O Último Dragão Rei
3 A dor que o tempo não pôde curar
Notas iniciais
A dor foi o que acordou Taiki pela primeira vez.
Ele estava de volta à sua barraca, deitado sobre algum tipo de colchão. Havia coisas espalhadas em todo canto. Estava uma bagunça. Como se alguém tivesse movido tudo aquilo depressa e não tivesse tido tempo de arrumar.
Havia um pano úmido sobre sua cabeça. Ele estava coberto por tantos cobertores que quase não percebeu que estava seminu, só de cuecas. Seus ferimentos estavam cobertos por bandagens. As roupas que ele estava usando estavam dobradas ao seu lado, chamuscadas e completamente destruídas.
Algo não estava certo. Taiki estava sem fome.
Ele sabia que quando não tinha fome, devia estar doente. Podia sentir que seu corpo estava mole. A cabeça doía. Um som agudo ressoava em seus ouvidos.
Naquele momento, Lucy entrou na barraca carregando uma bacia grande que eles usavam de banheira. Fazendo força, ela depositou a bacia no chão e mediu a temperatura da água. Parecia razoável.
Uh oh. Alerta de mãe brava.
Havia uma jogada que Taiki sempre usava para escapar dessas situações. Ele ficava deitado e fingia estar dormindo. Lucy não teria coragem de puni-lo se ele estivesse dormindo, não é mesmo?
“Pare com isso.” – pediu a mãe, em um tom estupidamente calmo – “Esse truque velho não engana ninguém.”
Já devia saber que não seria assim tão fácil.
Lucy se aproximou e ajudou o garoto a se levantar. Sem os cobertores, ele estava congelando. A mão da mãe estava fria quando ela removeu o pano da testa do filho e mediu sua temperatura. A careta que ela fez não foi bonita.
“Ainda está febril. Consegue fazer tudo sozinho?”
Taiki assentiu com a cabeça. Lucy deixou a barraca, enquanto o garoto terminava de se lavar. Ela logo voltou e ajudou-o a se vestir. Ele estava péssimo, mas resistia o tempo todo enquanto a mãe o cobria com várias camadas de casacos e gorros. Só ficou satisfeita quando o menino protestou.
Ela o levou para a cama e colocou o cobertor por cima dele. Taiki notou o quanto ela estava preocupada. Nessa hora, sentiu uma pontada de culpa. Lucy devia estar furiosa, mas não disse nada. Ele tentou falar alguma coisa, mas sua voz não saiu. Sua mãe lhe calou com o dedo.
“Não fale. Você perdeu muito poder mágico.” – ela afastou a mão do rosto do garoto e acariciou os cabelos dele. – “Durma, agora. Falaremos depois.”
E então, Lucy começou na cantarolar uma antiga canção, como costumava fazer quando Taiki era mais novo. Imediatamente, as pálpebras do garoto ficaram pesadas. O som da voz da mãe o deixava mais calmo.
Antes que percebesse, já havia se entregado ao mundo dos sonhos.
(...)
Na segunda vez, Taiki se sentia melhor. Mas agora, a dor ou a quantidade de roupa pouco importavam.
Uma discussão acalorada estava acontecendo do lado de fora. Dois tons de voz se revezavam, falando rápido e interrompendo as falas um do outro. Não deu para entender sobre o que estavam brigando.
“Ele é só uma criança!” – a voz de Lucy estava embargada. Isso sempre acontecia quando ela estava chorando. – “O que mais você quer dele? O que mais você quer de mim?”
“Não começa, Lucy.” – A voz do pai de Taiki estava pesada e séria, como de costume. – “Pare de tentar me culpar. Se eu não tivesse aparecido, aquele garoto estúpido estaria...”
“Não o chame assim!” – era raro ouvir Lucy gritar. – “Porque você faz isso, Natsu? O que deu em você?”
“Não sei do que está falando.”
“Você não é assim. Você está nos afastando de você.”
Um silêncio perigoso se seguiu. Lucy foi além.
“Natsu... O que aconteceu com a Guilda não foi culpa sua.”
“Já chega, Lucy.” – o pai queria dar o assunto por encerrado.
“Você não podia fazer nada. Você estava me protegendo. Protegendo o seu filho.”
“Lucy, eu não quero ouvir.” – o tom de voz do pai já estava exaltado – “Pare com isso.”
“O Happy te diria que...”
Um rugido retumbante ecoa.
Foi como se o maior e o mais assustador dos dragões tivesse anunciado sua chegada. Em sua voz, estava todo o seu ódio. Toda a sua fúria. Todo o seu poder. Por um instante, a fogueira que brilhava no centro do acampamento explodiu e ardeu em chamas. A floresta inteira vibrou.
