O Último Desbravador do Leste

13 Pelo visto, sou eu que tenho que fazer tudo por aqui


Notas iniciais
Após uma longa noite de eliminações, que tal descontrair um pouco com uma boa dose de romance? Ou seria melhor continuar o suspense da próxima eliminação? Calma, que aqui você não precisa escolher. Tem pra todos os gostos!

Já era de madrugada quando Cris resolveu sair da barraca para se esquentar próximo à fogueira. O clima estava ficando cada vez mais úmido e o frio conseguia atingir um nível de crueldade desconhecido para um grupo de jovens da cidade. Hesitou um pouco, antes de seguir em frente, ao notar que Duda estava encarando o fogo com uma cara de preocupação. A menina foi se aproximando à passos curtos e, ao chegar de mansinho, pousou uma de suas mãos no ombro direito do menino. Olhou ao redor para ver se havia mais alguém por perto e, ao perceber que eram os únicos acordados, sentou pertinho dele para que pudessem se esquentar.

"Você também ta com frio?" — Falou Duda ao perceber os lábios de Cris tremendo feio uma britadeira.

"Muito." — Respondeu Cris, com dificuldade. Sua gargante estava seca, mas não tinha coragem de se levantar para pegar água no reservatório.

Duda envolveu Cris em um grande abraço e os dois ficaram agarradinhos observando o fogo queimando. Os estalos da madeira e a luz forte e alaranjada das chamas faziam parecer que os dois estavam abrigados em uma mansão antiga e de arquitetura arcaica. Como um casal de fugitivos que evitavam a guerra, se esquentando na lareira, declarando hinos de amor e se amando nos últimos instantes de suas vidas.

"Você parece ter um corpo muito frágil, Cris. Mas não precisa se preocupar com isso. Eu tô aqui com você." — Duda se encolhia em volta dela, com cuidado para não machucar seus ossos trémulos.

De bochechas vermelhas e olhos semicerrados, tudo que Cris conseguiu foi lançar um sorriso breve. Nunca antes havia estado com alguém que lhe dissesse coisas tão belas. Ninguém sequer tentou amá-la ou protegê-la da forma como estava sendo tratada naquele momento. Para ela, o conforto daquele abraço poderia durar o resto de sua vida.

O tempo foi passando e Duda foi se soltando devagar. Sua expressão agora era a mesma de antes. Preocupado com alguma coisa, olhava friamente para o fogo, pensativo e distante. Cris notou que havia algo errado.

"Você está assim por causa da votação de hoje?"

Duda fez que sim com a cabeça, mesmo sabendo que seus pensamentos iam muito além de uma simples eliminação.

"Nós fizemos a coisa certa. Você não tinha escolha…" — Cris apertou sua mão contra a dele tentando fazê-lo se sentir mais seguro de sua decisão.

"Eu sei que fizemos o certo. O que me deixou assim foi saber que, uma hora ou outra, vamos ter que votar em pessoas que gostamos. Eu não quero ter que votar em você. Mas se não fosse pra ganhar, eu nem sequer estaria aqui. Entende?"

Nesse momento, Duda olhou no fundo dos olhos de Cris. A menina parecia assustada com suas palavras. Pela terceira vez, quis falar para ele sobre o colar de imunidade que tinha encontrado, mas Duda estava novamente colocando o jogo à frente de seus sentimentos. Para Cris, dúvidas como aquela jamais a deixaria pensativa, pois sabia que nada iria conseguir fazer com que ela traísse o garoto que amava.

"Talvez ele não me ame de verdade…" — Pensou em silêncio e deixou que os estalos da madeira falassem por ela. Os dois permaneceram de mãos dadas por quase meia hora. Depois, cada um foi para a sua barraca esperar as surpresas de mais um longo dia.

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O quarto dia de competição começou de um jeito diferente. Pela primeira vez o céu estava coberto de nuvens cinzentas e o vento soprava mais forte que o normal. Fábio sabia que aquilo era um prelúdio para uma grande chuva e, portanto, saiu floresta adentro à procura de folhas compridas o suficiente para servir de lona.

