O Último Caçador
6 Capítulo 5
O Chevette Club parecia ainda mais esfarrapado àquela hora da manhã. As paredes, que na noite anterior eram disfarçadas pela penumbra e pelo barulho das conversas, agora mostravam as marcas de umidade como tatuagens mal feitas. As mesas de madeira gasta exalavam cheiro de café requentado misturado a óleo de fritura velho, e um rádio chiava com uma música sertaneja abafada. Apesar do ambiente pouco convidativo, era o único lugar em São Joaquim onde se conseguia um café da manhã que não viesse em pó instantâneo.
Daniel, Lucas, Eric e César estavam sentados em torno de uma mesa encardida, cada um lidando com o desconforto à sua maneira. Daniel bebia o café preto como se fosse remédio: rápido, sem reclamar, consciente de que precisava da energia. Lucas, por outro lado, tentava forçar entusiasmo ao espalhar manteiga numa fatia de pão duro, como se fingisse que era um banquete digno de hotel. Eric observava em silêncio, sempre com aquele olhar frio, seus olhos azuis percorrendo o ambiente como quem mede a distância entre portas e saídas de emergência. Já César, que tinha a paciência mais curta, reclamava baixo a cada gole de café amargo, resmungando algo sobre preferir estar em casa comendo cuscuz fresco.
Daniel estendeu o mapa amarrotado sobre a mesa e o manteve dobrado ao meio, olhando para os companheiros.
— Se o que aquele velho índio disse ontem tem algum fundo de verdade — Começou, num tom calmo —, o tal arapóka pode ser a chave. Eles acreditam que lá vive esse tal de anhangaúna.
Lucas ergueu os olhos do pão já esfarelado.
— O “buraco no céu”… — Repetiu, pensativo — Soa mais como uma lenda de pescador do que uma localização real. Mas o que será que significa?
— Lenda ou não, é o único fio que temos. — Eric cruzou os braços, apoiando-se na cadeira — Se há relatos consistentes de ataques vindos de lá, faz sentido começar por onde o povo aponta.
César suspirou, tamborilando os dedos na mesa.
— Desde que não seja mais uma dessas histórias de boitatá, saci-pererê ou mula-sem-cabeça.
Daniel deu um leve sorriso e se levantou.
— Vou confirmar uma coisa.
Ele levou o mapa até o balcão, onde o barman secava copos com um pano que parecia mais sujo do que limpo. Daniel abriu o mapa sobre o balcão e, com voz firme, perguntou:
— Você sabe me dizer onde fica exatamente o arapóka?
O homem parou de esfregar o copo e lançou-lhe um olhar atravessado.
— Melhor esquecer esse lugar, doutor. Gente que vai pra lá não costuma voltar.
Daniel se inclinou, apoiando o dedo no mapa.
— Eu não estou perguntando se é perigoso. Só quero que me mostre.
O barman hesitou. Olhou em volta, como se temesse que alguém escutasse, e balançou a cabeça.
— Não gosto de me meter nessas coisas.
— Mas já está metido, queira ou não. — A voz de Daniel soou baixa, quase confidencial, mas carregada de determinação — Preciso da informação.
Por alguns segundos, o barulho de talheres e conversas ao fundo pareceu diminuir. O barman bufou, largou o pano e se aproximou do mapa. Apontou com o dedo um ponto ao oeste da vila, onde a vegetação formava uma quase imperceptível mancha irregular.
— Aqui. Fica a dois dias de caminhada, mas por cima… talvez menos de uma hora de voo. É uma região instável, cheia de correntes de ar. Por isso ninguém gosta de sobrevoar.
Daniel assentiu, dobrou o mapa com cuidado e agradeceu.
— Foi de grande ajuda.
Ele voltou à mesa, e todos ergueram os olhos.
— É lá que devemos começar. Se os moradores dizem que o anhangaúna vive no arapóka, então é pra lá que vamos.
Lucas levantou a sobrancelha, mas acabou assentindo. Eric apenas deu um “hm” seco de concordância. César revirou os olhos, mas não abriu a boca para contestar.
— Certo — Disse Daniel, concluindo. — Terminamos o café e vamos arrumar nossas coisas.
