O Último Caçador
7 Capítulo 6
Os raios do sol filtravam-se com dificuldade pelas copas altas e entrelaçadas, criando feixes de luz dourada que dançavam sobre o chão úmido da floresta. O ar carregava o cheiro forte de folhas em decomposição misturado àquela umidade profunda e doce que apenas o coração da selva podia exalar.
Daniel avançava com cuidado, ao lado de Lucas, Eric, César e os dois soldados sobreviventes — Leal e Batista. Bernardo vinha por último, se arrastando. A cena do lago ainda queimava em suas memórias como brasas vivas. O rugido surdo da água ao receber o avião, o som da fuselagem se retorcendo, o jorro vermelho vivo do sangue de Nogueira tingindo a superfície. Daniel respirava fundo para afastar as imagens, mas elas insistiam em voltar.
Depois do ataque do jacaré-açu, recuaram para longe da margem, estabelecendo um ponto temporário entre raízes grossas e arbustos que ofereciam ao menos alguma proteção contra surpresas desagradáveis vindas da água. Daniel deixou que o instinto guiasse seus passos, escolhendo um local de terreno ligeiramente elevado, para evitar possíveis enchentes noturnas. Lucas, exausto, largou a mochila e se sentou num tronco caído, observando o suor escorrer dos braços.
— O que temos? — Perguntou Daniel, ao ver César despejar o conteúdo das mochilas e sacolas num pequeno espaço livre.
César suspirou, retirando cartuchos, cantis, pequenas caixas de munição e pacotes rasgados de biscoitos.
— Três lanternas funcionando, uns quatro pacotes de ração de emergência, biscoitos água e sal, duas garrafas d’água, uma lona de plástico, três fuzis, uma pistola e algumas munições. — Contabilizou — Não dá pra mais do que três dias. Isso se economizarmos.
Eric ajeitou o colete, parecendo ainda mais pálido sob o calor úmido.
— Então precisamos tomar uma decisão: montamos acampamento aqui e tentamos sinalizar algum resgate, ou seguimos até aquele acampamento que vimos do avião. Mesmo que seja ocupado por gente armada e… provavelmente hostil.
Bernardo, que até então ficara sentado afastado, com os cotovelos nos joelhos e o olhar fixo no chão, ergueu o rosto. Seus olhos estavam vermelhos.
— Vocês são loucos se acham que vamos sobreviver parados aqui esperando ajuda. Isso aqui é o meio do nada. Quem diabos vai voar por cima desse buraco? — Apontou para cima, onde apenas poucos vestígios do céu azul eram vistos por entre as vastas copas das árvores do arapóka — Ninguém passa aqui por acaso.
Daniel balançou a cabeça, mantendo o tom calmo.
— O comandante Átila sabe onde estávamos. Quando não voltarmos, vão procurar.
— E quanto tempo isso vai levar? — Rebateu Bernardo, com a voz afiada — Dois dias? Uma semana? E se não vierem? Vamos ficar aqui cozinhando vivos durante o dia e tremendo de frio à noite? Pra acabar servindo de banquete pra mais jacarés?
Lucas olhava de Daniel para Eric, como quem buscava apoio, mas acabou se manifestando também:
— Montar acampamento tem suas vantagens. Podemos fazer fogo, manter vigias, sinalizar para qualquer aeronave. Caminhar até aquele acampamento pode ser um convite pra levarmos um tiro. Eles não pensaram duas vezes antes de atirar em um avião. Imaginem o que fariam com um bando de sobreviventes famintos e mal armados.
— Pois eu prefiro morrer levando tiro do que ser devorado por um maldito monstro aquático — Disparou Bernardo. Ele levantou-se, o semblante crispado — Eu vou. Quem quiser vem junto.
O silêncio se espalhou entre eles. César olhou para Leal e Batista, depois para Daniel. Ninguém se manifestou.
O arqueólogo suspirou fundo.
— Não. Por enquanto vamos montar acampamento. Estamos feridos, famintos e sem certeza do caminho. Se formos agora, podemos simplesmente nos perder ou cair numa emboscada. Vamos ao menos nos reorganizar.