Bia se encontrava sentada à margem do riacho com um sorriso confiante no rosto e sua lança nas mãos. A razão de toda aquela animação se encontrava repousando ao seu lado. Se tratava de um balde com aproximadamente trinta centímetros de diâmetro e, dentro dele, dois peixes, um minúsculo e o outro um pouco maior, se debatiam anunciando um grande banquete para o grupo Água.

Janjão escovava seus dentes um pouco distante da menina e nem por isso deixou de notar a alegria ao seu redor. Avistou o balde e pensou que ali dentro estaria um almoço de verdade, diferentemente do que estavam acostumados a comer.

"Ela é mesmo incrível…" — Suspirou sem dar muita bandeira.

Passou alguns segundos a mais lavando o rosto, pensando em alguma coisa que pudesse fazê-lo se aproximar dela. De repente teve uma ótima ideia. Caminhou até onde ela estava, devagar para não soar pretensioso.

"Oi… É… Você quer ajuda com o balde?" — Enquanto perguntava, notou que só haviam dois peixes no recipiente.

"Não, obrigado. Eu tô ótima." — Bia respondeu sem nem olhar para a cara de Janjão.

"Nossa… quanta grosseria. Eu só tava querendo ajudar." — Janjão ficou de pé, completamente estático, olhando para ela. Queria sair dali mas suas pernas não estavam ajudando. Bia, por outro lado, não ligava se ele ainda estava ali, plantado feito um bobo. A única coisa em que pensava era na quantidade de peixes que precisaria para que seu grupo pensasse melhor antes de querer eliminá-la.

Os primeiros pingos d’água foram caindo e, pouco a pouco, o riacho foi se tornando uma bela obra de arte da natureza. Bia recolheu sua lança e se levantou depressa.

"Droga! Eu deixei minhas roupas secando!" — A menina saiu correndo sem notar que havia esquecido o balde com os peixes.

Nesse momento, Janjão olhou para o céu e sorriu, em forma de agradecimento. Pegou o balde e saiu em direção a caverna onde Bia guardava suas coisas.

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Para Maria, a pior parte de ter se juntado com os meninos era ter que continuar dormindo na mesma barraca que Vivi. Desde que a tensão pré-conselho tomou conta do grupo Fogo, Vivi se tornou uma pessoa completamente diferente. Sempre com uma cara maléfica e totalmente obcecada em descobrir quem estava contra ela. Com a eliminação de Samuca, ficou claro que todos ali estavam do lado oposto, e queriam mandá-la para longe o quanto antes.

Devido ao medo, Maria mal conseguiu dormir. Ficava o tempo todo vendo se Vivi estava acordada e se iria querer conversar sobre o que aconteceu, mas não houve nenhuma oportunidade. Agora, com a grande chuva que estava caindo, as duas teriam que ficar mais um bom tempo presas na barraca. E isso só piorava o estado de Maria, que nem sequer podia ficar em paz com sua boneca.

Com o barulho dos pingos grossos na barraca, Vivi despertou de seu sono, sem fazer barulho, e desejou que aquilo não estivesse acontecendo. Para ela, o dia só começava oficialmente após um longo banho. E naquela manhã, especificamente, tudo o que mais queria era ficar sozinha.

"O que você ta olhando?" — Perguntou Vivi ao reparar a expressão de terror no rosto de Maria.

"Nada… Você ainda ta chateada comigo?" — Maria sabia que aquele não era um bom momento, mas, devido as circunstâncias, era melhor colocar tudo para fora de uma vez.

Houve um longo silêncio. Vivi abriu o zíper da barraca para ver como estava do lado de fora e viu que não ia ser bom para o seu cabelo, se saísse naquela chuva. Fechou o zíper e voltou para o seu lugar. Com um semblante mais tranquilo, deu um breve suspiro e virou na direção da menina.

"Eu só queria saber o porquê. O Samuca não merecia ter saído daquele jeito. Ainda mais sendo engando por alguém que se dizia estar do nosso lado." — Vivi penteava os cabelos enquanto falava.