Quando o fogo diminuiu, a luz da fogueira se apagou completamente. O som da tempestade de neve parecia mais alto. Ninguém disse nada. O som de passos começou a se afastar da fogueira.
“Quando ele estiver pronto...” – O tom de voz do pai era amargo e frio –“Mande-o para mim. Estarei esperando.”
E dizendo isso, Natsu se foi. Dentro de sua barraca, Taiki estava imóvel, sem saber o que fazer.
(...)
Na tarde daquele dia, o humor da família não estava melhor.
Taiki havia reacendido a fogueira. Sua febre havia passado, mas ainda não estava a fim de comer. Até Sachi, que sempre levantava a moral de todos, parecia abatida. Aparentemente, a gatinha também escutou uma parte da discussão de pouco tempo atrás.
Era como se todos os dragões do continente estivessem procurando por eles. Só naquele dia, eles foram forçados a mudar o acampamento duas vezes. Agora, mesmo as árvores e o clima pareciam diferentes. O vento aqui era mais forte. A floresta, mais densa.
Lucy não conseguia deixar a mente parada. Seus olhos estavam marejados, mas sua expressão era firme. Ela ajudou Taiki a vestir seu casaco azul preferido e ficou um tempo arrumando a gola e as mangas, mesmo que isso não fosse necessário. Taiki não se importou.
“Quando falar com ele...” – a mãe lhe instruía – “Olhe diretamente em seus olhos. Não deixe que o que ele disser te machuque. E não tenha medo dele. Ele não vai te ferir. Ele só está confuso. Tente entende-lo um pouco.”
O olhar de Taiki se dirigiu à barraca onde sua mãe dormia. Lá, o corpo da garota de cabelos prateados estava enrolado em um cobertor, com um pano úmido sobre a testa. Até agora, ela não tinha dado sinal de vida.
“Como ela está?” – Taiki perguntou, com tom mais preocupado do que pretendia.
Lucy se virou para a hóspede, com tristeza.
“Ela bebeu um pouco de água e está respirando.” – informou a mãe. – “Fora isso, eu não sei. Eu estou fazendo o que eu posso. Ela pode acordar a qualquer momento. Ou então...”
Ela não precisou dizer.
Taiki tentou encarar isso como uma coisa boa. Pelo menos eles estavam tentando salvar a vida da garota. Se ela sobrevivesse, todo esse problema teria valido à pena.
Finalmente, o garoto se levantou e olhou para o topo da colina onde eles estavam. Em algum lugar lá encima, seu pai estava esperando por ele. Depois de tudo o que Taiki ouviu, não sabia mais o que deveria sentir.
Para sua surpresa, Sachi se colocou de pé. Ela também olhou para cima, virando-se para Taiki logo em seguida. A pata da gatinha agarrou a lateral da calça dele.
“Sachi.” – o garoto não conseguiu esconder a insegurança em sua voz. – “Você não precisa fazer isso.”
“Há! Do que está falando, bolinho?” – a felina deixou escapar uma risada – “Eu te ajudei a matar um dragão. Não estou com medo.”
Taiki sorriu. Ele não se lembrava de nada que Sachi houvesse feito durante a batalha.
“Vamos lá.” – Se Sachi estava com medo ou não, sua pose de durona escondia bem – “Começamos isso juntos, terminamos isso juntos. Certo? Você não vai se livrar de mim assim tão fácil.”
A lealdade da gatinha comoveu Lucy, que escondeu uma lágrima. Aquela cena lhe trazia à tona as lembranças de sua Guilda. Do tempo em que nada mais importava, desde que ela tivesse seus amigos por perto.
“Certo. Juntos então.” – Taiki respondeu. Ele e sua fiel parceira caminharam colina acima.
(...)
Natsu estava sentado de pernas cruzadas, em silêncio.
Eles estavam agora no ponto mais alto de uma montanha. Lá embaixo, havia um vale que estendia até o horizonte. Estranhamente, o topo da colina não estava tão frio. Provavelmente porque Natsu estava por perto.
O tapete de neve tinha derretido, escorrendo colina abaixo. Em seu lugar, uma grama seca e amarelada cobria o solo. Taiki ficou surpreso. Aquilo era realmente estranho.
Ele já tinha visto grama antes. Mas aquela ali parecia recente. Como se ali, naquela colina, nunca houvesse nevado na vida. E de repente: poof. A neve soterrou tudo.
Lucy já havia mencionado que não era normal, aquele clima. Alguém, ou alguma coisa, devia estar causando aquelas tempestades. E o que quer que fosse, parecia seguir Taiki e sua família, independente de onde tentavam se esconder.
