O Último Dragão Rei
2 A menina de cabelos prateados
Notas iniciais
Na manhã seguinte, Lucy lutou para abrir os olhos. A noite de sono não foi muito boa.
Ela se sentou e espreguiçou-se, soltando um leve bocejo. Notou que Taiki e Sachi não estavam dormindo ao seu lado. Por um segundo, a loira entrou em pânico. Mas os passos que ela ouviu do lado de fora foram o suficiente para acalmá-la.
Quando finalmente se aprontou, a garota deu um passo para fora e saiu da barraca.
Taiki estava lá, de cabeça baixa, sentado à frente da fogueira apagada. Não estava muito a fim de falar. Mesmo assim, Lucy cumprimentou-lhe da melhor forma que pôde. O garoto desviou o olhar e resmungou alguma coisa em resposta à mãe.
De todos ali, Sachi era a mais animada. O humor da gatinha parecia inabalável. Ela recebeu a Lucy um caloroso bom dia, socando o ar como se fosse uma lutadora de Boxe.
“Qual o problema, Sachi?” – Lucy segurou uma risada. Não conseguia entender como a mente daquela gatinha funcionava.
Sachi estava, de fato, um pouco mais agitada do que de costume. Ela se apoiou em um tronco de árvore e começou a fazer flexões, como se estivesse treinando para sua próxima luta.
“Coelhos estúpidos...” – a gatinha resmungava sozinha, achando que ninguém podia ouvi-la. – “Eu vou mostrar pra eles... Bobões... Quem eles pensam que são?”
Taiki deixou escapar um suspiro. É claro que Sachi ainda guardava rancor da luta contra o urso no dia anterior. Tanto Lucy como Taiki sabiam que não era bom deixar aquela gatinha irritada.
“Sachi...”—Lucy reuniu toda a sua malícia em sua voz – “Me responda uma coisa. Você não está pensando em sair pela floresta procurando problemas, não é mesmo?”
POW. Sachi acertou a cara no tronco.
Claro que era exatamente isso que a gatinha estava pensando em fazer.
“Engraçado...” – Lucy fazia muito esforço para não rir agora. –“Porque você odeia tanto os ursos? Você me disse que acabou com aquele urso gigante de ontem sozinha, com as patas nuas, não é?”
Por um momento, pareceu que a gata ia se desmentir. As histórias de Sachi eram sempre exageradas. Geralmente, envolviam ela mesma descendo a porrada em todo mundo com seus golpes de gato-fu.
Mas claro que Sachi não se entregou. Ela sentou-se de forma educada e assumiu uma postura pensativa.
“Ah... É... Claro!” – a felina fingiu estar se lembrando. – “É claro que eu acabei com a raça daquele... Ué. Do que está falando Lucy? O que eu derrotei ontem era um coelho! Que urso é esse que você está falando?”
Lucy piscou, confusa. Seu olhar se dirigiu para Taiki, que só respondeu balançando a cabeça. Era inútil tentar explicar as coisas para Sachi. Uma vez que ela coloque uma coisa na cabeça, ninguém mais tira.
“Bem, e o Taiki?” – Lucy a questionou – “Não fez nada pra te ajudar?”
Sachi olhou para o garoto e demorou pra responder.
“Tá, tudo bem.” – ela parecia não querer admitir a verdade – “O Taiki... Ajudou... Um pouco...”
O pelo vermelho da gata ficou um pouquinho mais colorido do que de costume. Taiki virou o rosto, mas o pequeno rubor não passou despercebido pelo olhar da mãe.
Lucy se permitiu rir algumas vezes. Aquela era, de fato, a mais estranha dos Exceeds que a maga estelar já tinha visto. Estava sempre fazendo os outros rirem.
Como o Happy fazia.
Pensar em Happy fez o coração de Lucy pesar feito chumbo. Ela expirou de leve, tentando disfarçar a dor. Olhou para o filho, que parecia estar terminando de calçar os sapatos e arrumar-se para sair.
“E você, Taiki? Para onde vai?” – Lucy tentou não soar tão preocupada.
“Não sei...”—murmurou Taiki. Ele ainda olhava para baixo – “Vou andar por aí. Esfriar a cabeça.”
Algo na voz do filho a incomodava. Ele parecia estar fugindo da conversa que eles tiveram no dia anterior. E ele tinha a cabeça dura do Natsu. Sem freio, aquele garoto podia acabar fazendo besteira.