"Me desculpa. Eu tava caminhando com a Laurinha, quando vi vocês dois comemorando alguma coisa. Aí vi que você tava segurando um colar…" — Maria começou a falar baixinho, deixando que a chuva ultrapassasse o som da sua voz.

"Ah! Então eram suas as marcas no chão. Bem que o Samuca disse que alguém tinha visto a gente. Quer dizer que você combinou com os meninos de ferrar com o nosso jogo só porque viu que eu tinha encontrado o colar?" — Vivi continuava penteando os cabelos, tentando demonstrar o máximo de calma possível na conversa.

"Vivi, você ta muito estanha ultimamente. Eu não podia confiar o meu jogo numa pessoa que nem você. Que grita de uma hora pra outra e me ameaça o tempo todo. E se você disse que estava confiando em mim, por que usou o colar então?" — Maria parecia ter chegado exatamente no ponto onde queria.

"Dava pra ver na cara do Mosca que ele tava confiante demais. Achei que todos iriam votar em mim. Só não sabia que uma garotinha fuxiqueira estava tramando pelas minhas costas."

Maria deu uma risada breve e por um momento se orgulhou da jogada que havia planejado. Em sua memória, algumas cenas foram voltando. Ela indo na barraca onde estavam Mosca e Binho, para convencê-los de que Vivi iria usar o colar da imunidade. A hora exata em que o nome "Samuca" saiu pela primeira vez de sua boca. A expressão de espanto na cara de Mosca e Binho ao verem que ela poderia muito bem armar suas próprias estratégias de jogo. Depois disso veio o momento em que teve de explicar detalhadamente para Neco, na outra barraca, porque ele teria que votar em Samuca. De fato, foi muito esperto de sua parte perceber que, já que Vivi estaria protegida pelo colar, todos deveriam votar em Samuca, caso contrário, um deles sairia certamente.

Aos poucos, as duas foram se entendendo e deixaram suas diferenças de lado. Ambas sabiam que, a cada dia, novas jogadas iam se revelando, e que sempre haveria uma oportunidade de não ser a próxima a sair. O difícil não era saber onde achar a presa, e sim quando dar o bote.

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O grupo Terra passou por uma noite bastante intensa. Já que a barraca das meninas havia sido queimada, André e Rafa tiveram que ceder seu espaço para elas, e com isso passaram a dormir no relento. Por mais agasalhados que estivessem, o vento sempre dava um jeito de soprar mais frio. E mesmo o calor da fogueira não conseguia dar conta da situação.

Quando a chuva começou, Rafa, Bel e Dani estavam colhendo frutas para o café da manhã bem longe do acampamento. E essa foi a chance de André para entrar na barraca e conseguir um tempo a sós com Ana. Para ele, a saída de Teca ainda não fazia sentido algum.

"Ei, ei! O que você pensa que ta fazendo entrando aqui todo molhado desse jeito?" — Exclamou Ana ainda deitada.

"Ta chovendo muito forte, você não ta vendo? Além do mais, os outros saíram faz tempo e parece que não vão voltar no meio desse temporal." — André foi entrando e se sentou confortavelmente no lugar onde antes era o seu espaço de dormir.

Ana permaneceu quieta, sem dar muita bola para a presença de André, mas houve um momento em que os dois não aguentaram mais ficar calados.

"Escuta, você ainda não me disse por que preferiu que a Teca saísse ao invés da Dani." — André tentava dialogar amigavelmente, mas a menina à sua frente não cooperava em nada para que tudo ocorresse em uma boa.

"Tenho meus motivos. Você não confia em mim?" — Ana tentava forçar uma expressão mais relaxada, porém só conseguia demonstrar o quanto era difícil fingir estar confortável na presença de André.

"Não. Como posso confiar em alguém que não me responde nada que eu pergunto? Anda, vai, me fala. Eu fiz tudo certinho. Mereço saber o que você tinha em mente." — André pegou uma toalha que supostamente seria de Bel e começou a se secar.

"Você continuou no jogo. Não é verdade? O que mais você quer, garoto? Esse assunto já está encerrado." — Ana falava firmemente, como uma grande líder de equipe e totalmente diferente da forma que agia no orfanato.

