Número 002
5 Situação Inicial.
A noite começava a cair e eu seguia o garoto que tinha me salvado dos cachorros. Ele caminhava em silêncio. Eu não podia caminhar ao lado de uma pessoa que eu não conhecia e ir para um lugar desconhecido com essa pessoa.
– Não precisa ter medo de mim, Akise. Eu não irei te machucar, você só precisa entender isso. – Ele disse com sua voz grave.
– Mas quem é você? – Eu perguntei.
– Me chamo Gai, Akise. Eu sou apenas mais um jogador desse jogo estúpido. Mas eu explico melhor depois, vou te tirar daqui antes. Como eu disse os lobos não são as piores coisas que a cidade cinza guarda. – Ele disse e então se virou para mim.
– Eu preciso chegar até aquela torre. Minha irmã e meu amigo vão me esperar lá. – Respondi enquanto olhava para a torre. – Se eles conseguirem chegar eu conclui.
– Como assim? – Gai perguntou enquanto diminuía o passo, então começou a caminhar do meu lado.
– Eles podem ter sido mortos por aqueles lobos.
Gai riu alto, sua risada era gostosa e contagiante. Para um cara todo vestido de preto e com olhos vermelhos, ele não era muito assustador.
– Descubra se eles morreram ou não. – Ele disse.
Olhei confuso pra ele.
Gai então levantou a jaqueta que vestia do seu pulso, no mesmo tinha um quadrado em preto. “Grupo C. Número 002” Olhei meio assustado para a tatuagem que ele carregava no pulso e então olhei para ele nos olhos.
– O que é isso? – Eu perguntei sério.
– Todos os jogadores têm essa mesma tatuagem no pulso, ela mostra a sua equipe e os jogadores que ainda estão vivos. Da minha só restou eu. – Ele sorriu.
Rapidamente levantei a manga da minha jaqueta e vi minha tatuagem. “Grupo L. Kun Spring. Akise Kane. Yuno Kane.” Senti um alivio dominar meu peito. Então minha irmã e Kun tinham conseguido se salvar dos lobos. E com certeza estavam me esperando na torre onde havíamos combinado.
– Eles estão vivos. – Eu disse sem poder conter um sorriso nos lábios.
– Então esse é o principal motivo para você não ir até a torre. – Gai disse sério, e então me olhou. – Se quiser que eles continuem vivos por mais um tempo, se mantenha afastado deles.
– O que? Que palhaçada é essa? Você está de brincadeira, não é? – Perguntei enquanto olhava nos olhos vermelhos e expressivos de Gai.
– Quando chegarmos a um lugar seguro, eu prometo lhe explicar tudo, mas agora temos de sair daqui. – Ele disse.
O que? Que armadilha era aquela? Pra onde esse tal de senhor dos pântanos queria me levar sozinho? Não eu não poderia dar mais um passo com ele. Fiquei parado enquanto olhava em seu rosto inexpressivo.
– Eu não vou a lugar nenhum! – Respondi sério. – Vou encontrar meus parceiros e só.
– Não comece a bancar o garotinho teimoso. Será que vou ter de te por nos braços e te carregar feito uma menininha? – Ele debochou.
Eu ia responder algo e com certeza o insultar quando ele gritou.
– Abaixe-se!
Não tive tempo para pensar, apenas me joguei no chão fazendo o que ele mandou. Vi quando dois dardos voaram das mãos de Gai, e então um baque atrás de mim, virei assustado e vi uma coisa assustadora. Um animal ou um homem. Não sei definir aquilo. Tinha tronco de homem, braços de homem, mas pernas de cavalo. Na cabeça voavam chamas vermelhas que começavam a apagar. Comecei a me afastar rápido daquilo e olhei pra Gai.
– Que porra é essa? – Eu gritei desesperado.
– Séptico. Uma mistura de homem com cavalo. Mas falta a cabeça. – Gai respondeu e então me estendeu a mão. Segurei firme sua mão e me levantei do chão. – Agora confia em mim? Eu salvei sua vida duas vezes em menos de meia hora.
Olhei debochado pra ele.
– O-Obrigado! – Eu disse bravo.
– Agora vamos, a noite está caindo e isso aqui vai ficar infestados de todo tipo de aberração que você nem pode imaginar. – Gai disse e então começou a caminhar.
O segui meio irritado. Mas como ele mesmo jogou na minha cara. Ele me salvou duas vezes, se quisesse que eu morresse não se daria o trabalho de me salvar. E logo depois eu ganharia respostas.
O segui no seu passo. Ele começava a andar cada vez mais rápido. Entramos em um beco escuro e eu pude ouvir o barulho de água.
– Isso é? – Comecei.
– Esgoto. – Ele terminou.
Olhei meio assustado, e pelo escuro que começava se formar vi com mais nitidez seus olhos vermelhos e seus dentes brancos que indicavam que ele estava tirando com a minha cara.
– Nós vamos nadar. – Ele falou e me segurou pelo braço.
– Fala sério, você está me pedindo para me jogar no esgoto? – Eu disse irritado.
– É isso ou morrer, você escolhe. – Ele falou seco e então me entregou uma mascara para mergulho. Sem demora ele colou sua máscara e pulou na água.
Eu não tinha outra escolha, teria de fazer isso. Coloquei minha mascara de forma rápida e pulei na água. Comecei a nadar na direção que Gai ia. Não foi preciso nadar por muito tempo. Logo eu e Gai estávamos saindo do esgoto. Arranquei minha máscara. Sentia vontade de vomitar. Ajoelhei-me no chão e soltei tudo que havia comido antes de entrar no jogo.
– A primeira vez é sempre assim, logo você se acostuma. – Gai riu. – Agora vamos, Akise!
Gai começou a caminhar. Olhei para ele e levantei do chão. Comecei a seguir o garoto. A noite já havia caído, mas por sorte a cidade era iluminada. Resolvi dar uma olhada em minha tatuagem, o nome de Yuno e Kun ainda estavam no mesmo lugar.
– Vamos! – Gai gritou para mim.
Olhei pra frente e vi que nossa distância era longa, corri para alcançá-lo.
– Aonde vamos agora? – Eu disse sério.
Gai apontou para um mato alto que surgia logo a nossa frente.
– Cachorros loucos na cidade, e você querer me levar pro meio do mato? – Eu disse sentindo a irritação subir.
– Onde você acha que tem pântanos? – Ele indagou rindo.
– Eu achei que era uma piadinha interna. – Resmunguei.
– Deixe de ser maricas e vamos logo. – Gai disse e então entrou no mato.
O segui. O mato era alto, e mais a frente árvores altas e sinistras começavam a aparecer. De onde estávamos antes eu não conseguia ver essas árvores, deveria ser algum tipo de ilusão. Olhei novamente e pude ver uma luz ao longe.
– É pra lá que vamos. – Gai disse.
Continuei caminhando com ele e então pude ver uma casa velha. Era dali que vinha a luz. Olhei mais uma vez e então falei baixo.
– Que casa velha!
– Não fale assim do meu lar! – Gai falou sério, ele tentou ser bravo e sério, mas percebi que ele estava rindo.
– Ual, que belo lar, hem? – