Número 12 [Fic de Terror]
1 1° Capítulo – Emergindo da escuridão
Notas iniciais
11 de Outubro de 2004. Tudo começou a mais ou menos 5 semanas atrás. Eu acordei em uma floresta ao norte da cidade de Tales De Mileto, no interior do Rio. Foi quando eu despertei de meu suposto coma. Bem, na verdade não tenho certeza se foi mesmo um coma, só o que sei é que daquele dia para trás eu não me recordo de absolutamente nada.
Meu nome é Gabriel Antunes Morais, foi o que eu li na certidão que jazia em meu bolso quando acordei. Nasci em 1983, logo tenho 21 anos, e tudo que eu quero é saber o que exatamente aconteceu comigo, ou pior.. o que exatamente irá acontecer?
[Hospital Cardoso]
– Então doutor, novidades sobre o meu caso?
– Lamento te informar, mas ainda não encontrei nada que causasse a sua perda de memória.
– Tem certeza que não foi pancada na cabeça?
– Já lhe disse, não há nenhuma lesão na sua caixa craniana que indique isso.
– Não sei...talvez minha perda de memória tenha sido psicológica, algo que minha mente apagou e não quer mais lembrar.
– É possível, todavia eu nunca tinha ouvido falar de algo assim, pena que não temos um psicólogo na cidade. E a senha, era mesmo a do banco?
Eu achei em minha carteira no mesmo compartimento em que ficava o cartão, um papel com números escritos à caneta, cogitei que talvez fosse a senha do banco e antes de ir ao hospital fui conferir.
– E ainda duvidas de minha esperteza rapaz? Eu não era muito bem sucedido, mas da pra viver. – Eu dizia em tom de comédia.
– E como foi lá com a polícia?
– Nada. Não havia registros de alguém que estivesse procurando por mim, vai ver eles não querem me achar.
– Nunca conheci alguém tão otimista quanto você, amigo. – Ele riu junto a mim – Vá para casa e descanse, talvez a sua memória volte com um bom descanso físico e mental.
–Farei isso, te vejo semana que vem então, até.
–Até.
Sim, eu e o Dr. Carlos havíamos nos tornado amigos, ele era o único quem eu realmente conhecia após acordar.
Depois do hospital eu passei na delegacia para saber se alguém procurava por mim, mas continuava na mesma: ninguém.
A cidade não era grande nem sofisticada, mas contava com um número satisfatório de comércio. As pessoas eram simples. Havia uma grande área florestal colada à Tales. Era um local tranquilo e bom de se viver, pelo menos era...
Eu comi fora e voltei para casa já de noite, a achei pesquisando na imobiliária por uma propriedade em meu nome, ela era a residência mais afastada das outras, ficava pouco ao lado da fronteira Cidade/Floresta, floresta onde tudo acontecera. Imaginei que não devia ser lá muito sociável.
Cheguei na residência, tirei os sapatos, troquei as roupas, tomei banho e depois me joguei na cama. A casa era rústica e pequena, possuía um quarto, banheiro e uma cozinha pequena separada da sala por um muro baixo, na sala uma lareira aquecia o clima frio típico da cidade.
Apesar da intriga de não saber quem sou e o que eu fazia me inquietar, eu tinha um sono pesado e dormia com facilidade.
Eram quase 2:00 da manhã quando meu sono foi atrapalhado por uma luz forte vindo de fora da janela, eu me espreguicei sem saber o que possa ser a tal luz, alguém usando lanterna que vinha falar comigo talvez. Olhei pela janela mas não notei nada, ignorei e voltei a deitar, mas nessa hora os animais do celeiro ao lado da casa começaram a se agitar. Vacas, porcos e cavalos, todos badernando de forma anormal. Preocupado com a possibilidade de ser um animal selvagem que tenha conseguido entrar e os está atacando, eu sai em direção ao celeiro com minha escopeta em mãos e fui em direção ao barulho, em passos cautelosos eu me aproximei da porta do Celeiro. Do lado de fora da casa o frio perecia, uma rala camada de neblina pairava sobre o chão, ouvia-se o estridente barulho de animais noturnos da floresta ao lado. A noite tornava os arredores de minha casa quase que completamente invisíveis, tendo somente as luzes externas da minha casa e do celeiro para iluminar meu caminho.