"Ah é… E o que será que aconteceria se o Rafa ficasse sabendo que você traiu ele hein?" — O menino começava a disparar pequenos relapsos de um sorriso incerto.

"Hahaha. Até parece que você me assusta. Pra sua informação, eu votei em você. Do jeito que ele mandou." — Agora era Ana quem estava sorrindo.

"Ué! Mas como? Foram quatro votos na Teca. Eu, você, a Bel e a Dani votamos nela. Não foi assim?" — Uma grande dúvida surgiu na cabeça de André.

"Não, não, seu esquecido. Foram três votos pra Teca. O seu, o da Dani e o da Bel. Eu e o Rafa votamos em você. Antes da gente chegar no conselho, eu consegui convencer a Teca a votar na Dani, e a idiota fez exatamente como eu mandei." — Ao perceber que havia falado mais do que deveria, Ana se retraiu um pouco e fechou os olhos, como se ainda estivesse com sono.

"Nossa. Você pensou em tudo mesmo, hein. Para uma pirralha do seu tamanho, você esta de parabéns. Só espero que você me inclua nesses seus planos malucos o tempo que for preciso até eu me livrar desse grupo maldito."- Depois disso, André resolveu descansar um pouco o juízo. Pelo visto, Ana sabia muito bem o que estava fazendo. A única questão era por que ela preferiu manter a garota que claramente tocou fogo no acampamento por pura birra. Era realmente melhor fechar os olhos e deixar aquilo de lado. Ainda haveriam vários conselhos para quebrar a cabeça.

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A chuva continuava sem dar trégua. Já estava na hora do almoço e seria impossível utilizar a fogueira para cozinhar alguma coisa. Para as meninas do grupo Ar, o jeito foi se alimentar de algumas frutas esquecidas na bolsa de Tati. Pata ia distribuindo igualmente pedaços de maçã e banana, enquanto Cris pensava em Duda, sozinho na barraca ao lado.

"Será que ele ta pensando em mim?" — A frase ia e voltava em sua cabeça, e Pata começou a olhar desconfiada.

"O que ta acontecendo com você, Cris? Ultimamente você tem estado meio esquisita. Tem alguma coisa errada?" — Pata sabia que poderia ser algo a respeito da briga que tiveram quando Thiago foi eliminado, mas a julgar pelas últimas conversas que tiveram, alguma outra coisa estava prendendo a atenção de Cris.

“Nada não. É que às vezes eu sinto saudades da Carol, do Chico e da Ernestina, sabe? É só isso." — Assegurou Cris, com um pedaço de maçã entre os dedos.

"E com você, Tati, ta tudo bem?" — Pata olhava em volta e viu que o clima na barraca estava péssimo.

Tati fez que sim com a cabeça. A menina ainda estava muito triste por ter perdido seu maior aliado no jogo. Não só pela segurança, mas pela companhia também. Nunca havia imaginado que algum dos vizinhos pudesse ser tão divertido. Talvez as pessoas estivessem certas ao dizerem que de perto todo mundo é legal. Pelo menos isso servia para explicar o quanto estava gostando de Tatu e o quanto sentia sua falta. Já em um outro ponto de vista, quanto mais perto de suas amigas ficava, mais via que elas só pensavam em seguir na competição à qualquer custo. E para ela, Pata era a pior de todas. Estava sempre fazendo média com todo mundo, peguntando a cada um se estava tudo bem, quando na verdade só queria se certificar de que não havia mais ninguém contra ela no grupo. Nesse momento, o que mais pesava era a falta de sua irmã por perto.

"Como você ta Vivi? Vem me buscar. Eu quero ficar perto de você…" — divagava rumo ao paradeiro da irmã, mesmo sem saber se a mesma ainda permanecia no jogo.

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"Quando vocês estavam na Ponte da Esperança, no final da última prova, vocês viram a Mili?" — Mosca já estava há bastante tempo longe de todos que não era de seu grupo e Mili era a que mais lhe despertava saudades.

Binho coçava a cabeça tentando se lembrar de alguma coisa. Neco, que também estava lá, tentava encontrar algum resquício de Mili em sua memória mas todas as lembranças do dia anterior estavam embaçadas..