Bernardo bufou e se afastou, chutando folhas.
— Bando de covardes…
—X—X—X—
O sol já começava a descer no horizonte quando o grupo se espalhou pela clareira improvisada, cada um ocupando-se de uma tarefa. O silêncio reinava, não apenas por cansaço, mas como se todos temessem que qualquer palavra alta pudesse atrair algo indesejado da mata que os cercava.
Daniel e Lucas trabalharam juntos, cortando galhos grossos com facas de sobrevivência. O som metálico contra a madeira ecoava abafado, intercalado pelos estalos secos dos cipós se partindo. Usavam as estacas improvisadas para erguer armações toscas, sobre as quais esticavam a lona resgatada dos destroços. O plástico verde-escuro rangia quando era puxado, e logo formava um teto baixo capaz de projetar alguma sombra, ainda que precária. O suor escorria pelo rosto de Daniel, pingando no solo úmido, enquanto Lucas prendia a estrutura com nós apertados.
Mais afastado, Leal cavava um buraco com movimentos pesados e mecânicos, o corpo ainda marcado pela tensão das horas anteriores. Cada vez que a pá improvisada penetrava o solo encharcado, o som oco parecia mais alto do que deveria, chamando atenção indesejada. Batista, por sua vez, empilhava pedras maiores ao redor de um círculo, demarcando o espaço da futura fogueira. De vez em quando, ele se curvava para recolher gravetos secos e os colocava cuidadosamente no centro.
Mais atrás, Eric circulava ao redor do grupo em movimentos calculados, riscando a casca das árvores com incisões curtas e precisas da lâmina de sua faca. Chamava aquilo de “pontos de referência” — marcas que poderiam guiar uma fuga rápida caso fossem obrigados a correr pela selva. Mas, para os demais, sua postura parecia inquieta, como se estivesse em constante estado de alerta.
De tempos em tempos, ele interrompia o trabalho e erguia a cabeça. Ficava imóvel, a lâmina ainda cravada na madeira, os olhos fixos na escuridão adensada entre as árvores. O silêncio da floresta, longe de ser completo, era um zumbido vivo: o coaxar dos sapos, o chilrear distante de insetos, o bater das asas de morcegos começando a sair do repouso. Mas, em meio a essa cacofonia natural, vez ou outra Eric jurava ouvir algo mais.
Um galho se partindo.
O arrastar de folhas esmagadas sob passos lentos.
Um vulto rápido demais para ser identificado.
Daniel percebeu a hesitação do companheiro e se aproximou, limpando o suor da testa com o antebraço.
— O que foi? — Perguntou em voz baixa, quase um sussurro, como se não quisesse romper o frágil equilíbrio do lugar.
Eric demorou a responder. Seu olhar continuava fixo no mesmo ponto, onde a escuridão se adensava a cada minuto. Finalmente, disse:
— Você não sente? Como se estivéssemos… sendo observados?
Daniel soltou um riso nervoso, tentando aliviar a tensão.
— Claro que sinto. Acho que todo mundo sente. Depois do avião, do lago… nossos cérebros tão pregando peças. É normal ver assombração em cada sombra depois de quase morrer.
— Talvez… — Eric respondeu, mas sua voz não carregava convicção.
Como se quisesse provar que não estava delirando, ele apontou discretamente para a linha de árvores. Nesse exato momento, algo se moveu entre os troncos, ao longe — uma sombra fugaz, quase imperceptível, mas suficiente para fazer Daniel gelar por dentro. Ele arregalou os olhos, mas, quando piscou, a mata parecia novamente imóvel.
— Viu isso? — Eric perguntou.
Daniel hesitou, engolindo em seco. O som de folhas secas sendo remexidas chegou até eles, suave, mas inconfundível. A floresta, antes apenas um cenário opressor, agora parecia um predador paciente, cercando a presa.