De volta ao alojamento, encontraram mais três soldados — Nogueira, Leal e Batista — enviados pelo comandante Átila para acompanhá-los, como medida extra de precaução. O grupo se dividiu entre arrumar mochilas e verificar equipamentos. O espaço apertado cheirava a suor seco e repelente barato. César praguejava enquanto tentava fechar o zíper de sua mochila abarrotada. Lucas verificava obsessivamente os cantis e lanternas, como se sua vida dependesse disso. Eric checou calmamente a arma que carregava, como quem passa um ritual já incorporado na rotina. Daniel apenas organizava suas anotações e guardava o mapa, com a mente fixada no ponto recém-marcardo pelo barman.
Nas mochilas havia apenas o básico necessário para passar o dia, visto que pretendiam apenas sobrevoar a região para colher o máximo de detalhes possível e então decidirem os próximos passos. Finalizados os preparativos, partiram pela rua poeirenta até o aeroporto clandestino. O calor já começava a se intensificar, e o barulho dos insetos parecia aumentar a cada passo.
Quando chegaram ao aeródromo, o Fokker F-27 estava lá, repousando sob uma cobertura de palha improvisada, como um animal cansado à sombra. As hélices estavam paradas, mas o cheiro de óleo e graxa impregnava o ar. Pedro, o copiloto, mexia em ferramentas perto da fuselagem. Bernardo, sentado num caixote, bebia café em uma caneca de alumínio, com aquele sorriso debochado que já era sua marca registrada.
Ao ver o grupo se aproximar, levantou-se e, de imediato, seus olhos pousaram em César. Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios, e ele ergueu a caneca num gesto de brinde.
— Ora, ora… se não é meu soldado preferido. — A voz saiu carregada de ironia e charme calculado — Espero que tenha dormido bem, porque a viagem de hoje promete emoção.
César desviou o olhar, contrariado, e apressou o passo para se afastar, mas Bernardo não pareceu se importar. Riu baixo e deu um gole na bebida.
Daniel abriu o mapa sobre a asa do avião, chamando a atenção de todos.
— Este é o ponto que precisamos sobrevoar. — Apontou com o dedo a região destacada pelo barman — O que os locais chamam de arapóka.
Bernardo inclinou-se para olhar, e sua expressão, que antes era zombeteira, fechou-se um pouco.
— O arapóka… Vocês realmente querem ir pra esse lugar?
— Queremos — Respondeu Daniel, firme.
Bernardo suspirou, balançando a cabeça como quem reprova uma decisão estúpida, mas não vai perder a chance de lucrar com ela.
— Aquilo é um pesadelo pros pilotos. É uma cratera imensa, com correntes de ar ascendentes, ventos imprevisíveis. Não é lugar pra se voar com calma. Na verdade, ninguém voa pra esses lados.
— Mas dá pra ir? — Perguntou Eric, direto.
Bernardo olhou para o grupo, especialmente para César, e abriu novamente o sorriso debochado.
— Dá. Mas não esperem passeio turístico com vista panorâmica. Vai ser sacolejo puro.
Pedro apareceu ao lado, limpando as mãos cheias de graxa numa estopa.
— Motor tá pronto, Bê. Pode levantar voo quando quiser.
Bernardo deu dois tapas amigáveis na fuselagem do Fokker e se afastou, abrindo os braços.
— Então embarquem, senhores! Bem-vindos ao voo mais desconfortável das suas vidas.
O grupo trocou olhares breves, cada um ajustando mentalmente a coragem. Daniel guardou o mapa no bolso do colete, respirou fundo e fez sinal para que subissem a bordo.
O destino estava traçado: o coração do arapóka.
O embarque foi rápido. Dentro do Fokker, o cheiro de óleo e de metal quente misturava-se ao mofo que impregnava as poltronas de tecido puído. Pedro, tímido e falando baixo, deu instruções simples sobre os cintos e as janelas, antes de ocupar o banco do copiloto. Bernardo, com seu carisma provocador, girou para trás e piscou para César antes de iniciar os procedimentos de decolagem.
