O Último Dragão Rei
6 Uma Fuga para a Liberdade
Notas iniciais
Aquilo não podia estar acontecendo.
Em um segundo, Taiki tinha um pai e uma mãe. Ok, ele não tinha uma casa de verdade, nem uma cama de verdade. Sua vida era complicada. Mas, de certo modo, ele gostava dela. Ele amava muito Lucy e Natsu.
E então, tudo se foi. Seus pais tinham partido. Sacrificaram tudo por ele. Só para dar a ele uma chance. E o garoto não estava feliz com isso.
Ele só conseguia gritar.
Não era difícil. Não quando ele, Rikka e Sachi estavam rodando em algum tipo de espaço paralelo, sem saber aonde iam parar.
Os três estavam de mãos dadas, girando em círculos e sem ter lugar para tocar o chão. Envolta deles, havia uma espécie de vórtice mágico que piscava em um monte de cores diferentes. Taiki sentia seu corpo ser sugado, puxado e empurrado por uma força invisível que ele não podia compreender.
“Não adianta!” – mesmo entre os seus rodopios e seus gritos, a voz de Rikka soava alarmada – “Alguém tem que soltar! Vamos ficar presos aqui!”
Parte de Taiki tentou dar atenção ao que ela queria dizer. A outra parte queria ficar ali, flutuando para sempre, afogado sobre o seu pesar.
“Então solta você, sua vaca!”—uma voz ranheta exclamou. – “Eu não vou abandonar o Taiki!”
Aquilo fez o garoto retornar a si.
É verdade. Sua antiga vida se foi. Mas pelo menos, Sachi estava com ele. Não estava sozinho. Por pior que fosse o futuro, ele sabia que podia enfrentá-lo se não estivesse só. O garoto acalmou sua voz.
Ele começou a pensar. Por algum motivo, Taiki também não queria se separar de Rikka.
Já tinha perdido muita gente. Tinha conhecido Rikka há poucos dias e ela já havia tentado matar sua família de, pelo menos, dois jeitos diferentes. Mas aquela foi a única garota que ele tinha conhecido, até então. Tinha a história do beijo. Taiki não podia simplesmente largar Rikka naquele lugar.
Acontece que aquela decisão não era só dele.
Rikka encarava os olhos de Taiki com seus profundos olhos azul-safira. Ela estava analisando o garoto. O cabelo prateado dela estava se debatendo sobre seu rosto, mas dava para enxergar muito bem o que ela estava pensando.
Ela estava considerando o que Sachi disse.
“Olhe pra mim, Chibiko.” – a voz da garota estava diferente. Parecia séria, como Taiki nunca tinha visto até agora. – “Você vai ter que me prometer uma coisa.”
“Não!” – a voz do garoto soou desesperada. – “Rikka, não faça isso! Não se solte!”
“Fique quieto e escute!” – o tom da voz dela o calou. – “Era assim que era pra ser. Eu sempre fui e sempre serei sozinha. Vou encontrar meu próprio caminho. E também, não quero ter nada a ver com um Dragneel. Mesmo que ele seja um Chibiko.”
Ele não conseguia entender. Ele se lembrava de ter escutado que Igneel matou a mãe dela. Mas Taiki não tinha feito nada contra Rikka.
Porque ela parecia tão irritada?
“Me prometa.” – pediu a garota – “Prometa que vai esquecer o que aconteceu. Da próxima vez que me encontrar, eu vou tentar te matar. Não sou sua aliada. Não sou sua amiga. Só fiz o que eu fiz porque não tinha nenhuma opção.”
A mão dela começou a deslizar sobre a dele. A força de Taiki falhava e ficava cada vez mais difícil de segurar. Rikka ainda esperava a resposta, mas Taiki não conseguia dar a ela o que ela queria.
Não conseguia pensar na ideia de ter que lutar com ela.
Então, Rikka se soltou. Taiki a viu girando sozinha para longe dele, até um ponto em que o corpo dela não podia mais ser visto.
Antes de conseguir se entregar ao pesar, o garoto rodopiou por mais alguns instantes. Logo em seguida, sentiu uma pancada pesada quando ele e Sachi tocaram o chão.
Atrás deles, o portal do Eclipse se fechou com um baque surdo.
(...)
“Ei, acorda!” – a voz de Sachi estava o chamando. – “Levanta! Vamos sair daqui! Eu me sinto como se estivesse dentro de uma das suas meias. Eca!”
