Número da Sorte

1 Parece tão improvável neste momento e idade...


Notas iniciais
Hello sweethearts! Cá estou eu com mais uma das minhas one shots sem sentido...Bom, a música que me inspirou a escrevê-la foi 22 da Lily Allen, recomendo vocês lerem ouvindo, mas nada vai afetar se não ouvirem.Nada mais à dizer, só que espero que gostem.Nos vemos lá em baixo!Enjoy;*

Em meio às muitas estradas quase completamente desertas da Flórida diversos caminhoneiros cansados e famintos estacionavam seus veículos e entravam na pequena lanchonete “Danna’s”.

Danna’s era o único estabelecimento numa estimativa de 33 quilômetros, onde ficavam as duas cidades mais próximas. Um lugar simples, de madeira e obviamente desleixado.

Manchas de gordura nas paredes, buracos no teto e cheiro de urina empesteavam o local que, basicamente, era constituído de uma garçonete com claros mais de vinte e oito anos enfiada num microvestido, equilibrando-se num salto enorme e um dono roliço que estava sempre com uma garrafa de cerveja de segunda à mão.

O sino baixo e enferrujado soou, mas não despertou atenção nem dos caminhoneiros lá presentes, nem sequer dos funcionários.

O homem se aproximou da bancada e se sentou numa banqueta furada, observando o silêncio que só era perturbado pelo barulho da pequena televisão e do chiado do rádio.

A garçonete indecentemente trajada limpava o tampo do balcão sem nenhuma preocupação com o homem à sua frente até que uma voz mais comercial surgiu na TV.

A mulher rapidamente se apossou do controle, aumentando o volume e recorreu ao decote, puxando um pequeno papel amassado.

Um jogo de loteria.

O homem riu.

– Tentando a boa vida? – perguntou.

A mulher levantou seus grandes orbes apagados para ele. Ela parecia cansada.

– O que acha? – ironizou.

Ele puxou um papel parecido do bolso.

– Acho que teremos que dividir o prêmio.

– Como sabe quais números apostei?

– A tinta da caneta. – gesticulou sutilmente para os seios dela.

A mulher olhou para baixo, notando o número trinta escorrido em sua pele.

– Trinta? – perguntou a voz masculina.

– Número da sorte. – respondeu.

Um leve movimento de cabeça e ele concordou se calando.

Enquanto os primeiros números eram sorteados ele prestava mais atenção na figura à sua frente.

Óculos de grau não muito fundo, corpo farto, cabelos enegrecidos nas pontas e castanhos encharcados na raiz.

Roupa de couro não ficava bem nela.

Dez. Vinte e cinco. Sete.

– Qual a sua idade?

– Vai pedir alguma coisa? – desconversou.

– Uma cerveja.

A mulher afastou-se momentaneamente para ir até a geladeira.

As tábuas de madeira rangiam sobre seus saltos impecáveis, a tentativa, talvez certeira, de torná-la um objeto de desejo era evidente.

Ele ajustou sua jaqueta de couro.

Jonathan era seu nome.

A mulher voltou e jogou a bebida, que escorregou pelo balcão até às mãos dele.

– O que você pretende fazer se ganhar?

– Sair daqui o mais rápido possível.

Ele sorriu.

– Quer mais do que uma noite casual de sexo no capô de uma caminhonete?

– Não precisa de muito para saber que sim.

Ela voltou a limpar o balcão, balançando os quadris para lá e para cá.

Cinquenta e três. Doze.

A morena se abaixou para limpar atrás do tampo logo depois de conferir seu papel.

– Você é bonita.

– Eu sei.

– Quer uma gorjeta?

– E o que quer em troca? Sexo oral? – ironizou ainda agachada, sem poder vê-lo.

Jonathan riu audivelmente.

– Você é engraçada.

– E você fala de mais.

A sineta tocou novamente, a mulher se levantou.

O novo cliente era um motoqueiro gordo e mal cheiroso e ela foi atendê-lo.

Ele pediu um copo de Uísque barato e a mulher o atendeu.