O avião rangeu ao se mover pela pista de terra batida. As hélices começaram a girar mais rápido, os motores Rolls-Royce Dart assobiando alto conforme a potência aumentava, e logo o mundo do lado de fora virou um borrão verde. Quando deixaram o solo, todos se mantiveram em silêncio por alguns minutos, absorvendo a sensação agridoce de liberdade e vulnerabilidade.
—X—X—X—
Quando já estavam sobrevoando quilômetros de floresta, César se inclinou para Eric e Daniel.
— Então… esse tal de arapóka. — Falava baixo,como se tivesse receio de que os outros acadêmicos o reprovassem de alguma forma — Vocês têm noção de como isso pode ter se formado?
Eric olhou pela janela, contemplando o tapete de árvores que parecia interminável.
— Pode ser um impacto antigo. Um meteoro, talvez. Ou um colapso de rochas subterrâneas. O Brasil tem cavernas gigantes, imagine se o teto de uma dessas desabasse.
Lucas balançou a cabeça.
— E se for um bolsão ecológico isolado há milhões de anos? Pode ter espécies lá embaixo que o resto do mundo nunca viu.
Daniel deu um sorriso enviesado.
— Um “mundo perdido”. Arthur Conan Doyle ficaria orgulhoso.
Bernardo interrompeu, falando alto do cockpit.
— E eu ficaria feliz se a porra desse vento parasse de me empurrar pra cima e pra baixo. Essas correntes aqui são traiçoeiras. Já perdi dois colegas nesses ares.
O avião foi sacudido algumas vezes por bolsões de ar quente, mas logo a voz de Bernardo quebrou o silêncio tenso da cabine.
— Olhem! — exclamou, apontando para além do vidro.
Todos se inclinaram, quase colando os rostos nas janelas estreitas do Fokker. E então viram.
A floresta infinita se rompia de forma abrupta, revelando um círculo colossal aberto no coração do verde. Como um segredo guardado pela própria terra, a cratera do arapóka se desdobrava diante deles: um abismo grandioso, cercado por paredes verticais de pedra, tão imensas que davam a impressão de sustentar o céu. A vegetação das bordas se inclinava para dentro, formando um tapete vivo que mergulhava até o fundo do vale.
De uma das encostas, uma cachoeira despencava em queda livre, seu jorro branco cintilando ao sol como um véu de cristal. A água despedaçava-se em nuvens de névoa antes de encontrar o leito de um rio que serpenteava até um lago central. O espelho líquido refletia os raios dourados da manhã com tamanha intensidade que parecia conter um sol próprio, pulsando no coração da cratera.
Eric permaneceu em silêncio, os olhos azuis arregalados como se buscassem absorver cada detalhe. Lucas deixou escapar um suspiro longo, incrédulo, como alguém que vê um sonho materializar-se diante de si. Daniel, por sua vez, mordeu o lábio inferior, lutando contra a avalanche de pensamentos científicos que se atropelavam em sua mente. Era uma paisagem impossível, uma ferida aberta na terra que respirava vida.
— Parece… o Monte Roraima ao contrário — Murmurou Eric, com a voz embargada de assombro.
E nenhum deles ousou responder. Naquele instante, o mundo lá fora falava por si, maior do que qualquer palavra.
Do alto, o Fokker parecia deslizar sobre um mar verde sem fim. A cratera se estendia até onde os olhos alcançavam, uma tapeçaria viva de árvores que se agitavam em ondas suaves sob a brisa. Entre o oceano de copas, abriam-se clareiras inesperadas: uma lagoa vasta, de águas tão escuras que pareciam espelho de obsidiana, refletindo fragmentos do céu; mais adiante, blocos de rocha nua emergiam da selva como feridas antigas na terra, em contraste abrupto com o manto verde. Bernardo, no comando, inclinou discretamente o manche para dar à tripulação uma vista mais ampla da paisagem.
Lucas, com o rosto colado à janela, murmurou:
— Parece interminável…
Enquanto o grupo admirava, Bernardo estreitou os olhos. À frente, algo destoava da harmonia natural. Do parabrisa, entre as copas quebradas e clareiras malformadas, percebeu linhas retas — algo que a selva não produzia por conta própria. Endireitou-se na cadeira, tenso.