“Não me lembro de ter chamado por um gato.” – a voz autoritária do pai trouxe o garoto de volta à realidade.
O faro de Natsu devia ser bom. Nem precisou olhar para trás. Sachi fechou a cara. Se ele não fosse quem ele era, ia sentir o gostinho do seu Gato-fu. Mas foi Taiki que interveio por ela.
“Você não disse que eu tinha que vir sozinho.”—o garoto estava cansado daquele tratamento. “E eu não me importo mais em ficar te agradando.”
O clima ficou tenso. Taiki imaginou se tinha passado dos limites. Suas conversas com o pai quase nunca eram amigáveis. Mas respondê-lo daquele jeito era um nível de perigo totalmente diferente.
Natsu não olhou para o rosto do filho em nenhum momento. Com a cabeça, ele apontou um espaço vazio ao seu lado. Sua ordem era clara.
Sente-se.
Taiki imaginava que tipo de armadilha era aquela. Seu pai não era do tipo que gostava de dividir o seu espaço. No acampamento, Natsu nunca estava presente. E quando estava, não passava mais do que um pedaço do dia. Na maior parte do tempo, ficava sozinho.
Relutante, Taiki obedeceu. Imitou a posição do pai e cruzou as pernas, tomando Sachi em seus braços. Lembrou-se naquele momento dos conselhos de Lucy e passou a encarar seu pai com os olhos.
Natsu ainda era jovem, mas seu rosto estava envelhecido pelo tempo e pela raiva. Havia uma cicatriz que cortava seu rosto, fazendo-o cego do olho esquerdo. O direito ainda tinha a mesma cor escura. Seu cabelo rosado estava sempre bagunçado, já que ele não ligava muito para isso.
Vestia seu traje de sempre: um colete preto com enfeites de ouro, que deixava à mostra seu peitoral musculoso. Usava calças brancas até a altura dos joelhos. Calçava suas sandálias pretas de bico aberto. Tinha uma pulseira da mesma cor no pulso esquerdo e um cachecol branco enrolado sobre o pescoço.
“Pare de me olhar assim.” – a voz de Natsu era firme – “Meu olho foi a menor das coisas que tiraram de mim.”
Taiki não percebeu, mas passou muito tempo encarando a cicatriz. Mesmo só com uma visão paralela, não foi difícil para o pai perceber. O garoto não disse nada e desviou o olhar. Porque a presença do pai o assustava tanto?
“Então...” – Natsu continuou –“O que você fez?”
Foi uma pergunta estranha. Taiki sabia que tinha feito besteira e esperava que seu pai jogasse isso na sua cara. Mas ao invés de acusá-lo, parecia querer que o garoto admitisse seus próprios erros.
“Eu te desobedeci.” – afirmou Taiki. – “Me desculpe.”
“Não seja idiota.” – rebateu o pai, de forma ríspida. – “Esse é o seu problema. Não tem ideia nenhuma do que está fazendo. Age por impulso. Você não pode ser igual a mim.”
“Eu...”
“Você não sabe de nada.” – Natsu remendou a fala dele. – “Vai dizer que nunca passou pela sua cabeça? O porquê de eu nunca estar por perto?”
Havia várias respostas que Taiki poderia dar para aquela pergunta. Nenhuma delas era educada.
“Os dragões conhecem o meu cheiro.” – revelou o pai, de forma sombria. – “Eles podem sentir a minha magia.”
Taiki se calou. No fundo, ele compreendeu onde Natsu queria chegar. Aquele tinha sido um jeito babaca de dizer que, se Natsu estivesse por perto o tempo todo, estaria colocando todos em perigo. Se afastar era a forma que ele encontrou de proteger sua família.
“Você usou sua magia, quando eu disse que não podia.” – lembrou o pai, de forma dura – “Você deixou a floresta, quando eu disse que não devia. Você provou que é um idiota que não consegue obedecer ordens.”
Ouvir aquilo doía. Por mais que o pai pudesse ter alguma razão, Taiki era só uma criança. Não precisava falar daquele jeito.
“Antes, nós não éramos uma ameaça.” – Natsu continuou, sem piedade – “Agora, eles sabem que você existe. Onde quer que você vá, eles também irão. Você estragou tudo, pirralho. E eu não posso estar lá sempre pra te salvar.”
O peso dos erros que Taiki cometeu caiu de uma vez sobre ele. O garoto apertou o abraço sobre Sachi e sentiu as lágrimas escorrendo de sua face. Natsu retalhou, repetindo sua pergunta:
“O que você fez?”
