O Último Caçador
8 Capítulo 7
A luz mortiça filtrada pelas copas titânicas criava na cratera uma manhã pálida que se parecia mais com o entardecer de uma cidade triste. Era como se o sol, lá no alto, tivesse vergonha de derramar seu calor sobre aquele pedaço isolado do mundo. Daniel estava com a sensação incômoda de ter dormido pouco e mal, como se mesmo o repouso fosse interrompido por olhos invisíveis cravados em sua pele. Queria urgentemente uma xícara de café para o ajudar a vencer o dia, mas frustrou-se ao lembrar que não havia café entre as provisões que restaram após a queda do avião.
Lucas também já estava em pé, sentado num tronco caído e apertando o cadarço das botas. Eric, por sua vez, ainda irritado com a morte de sua ave, amarrava de novo a lona do abrigo improvisado que fizeram para se proteger do sereno. Bernardo permanecia quieto, distante, olhando o chão como quem deseja cavar um buraco para si mesmo. Os dois soldados restantes — Batista e Leal — se revezavam preparando pequenas armadilhas ao redor do perímetro do acampamento, mais por nervosismo do que por real estratégia.
Tudo naquela manhã parecia suspenso. O ar, pesado e úmido, não corria. Não havia nem mesmo o barulho de insetos zumbindo, e isso incomodava mais do que o habitual coro estridente da floresta tropical. Foi Daniel quem se aproximou primeiro de Bernardo, sentindo um peso no peito por ver o piloto tão desolado. Sentou-se ao lado dele, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Ei, Bernardo... — Começou com cautela, a voz baixa para não ecoar demais na penumbra — Como está se sentindo?
Bernardo respirou fundo. Tinha os olhos úmidos e fixos em algum ponto invisível entre os galhos.
— Não sei... Eu só... Eu só queria poder sair daqui e acordar em casa. O Pedro... — Ele engasgou — Ele era tudo que eu tinha. Não era só meu copiloto, era meu irmão. Você entende? A gente... a gente se encontrou num lugar onde ninguém mais queria saber da nossa história. Eu, um moleque que só sonhava em voar, e ele, tentando sobreviver nesse Brasilzão que não dá chance pra órfão nenhum.
O arqueólogo apenas ouviu, em silêncio, respeitando o ritmo que o outro precisava. Depois, Bernardo ergueu o olhar, furioso, mas a raiva não era com Daniel.
— Sabe, eu tentei a Força Aérea. Fui piloto de C-95, C-130... Era o que eu mais queria na vida. Mas lá dentro... — Sua boca crispou — Se você é diferente, você não serve. Fui jogado pra escanteio, humilhado. Não importava o quão bem eu pilotasse, pra eles eu era só um viadinho. — Ele fez um gesto negativo com a cabeça — Então larguei tudo. Vim pro mato. Aqui pelo menos o serviço paga bem e ninguém fica perguntando quem eu sou ou com quem eu transo. As pessoas têm medo demais de perguntar qualquer coisa.
Ele deu um riso curto, amargo, e passou a mão nos olhos, sua voz falhando de novo.
— E agora o Pedro tá morto. Engolido por aquele lago maldito. Eu... eu devia ter morrido com ele.
— Não fala isso. — Daniel tocou o ombro dele com firmeza. — Você tá vivo, Bernardo. Isso tem que significar alguma coisa. E a gente ainda precisa de você pra sair daqui.
Bernardo soltou um suspiro tremido e fez que sim, mas seu olhar permaneceu quebrado. A conversa foi interrompida quando Eric e Lucas se aproximaram, e o assistente aproveitou para quebrar o gelo.
— Falando em precisar... Precisamos comer. O César separou uns biscoitos pra gente. — Comentou, só então percebendo o semblante dos dois — Sobre o que estão conversando?
O piloto balançou a cabeça, limpando os olhos marejados.
— Nada. Só comentando sobre algumas coisas que já deveriam estar enterradas no passado. — Respondeu.
Eric ergueu uma sobrancelha.
— Então não devia estar falando com o Daniel.
O arqueólogo se virou, indignado.
— Por quê? — Questionou.
— Ora… — Eric debochou, seus olhos azuis com um brilho cortante, quase cruel — Você sabe muito bem que nem tudo que está no passado está de fato enterrado.
Bernardo, ainda ajoelhado, ergueu a cabeça e olhou entre os dois, confuso.
— Ei, espera… qual é o problema entre vocês dois? — Perguntou, a dor e a preocupação misturadas na voz — Vocês estão se provocando quando deveriam… não sei… estar cuidando do resto de nós.