— Esperem... olhem aquilo — Chamou, sem tirar as mãos dos controles.
Eric e Daniel avançaram para a cabine, apoiando-se nas poltronas durante o balanço suave da aeronave. Seguiram o olhar do piloto e, então, viram: um aglomerado de barracões, erguidos como feridas artificiais no coração da floresta. Ao redor destes, caixas empilhadas, tambores metálicos e a carcaça de pequenos geradores denunciavam atividade humana.
— Mineração ilegal, sem dúvida — Disse Eric em voz baixa, mas firme — Esse tipo de operação não aparece nos mapas.
Daniel concordou, os olhos fixos nas estruturas improvisadas.
— Exato. E em um lugar remoto desses, ninguém suspeita. — Ele franziu os lábios — Pode ter até a ver com os ataques recentes. O velho índio lá de São Joaquim disse que começaram a acontecer depois que começaram a meter máquinas na floresta.
Eric assentiu, pousando a mão no ombro de Bernardo:
— Faz um rasante. Precisamos ter certeza do que é.
Bernardo franziu o cenho e balançou a cabeça.
— Isso aqui não é avião de manobra, gracinha. Não vou arriscar nossa segurança apenas pra matar sua curiosidade.
Daniel interveio:
— Não é só curiosidade. Se for o que parece, pode ser importante. É só uma passagem rápida, nada além disso.
Bernardo hesitou, respirou fundo e por fim assentiu com relutância.
— Certo... mas se preparem.
Girou o manche e o Fokker inclinou o nariz para baixo. O vento zunia mais forte contra a fuselagem, fazendo o avião estremecer. As árvores se aproximaram rápido, revelando detalhes do acampamento improvisado. Foi então que perceberam: a porta de um dos barracões se abriu com violência.
Uma figura humana surgiu correndo. Nas mãos, o brilho metálico do que parecia uma arma longa. Um segundo depois, estava erguida e apontada diretamente para o avião.
— Merda! — Explodiu Bernardo, puxando os controles para cima.
O estalo seco ecoou antes do clarão dos disparos.
Mas foi tarde demais.
O som metálico dos projéteis rasgando o casco do avião se espalhou pelo interior como trovões engaiolados. Logo depois, um estrondo surdo fez o Fokker estremecer. Uma labareda violenta irrompeu do motor esquerdo, e o cheiro de combustível queimado inundou a cabine.
— Fogo! — Berrou Pedro, os olhos arregalados de pânico, enquanto alcançava o painel e cortava o combustível daquele motor.
O avião inclinou-se bruscamente para a esquerda, atirando todos contra as laterais. Dentro, o caos explodiu: equipamentos soltos voaram como projéteis, Lucas bateu a cabeça contra o vidro e gritou de dor, César agarrou o encosto da poltrona da frente como se dependesse daquilo para continuar vivo.
— Segurem-se! — Rugiu Bernardo, o rosto crispado de esforço enquanto lutava com o manche para manter o avião nivelado — Vou tentar o lago!
O Fokker mergulhou em queda, vibrando como se fosse despedaçar-se no ar. O rugido do vento preenchia cada canto da fuselagem, como uma fera colossal urrando de raiva. Pelo parabrisa, o lago se aproximava em velocidade alucinante — um espelho negro crescendo até engolir todo o horizonte. Bernardo fez o que pôde para manter o avião no ar pelo menos por tempo suficiente para que todos tivessem se sentado e colocado os cintos de segurança, mas não conseguiu fazer muito mais do que isso.
Então veio o impacto.
A água avançou em uma muralha branca contra as janelas, os vidros explodindo para dentro enquanto um tsunami invadia a cabine. Os cintos se tensionaram ao limite, quase rasgando sob a pressão dos corpos. O avião ricocheteou na superfície como uma pedra arremessada, saltando uma, duas vezes, antes de finalmente ceder e afundar.
A escuridão líquida tomou o interior em segundos. Água gélida entrou pelas frestas com a fúria de mil adagas. Daniel se debateu contra o cinto, libertando-se, e gritou o nome de Lucas. Eric puxava César, que parecia atordoado demais para reagir. Os soldados chutavam as portas laterais, o casco gemia como se fosse se rasgar a qualquer momento. Foi Bernardo quem conseguiu finalmente abrir a porta de carga, após lutar para sair do cockpit.