"Agora que você falou, eu não lembro de ter visto ela por lá. Eu vi a Marian, a Janu e o Fábio esperando junto com a gente para ver quem chegaria a tempo. Aí depois disso, a Bia chegou com o Janjão e eles ganharam a prova.' — Binho estava contente por ter conseguido lembrar de cada rosto na ponte.

"E você tem certeza de que ela é do grupo deles? Pode ser que ela seja daquele grupo que quase ninguém chegou até a ponte." — Neco tentava encontrar uma solução para a ausência de Mili na prova.

"Não, não. Eu tenho certeza que ela é do grupo Água. O grupo que você ta falando é o do Rafa. Acho que eles tiveram algum problema e não puderam participar da prova." — Confirmou Binho.

"Então… Você ta querendo dizer que a Mili foi eliminada? É isso? Como assim? Isso não pode ter acontecido. Será que as meninas traíram ela?" — A face de Mosca estava vermelha de raiva. Não conseguia aceitar a possibilidade de Mili ter sido eliminada tão cedo da competição. E, pior ainda, ela poderia ter sido engada por suas próprias amigas.

"Eu duvido que a Bia tenha algo a ver com isso. É mais fácil a Marian ter tramado alguma coisa contra ela." — Neco lembrou de todas as vezes que Maria acusou Marian de ter a ameaçado. Também passou por sua cabeça as desconfianças de Bia a respeito do caráter de Marian. Poderia muito bem ter sido ela a causadora da eliminação de Mili.

"Não sei não, hein. Ela tava num grupo com a Janu e o Janjão. Isso já é motivo o suficiente pra correr perigo. Talvez ninguém tenha traído ninguém." — Binho tentava falar descontraidamente, mas nada conseguia mudar a fúria de seu colega.

"Ah, mas eu pego aquele Janjão de jeito. Se ele tiver por trás da saída da Mili, ele vai se ver comigo!" — Mosca cerrou os punhos e respirou forte por um bom tempo. Se não estivesse chovendo tanto, poderia ir até o acampamento do grupo Água, mesmo que isso significasse violar uma regra básica do jogo, só para ver se Mili tinha mesmo saído. E também para dar uma boa surra em Janjão.

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Fábio conseguiu reunir folhas suficientes para construir sua lona improvisada e isso serviu para que pudesse manter o fogo aceso. Janu e Marian cuidavam de assar os marshmallows que haviam ganho após a última prova. Ao fim de cada desafio, eram entregues alguns mantimentos para garantir a alimentação básica dos grupos. Porém tudo era muito escasso e o jeito era sempre procurar frutas pela mata.

Um pouco mais distante dali, Bia e Janjão se encontravam encolhidos na caverna onde Bia passou a dormir após a eliminação de Mili. Os dois estavam de frente um para o outro, mas ninguém conseguia pronunciar nenhuma frase sequer. Janjão começou a tremer de frio. Ao ver os braços do menino tremendo, Bia se levantou e pegou seu lençol para emprestá-lo.

"Pega. Vai te ajudar a se esquentar." — Bia entregou o lençol e começou a juntar os gravetos para preparar a fogueira.

Alguma coisa dentro de Janjão palpitava mais forte. Talvez fosse o frio chegando em suas entranhas, mas começava a sentir algo quente por dentro. O cheiro de Bia estava por toda parte, e isso mexia com a sua concentração.

Bia armou a fogueira, colocou os peixes em um espeto e começou a assá-los. Olhou para o garoto quieto e teve vontade de puxar assunto, mas não sabia se essa seria uma boa ideia.

"Existe alguma coisa que você não saiba fazer?" — Perguntou Janjão contemplando admirado as habilidades de Bia com a fogueira e os peixes.

"Claro que existe. Por exemplo, eu não sei transparecer quando gosto de alguma coisa." — Bia deu um sorriso rápido, impossível de captar. Sua atenção estava totalmente voltada para a comida em suas mãos.

Por um momento, Janjão pensou que ela pudesse estar se referindo ao beijo do dia anterior. Mas, pensando melhor, resolveu não tirar conclusões precipitadas. O que menos queria era se machucar ainda mais com aquela história.