O celeiro estava fechado, tal como eu deixei, então por onde o animal poderia ter entrado? Abri o cadeado liberando a corrente, liguei o interruptor do celeiro, a luz queimara, os animais continuavam o alvoroço nas celas. Investiguei com dificuldade pela falta de iluminação, mas não havia aparentemente nenhum animal carnívoro por lá. Então porque eles agiam dessa maneira? Eu deixei minha arma no chão e fui tentar acalmá-los, porem era em vão, enquanto acariciava um dos cavalos pude ouvir algo movendo-se atrás de mim, o som não era de pegadas em si, mas de algo arrastando o feno no chão, ainda sim não era difícil especular. Ao ouvir tal som, eu instantaneamente me virei... não havia nada. O som não vinha das celas, mas de pouco atrás de mim. Dei alguns passos a frente para dar uma olhada do lado de fora, e o que eu ouvi a seguir fez meu coração parar: Um segundo som veio de onde eu estava quando larguei minha arma, era algo estranhamente anormal, o som vocal parecia com os emitidos pelos insetos, porém em escala gigantesca, era quase como se um animal desconhecido estivesse tentando se comunicar comigo. Assim que ouvi tal grotesco som meu corpo paralisou, custei a superar esta reação corporal para então correr o mais rápido que pude do possível autor atrás de mim, sem nem me dar ao trabalho de olhar para trás eu corria desesperado em direção à porta de casa. Por um momento eu cogitei que talvez fosse minha imaginação, mas não estava disposto a arriscar. Na velocidade que meu corpo aguentava eu corri para a porta, entrei em casa batendo-a tão forte que a parede estremeceu, a tranquei e depois corri para a porta de meu quarto, onde fechei e me mantive apoiado de costas a ela. Enquanto eu recuperava o fôlego, ainda um pouco trêmulo, notei algo que me deixara mais eufórico ainda.
O local era frio e nebuloso, portanto a janela fechada jazia embaçada, mas mesmo com a opacidade prejudicada, eu pude ver uma silhueta se aproximando dela, e apesar de parecer ,algo me dizia que aquilo não era humano. O ser da silhueta ficou parado em frente à janela, era como se estivesse me observando assim como eu a ele, e com o dedo, começou a desenhar algo no vidro. Ouvi alguém batendo na porta da sala, alguém lá fora batia violentamente tentando entrar, e parecia haver mais de um. Eu estava em choque, sem saber o que fazer, sem entender o que estava acontecendo. Após algumas batidas eu ouvi a porta da sala ceder de forma tão brutal que pareceu ter sido solta das dobradiças e arremessada longe. Seja o que for que estava atrás de mim, eles conseguiram entrar.
Eu tremia dos pés à cabeça, minha visão escurecia, estava quase desmaiando, os invasores batiam à porta do quarto, eram pancadas violentas que mesmo com as pernas fraquejando eu fazia de tudo para segurar. Uma luz amarelada emergia pelo espaço entre o inferior da porta e o chão, a luz vinha da sala. As dobradiças rangiam com tamanha força, a porta estava para ceder, eu deixei de sentir meu corpo de tanto pavor, era como um formigamento por falta de circulação de sangue, quando olhei novamente para a janela vi o término do desenho: Na janela de meu quarto, jazia o número 12. Eu não fazia a menor ideia do significado por trás disto, e quando estava para desmaiar, do lado de fora da janela, pouco atrás do ser outro foco de luz nascia gradualmente até que um flash acabou me cegando por alguns segundos, e assim que consegui abrir os olhos novamente pude ver o teto do quarto, pouco ao lado estava minha escopeta, na janela nada havia, eu estava deitado. “Parece que tudo não passou de um pesadelo”, pensei.
...Eu não me lembrava dos pesadelos serem tão reais.
[Cafeteria Pão de Batata]
Eu tinha certa lassidão em preparar meus alimentos, então gostava de tomar meu café da manhã na cafeteria do seu Luigi, um senhor simpático com quem gosto de conversar as vezes, ele sempre me falava sobre sua terra natal, o interior de Caracê.
A cafeteria era simples, sem contrastar com o resto da cidade, ela contava com 5 mesas quadradas coladas à parede envidraçada para que os clientes tenham uma visão externa, as cadeiras de madeira acomodavam até 3 pessoas cada, eram 2 por mesa.
Eu saboreava meu pão na chapa quando uma mulher me abordou perguntando se poderia sentar-se comigo. A mulher era linda, uma loira de cabelos até os ombros, olhos verdes delineados por uma linha forte de lápis de olho, na frente óculos retangulares, seu rosto era angelical de tão lindo, uma rala trilha de sardas atravessava o tronco do nariz, seu porte físico era perfeito, seios fartos, curvas bem desenhadas e um notável traseiro.