“Está bem.” – a mãe consentiu, contrariada. Não podia prendê-lo aqui para sempre – “Mas leve Sachi com você. E esteja de volta antes do por do sol...”
Ao ver que Sachi exibiu um sorriso triunfante no rosto, Lucy completou:
“E nada de lobos, ursos ou coelhos. Grandes ou pequenos. Quero vocês inteiros quando voltarem. E trate de levar o casaco! Vai fazer frio lá fora!”
Taiki assentiu e fez menção de ir embora. Mas antes que pudesse reagir, Lucy o agarrou pelo braço e deu no filho um abraço apertado. Ele protestou. Afinal, ela estava afogando-o entre seus seios.
“Mãe, pra que isso?” – Ele detestava aquelas situações constrangedoras. Tentou empurrar Lucy como pôde, tentando afastar-se dela.
“Nunca se esqueça, meu filho.” — A mãe se aproximou e sussurrou-lhe nos ouvidos. Na mesma hora, Taiki parou de resistir. – “Eu amo você.”
Ela disse de uma forma simples e direta. Aquele cheiro... Aquela sensação... Só de estar na presença dela, o garoto já estava mais calmo.
“Tá...” – a voz dele tremia. Ele retribuiu o gesto de carinho. – “Eu... Te amo também.”
Afinal, de todas as verdades, o amor entre os dois era algo que nunca iria mudar.
(...)
A cada passo, Taiki parecia odiar mais aquela floresta idiota. Aquela neve idiota. Tudo ao seu redor estava errado. As coisas não precisavam ser assim. Sua vontade era a de por fogo em tudo, só de raiva.
“E essa cara feia?” – perguntou Sachi, que estava voando alguns metros acima da cabeça do garoto.
“O que?”- ele não entendeu.
“Você está pensando em alguma coisa.”
“Do que você está falando?”
“Sei lá.” – Sachi parecia surfar de costas entre a brisa com suas asas – “Você faz uma cara feia quando está incomodado com alguma coisa. Se bem que eu acho que você só tem essa cara. Não dá pra te culpar...”
“Espera... O que foi que disse?”
Taiki bufou, cuspindo fogo azul pela boca e cerrando os dentes. Não valia a pena. Sachi não estava tentando ser estúpida.
Era só o jeito dela.
O garoto só continuou andando. Ele demorou a perceber, mas o cenário à sua volta parecia diferente. De repente, ele não reconhecia mais as árvores. Aquele não era o caminho que ele sempre pegava. E o pior de tudo: o sol já estava quase se pondo.
Ótimo, eles estavam perdidos. Lucy ia adorar saber disso. Só de pensar no assunto, a bochecha de Taiki começou a arder.
“Sachi” – chamou ele. – “Onde nós estamos?”
A gatinha estava tão distraída que acertou a cabeça em um tronco de árvore. Ela se virou furiosa para o tronco, chingando-o de mil coisas e chamando-o para uma briga.
“Sachi!”—o menino preciso puxar o rabo dela. Agora sim ela escutou. – “Eu não sei onde estamos. Acho que eu me perdi.”
“E que culpa eu tenho?”—inquiriu a gata.
“Só me faz esse favor, tá? Vai lá pra cima e procura o caminho do acampamento pra mim.”
Sachi se virou para o tronco de árvore e murmurou alguma coisa como: “Te pego mais tarde, bobão.”. Em seguida, ela se lançou no ar e desapareceu da linha de visão de Taiki. Ele se recostou sobre um tronco e esperou.
Um bom tempo se passou até que Sachi voltasse. Algo na expressão da gata parecia ter mudado.
“Taiki, você precisa ver isso.” – dizia ela.
O garoto ficou curioso. Sachi não era de ficar séria daquele jeito. Ele deixou que ela o carregasse no ar o levasse-o até onde ela queria.
Taiki pousou sobre um imenso desfiladeiro. Seria uma queda longa e feia até atingir a base do monte onde ele estava. Aquele era o limite da floresta. Terminantemente fora dos limites que Lucy estabeleceu.
A neve branca cobria tudo até onde os olhos do garoto conseguiam ver. Tudo deveria ser branco, certo? Até aí, nada de diferente.
Claro. Isso se você não contar com uma pequena vila em chamas logo abaixo do desfiladeiro.