Lucas deu uma risadinha sem humor, cansada, enquanto tirava os óculos e os limpava com a camisa.
— Ah, isso? É coisa velha, mas ainda fede. Daniel e Eric foram melhores amigos durante o mestrado. Quase irmãos. Mas na época, a universidade abriu um edital fodido de financiamento, só tinha vaga pra um projeto. Adivinha o que o Daniel fez? — Lucas virou-se para Eric. — Quer contar você ou eu conto?
Eric cruzou os braços, seco.
— Pode falar. Já contei essa histórias vezes demais.
— O nosso brilhante arqueólogo aqui — Lucas deu um tapinha no ombro de Daniel — resolveu que o jeito mais fácil de garantir a vaga era dormir com a professora da banca. Conseguiu o financiamento, ganhou bolsa, foi pra Europa. E deixou o Eric... bem, deixou o Eric fodido.
Daniel suspirou. Encarava o chão.
— Eu já pedi perdão por isso. Mais de uma vez.
— Pediu. — Eric admitiu — Mas não muda o que aconteceu. Aquele projeto era o trabalho da minha vida, Daniel. E você deu um jeito de passar por cima de tudo que a gente construiu junto. Eu só queria um reconhecimento honesto, e você quebrou isso.
Bernardo assobiou, impressionado.
— Caralho... Que novela.
Lucas balançou a cabeça.
— O mundo acadêmico é pior que novela, meu amigo.
Mas antes que o clima azedasse de vez, um som cortou o ar. Era estranho, estridente, quase delicado demais para aquele lugar — algo como o assobio longo de um cisne. Logo em seguida, um enxame daquelas aves que pareciam seriemas irrompeu da mata correndo em disparada, em pânico claro. Algumas voaram, outras tropeçaram nos próprios pés longos, grasnando alto.
Os soldados ergueram suas armas imediatamente, varrendo a floresta com os olhos arregalados.
— Vocês ouviram isso? — Leal perguntou, com o dedo já no gatilho.
— O som? Sim. E viram como essas aves se mandaram? — Batista apontou com o cano do fuzil.
— Isso indica predador. — César pontuou, ajeitando o cabelo desgrenhado — E grande o suficiente pra essas aves entrarem em histeria.
Bernardo fechou a cara.
— Ótimo, exatamente o que a gente precisava: mais predadores. Como se não bastasse os malditos jacarés.
—X—X—X—
O dia transcorreu lento, pesado, arrastando o medo junto dele. César e os soldados passaram boa parte do tempo rabiscando mapas sobre um tronco de árvore, tentando achar alguma trilha que pudesse levá-los para fora dali. Sem sucesso.
Quando anoiteceu, a floresta se fechou num breu quase sólido. As sombras avançavam feito tinta derramada, e a única luz vinha da fogueira do acampamento. Daniel se sentou ao lado de Lucas, entregando-lhe um pacote de ração.
— Não tem gosto de nada, mas pelo menos é caloria.
Lucas deu de ombros e comeu em silêncio. Bernardo estava mais afastado, ainda um tanto apático, com os cotovelos apoiados nos joelhos enquanto encarava o fogo. Já Eric ficou do outro lado do fogo, acariciando uma pena da ave que tinham pegado antes. Não falava nada, mas os olhos azuis corriam inquietos pela escuridão ao redor.
Quando terminaram de comer, foram se acomodando como podiam nos abrigos improvisados. César e Batista ficaram com o primeiro turno de vigia, com as armas em punho, trocando sussurros que a brisa levava embora antes que se tornassem palavras inteiras e incomodasse os outros membros do grupo.
Mas o sono deles não durou muito.
O primeiro grito foi como o estilhaçar de vidro. Um urro agudo, seguido por tiros descontrolados que rasgaram o silêncio da floresta. Todos despertaram num sobressalto, engatinhando para fora dos abrigos enquanto ouviam aqueles gritos destoantes ecoando pela madrugada. A fogueira ainda ardia, mas o clarão só deixava mais sinistra a escuridão entre as árvores.
Daniel puxou Lucas para o lado, protegendo-o instintivamente. Eric se levantou num pulo, varrendo a mata com o olhar.
— Cadê o César? — Bernardo gritou, os olhos arregalados, vendo Batista aparecer correndo de um lado.
Batista e Leal correram na direção de onde os gritos tinham vindo. A arma de César estava caída ali, ainda quente do último disparo, mas não havia sinal dele. Apenas folhas manchadas de sangue, pisoteadas, e uma trilha vermelha arrastada que desaparecia floresta adentro.
