Número da Sorte
1 Parece tão improvável neste momento e idade...
Notas iniciais
Em meio às muitas estradas quase completamente desertas da Flórida diversos caminhoneiros cansados e famintos estacionavam seus veículos e entravam na pequena lanchonete “Danna’s”.
Danna’s era o único estabelecimento numa estimativa de 33 quilômetros, onde ficavam as duas cidades mais próximas. Um lugar simples, de madeira e obviamente desleixado.
Manchas de gordura nas paredes, buracos no teto e cheiro de urina empesteavam o local que, basicamente, era constituído de uma garçonete com claros mais de vinte e oito anos enfiada num microvestido, equilibrando-se num salto enorme e um dono roliço que estava sempre com uma garrafa de cerveja de segunda à mão.
O sino baixo e enferrujado soou, mas não despertou atenção nem dos caminhoneiros lá presentes, nem sequer dos funcionários.
O homem se aproximou da bancada e se sentou numa banqueta furada, observando o silêncio que só era perturbado pelo barulho da pequena televisão e do chiado do rádio.
A garçonete indecentemente trajada limpava o tampo do balcão sem nenhuma preocupação com o homem à sua frente até que uma voz mais comercial surgiu na TV.
A mulher rapidamente se apossou do controle, aumentando o volume e recorreu ao decote, puxando um pequeno papel amassado.
Um jogo de loteria.
O homem riu.
– Tentando a boa vida? – perguntou.
A mulher levantou seus grandes orbes apagados para ele. Ela parecia cansada.
– O que acha? – ironizou.
Ele puxou um papel parecido do bolso.
– Acho que teremos que dividir o prêmio.
– Como sabe quais números apostei?
– A tinta da caneta. – gesticulou sutilmente para os seios dela.
A mulher olhou para baixo, notando o número trinta escorrido em sua pele.
– Trinta? – perguntou a voz masculina.
– Número da sorte. – respondeu.
Um leve movimento de cabeça e ele concordou se calando.
Enquanto os primeiros números eram sorteados ele prestava mais atenção na figura à sua frente.
Óculos de grau não muito fundo, corpo farto, cabelos enegrecidos nas pontas e castanhos encharcados na raiz.
Roupa de couro não ficava bem nela.
Dez. Vinte e cinco. Sete.
– Qual a sua idade?
– Vai pedir alguma coisa? – desconversou.
– Uma cerveja.
A mulher afastou-se momentaneamente para ir até a geladeira.
As tábuas de madeira rangiam sobre seus saltos impecáveis, a tentativa, talvez certeira, de torná-la um objeto de desejo era evidente.
Ele ajustou sua jaqueta de couro.
Jonathan era seu nome.
A mulher voltou e jogou a bebida, que escorregou pelo balcão até às mãos dele.
– O que você pretende fazer se ganhar?
– Sair daqui o mais rápido possível.
Ele sorriu.
– Quer mais do que uma noite casual de sexo no capô de uma caminhonete?
– Não precisa de muito para saber que sim.
Ela voltou a limpar o balcão, balançando os quadris para lá e para cá.
Cinquenta e três. Doze.
A morena se abaixou para limpar atrás do tampo logo depois de conferir seu papel.
– Você é bonita.
– Eu sei.
– Quer uma gorjeta?
– E o que quer em troca? Sexo oral? – ironizou ainda agachada, sem poder vê-lo.
Jonathan riu audivelmente.
– Você é engraçada.
– E você fala de mais.
A sineta tocou novamente, a mulher se levantou.
O novo cliente era um motoqueiro gordo e mal cheiroso e ela foi atendê-lo.
Ele pediu um copo de Uísque barato e a mulher o atendeu.
Quando foi lhe entregar, o homem passou a mão por sua bunda relativamente convidativa.
Ela se virou, pegou copo e virou todo o conteúdo sobre a cabeça do homem, chamando atenção do dono do bar.
O proprietário se levantou, tropicando em seus próprios pés, foi até a morena e deu-lhe um tapa na cara.
– Seu bêbado imundo. – rosnou.
– Volte para o bar, sua vagabunda!
Recolhendo sua bandeja, ela voltou.
Jonathan riu.
– Seu marido?
– Meu carrasco.
A marca da mão do chefe estampava o rosto da garçonete.
– Por que trabalha aqui?
Ela passava um café fresco.
– Para uma mulher como eu a vida simplesmente acaba.
– Uma mulher como você?
– Graças à Deus não existem muitas.
A mulher enxugou a testa, parecia exausta, sua expressão estava franzida e respirava com dificuldade.
Jona não disse mais nada, apenas voltou a observá-la.
De relance, pode ver que o sorteio do último número, que definiria ou não o ganhar de um milhão de dólares.
A garçonete debruçou-se sobre o tampo, juntou as mãos e abaixou a cabeça, não era possível ver se ela chorava, mas era notório que falava algo inaudível.
Ele nunca foi o melhor com leitura labial, todavia sabia que ela estava orando.
Embora não fosse dos mais religiosos, ele respeitava imensamente a crença de outros, todos tem o direito de acreditar que há Algo que faz tudo estar no lugar, até ele mesmo.
O homem percebeu quando a servente passou a tremer suavemente e pequenas gotas de suor apareciam sobre sua pele com o bronzeado falso e gorduroso.
Quem era aquela mulher?
“E então, o último número...” a voz metálica cruzou seus ouvidos.
“... é... 35!”.
Um alto soluço cortou o ar.
A figura feminina desacostou-se do balcão e, com as mãos sobre o rosto, continuava a chorar baixinho e por vezes soluçando, outras dando pequenos solavancos.
A cena se repetiu por alguns minutos, até que ela puxou o ar com força, segurando-o por alguns instantes para depois soltá-lo calmamente entre alguns últimos soluços.
Enxugando os olhos, respirou fundo outra vez. Limpou as mãos no avental e pegou um elástico, puxando seus cabelos para cima e os prendendo.
– Não vai tomar? – perguntou com a voz embargada apontando para a cerveja.
Só então ele reparou que a bebida que pedira já estava quente e completamente intacta.
Sacudiu a cabeça negativamente, tirando a carteira do bolso.
– Não precisa pagar, você nem tomou...
Ele tirou algumas notas de cem dólares e colocou sobre o balcão.
– Está ficando louco?
– Pegue.
– De modo algum! Isso é um absurdo...
– Pegue! – ordenou.
E, novamente, silêncio.
A TV fora desligada, o rádio não chiava mais, a luz começava a piscar.
Fungando e com a cabeça baixa, a mulher pegou o dinheiro do tampo, o amassando dentro de um dos bolsos do avental.
– Obrigada. – seu tom era de completa humilhação, não tinha coragem de olhar seu bem feitor nos olhos.
Aquele dinheiro significava tudo para ela.
Era exatamente o preço de uma roupa nova para seu filho pequeno e de duas passagens para a capital.
Forçando um pouco a vista, o homem leu a pequena identificação suja com dificuldade.
– Lorelay?
– É assim que me chamam. – respondeu baixo.
– Eu sou Jonathan, pegue as suas coisas.
– O q-que?
– Pegue suas coisas, eu vou te tirar desta espelunca.
– Impossível, eu tenho... Um filho pequeno para sustentar eu preciso... Preciso trabalhar.
O homem sorriu, esticando o pequeno papelzinho para a moça.
– 35 é o meu número da sorte.
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