"Toma. Você deve ta com mais fome que eu." — Bia estendeu a mão para Janjão. Nela estava peixe maior, devidamente assado e pronto para comer.

"Obrigado. Eu dei muita sorte em ter vindo parar aqui com você." — Falou enquanto provava o peixe. Era o sabor mais deslumbrante que já havia sentido na vida. Principalmente por se tratar de uma cordialidade vinda da menina mais incrível que conhecia.

A tarde foi passando e a chuva continuava caindo sem aviso de que ira cessar em algum momento. Os dois já estavam ficando entediados naquela caverna silenciosa. Sem nada para fazer, Janjão resolveu propor um joguinho.

"Me explica direito esse negócio. O que eu tenho que fazer?" — Perguntou Bia tentando se animar com a proposta.

"É simples. Eu penso em alguém e você tem que descobrir quem é através de perguntas. E eu só vou poder responder sim ou não. Entendeu?" — Janjão torcia para que a chuva se estendesse pelo resto do dia.

"Ta. Vamo começar logo. É uma menina?" — Bia mantinha a cara de quem estava se esforçando para entrar no clima da brincadeira.

"Sim."

"Ela é bonita?"

"Muito. Ops, sim." — Janjão tentava se conter. Talvez não fosse bom dar tantas pistas assim.

"Ela é da nossa escola?" — Fez uma cara de deboche ao se tocar de que a pergunta anterior não iria ajudá-la em nada.

"Sim."

"Ela é do orfanato?" — Bia tentava filtrar o máximo possível suas opções. Mesmo sendo uma simples brincadeirinha, queria provar que era capaz de descobrir rapidamente de quem se tratava.

"Sim." — As bochechas de Janjão foram corando aos poucos.

"Essa menina por acaso… usa mechas coloridas no cabelo?" — Bia saiu de seu lugar e percorreu a caverna em direção ao garoto.

"Sim." — Ao ver que ela estava chegando perto, sentiu seu coração bater mais forte.

"E, por acaso… você já roubou algum beijo dela em algum momento da sua vida?" — A menina sentou ao lado de Janjão e esticou o pano para que cobrisse suas costas. O frio havia atingido seus ossos em cheio e precisava urgentemente de um cobertor. Agora os dois permaneciam sentados olhando para a fogueira, cobertos pelo mesmo lençol

"Sim." — Janjão virou seu rosto para olhá-la de perto. Os dois estavam juntos, sem ninguém para atrapalhar, e a chuva caía como em um filme de romance. Ele não sabia mais como proceder. Se poderia roubar outro beijo, ou se ela só tinha se aproximado por que estava com frio.

"Ah. Assim não vale." — Falou Bia mostrando um certo desinteresse com a descoberta.

"Ué, por que?" — Perguntou Janjão olhando fixo em seu rosto.

"Porque sou eu. Achei que seria mais difícil" — Bia, pela primeira vez, desviou o olhar do fogo e retribuiu a Janjão.

"Difícil ta sendo segurar a vontade de te beijar." — Janjão deixou escapar o que talvez fosse a frase mais sentimental que já saiu de sua boca. Já era a segunda vez que se sentia completamente perdido perto daquela menina. A vergonha decorou sua face em um tom rosado.

"Pelo visto, sou eu que tenho que fazer tudo por aqui." — Bia pegou o rosto de Janjão e o trouxe para junto de si. Dessa vez foi um beijo de verdade, com direito a estalos e olhos fechados. Quanto mais ficavam próximos, mais iam esquecendo o tamanho do frio que estavam sentindo. O céu continuava escuro, repleto de nuvens pesadas, e o ar gélido invadia cada micro espaço daquela floresta. Contudo, nada foi capaz de separar aqueles dois jovens do sentimento que os conduziram até ali. Naquele instante, era como se o beijo e a chuva fossem uma coisa só, escorrendo sem rumo, para além da realidade.

Notas finais
Desculpem a demora!!!! E aí pessoal, quem vocês acham que ta jogando melhor? Deixem suas impressões!! Bjs e até o próximo capítulo c: