O Último Canto da Cigarra
1 O Último Canto da Cigarra
Aqui estou eu em casa. Extasiada. Não sei explicar o que acabou de acontecer, só sinto o gosto irreconhecível preenchendo minha boca, o suor escorrendo gelado pelo meu pescoço. Minha respiração forte e compassada, só não tão forte quanto as batidas do meu coração. Só não tão forte quanto as batidas da música ecoando pelo meu crânio depois daquele show. Ah sim, o show. Você está aqui por isso, não é? Então deixe-me contar.
Era uma noite fria de inverno do dia 26 de junho de 2022. Howard Billy, sim esse mesmo! Aquele Howard Billy, o cantor mais famoso do mundo na atualidade, o homem mais desejado por homens e mulheres de todo o planeta, o ser que desperta o fascínio e curiosidade de todos por onde passa. O único performer que lota estádios e faz as pessoas que ficam do lado de fora se contentarem somente de estarem a algumas centenas de metros da sua presença. Esse homem, conhecido como o semideus da música, a reencarnação de Adônis, julgado por muitos que acreditam que ele fez um pacto com forças malignas para conseguir esse sucesso tão assombroso em menos de 2 anos de carreira. Porém, potencialmente adorado e defendido com unhas e dentes por seus fãs fervorosos do mundo inteiro, de todas as idades, gêneros e raças.
Ele anunciou há um mês atrás que hoje, esta noite, seria seu último show. Um último show aberto ao público, uma última noite para dançar, cantar e chorar em sua presença. Um último show para saborear a arte do maior ídolo dos últimos anos, talvez o maior de todos os tempos.
Depois de esperar esses 30 dias que mais pareceram 30 anos, finalmente o dia chegou. Saí de casa de manhã, pois o show começava as 21:00 e eu queria pegar o melhor lugar. Quando cheguei no deserto de Las Vegas, o local já estava lotado. Eu nunca vi tanta gente na minha vida, aquilo era uma concentração de no mínimo 300 mil pessoas, todos ansiosos, todos alegres, e tristes também, pois hoje seria a última vez em que estaríamos na presença ao vivo de nosso rei, justamente hoje, no seu aniversário de 27 anos.
De repente, todas as luzes se apagaram, tudo ficou em silêncio por um momento, e as 21 horas em ponto, ouviu-se pela última vez o primeiro riff da guitarra. A multidão foi a loucura imediatamente, o frenesi tomou conta de nós, lágrimas e gritos chorosos sendo entoados com os versos da canção, essa era a performance final, e tínhamos que aproveitar ao máximo. Pulamos tanto e em tanta sincronia que alguns lugares das proximidades emitiram alertas de terremoto, nossos gritos ecoavam no deserto, como se as areias estivessem registrando aquele momento único para posteridade. E assim se seguiu o show. Até que então, ele pega o violão, chega bem perto da frente do palco e anuncia a última canção. Ele agradece todo apoio e carinho que recebeu nos últimos anos, e em meio as pausas para puxar o ar, depois de duas horas seguidas de altas notas, pulos e piruetas, notei que ele estava emocionado, como raras vezes eu havia visto.
Ele diz que aquela música era nova, que escreveu no início da carreira, mas que sabia que somente poderia cantá-la uma única vez, pois ela foi construída para ser efêmera.
Então ele toca o primeiro acorde, o silêncio absoluto toma o deserto, milhares de pares de olhos no escuro mirando um único ponto brilhante, uma única luz, uma única voz.
—Essa música se chama “A Última Canção da Cigarra” quero que isso fique gravado em seus corações, quero que esse momento fique eternizado no corpo de vocês. Para que eu possa viver com vocês para sempre” Concluiu nosso Rei. Pouco antes de abrir parcialmente a boca, puxar o ar e...cantar.
Depois disso, o que se seguiu foi algo inacreditável. Eu não consigo me lembrar da letra nem do ritmo da música, só me lembro da sensação, da vibração, do calor preenchendo meu corpo, das lágrimas caindo sem parar dos meus olhos, encharcando meu rosto e minha camiseta já totalmente molhada de suor. E a medida que ele se aproximava, era mais difícil de resistir a vontade, ao desejo de consumi-lo, consumir ele não somente figurativamente, mas fisicamente também. Eu queria comê-lo. Deus, eu queria comê-lo com todas as minhas forças! Queria mastigar a carne banhada de sangue daquele ser, queria mastigar cada célula, cada resquício daquela pessoa, ah, como eu o amava! E ele caminhava mais para a frente, e nós nos juntávamos mais em direção a ele, e ele caminhava, cantando e chorando, e caminhava... até que finalmente caiu. Quando ele caiu, parou de cantar, mas a canção não parou, nós continuamos cantando, eu via seu corpo suspenso na multidão, vi seus membros serem puxados e esticados até se romperem e serem estraçalhados pelas mãos na escuridão, vi o sangue jorrando nos rostos tristes e anestesiados das pessoas, Que comiam cada pedacinho dele, e então chegou a minha vez. Com um pedaço irreconhecível da carne do meu ídolo, minha boca se encheu se saliva e eu não pensei duas vezes. Pus toda em minha boca, o sangue esguichava e preenchia minha língua enquanto a carne era dilacerada pelos meus dentes e eu comia, cantava e chorava, eu cheguei ao orgasmo naquele momento e urinei logo em seguida, eu gritei, tirei minhas roupas e continuei comendo, dançando e cantando, com todas aquelas pessoas. De alguma forma todos nós, toda aquela centena de milhares de pessoas comeram vários pedaços dele. Não consigo achar explicação para isso, e nem quero. No outro dia acordei com o Sol preenchendo meus olhos, alguns já tinham partido, outros ainda jaziam em êxtase nus no deserto. Peguei as primeiras roupas que encontrei, as vesti apressadamente e fui embora.
E aqui estou, no meu quarto, pensando no que aconteceu, pensando no que eu e milhares como eu fizeram. O mais engraçado é que, meus pais não sabem de quem estou falando. Acham que eu inventei uma desculpa para não falar que fui farrear com alguns amigos que eles detestam. Pesquisei no Google e não encontro nada dele, nenhuma foto, nenhuma menção, nenhuma música, nada. Nada foi noticiado, nada foi registrado, meus cds, dvds pôsteres e fotos dele, tudo sumiu. Eu nem estou conseguindo me lembrar do rosto dele, na verdade, agora não consigo lembrar nem do nome dele. Era.... Ho... Howard? Alguma coisa assim? Não sei, Mas mesmo que eu esqueça com o tempo, mesmo que somente aquelas milhares de pessoas saibam o que aconteceu lá, o sentimento permanece, o gosto permanece nas nossas bocas e a vibração ainda preenche nossos ouvidos e ecoa em nossos ossos e nós nunca esqueceremos disso. Nunca esqueceremos daquele momento. Porque ele agora está com cada um de nós, nós o consumimos, o absorvemos. E agora ele vive pra sempre aqui...aqui dentro.
Notas finais
Redes Sociais: Twitter: @darlanfcs. Instagram: @arrobadarlan
Fale com o autor