–E o que deseja vindo a minha humilde mesa? – Iniciei tentando parecer descontraído. Ela se sentou.
–Olá Gabriel, sou Michele. Sou jornalista e vim aqui fazer uma pequena matéria com o seu caso, se importaria?
A resposta me deixou um pouco decepcionado, por um momento eu achava que ela iria me chamar para sair. Eu sou até um pouco bonito no final das contas, cabelo castanho escuro, cumprido até o maxilar e jogado para trás, olhos negros, uma barba rala que envolvia minha boca e bochechas, e um físico atlético que media 1,68 de altura.
–Ah! Não, tudo bem. Eu sabia que uma hora vocês viriam.
–Na verdade estou afastada do trabalho, vim a essa cidade para cuidar de minha família. Eu soube por um médico da sua situação, e decidi vir aqui investigar para depois publicar em um jornal de São Paulo.
Ela falava. Dificilmente eu a olhava nos olhos, na maioria do tempo apoiava minha testa nas costas das mãos para conseguir olhar seu decote disfarçadamente. Não sei que tipo de pessoa eu era, mas que meu corpo quase pegava fogo por aquele belo corpo feminino eu sabia.
Michele trajava roupa social, uma camisa branca com quadriculados azuis era fechada por botões, exceto o primeiro que permanecia desabotoado para melhor conforto dos seios, um cinto marrom claro segurava a calça jeans azul-marinho, calçava sapatos pretos simples.
–Bem, na verdade eu não gosto muito de me expor, mas acho que isso pode até me ajudar a encontrar algum familiar. Por mim tudo bem.
–Ok, então vamos começar. – Ela retirou do bolso da calça, uma caderneta e caneta para anotar minhas respostas.
Durante o questionário eu constantemente olhava profundo em seus olhos verdes, e só depois de muito admirá-los eu compreendi: estava apaixonado por aquela garota.
–Bom... acho que é isso. Aqui está meu celular, ligue se descobrirem algo.
–Sim, sim. Ligarei. – Eu peguei o papel com o número e voltei a me sentar.
–Ah, e na próxima, sugiro que tente olhar os seios de uma mulher com um pouco mais de descrição – Ela disse quase rindo.
–De-desculpe. Eu não devia ter feito isso – Falei gaguejando de vergonha.
Ela riu, se virou e foi andando em direção à porta de saída. Meus olhos instantaneamente desceram às nádegas cobertas pela calça justa, ela sem nem olhar para trás e ainda com a caderneta em mãos, cobriu parte da bunda com ela, insinuando que já esperava essa reação minha. Eu não pude conter o riso.
Ao chegar à casa, retirei a jaqueta e a taquei no sofá, me despi e fui tomar banho. Embaixo do chuveiro eu refletia sobre tudo: o fato deu não saber quem fui ou o que fiz no passado era assustador. O que será que aconteceu comigo? Será que eu bati a cabeça e acabei apagando? Não, o doutor já desmentiu essa hipótese. E se eu morri, mas por vontade celeste acabei ressuscitando, bruxaria talvez. Eu não era supersticioso, então eram poucas as ideias aceitáveis por mim. Por quanto tempo eu teria de viver com essa dúvida? E se a evanescência da minha memória fosse eterna?
Eu não tinha computador e nem celular, era praticamente impossível recorrer a meus antigos contatos (se alguma vez eu já os tive).
Estava realmente bastante frio, então acendi a lareira e fui dormir no sofá, como de costume peguei no sono rápido.
Eu dormia tranquilo até ter minha serenidade interrompida quando imagens apareceram dentre meus sonhos, elas se mostravam como flashes, a visão era turva, mas em algumas era perceptível um rapaz, que eu identifiquei como a mim mesmo, ao lado uma mulher a qual eu não conhecia. Outras imagens sem sentido também se mostravam, algumas revelavam apenas lugares, eu só pude identificar a minha casa e a floresta na qual tudo começou. Porém o mais estranho eram as últimas 3 que eu pude ver, em todas elas eu vi, mesmo que precariamente, o número 12.
Eu acordei no susto, percebi que tinha caído do sofá, estava suando.
Por que esse número aparecia em meus sonhos? Que relação teria ele com o pesadelo anterior, ou que relações teriam essas imagens com o meu caso de esquecimento? Isso definitivamente atiçou minhas dúvidas, eu definitivamente precisava descobrir a verdade.
[Casa]
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