Quando conseguiram emergir, o ar entrou em seus pulmões como fogo. Um a um, foram surgindo na superfície do lago, arfando, tossindo, nadando com dificuldade até a margem. Daniel avistou Lucas alguns metros à frente, quase submergindo, e avançou para puxá-lo. Eric, César e os demais soldados também davam braçadas desajeitadas.
Conforme iam saindo da água, iam se ajoelhando ou sentando, arfando como peixes em busca de fôlego. Bernardo, o último a sair, olhou em volta.
— Pedro? — Ele chamou, não vendo seu copiloto — Pedro, cadê você?
Os outros o encararam de volta com semblantes perdidos. O piloto se virou para o lago de novo, vendo a cauda do avião se erguendo no ar e se inclinando para frente aos poucos, como se imitasse o mergulho de uma jubarte. Ele logo se deu conta de que Pedro não havia saído do avião.
— Pedro!
Num ímpeto, ele se levantou e correu de volta para dentro do lago. Daniel o agarrou pelo braço, tentando contê-lo.
— Não faça isso! Você vai morrer lá dentro!
Bernardo girou, transtornado, e desferiu um soco direto no rosto de Daniel, que cambaleou para trás. César, Nogueira e Batista, mais próximos, se atiraram sobre ele, tentando imobilizá-lo. Bernardo urrava, as lágrimas escorrendo misturadas ao suor.
— Me soltem! Ele é meu amigo, porra! Me soltem!
— Se você entrar, não volta! — Gritou Nogueira, cravando os ombros contra o peito dele. — Não tem mais o que fazer!
Bernardo recuou para a margem e caiu de joelhos, derrotado, soluçando alto enquanto via o avião mergulhar para o fundo do lago. Daniel limpou o sangue do lábio com as costas da mão, irritado enquanto caminhava para fora d’água, mas dirigiu um olhar de pena para o piloto.
O grupo, exausto e trêmulo, tomou alguns segundos para recobrar o fôlego, tentando se recompor. Foi nesse instante que a superfície do lago, a poucos metros, explodiu num rompante. Um corpo negro, imenso e reluzente emergiu com violência. Um jacaré-açu monstruoso, com mais de seis metros, ergueu metade do corpo para fora, salpicando água em todas as direções. Seu focinho comprido se abriu numa bocarra rosada, revelando fileiras de dentes tortos e cruéis.
Antes que alguém reagisse, o animal atacou. Numa chicotada de pura brutalidade, fechou a mandíbula na perna de Nogueira. O soldado soltou um grito dilacerante; seu fuzil disparou às cegas para o alto, depois escorregou de suas mãos. O jacaré girou o corpo numa torção brutal, sacudindo o militar como uma boneca de pano. O berro agudo do soldado se perdeu quando o predador mergulhou de volta, arrastando-o para as profundezas. Em segundos, a superfície se tingiu de vermelho, manchando o lago com redemoinhos carmesins.
O grupo recuou depressa para longe da água, em choque. O silêncio era quebrado apenas pelas respirações ofegantes e descompassadas. Em questão de poucos segundos o lago voltou à sua quietude traiçoeira, frio e indiferente, como se tivesse engolido Nogueira e apagado sua existência.
Bernardo despencou outra vez na areia, os olhos arregalados e o peito arfando. César girava em círculos, as mãos na cabeça, indo e voltando na direção do lago como se isso fosse fazê-lo pensar em algo que ainda podia ser feito a respeito de Nogueira. Mais atrás, Eric, recostado contra uma árvore, virou-se para Daniel.
— O que diabos a gente tá fazendo aqui?
O arqueólogo demorou a responder. Ainda limpando o sangue que lhe escorria do lábio, seus olhos vagaram até a parede escura da floresta que cercava o lago, como se ela escondesse segredos que jamais deveriam ser revelados. Sua voz saiu quase como um sussurro:
— Estamos descobrindo o que talvez fosse melhor permanecer esquecido.
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