Ah, mas que droga. Agora Taiki ia precisar de uma bochecha nova.
Pequenas casas de madeira se espalhavam de maneira aleatória. De várias delas saía uma fumaça preta que se lançava para o céu. O fogo ainda brilhava em outras, tão forte que mesmo da distância que Taiki estava, dava para sentir sua intensidade.
“Nós temos que ir lá.”—disse o garoto. Não pensou duas vezes.
“Vai dar uma de maluco agora?”—Sachi resmungou, de cara fechada – “Você sabe que um dragão pode atacar a gente a qualquer momento. Além, disso, tem ideia do que a Lucy vai fazer que descobrir que a gente esteve aqui?”
“E o que você quer que eu faça?” – rebateu Taiki – “Fique aqui parado e olhando? Pode ter alguém vivo lá. Eu não vou me perdoar se eu fugir agora e deixar alguém morrer. Não se eu puder ajudar.”
Sachi avaliou a expressão do seu amigo. Uma coisa estava clara: Ele iria prosseguir com isso, querendo ela ou não. Mesmo com medo. Mesmo correndo perigo. Nada disso importava para Taiki, se pelo menos uma vida pudesse ser salva.
“Tudo bem, eu vou junto.” – a gata afrouxou os braços cruzados e sorriu de maneira convencida – “Mas não me culpe quando a Lucy arrancar a sua cara fora.”
(...)
Passando pelo que sobrou do vilarejo, Taiki não podia deixar de imaginar como ele era antes de pegar fogo.
Por várias vezes no caminho, encontrou restos de carroças e carruagens que tentavam, em vão, escapar do desastre que se seguiu. Algumas das casas estavam até inteiras por fora, mas o telhado havia sido esmagado por algum tipo de pata gigantesca.
Ao olhar aquilo, Taiki sentia um frio na barriga. Sinais da passagem do dragão estavam em todo lugar. Arranhões na madeira com formatos de garras. Destroços que a cauda do dragão poderia ter derrubado. Fumaça. Muito Fogo.
“Ei.” –Sachi chamou por ele –“Estou aqui com você.”
Taiki conseguiu sorrir. Mesmo sem saber o que iria acontecer, estava feliz de não estar sozinho. Sempre podia contar com Sachi para sair voando dali.
Tentou não se importar com as chances da gatinha driblar a velocidade de um dragão.
Uma coisa estava incomodando. Eles caminharam por vários minutos ao redor da vila, mas até agora não tinham visto ninguém. Certo, eles não iriam procurar nos destroços das casas por gente que não devia ter sobrevivido. Mas uma parte de Taiki esperava encontrar alguém. Qualquer um. Se Lucy fosse mesmo arrancar seu coro mais tarde, que pelo menos valesse à pena.
“Olá?” – o garoto gritou, esperando que alguém ouvisse. – “Tem alguém aí?”
Claro que não houve resposta. Pensando bem, aquela foi uma atitude idiota. Foi como se ele tivesse gritado: “Ei dragão, estou aqui! Porque não vem me comer?”
Mas antes que pudesse se arrepender de ter descido aquele desfiladeiro para início de conversa, Taiki sentiu alguma coisa. O faro dos Dragon Slayers era mil vezes mais apurado do que o de um humano normal. Mesmo no meio daquela fumaça e do vento frio, Taiki notou um cheiro fraco vindo de algum lugar.
Ele sentiu o coração bater acelerado.
“Sachi, por aqui!” – Ele começou a correr na direção do cheiro – “Acho que ainda deve estar vivo!”
(...)
Seu nariz guiou Taiki até os limites do vilarejo com a estrada que levava em direção ao reino de Fiore. Por ali, as marcas de roda das carruagens já haviam quase desaparecido por conta da neve.
Era um campo relativamente aberto. Um louco longe da estrada havia as ruínas do que parecia ser uma casa humilde, um pouco mais elaborada que as outras que Taiki havia visto. Ela era quase colada com a floresta, então de certo modo era a casa mais afastada do vilarejo.
O garoto acelerou o passo. O cheiro que ele sentia vinha de lá.
“Espera aí!” – Sachi já estava impaciente de ter que voar tão rápido. – “Ok, pode me dizer pra que a pressa?”
“Eu não sei.” – admitiu Taiki. A neve continuava retardando seus passos – “O cheiro está fraco. Acho que não temos muito tempo.”
“Ótimo.” – a gatinha abriu um sorriso travesso – “Com sorte, eu coloco mais um coelho na minha conta.”
Quando eles se aproximaram, ainda podiam sentir o calor do fogo. A fumaça preta confundia os sentidos, tornando difícil enxergar e respirar. Taiki sentiu que o dono ou a dona do cheiro estava perto, mas não tinha ideia de como faria para procurar.
Foi quando ele ouviu um som. Parecia uma tosse, o som de alguém se engasgando com a fumaça. Não estava muito longe. Taiki disparou para frente, com Sachi logo atrás.
Os dois seguiam o som da tosse, que estava cada vez mais forte. Tudo estava misturado com o barulho das paredes desmoronando ao seu redor. De repente, o som de tosses parou.
Isso não era bom. A pessoa havia desmaiado.
Em seu desespero, Taiki pouco ligou para a estrutura da casa que estava aos pedaços, ameaçando desabar. Seu rosto e suas roupas já estavam cobertos de fuligem. Volta e meia, o garoto chutava pedaços de madeira em chamas do seu caminho.
Taiki não tinha medo de fogo. Fogo nenhum poderia queima-lo. Os treinos com o seu pai foram muito mais perigosos do que isso.
Então, porque todo aquele medo?
Do que Taiki estava com medo?
Finalmente, ele chutou uma porta que estava meio quebrada e entrou no que parecia ser a sala de estar da casa.
Móveis antigos estavam destruídos e pegando fogo. Um quadro bonito de um menino segurando um cachorrinho aos poucos era consumido pelas chamas. Tinha muita fumaça preta acumulada nesta sala. Mais adiante, a lareira tinha desabado junto com a parte de trás das paredes, gerando um monte de entulho no chão.
E debaixo daquele entulho, estava o corpo imóvel de uma garota de cabelos longos e prateados.
Taiki calculou que ela deveria ter uns 15 anos. Aparentemente, ela estava na sala quando a lareira desabou e não teve forças para sair. Estava desacordada por causa da fumaça.
Ele ficou sem palavras. Aquela garota era linda. O que uma garota linda estava fazendo ali, perdida no meio do nada?
Um cascudo fez o garoto voltar à realidade.
“Ei! Acorda!” – Sachi estava tossindo enquanto falava – “Vai ficar olhando com essa cara de besta ou vai ajudar?”
O instinto de Taiki queria uma briga. Mas ele sabia que aquela não era a hora.
Ele e Sachi prenderam a respiração e correram até o monte de entulho. Taiki se aproximou e levantou o entulho usando os ombros como apoio, enquanto Sachi arrastou o corpo da garota pelo chão. Bem na hora, porque o garoto não suportou o peso e soltou tudo no chão, fazendo mais fumaça subir.
Má noticia. A garota não estava respirando. Taiki conseguiu levá-la ao corredor da casa em chamas, que tinha um pouco menos de fumaça. Finalmente, ela tossiu novamente e seu pulmão começou a se mover.
Ele não tinha mais tempo. Taiki precisava tirá-la dali.
O garoto decidiu carregá-la de qualquer jeito nas costas. Ele a sua amiga felina dispararam para a direção da saída.
Foi quando ele ouviu.
O som do bater de asas, vindo de algum lugar. Era um barulho tão pesado que fazia o corpo de Taiki tremer.
Essa sensação de pânico.
Esse terror que sabia o que estava se aproximando.
Taiki já sentiu isso antes.
Não ia dar tempo de gritar.
Não ia dar tempo de fugir.
Ele só teve tempo de puxar Sachi para perto de si e da garota, antes que um rugido ecoasse em suas cabeças, fazendo a casa em pedacinhos e atirando aqueles três na escuridão da noite.
(...)
Taiki acordou com os ouvidos zumbindo. Ainda estava meio desorientado. Estava escuro, então não dava pra enxergar direito. Ele não se sentia bem, mas os ferimentos eram leves. Tinha aterrissado em um monte de neve fofa.
Seu coração deu um salto e ele se levantou depressa. Estava de volta ao vilarejo destruído. A explosão tinha jogado eles tão longe assim?
Foi quando Taiki se lembrou da garota. Quer dizer, de Sachi e da garota. Onde elas estavam?
Ele procurou com os olhos e achou a gatinha escondida no meio de alguns destroços, não muito longe. A garota estava ao lado dela. Sachi dirigiu ao menino um olhar que deixou o recado claro.
Esconda-se.
Ele não procurou muito. Se jogou atrás da primeira coluna de madeira que ele achou.
Foi bem a tempo.
Porque naquele instante, um terremoto abalou o mundo.
Não era um terremoto de verdade. Alguma coisa gigante, monstruosa, estava caminhando em direção ao vilarejo. O tremor era o impacto causado por seus passos. Taiki sentiu o corpo vibrar. De onde o garoto estava, ele não podia ver toda a extensão do corpo do monstro.
Um rugido ecoou naquela noite. Uma casa aleatória explodiu em chamas e fumaça preta. Uma voz grossa, que emanava poder, ecoou na escuridão.
“Apareça, criança. Não pode se esconder de mim. Eu posso sentir o seu cheiro.”
Taiki praguejou. Ele amaldiçoou o faro dos dragões.
“Sua resistência é inutil.”—O monstro dava passos lentos, fazendo a terra tremer –“Você não pode fugir de seu destino. Essa é a verdade.”
De longe, Taiki pôde ver uma cabeça grande com um pescoço longo como o de uma serpente. A respiração da criatura era pesada e sinistra. As vibrações do ar ameaçavam destruir o que sobrou das casas que haviam ali.
O dragão ficou em silêncio por uns minutos. Sua cabeça se movia de um lado para o outro, farejando o ar. E então, para o desespero de Taiki, o monstro virou a cabeça para a direção em que Sachi estava escondida.
Ele tinha que fazer alguma coisa. Não tinha mais do que alguns segundos. Não tinha mais opções.
Por fim, o garoto se concentrou. A palma de suas mãos brilhou com um misterioso fogo azul. A labareda estava fraca. Precisava de mais, muito mais. As chamas das mãos direita e esquerda se juntaram em uma só, tomando a forma que Taiki desejava.
Era isso então. Naquela hora, ele pediu perdão a Lucy. Não havia outro jeito.
“Okibiryuu no Kouen!”
Uma gigantesca bola de fogo foi disparada das mãos do garoto. A magia explodiu no rosto do dragão, que recuou a cabeça com o impacto. Rosnando, o monstro virou-se na direção de Taiki, farejando o ar.
“Quem está aí?” – a voz do dragão perguntou.
Só então foi que Taiki percebeu. O dragão era cego. Seus olhos eram brancos e sem foco. Suas escamas eram rubras, bem escuras. Centenas de espinhos se estendiam se suas costas até a ponta do rabo. As asas gigantescas estavam encolhidas em suas costas. E as garras da pata eram afiadas a ponto de cortar uma pedra como se fosse manteiga.
“Ah sim...” – o dragão olhou para baixo, para onde ele devia supor que Taiki estava – “Sim, estávamos procurando por você.”
“Quem?” – exigiu Taiki – “Quem estava me procurando?”
“Minha rainha, é claro.” – o dragão agora desdenhava dele. – “Ah, mas você tornou as coisas difíceis. Mudando de lugar o tempo todo. Se não fugisse tanto como um covarde, podíamos deixar você e seu pai viverem. Vocês serviriam bem à minha rainha.”
Aquilo deixou Taiki furioso. Não ia deixar que aquele lagarto gigante ameaçasse seu pai, também. E ele não havia mencionado que deixaria Lucy viver.
“Bem...” – o garoto abriu os braços, iluminados pelas chamas azuis. –“Eu não estou fugindo agora.”
O dragão só rosnou em resposta.
Ele deu o bote, esticando a cabeça de serpente para Taiki e tentando abocanhá-lo. Taiki pulou e colocou fogo em suas pernas, fazendo um giro no ar. Um chute pesado atingiu a lateral da cabeça do dragão, que foi empurrada para o lado e quebrou a coluna onde o garoto estava escondido.
Rugindo, o dragão se livrou do entulho que caiu sobre sua cabeça. Fez um som que lembrava uma risada.
“Já faz tempo que não luto contra um Dragneel.”
Taiki mandou-lhe calar a boca.
Dessa parte em diante, o garoto só se lembra de detalhes. Ele era a única coisa entre Sachi e aquele monstro. Não havia retorno agora. Ele teria que lutar.