Quando foi lhe entregar, o homem passou a mão por sua bunda relativamente convidativa.

Ela se virou, pegou copo e virou todo o conteúdo sobre a cabeça do homem, chamando atenção do dono do bar.

O proprietário se levantou, tropicando em seus próprios pés, foi até a morena e deu-lhe um tapa na cara.

– Seu bêbado imundo. – rosnou.

– Volte para o bar, sua vagabunda!

Recolhendo sua bandeja, ela voltou.

Jonathan riu.

– Seu marido?

– Meu carrasco.

A marca da mão do chefe estampava o rosto da garçonete.

– Por que trabalha aqui?

Ela passava um café fresco.

– Para uma mulher como eu a vida simplesmente acaba.

– Uma mulher como você?

– Graças à Deus não existem muitas.

A mulher enxugou a testa, parecia exausta, sua expressão estava franzida e respirava com dificuldade.

Jona não disse mais nada, apenas voltou a observá-la.

De relance, pode ver que o sorteio do último número, que definiria ou não o ganhar de um milhão de dólares.

A garçonete debruçou-se sobre o tampo, juntou as mãos e abaixou a cabeça, não era possível ver se ela chorava, mas era notório que falava algo inaudível.

Ele nunca foi o melhor com leitura labial, todavia sabia que ela estava orando.

Embora não fosse dos mais religiosos, ele respeitava imensamente a crença de outros, todos tem o direito de acreditar que há Algo que faz tudo estar no lugar, até ele mesmo.

O homem percebeu quando a servente passou a tremer suavemente e pequenas gotas de suor apareciam sobre sua pele com o bronzeado falso e gorduroso.

Quem era aquela mulher?

“E então, o último número...” a voz metálica cruzou seus ouvidos.

“... é... 35!”.

Um alto soluço cortou o ar.

A figura feminina desacostou-se do balcão e, com as mãos sobre o rosto, continuava a chorar baixinho e por vezes soluçando, outras dando pequenos solavancos.

A cena se repetiu por alguns minutos, até que ela puxou o ar com força, segurando-o por alguns instantes para depois soltá-lo calmamente entre alguns últimos soluços.

Enxugando os olhos, respirou fundo outra vez. Limpou as mãos no avental e pegou um elástico, puxando seus cabelos para cima e os prendendo.

– Não vai tomar? – perguntou com a voz embargada apontando para a cerveja.

Só então ele reparou que a bebida que pedira já estava quente e completamente intacta.

Sacudiu a cabeça negativamente, tirando a carteira do bolso.

– Não precisa pagar, você nem tomou...

Ele tirou algumas notas de cem dólares e colocou sobre o balcão.

– Está ficando louco?

– Pegue.

– De modo algum! Isso é um absurdo...

– Pegue! – ordenou.

E, novamente, silêncio.

A TV fora desligada, o rádio não chiava mais, a luz começava a piscar.

Fungando e com a cabeça baixa, a mulher pegou o dinheiro do tampo, o amassando dentro de um dos bolsos do avental.

– Obrigada. – seu tom era de completa humilhação, não tinha coragem de olhar seu bem feitor nos olhos.

Aquele dinheiro significava tudo para ela.

Era exatamente o preço de uma roupa nova para seu filho pequeno e de duas passagens para a capital.

Forçando um pouco a vista, o homem leu a pequena identificação suja com dificuldade.

– Lorelay?

– É assim que me chamam. – respondeu baixo.

– Eu sou Jonathan, pegue as suas coisas.

– O q-que?

– Pegue suas coisas, eu vou te tirar desta espelunca.

– Impossível, eu tenho... Um filho pequeno para sustentar eu preciso... Preciso trabalhar.

O homem sorriu, esticando o pequeno papelzinho para a moça.

– 35 é o meu número da sorte.

Notas finais
E aí, gostaram? Espero que sim!Me perdoem qualquer errinho (me avisem!) e me digam o que acharam dessa "coisa de momento" que eu escrevi no tédio.Não deixe de comentar amiguinho/a!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!