Taiki gemeu e conseguiu abrir os olhos. Ele tinha caído de barriga para baixo, e seu rosto estava colado com o chão frio. Ainda meio zonzo pelos rodopios, o garoto conseguiu se colocar de pé.
Ele estava de novo sobre o mesmo porão escuro de onde ele achava que tinha vindo. Nada parecia diferente. Rikka não podia ser vista em lugar nenhum. Taiki tentou não pensar no que poderia ter acontecido com ela.
Por um segundo, Taiki achou que tudo aquilo fosse um pesadelo cruel. Parecia que a qualquer momento, ele iria acordar em outro de seus acampamentos improvisados, tremendo de frio.
Mas tudo aquilo era real. O garoto concordava com Sachi. Precisavam sair dali.
Conforme os dois subiam os vários lances de escadas, eles notavam detalhes que não haviam notado antes.
O teto de pedra agora tinha cheiro de mofo. Uma ou outra goteira pingava de onde Taiki supôs que fosse algum tipo de encanamento antigo. Aquilo era estranho. Se estivesse tão frio quanto o garoto se lembrava, não tinha como aquele tipo de coisa acontecer.
Quando as escadas acabaram, eles atravessaram uma porta e entraram em um dos corredores do castelo. Tinha algo diferente agora.
Estava quente. O carpete vermelho agora estava limpo e aspirado. As cortinas das janelas balançavam ao movimento do vento.
Em poucas palavras, não se parecia em nada com a residência da maligna rainha dos dragões.
Um barulho de porta se fechando assustou o garoto e sua gatinha. Quando os dois viraram, não estavam mais olhando para uma porta. Era como se o corredor tivesse duplicado de tamanho e agora continuasse por um caminho à direita.
Aquilo tinha cheiro de magia.
Ótimo. Não é como se Taiki quisesse voltar lá pra baixo, de qualquer jeito.
Enquanto caminhavam pelos imensos salões do castelo, não podiam deixar de reparar no calor da luz do sol e no céu azul que passava por entre as janelas. Agora Taiki estava começando a acreditar que aquele não era o mundo que ele conhecia.
Pelo menos, ainda não era.
“Alto!” – Um homem bem vestido, portando um cajado ornamentado, surgiu diante deles – “Quem são vocês? Não deviam estar andando por aqui.”
Taiki paralisou. Na hora, o primeiro dos conselhos que Lucy tinha lhe dado veio à sua mente.
“Quando chegar ao palácio, fuja. Não diga a ninguém quem você é.”
Sem pensar duas vezes, Sachi cabeceou o homem e Taiki lhe deu um empurrão. O garoto e a amiga saíram correndo enquanto o homem, surpreso, se levantava cambaleando e gritando para eles: “Parem! Parem em nome do rei!”
De repente, os corredores estavam infestados de guardas. Algum tipo de alarme devia ter sido acionado. Os cavaleiros com espadas e lanças tentavam impedir a passagem de Taiki e Sachi, mas nenhum deles estava preparado para impedir a fúria da gatinha assassina.
Ah, e seu ajudante.
Em algum momento, os dois ficaram cercados. Estavam agora em um salão imenso e quadrado, com somente duas saídas. Uma era a passagem de onde tinham vindo. Da outra, uma legião de cavaleiros de armadura brotava feito um monte de formigas.
Quando o cerco estava completo, Taiki não movia nenhum músculo. Os soldados apontavam as lâminas afiadas de suas armas, mas estavam hesitando em atacar. O garoto logo percebeu o porquê.
Os olhos dos guardas piscavam de medo.
“Malditos sejam esses rebeldes...” – um dos homens que os cercavam murmurou – “O que eles estão pensando? Estão mandando crianças agora?”
“Silêncio, tolo!” – outro guarda repreendeu o primeiro. – “Eles são magos, não são surdos. Quem sabe o que eles podem fazer?”
O rosto de Taiki se iluminou com um sorriso. Pela primeira vez, ele tinha a vantagem.
“Para trás!” – o garoto elevou a voz, tentando intimidar seus inimigos. – “Eu não quero machucar vocês!”
O susto quase dispersou a os guardas, mas eles mantiveram a formação.
“Silêncio, rebelde insolente!” – um homem, vestindo uma armadura reluzente, ordenou. Aquele claramente era o líder. – “Não há como escapar daqui! Renda-se, em nome do rei de Fiore!”