Na mesma hora, Taiki se levantou e disparou colina abaixo. Ignorou os protestos do pai, que diziam: “Volte aqui! Você só acaba quando eu acabar com você!”
(...)
Taiki não costumava chorar. Nem pedir a ajuda da mãe. Mas naquela hora, ele precisava dos dois.
“Não foi sua culpa.” – a voz de Lucy dizia, de forma afetuosa.
Ela passava as mãos pelos cabelos do filho, que estava inconsolável, deitado sobre o colo da mãe. O garoto nunca se sentiu tão vulnerável. Sachi não conseguia dizer nada. Ver seu amigo daquele jeito parecia ter abalado sua confiança.
“Seu pai não falou por mal.” – a loira tentava manter o seu sorriso. – “Ele não costumava ser assim.”
Lucy olhou para o lado de fora, para o azul estrelado do céu.
“Sabe...” – sua mente parecia estar longe. – “Natsu sempre foi uma criança. Vivia fazendo besteiras e não se importava com as consequências. A nossa vida na Fairy Tail era divertida. Era bom tê-lo por perto.”
Mesmo ouvindo, Taiki não parecia prestar muita atenção. Esse seria mais um dos sermões sobre como a vida era antes de Natsu se tornar um babaca.
Nada que Taiki não tivesse ouvido antes.
“Ele sempre dizia que faria de tudo pelos amigos. Ele sempre nos protegeu. Mesmo quebrando as regras. O que você fez foi corajoso. Ele faria igual. Ele é uma boa pessoa, Taiki. Assim como você é.”
O garoto criou coragem para se levantar e encarar a mãe nos olhos. Ela não estava mentindo.
“Eu estou orgulhosa de você.”
Os dois ficaram abraçados por um tempo, sem querer se separar.
Então, eles ouviram um som vindo do lado de fora.
Alguém tinha acabado de derrubar um monte de panelas e outras coisas que Lucy tinha empilhado envolta da fogueira. A pessoa praguejou, gritando um monte de palavrões que Taiki nem conhecia.
Lucy, Taiki e Sachi se entreolharam. Todos saíram da barraca ao mesmo tempo.
Havia alguém sentado ali, devorando restos de comida que encontrou largados por pelo acampamento. Seu corpo estava coberto pelos curativos que Lucy tinha tentado fazer. O cabelo longo e prateado caía por suas costas.
“E ai?”— a garota estava falando com a boca cheia – “Lugar legal, o de vocês.”
(...)
O estomago da garota não tinha fundo. Foi o que Taiki concluiu. Ela não parava de pedir comida, enquanto mastigava com a boca cheia e espalhava pedaços de carne pela cara. Frequentemente, ela arrotava para liberar mais espaço.
Em algum momento, ela disse que seu nome era Rikka. Ou pelo menos foi o que Taiki achou que ouviu, entre um pedaço de carne e outro. E quanto mais ele olhava para a garota, mais bonita ela ficava.
O cabelo longo e prateado dela estava amarrado em um rabo de cavalo, solto em suas costas. Não tinha reparado antes, mas seus olhos eram azuis, brilhantes como a mais rara das safiras. Seu modelito consistia de uma camiseta preta e rasgada, sem mangas, uma saia curta da mesma cor e botas escuras de cano longo.
Ela parecia rebelde e selvagem, ao mesmo tempo. Por algum motivo, aquilo impressionava Taiki.
Finalmente, Rikka abraçou a própria barriga, agora estufada.
“Nossa, comi demais.” – ela suprimiu um arroto – “Valeu, galera. Vocês não são tão maus assim...”
A garota fez uma força enorme para se levantar. Agradeceu quando Lucy ofereceu um lenço para limpar o rosto. Aparentemente, depois de aturar as porqueiras de Taiki e Natsu, não tinha como ficar pior.
“Então?” – O humor de Rikka parecia ter se renovado, agora que estava satisfeita. – “Da última vez que eu chequei, eu estava viva. Devia ter virado carvão. A quem eu devo agradecer por me tirar daquela bagunça?”
“Quer saber?” – Sachi estava no limite. Não aguentava mais o jeito folgado da garota. – “Para alguém que quase morreu, você come pra caramba.”
“Ah, é?” – Rikka soou irônica – “Para um gato que fala, você tem uma boca grande, não acha?”
“Eu posso voar também, belezinha. Porque não vem aqui pra eu quebrar essa droga que você chama de cara?”
“Wow!” -- Dessa vez, Rikka surpresa de verdade – “Gatos falantes, voadores e assassinos. O que mais falta inventarem?”
Lucy se intrometeu, já que Sachi ameaçou encher o rosto da outra garota de porrada.