Daniel tentou sorrir, mas sua voz tremeu:
— Deve ter sido um animal. Macaco, talvez… Ou talvez é só a própria folhagem se ajeitando com o vento. — Ele endireitou a postura — Estamos nervosos, Eric. É melhor não ficarmos procurando mais motivos para isso agora.
Eric não respondeu. Ainda de faca na mão, continuava a encarar a escuridão, como se dentro de si algo lhe dissesse que não devia ignorar aquilo. Como uma voz ancestral, lá no fundo de seu subconsciente.
É bobagem, ele enfim disse pensou consigo mesmo, balançando a cabeça em negativa. Estavam no meio da floresta amazônica. É claro que iam ver toda a sorte de coisas que os deixaria com medo. Não dava pra perder a cabeça ou cismar com cada uma delas. Dando de ombros, continuou seu trabalho de marcar as árvores ao redor do acampamento.
A tarde já vinha findando quando julgaram terem feito o suficiente para passar uma noite em segurança. Por fim, César chamou Leal e Batista.
— Não podemos viver só de biscoito e água. Vamos caçar alguma coisa antes do anoitecer.
— Não se afastem muito. — Alertou Daniel.
César ergueu o fuzil num aceno de cabeça e sumiu na direção contrária ao lago, seguido pelos outros dois. O arqueólogo se virou e sentou ao lado de Lucas, que riscava uma pederneira sobre os gravetos da fogueira na tentativa de acendê-la. A luz estava cada vez mais baixa, as sombras crescendo e se entrelaçando em formas quase humanas.
— Escutei você conversando com o Eric agora a pouco. Ele tem razão, sabe? — Comentou o assistente, num sussurro — Eu sinto isso também. Como se… algo nos rondasse. O tempo todo.
— É o medo, Lucas. Nosso cérebro foi moldado pra isso. — Daniel tentou sorrir — Nosso ancestral que não sentia medo foi devorado primeiro. A gente é descendente dos cagões.
Lucas soltou um riso fraco, mas logo ficou sério.
— Só espero que não tenhamos herdado o destino dele também.
O anoitecer tingiu o céu de tons de violeta e azul escuro.
César e os soldados retornaram com três aves de porte médio amarradas por cipós. Tinham penas acinzentadas, patas fortes e bicos alaranjados largos, com longas caudas azuis afiladas e cristas de penas também azuladas, e olhos quase prateados que pareciam perfurar a escuridão da floresta. Eram criaturas que lembravam seriemas, mas diferentes de tudo que já haviam visto.
Eric arregalou os olhos, um brilho de excitação atravessando a fadiga do dia.
— Esperem! — Exclamou. — Não matem todas. Vocês têm noção do que isso é? Pode ser uma espécie basal, jamais catalogada! Quero uma viva para estudar!
César sorriu, equilibrando a seriedade de biólogo com o orgulho do achado.
— Imaginei que você ia querer, doutor. E acredito que você esteja certo quanto a ser uma espécie desconhecida. — Respondeu — E, curiosamente, foram fáceis de capturar. São dóceis, quase confiantes demais. Quer vir comigo amanhã cedo? Posso ajudá-lo a examiná-las com calma.
Eric pegou cuidadosamente uma das aves, ainda amarrada por cipós, mantendo a cabeça ereta e os olhos atentos.
— Vamos mantê-la viva por enquanto. — Disse, firme — Amanhã ela será estudada em detalhes. As outras duas podem… servir de alimento, desde que não toquem nessa.
Lucas, com mãos ágeis, conseguiu acender a fogueira, espalhando fagulhas alaranjadas que dançaram para o alto, refletindo nos olhos atentos das aves e nos rostos cansados do grupo. O calor foi recebido como uma bênção; a fumaça subia em redemoinhos lentos, carregando o aroma úmido da mata.
Enquanto isso, Leal e Batista se ocuparam das outras duas aves, limpando-as e preparando a carne para assar sobre brasas que já começavam a se formar. O cheiro de carne cozida se misturou rapidamente ao perfume da floresta, pungente e misterioso. Daniel se sentou próximo ao fogo, mastigando devagar a carne fibrosa, sentindo o corpo relaxar pela primeira vez em horas.