“Desculpe, amigo.” – Taiki tomou um sorriso desleixado, deixando os braços e as mãos abertas. – “Mas você não vai me prender aqui.”
Imediatamente, os braços de Taiki pegaram fogo. Sachi percebeu o que ocorreria e se lançou para o alto com suas asas. Os soldados tremiam feito loucos, quase deixando as armas escaparem de suas mãos.
“Fique calmo...” – o garoto repetia em sua cabeça – “Isso é só mais um treinamento.”
E assim que viu uma abertura, Taiki atacou.
O garoto logo percebeu que estava enganado. Uma luta daquelas não era nem um aquecimento para ele. Taiki podia ver claramente o movimento das lâminas de seus inimigos. Desviar-se delas era uma tarefa fácil.
Ali, Taiki agradeceu por seu pai ter sido tão duro com ele. Sem seus reflexos, aquele tipo de batalha seria insano e impossível.
Por isso, não importava a quantidade de inimigos que o garoto precisasse enfrentar. Taiki era um mago. Mais do que isso, ele era um Dragon Slayer. Aqueles números não eram nada perto de alguém que derrotou um dragão.
Seu corpo pequeno era mais rápido que o dos cavaleiros. Por conta de suas armaduras pesadas, eles não tinham nenhuma chance de acertar o garoto. Sempre que tinha uma chance, Taiki explodia os peitorais das armaduras dos inimigos com a força de seus punhos flamejantes.
O garoto perdeu as contas de quantas vezes dois ou mais guardas atacaram uns aos outros. Se dependesse daqueles incompetentes, aquilo poderia durar o dia todo.
Já estava na hora de acabar a brincadeira.
Tomando impulso em um guarda, Taiki saltou no ar e cruzou os braços, em forma de “x”. O fogo azul que iluminava seus punhos se espalhou pelos braços, até a altura dos cotovelos.
Lá de cima, Sachi se encolheu um pouco. Taiki ia mesmo fazer isso.
“Okibiryuu no Yokugeki!”
O castelo inteiro tremeu. Todo o salão explodiu em chamas, engolido pelo poder na magia de Taiki.
Os braços do garoto se esticaram como chicotes. O movimento era o mesmo do bater de asas de um dragão. Ao seu comando, um turbilhão de fogo consumiu o salão por completo, queimando o carpete, as cortinas e tapeçarias, jogando os guardas para longe.
Quando a poeira baixou, Taiki ergueu sua cabeça e olhou para frente. Nenhum guarda ficou de pé. Abrindo um sorriso travesso, o garoto loiro se permitiu um momento para admirar sua própria força.
“SUA MULA!” – Um cascudo fez o garoto ver estrelas – “VOCÊ EXAGEROU!”
Taiki gemeu de protesto. Sachi estava ficando boa nos seus cascudos. Só quando o garoto levantou a cabeça e olhou para os lados foi que ele entendeu o que ela quis dizer.
“Cara... Minha mãe ia me matar...”
O golpe de Taiki foi sim eficiente para deixar todos os inimigos nocauteados. O que ele não contava era que o golpe fosse tão poderoso a ponto de demolir toda aquela área do castelo.
Sua cabeça pendeu para o lado. Sachi tinha razão. O imponente castelo de Mercurius tinha agora um rombo enorme, graças a ele. O rombo, é claro, era a cratera onde costumava ficar o salão quadrado onde eles foram cercados.
“Você não pensa nas coisas?” – a voz da felina era acusadora – “Você realmente achou que explodir o castelo inteiro fosse uma boa ideia?”
“Desculpa!” – Taiki estava realmente arrependido. – “Eu não queria explodir o castelo, eu só achei que...”
“DESCULPA UMA OVA!” – Sachi acertou a cabeça dele denovo. – “COMO VAMOS EXPLICAR ISSO AGORA?”
Mas dessa vez, Taiki não teve tempo de responder.
Porque antes que percebessem, eles estavam presos.
Taiki sentia seu corpo levitar. Sachi enchia o ar de xingamentos, já que suas asas tinham desaparecido, mas ela continuava voando. Os dois estavam envolvidos por um quadrado verde mágico. Não tinham como escapar.
“Que bagunça é essa aqui?”