“Fico feliz que está bem, Rikka.” – a loira forçou um sorriso, enquanto sentava segurar Sachi em suas costas. – “Mas se quer mesmo agradecer a alguém, foi o Taiki que a achou e te trouxe até aqui.”
A mãe deu um sorriso travesso, e uma piscadela para o filho. Droga Lucy. Porque você faz essas coisas? Taiki agora estava vermelho como um pimentão. Rikka lhe dirigiu o olhar e ele ficou tenso, sem saber o que dizer.
“Você ferrou aquele cegueta?” – perguntou a garota. – “Incrível, Chibiko! Fico te devendo uma!”
Espere um instante. Rikka estava falando do dragão que Taiki derrotou? Como ela sabia daquilo?
Esqueça isso. Ele tinha acabado de ser chamado de Chibiko.
A garota se colocou de pé e limpou a sujeira da roupa. Experimentou mover os músculos e sorriu ao ver que estavam funcionando bem.
“Bom, então...” – Rikka estendeu a mão aberta em direção à Lucy – “Eu apreciaria se pudesse me passar as chaves agora.”
O rosto de todos se abriu de espanto. Por reflexo, Lucy colocou as mãos no cinto onde estava seu molho de chaves. Escolheu uma ao acaso, escondendo-a da visão da garota de cabelos prateados.
“Do que está falando?”
“Não banque a loira burra.” – Rikka já estava impaciente. – “Você é Lucy Heartfilia. As dez chaves douradas do zodíaco que restam estão com você. Preciso delas para abrir o portal. Dê elas para mim.”
Taiki não sabia nada de um portal, mas ao encarar os olhos da mãe, percebeu que ela tinha uma ideia. Seria possível? Aquilo tinha destruído faz tanto tempo. Não podia ser o que Lucy estava pensando.
“Se estiver falando do Portal do Eclipse, ele não existe mais.” – um sorriso se passou pelo rosto da loira. – “E mesmo que funcionasse, você não poderia abri-lo sem a ajuda de um mago celestial.”
A menina de olhos azuis ficou pensativa por um tempo. Ela recuou a mão estendida, como se estivesse reconsiderando seu pedido.
“Não tinha pensado nisso.” – Rikka admitiu. – “Mas não importa. Eu vou voltar de qualquer jeito. Nem que tenha que te arrastar até lá e te forçar a abrir para mim.”
Voltar? Para onde? Taiki queria muito saber do que aquela maluca estava falando.
“Lucy não vai a lugar nenhum.” – murmurou uma voz masculina, vinda da floresta.
Então, o chão ao redor de Rikka cedeu.
Natsu passou como um raio, desferindo um chute vertical contra a garota. Sua perna brilhava com uma mistura de fogo e relâmpagos. Não tinha como Rikka conseguir bloquear tudo aquilo só com um braço.
Então, como foi que aconteceu? Só quando Natsu se afastou, Taiki pôde ver. O braço direito de Rikka estava envolvido por uma crosta resistente. Aquilo era gelo em suas mãos?
“Eu sabia que não devia ter te trazido pra cá.” – A voz de Natsu era acusadora – “Fique longe da Lucy!”
O gelo ao redor do braço de Rikka se desfez.
“Ora ora, o último Dragneel!” – seu tom irônico fez as mãos de Natsu irromperem em chamas. – “Ah, foi mal, Chibiko. Você ainda não conta.”
As orelhas de Taiki pegaram fogo. Sachi tomou as dores do amigo. O garoto começou a invocar sua magia, mas Lucy o deteve . Seu olhar era sério.
“Então, senhor Dragneel, como vai ser?” – Rikka já voltava sua atenção para Natsu. Os dois se encaravam como dois animais selvagens. – “Vai me matar? Como seu pai matou minha mãe?”
“Eu não sei quem você é.” – respondeu Natsu. Veias saltavam de sua testa. – “Mas sei o que você é. E eu não vou deixar você ameaçar a minha família de novo.”
“Ah, é mesmo?” – Rikka deixou escapar uma risada falsa. – “Então porque eu não me apresento para todo mundo?”
Naquele momento, a nevasca parou de cair. A neve que estava no chão começou a rodear o corpo de Rikka. Seus dedos ficaram tão afiados quanto garras. Seu corpo ficou coberto por uma camada protetora, formando uma espécie de armadura.
“Eu sou Rikka, a última Dragon Slayer de gelo. Nada, nem ninguém me impedirá de abrir aquele portal e escapar desse inferno. Escreva o que eu digo. Vocês não vão ficar no meu caminho.”
Fale com o autor