profundo.

“Olha, eu posso explicar...” – o garoto já estava suando frio. Sabia o que viria a seguir.

Lucy o agarrou em uma chave de bochecha. Droga, aquilo doía. Taiki sempre achou que se sua mãe quisesse, viraria do avesso todos os dragões do mundo. Isso tudo com um beliscão só.

“Quantas vezes seu pai te disse? Quantas vezes eu te disse?”—a loira não afrouxava o beliscão – “Em quem vai colocar a culpa agora? Na Sachi? No urso? Hein?”

Ela soltou, quando reparou que os olhos do filho estavam lacrimejando. Ele massageou o local, que estava vermelho. Não protestou, nem tentou se defender. Seria bem pior.

“Foi minha culpa.” – o garoto disse, finalmente – “Me desculpe.”

Ele disse de uma forma tão sincera que até assustou Lucy. Geralmente, ele era o primeiro a tentar inventar desculpas. Quando ele falava daquele jeito, lembrava muito Natsu e seu novo jeito sério.

Lucy não gostava disso.

“É que eu estou cansado.” – continuou Taiki – “Não quero mais ficar me escondendo. As pessoas estão sofrendo, mãe. Eu posso ajudar. Eu quero lutar, como meu pai.”

Lucy olhou o filho nos olhos pela primeira vez naquela noite. Era como olhar um reflexo dos seus próprios olhos. Olhos cheios de medo, mas que não conseguiam mais só ficar parados. Olhos desafiadores, corajosos, dispostos a sacrificar tudo pelo bem das outras pessoas.

“Eu acho que já te expliquei.” – Lucy estava tentando controlar a sua voz. – “Você ainda não está pronto. Você e seu pai são a última esperança da humanidade. Sua magia é a única que pode matar dragões. Se vocês morrerem, ninguém mais poderá para-los.”

Taiki não disse nada. Só fechou os punhos com firmeza. Essa desculpa não bastava mais.

O garoto cresceu no meio de florestas acampamentos, naquela neve que não parava de cair. Longe das cidades. Longe das outras pessoas. Treinando. Se preparando para o dia em que um dragão o encontraria e o mataria. E então, os humanos que sobraram na terra também iriam morrer.

Não dava mais pra viver assim.

A mãe assistiu com tristeza o filho se levantar e voltar para sua cama, em silêncio. Ela apagou o fogo e recolheu Sachi com os braços. Não queria nenhuma surpresa à noite. Em seguida, adentrou a mesma barraca que Taiki. Cobriu ele, Sachi e a si mesma com um cobertor e tentou dormir. Como sempre, os pesadelos sobre seu passado voltariam a lhe atormentar.

Ela desejou em segredo que Natsu estivesse seguro e voltasse logo.

Notas finais
E então? O que acharam? Deixe seu comentário e o seu favorito! Sua opinião também me ajuda muito! Vejo vocês no capítulo 2!