Mas era impossível para ele. Aquele monstro era grande demais. Taiki nunca se sentiu tão ridículo. Tão medíocre.
Não importava o quão forte Taiki o socasse. As escamas do dragão eram duras demais.
Não importava o quão rápido Taiki se desviasse. As garras do dragão eram rápidas demais.
Para aquele dragão, Taiki não era nada. Era apenas um inseto. Dragões não precisam lutar a sério com insetos.
Dragões esmagam insetos.
Foi quando Taiki entendeu que ele morreria. Lá no fundo de sua mente ele começou a aceitar essa a ideia.
Ele nunca mais veria Lucy. Ele nunca mais salvaria ninguém.
Sua investida parou. O fogo que iluminava as mãos e as pernas do garoto se apagou aos poucos. O dragão, que até o momento se divertia com aquela resistência toda, olhou para baixo com desprezo.
“É só isso?” – o monstro perguntou. Taiki não se moveu – “Entendo. Seu fogo ainda é fraco, pequenino. Você não era desafio para mim.”
Tum-Tum.
O dragão esticou o pescoço para frente.
Tum-Tum.
Ele estava perto agora. Aquele hálito podre e enjoativo...
Tum-Tum.
Ele ia morrer. Taiki ia morrer.
Seu olhar parou em Sachi. Seu pensamento se voltou para Lucy.
Taiki queria viver. Por um momento, ele realmente quis viver.
Nem que fosse para vê-las só mais uma vez.
Essa vontade lhe deu coragem. Essa coragem lhe deu força. A força percorreu seus braços e pernas, se transformando em um fogo azul. Agora, mais vivo do que nunca.
O dragão deixou escapar um urro de suspresa. E a próxima coisa que Taiki lembra é do som que ele ouviu.
Não era um som qualquer. Era um rugido.
Na hora, Taiki não entendeu direito. Mas, lá no fundo, ele sabia que aquele rugido tinha vindo dele.
Taiki estava rugindo.
E em seguida, sua visão ficou embaralhada. Ele só se lembra de um urro grave ecoar pelo vilarejo. Um urro de dor. O som de fogo queimando.
O que tinha de errado com aquele fogo azul? Porque não estava apagando? A magia que o mantinha aceso dissolveu no ar. Como poderia o fogo azul continuar queimando?
E então, o grande borrão pegando fogo tentou fugir. Mas aquela tentativa era inútil. Isso porque o fogo azul se espalhou pela membrana fina das asas. Até que, por fim, suas asas também estavam em chamas.
Com um estrondo, um monstro despencou do céu e atingiu uma casa lá ao longe. Seu corpo ainda queimava sobre a luz das chamas azuis.
Taiki caiu de joelhos. Seu corpo estava fraco. Sua visão, embaçada. Ainda ouvia o bater de asas de um dragão. O corpo imóvel que estava à sua frente pareceu se multiplicar aos seus olhos.
Mas ele não estava vendo errado. Dois outros dragões pousaram, fazendo a terra tremer. Um deles tocou o corpo do dragão caído, mas já era tarde. Estava morto. O outro, que era ainda maior do que aquele que Taiki havia derrotado, rosnou na direção do garoto.
“Seu humano miserável...” – havia um tom perigoso em sua voz. – “Você? Você fez isso?”
Taiki só conseguia tremer. Não lhe restou poder mágico. Não tinha como lutar.
“Nossa rainha estava certa.” – o outro dragão silabou, em um tom acusador. —“Ele é perigoso demais. Ele não merece viver.”
Os monstros aparentemente concordaram com algo. Taiki não precisava saber o que. Ele precisava de ajuda. Alguém... Qualquer um...
“Pai...”—pediu o menino, com lágrimas nos olhos. – “Eu preciso de você...”
Os dois dragões rugiram. Sua magia se juntou em um só disparo, que iluminou o mundo. Taiki fechou os olhos.
E então, as mãos de um homem apararam o golpe combinado antes de atingir o alvo. O homem levantou aquela energia e engoliu-a inteira. Deu para ouvir os dragões urrarem de frustração.
Taiki estava exausto. Sua consciência estava indo embora. Antes de desmaiar, ele ouviu o homem dizer:
“Droga, garoto. Você só me arruma problemas.”
E então, o homem saltou. Fogo vermelho brilhava em suas mãos.
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