Bernardo, porém, permaneceu afastado, imóvel, comendo em silêncio e fixando o olhar em algum ponto invisível na escuridão além da clareira. A tensão que emanava dele era palpável, uma barreira silenciosa entre ele e os demais. Daniel sentiu vontade de falar algo, de oferecer alguma palavra de conforto, mas hesitou, respeitando o espaço e o luto silencioso do piloto.
No crepitar do fogo e no som da mata acordando para a noite, o acampamento parecia um pequeno ponto de civilização cercado por um mundo selvagem, cheio de segredos à espreita. Eric e César, fascinados pelas aves, trocavam olhares animados e gestos cuidadosos, mas a presença solitária de Bernardo lembrava a todos que, por trás da beleza e da ciência, a floresta continuava implacável e imprevisível.
Quando a noite caiu por completo, as estrelas pipocaram no céu claro dentro do círculo do arapóka. As paredes rochosas pareciam negras muralhas que separavam o grupo do resto do universo. O fogo crepitava suavemente, projetando sombras que dançavam como espectros.
Para passar a noite em segurança, foi estabelecido que fariam turnos de vigia. Primeiro César e Eric, depois Lucas e Daniel. Leal e Batista dividiriam o último turno antes do amanhecer. Assim todos teriam a chance de descansar um pouco sabendo que teriam alguém para alertá-los em caso de perigo. E quando finalmente terminaram de comer, o cansaço finalmente venceu Daniel, que se deitou em seu abrigo improvisado, ouvindo a floresta respirar em estalos, grilos e farfalhares quase musicais.
E então, ele também começou a sentir. Mesmo no sono, havia a sensação incômoda de olhos ocultos. No entanto, a noite se passou com relativa tranquilidade. Revezaram os turnos de vigia conforme haviam combinado, e quando a luz cinzenta da aurora começou a se filtrar pelas folhas, Daniel despertou com um mau pressentimento. Sentou-se, coçando a barba por fazer. Lucas já estava acordado, abraçado aos joelhos.
— Dormiu? — Perguntou Daniel.
— Não muito. — Respondeu Lucas, olhando em volta. — Eu tive pesadelos… com o avião, o lago...
Daniel franziu o cenho, mas não respondeu. Levantou-se e, bocejando, foi até o pequeno espaço onde Eric havia improvisado um cercado com galhos para manter a ave viva que escolhera estudar. Parou bruscamente.
— Eric! — Chamou.
Eric aproximou-se, o semblante ainda meio grogue de sono. Quando viu o que restava no chão — apenas algumas penas espalhadas e pequenos rastros de sangue — empalideceu.
— Quem fez isso?! — Rugiu, virando-se para os soldados. — Vocês mataram meu espécime?
Batista levantou as mãos, confuso.
— Doutor, eu juro… Ninguém mexeu nisso. Eu fiz a ronda. Não vi nada.
— Nem ouviu nada? — Eric esbravejou — Como algo pode entrar aqui, matar e sair sem ninguém perceber?
Leal se aproximou, coçando a cabeça.
— Eu… não ouvi nada além dos bichos normais da floresta. Corujas, insetos. Não teve som de luta, nem grasnado. Nada.
César se aproximou, também demonstrando chateação, mas manteve-se calado. Eric o olhou, desesperado.
— Que tipo de predador faz isso, César? Um que mata silenciosamente, deixando só umas gotas de sangue?
O outro engoliu em seco, fitando a linha escura da floresta.
— Não sei. Mas seja lá o que for, estava bem perto. E nos observando.
Um silêncio mortal se fez. Todos voltaram os olhos para a selva que se estendia ao redor, tão profunda e impenetrável quanto os mistérios que agora pareciam conspirar para tragá-los.
Ali, à beira do desconhecido, o medo deixou de ser apenas um instinto. Tornou-se quase um ser vivo, que respirava ao redor deles, esperando o momento certo para atacar.
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