— Não... não pode ser. — Leal murmurou, o rosto branco como papel.
— Alguma coisa pegou ele e arrastou — Batista disse, quase sem voz, as mãos retesadas com força em volta do seu rifle — Seja lá o que for... foi rápido. Silencioso.
Todos ficaram em silêncio. O coração de Daniel pulsava alto nos ouvidos. Olhou para Eric, o rosto marcado pelo pavor contido. Lucas, ao seu lado, tremia visivelmente.
— De manhã. — Daniel disse, engolindo o medo. — De manhã bem cedo a gente junta tudo e vai pro acampamento que vimos do avião. Mesmo que eles sejam hostis. Não estamos seguros aqui. É a nossa melhor chance de sobreviver a esse lugar.
Bernardo ergueu a cabeça, com o rosto pálido e manchado de lágrimas antigas.
— Concordo. Ficar aqui é esperar ser caçado por... sei lá o quê.
— Anhangaúna... — Lucas sussurrou, a palavra soando quase como uma reza de mau agouro.
E a floresta respondeu apenas com o som distante de algo pesado pisando galhos. Como se gargalhasse nas trevas.
A noite avançou cruel, sem piedade para seus ocupantes temporários. O silêncio da mata parecia se mover, como se respirasse em volta deles, ora puxando o som para longe, ora trazendo estalos estranhos de galhos partidos. O fogo, antes vigoroso, se reduzia a brasas avermelhadas, lançando pequenas fagulhas que subiam preguiçosas. Lucas tratou de reavivá-lo, jogando mais gravetos secos para alimentá-lo e não deixar a escuridão cair de vez sobre o acampamento.
Daniel não conseguiu dormir. O corpo doía de cansaço, mas sua mente pulsava com imagens horrendas de César sendo arrastado floresta adentro. Vez ou outra, ele se levantava para caminhar devagar pelo perímetro do acampamento, apenas para ter a falsa sensação de controle.
Em uma dessas rondas curtas, encontrou Eric sentado sobre um tronco, o fuzil que havia sido de César cruzado nos joelhos. Não disse nada no início, só sentou ao lado dele. Eric olhou brevemente, depois voltou a encarar o escuro.
— Você acha que é isso que merecemos? — Eric perguntou, quase em um sussurro.
Daniel franziu o cenho.
— Isso o quê?
— Estar aqui. Ser caçados. Vigiados. Como se a floresta fosse um juiz. Talvez a gente tenha feito merda demais pra voltar em segurança.
Daniel soltou o ar devagar. Seus pensamentos já tinham flertado com esse mesmo tipo de culpa.
— Não acho que seja tão poético assim. Acho que é só a natureza, Eric. Cruel, aleatória. Mas... — O arqueólogo mudou o rumo da conversa — Se quer saber, eu não esqueço do que fiz com você. Da forma como fui um canalha. Queria que fosse diferente. E lamento.
Eric manteve o olhar cravado na escuridão, mas seus dedos afrouxaram no fuzil. Depois de alguns segundos, soltou um suspiro pesado.
— Eu sei que você lamenta. Mas também sei que se fosse comigo... eu não teria feito o que você fez. — Ele fez uma pausa curta — Isso não te torna pior. Só diferente.
O peso da conversa deixou os dois imóveis por alguns instantes, até que algo se moveu na folhagem próximo demais e ambos se levantaram num pulo. Mas nada surgiu. O barulho morreu, afogado pelas sombras. Só restou o som do coração de ambos batendo forte.
O resto da madrugada foi um tormento silencioso. Leal e Batista se revezaram mais nervosos do que nunca, varrendo a escuridão com lanternas de luz pálida. Lucas ficou a maior parte do tempo acordado, abraçando as pernas e escondendo o rosto, como se quisesse desaparecer dali. Bernardo, por sua vez, não dormiu um segundo. Fixava o fogo quase hipnotizado, apertando a corrente que tinha no pescoço — provavelmente um símbolo de Pedro, que mantinha próximo ao peito.
Quando a primeira luz cinzenta entrou pelas copas monstruosas, todos estavam de pé antes mesmo que o dia clareasse completamente. A decisão já havia sido tomada e aceita por todos, mas pairava sobre eles com a mesma dureza de um suicídio planejado. Apesar disso, sabiam que ir até o acampamento dos desconhecidos era a melhor chance que tinham. Ficar ali, esperando por algo que poderia surgir a qualquer momento e carregá-los para a morte, era impensável.
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