Um homem estranho adentrou o recinto. Aos poucos, os guardas que começaram a recuperar a consciência se ajoelharam perante ele.
Pelo visto, aquele esquisito tinha autoridade.
Vestia um traje de alto escalão, composto por um casaco longo e azul com bordas cor de rosa que cobria uma camisa de colarinho alto também azul, só que mais clara. A camisa tinha amarras em seus pulsos e o símbolo de uma Ankh gravada no peito.
Seus cabelos eram curtos e espetados, com olhos castanho-escuros. Carregava um livro em seus braços. Usava luvas e calças brancas. Um cinto preto simples sobre a cintura. Tudo era coberto por uma capa branca, fechada por uma fivela que lembrava a forma de uma gema verde.
“O que significa isso?” – o homem de capa se aproximou de um dos soldados, que soltou um gemido de medo. – “Eu dou as minhas costas por dois segundos, e vocês deixam um assassino passear por aí e explodir metade do meu castelo?”
“Masashi–dono...” – um dos cavaleiros se atreveu a responder. – “Não é verdade. Tínhamos tudo sobre controle. O garoto e o filhote de rato demoníaco não iriam longe, se nos deixasse...”
“Silêncio!” – o homem chamado Masashi ordenou. Logo em seguida, o castelo inteiro ouviu um: “AQUELE BABACA ME CHAMOU DE QUE?” – “Não preciso lembrar-lhe, capitão, de que sou responsável pela segurança deste castelo. Suas falhas são minhas falhas. E eu não tolerarei isso...” – Masashi apontou para os prisioneiros. – “Acontecendo. Eu fui claro?”
O guerreiro assentiu com a cabeça. Com um movimento de mãos, Masashi fez o quadrado mágico que envolvia Taiki e Sachi se mover, ficando na altura dos guardas. Rapidamente, os homens colocaram neles algemas especiais, que restringiam a magia. Sachi resistia e xingava.
“Espere, não pode nos prender!” – Taiki olhou nos olhos de Masashi, que pareceu surpreso. – “Foi um acidente! Eu não fiz nada de errado!”
“Muito engraçado, pirralho.” – Masashi assumiu um sorriso irônico – “Você sabe muito bem que magos não autorizados pelo novo conselho não têm permissão de usar magia. Vocês estão presos por tentativa de assassinato e conspiração contra a coroa de Fiore. Serão executados ao amanhecer. Capitão, tire-os da minha frente!”
Taiki começou a desesperar-se, mas Masashi já tinha virado as costas para ele. Sachi também gritava aos berros, ameaçando o capitão de coisas abomináveis. Um grupo de guardas armados cercou os dois jovens e começou a escolta-los para fora do castelo, sobre a mira de suas lanças.
(...)
Mandou bem, Taiki. Mandou bem.
Agora, como sair daquela roubada? O garoto e Sachi eram agora forçados a continuar andando, olhando para frente. Não podiam se desviar da rota. Não podiam usar magia.
Em poucas palavras, estavam ferrados.
O grupo de guardas escoltou os dois prisioneiros até a base das escadarias. Eles passaram pela muralha de pedra que protegia o castelo, até que os imensos portões de pedra se fecharam atrás deles.
Taiki não soube o que dizer.
Diante dele, estava uma cidade viva. Crocus não era mais aquele pesadelo congelante de neve e gelo. Agora, enfeites coloridos enfeitavam as ruas. Luzes brilhavam nos postes. O som de vozes se misturando, falando alto, enchia a cidade de vida.
E tinham pessoas. Muitas delas. Inclusive crianças, correndo e brincando pelas ruas. Mulheres de braços dados com seus maridos. Senhoras que conversavam alegremente entre si.
Para ele e Sachi, era literalmente outro mundo.
“Ei você!” – um guarda empurrou Taiki, fazendo sua mente voltar ao seu problema – “Continue andando!”
O garoto obedeceu, contrariado. A procissão liderada pelos guardas seguiu cidade adentro.
Quando notavam o grupo de Taiki, imediatamente as pessoas começavam a cochichar. Chamavam o garoto de coitado, pobrezinho. Um velhinho chegou a cuspir em sua direção.
“Vá embora, assassino dos rebeldes! Deixe nosso rei em paz!”
Taiki não entendia uma palavra. As janelas das casas por onde ele passava se fechavam com um estrondo. Mães chamavam seus filhos da rua. Não queria que vissem aquele tipo de coisa.
As pessoas tinham medo dele.
Medo do que ele podia fazer.
(...)
Taiki e Sachi foram levados para uma prisão de pedra, situada numa montanha nos arredores de Crocus. O solo era disforme e sujo. A única iluminação vinha das várias janelinhas de grades que havia nas celas.
Vários outros prisioneiros estavam sentados de cabeça baixa. Só de olhar, daria para dizer: eles eram inocentes. O maior crime que haviam cometido era ter desafiado as ordens do conselho e usado magia.
Taiki começou a odiar aquele conselho.
Com uma brutalidade desnecessária, Taiki e Sachi foram jogados no meio de uma cela isolada.
“Bem feito pra você, pirralho!” – o guarda fechou a porta de grades enferrujada e trancou-a com uma chave. – “Fique quietinho e talvez ganhe comida. Um último desejo antes da execução amanhã.”
O guarda deixou a sala, rindo-se de uma piada que só ele entendia.
“Pra onde você está indo? Volte aqui!” – Sachi ainda espumava de raiva. Não tinha conseguido sua vingança contra o capitão. – “Traga aquela lata de sardinha pra cá! Quero ver se ele me aguenta! Ei! Está ouvindo?”
“Ah, nem adianta.” – uma voz resmungou. – “O guarda não vai te escutar.”
Taiki suou frio. Tinha se esquecido de verificar se estavam sozinhos na cela. Achou que ia se arrepender do vacilo, quando ele o viu.
Encostado em uma parede, estava um jovem sem camisa, com um peitoral musculoso à mostra. Seus braços também estavam presos por algemas. Pedaços da sua calça branca estavam rasgados e queimados. Uma de suas sandálias de bico aberto estava faltando.
Não devia ter se deixado prender tão fácil.
Um cachecol branco estava enrolado no pescoço. Seus olhos eram escuros e seu cabelo rosado estava bagunçado além do conserto.
Taiki congelou. Não esperava encontrá-lo aqui. Não agora. O jovem começou a andar na direção do garoto e de Sachi, que também o havia reconhecido.
E então, o rapaz de cabelos rosados caiu no chão. Seu rosto parecia murcho e mais magro do que o normal. Ele estava fraco. Só conseguiu olhar para Taiki e gemer:
“Fome...”
O ronco do estomago de Natsu Dragneel ecoou por todas as paredes da prisão.
(...)
Ainda bem que Taiki e Sachi não estavam com famintos.
Os dois se sentiram obrigados a oferecer toda a comida que o guarda trouxe para eles. Natsu tinha o rosto todo lambuzado, enquanto agradecia com a boca cheia.
“Valeu! Vocês são garotos legais!”
“Com licença...” – Sachi lhe corrigiu. – “Mas eu não sou uma garota.”
“MEU DEUS! UM GATO FALANTE!” – Natsu apontava para Sachi, gritando.
A gatinha e Taiki franziram as sobrancelhas. Sério? Ele só tinha reparado agora?
“Ah, que susto.” – Natsu expirou de alívio e continuou comendo – “Você é igual ao Happy. Sem problema, então.”
Taiki se perguntou quem era Happy. Então, percebeu o que sua mãe tentava lhe dizer. Quando ele queria, Natsu conseguia ser um idiota.
“Então me conta... é... Natsu...” – Taiki achava estranho chamar seu pai daquele jeito. – “Porque prenderam você aqui?”
O som de seu nome alarmou o rapaz.
“Eu te conheço?” – Natsu perguntou. Parou até de comer. – “Não me lembro de você.”
“É...” – Taiki se xingou em pensamento. Não podia dizer a verdade. – “Eu ouvi histórias... Todos falam de você.”
Ninguém em sã consciência acreditaria em uma mentira tão mal contada.
“É mesmo não é?” – Natsu riu sozinho, mergulhando a cabeça sobre o prato. – “Eu sou incrível mesmo!”
Foi por pouco. Sachi deixou escapar um suspiro. Taiki disfarçou sua preocupação.
“Porque eles prendem todo mundo aqui?” – Finalmente, Natsu colocou o prato de comida no chão e limpou o rosto. – “O motivo é sempre o mesmo. Conspiração contra a coroa. Uso de magia indevida. É tudo culpa daqueles babacas da Chaos. Eu já estou puto com eles.”
Natsu tinha um sorriso besta em seu rosto. Taiki imaginou por que. O rapaz de cabelos rosados olhou para um lado, depois para o outro. Ninguém estava prestando atenção neles.
“Certo garoto...” – Natsu se virou para Sachi e completou – “E gatinha... Vocês parecem legais. Vou contar um segredo. Já que estão aqui, talvez possam ajudar a gente.”
“Espere um pouco.” – Sachi se adiantou. – “A gente quem? Do que está falando?”
“Amanhã...” – começou Natsu, tentando falar baixinho. – “Vão querer executar toda essa gente. Essas pessoas estão aqui a mais tempo do que eu. Tem família e amigos, sabe? São inocentes. Não vou deixar isso acontecer. ”
Taiki sorriu. Era estranho ver seu pai se preocupando com pessoas que ele nem conhecia.
“Meus amigos vão me ajudar a soltá-los.” – o rapaz continuou. – “Mas pode ser complicado. Topam?”
“Nós topamos.” – Taiki sorriu e apertou as mãos com o colega de cela. Nem precisou pensar. –“Mas em troca, você vai ter que me fazer um favor.”
Natsu ergueu as sobrancelhas.
“Que tipo de favor?”
“Você vai ter que nos levar até a Erza.”
(...)
O céu estava limpo e azul naquela manhã. Uma multidão estava reunida na praça central da cidade, na frente de um palanque de madeira, assistindo ao evento principal. O local era cercado de guardas armados para garantir a segurança.
Natsu estava de pé, com uma corda no pescoço. Um homem, ao lado dele, lia a sua sentença:
“Natsu Dragneel...” – era um rapaz magrelo com uma roupa branca e enfeitada. – “É considerado culpado pelo conselho mágico das seguintes acusações: Uso indevido de magia, incendiar transportes de suprimentos, colocar fogo em veículos oficiais, destruição de propriedade privada...”
O magrelo continuou lendo uma lista que parecia interminável.
Taiki não segurou uma risada. Era o próximo de uma longa fila para ser enforcado. Não era exatamente algo engraçado. Mas não podia deixar de rir das acusações ridículas que eram feitas contra Natsu. Por fim, o rapaz magrelo encerrava sua fala:
“...Colocar fogo nas calças de um oficial e sair andando com ela pela cabeça e, finalmente, ser adepto à causa dos rebeldes.” – O homenzinho parou um tempo para tomar o fôlego. – “Está, portanto, condenado à morte. Se alguém aqui tem algo para falar, que se pronuncie. Do contrário, prosseguiremos com a execução.”
Por um momento, Taiki desesperou-se. Não podia perder o pai outra vez. Não daquele jeito. Ele olhou para Natsu.
O rapaz estava sorrindo.
Do meio da multidão, alguém tinha acabado de escalar um chafariz daquela praça, de onde uma fonte de água jorrava. Uma garota, vestindo um sobretudo marrom que cobria seu corpo inteiro. Ela usava um chapéu bonito. A garota ergueu o chapéu para cima.
Taiki arrepiou-se.
A garota tirou e puxou do cinto uma chave dourada e enfiou-a na água. Seu cabelo longo e loiro sacudia no ar.
“Abra-te! Portão da portadora das águas! Aquarius!”
Do nada, havia um espírito estelar na praça. Uma mulher com rabo de peixe, cabelos longos e olhos azuis. Carregava um vazo ornamentado em suas mãos. Tinha uma expressão medonha em sua face.
“São os rebeldes!” – um dos guardas gritou. – “Peguem eles!”
“Aquarius, agora!” – a voz de Lucy pediu, confiante. – “Enquanto eles...”
“CALE A BOCA, PIRRALHA ATREVIDA!”
O espírito girou o jarro em suas mãos, brilhando de forma mágica. Então, o chafariz inteiro explodiu em um Gêiser de água quente, que se atirou para o alto e inundou aquela praça.
É incrível que não tenha inundado o palanque.
Pequenos tufões se abriram sobre as poças de água, criando ondas. Guardas, civis e até Lucy foram arrastados para o meio daquela bagunça.
“Tch... Errei.” – a voz de Aquarius soava irônica. – “Acertei os guardas e os civis sem querer.”
Sua imagem tremeluziu e o espírito desapareceu. O caos já estava instalado. Pessoas corriam e gritavam. Ninguém sabia o que fazer.
Do nada, Taiki sentiu seus braços mais leves. As algemas se soltaram e caíram no chão. Estavam congeladas. O garoto olhou para trás, e viu que Sachi estava livre da mesma forma. Assim como todos os outros prisioneiros.
Ao lado de Taiki, estava um rapaz jovem, de cabelos negros levemente espetados e desarrumados. Seus olhos azul-escuros estavam sérios. Ele vestia uma calça e botas pretas, com uma capa branca sobre o peito desnudo. Um pingente em forma de cruz pendia da corrente em seu pescoço. Havia um bracelete em sua mão esquerda.
O rapaz se aproximou de Natsu e ajudou-o a tirar a corda do pescoço.
“Droga, Natsu.” – a voz do rapaz resmungava, enquanto colocava as mãos sobre as algemas do companheiro. Elas congelaram e caíram. – “Da próxima vez, siga o plano. Olha só o seu estado! Era pra fingir ser capturado, lembra?”
Natsu massageava os pulsos quando se virou para o rapaz de capa. Os dois bateram as testas com força e se encararam com muita raiva.
“Eu não te perguntei nada, Gray! Seu babaca do gelo!”
“Cala a boca, foguinho de merda!”
Os dois continuaram trocando xingamentos, cada vez mais ofensivos. Taiki suspeitou que aquilo acontecesse com frequência.
Então, Sachi apontou para cima. Lucy estava ensopada e exausta, flutuando a alguns metros do chão. Um ser peludo,com rabo e bigodes de gato, segurava as roupas dela. Era um gato de pelo azul, com asas brancas se expandindo de suas costas.
“Que vergonha Lucy...” – o gato implicava com a garota. – “Tantos anos, e você não consegue controlar o seus espíritos.”
“Calado, gato!” – Lucy bufava e se debatia. – “Ou eu arranco seus bigodes!”
“Aye...” – o gato respondeu.
E então, o gato planou sobre a confusão lá debaixo e pousou sobre o palanque. Sachi exclamou, surpresa. Deveria ser àquele gato azul que Natsu se referia. Aquele devia ser Happy.
“Vocês dois!” – Lucy se aproximou e começou a apartar a briga entre Natsu e o rapaz chamado Gray. – “Não tem vergonha? Já não estão grandinhos pra isso?”
“Nem vem, Lucy.” – Natsu resmungava. – “Ele começou.”
Gray estava prestes a retrucar. Mas então, o som de metal rangendo chamou a atenção deles.
A multidão já tinha dispersado. Uma legião de guardas com armaduras pesadas já tinha cercado o palanque e apontavam suas lanças para Natsu e seu grupo, os únicos que ainda estavam lá encima.
Natsu, Lucy, Gray e Happy deram as costas, uns para os outros. Cada um olhava em uma direção diferente, encarando as centenas de soldados armados com armas afiadas, que pediam ao grupo para que se rendesse. Eram muitos. Mais que os olhos podiam contar.
“Lucy, você pega os caras da direita.” – Natsu começou a dar as ordens. – “Gray, os caras da esquerda. Eu pego os caras da frente.”
“E os lá de trás, Natsu?” – Lucy apontava para um grupo de soldados que seguia marchando, pronto para cercá-los pelo sul. – “Quem cuida deles?”
“Happy?”
“Impossível, Natsu!” – o gato azul protestou – “Eu não sou o Lily!”
“Querem uma mãozinha?” – uma voz ranheta perguntou.
Taiki e Sachi estavam de pé, na frente deles. Lucy e Gray surpreenderam-se com a presença do garoto. Esperavam que ele já tivesse fugido dali.
Taiki tomou o lugar de Happy e ficou de costas para os outros. Agora, todas as direções estavam cobertas. Os guardas pareciam ter desistido de fazê-los se render.
“Vai ficar tudo bem, garoto?” – Gray se arriscou a perguntar.
“Heh!” – Taiki riu e socou a palma da mão esquerda, abrindo um sorriso. Fogo azul escapou de seus dedos. – “Pode deixar que eu dou conta. Só não se esqueça da sua promessa.
Natsu fez que sim com a cabeça. E então, se atirou para cima de um mar de inimigos, cuspindo e atirando fogo para todas as direções.
“Mas que droga.” – Gray assumiu uma postura de batalha e criou um canhão de gelo com sua magia. – “Natsu sempre escolhe os lados mais divertidos.”
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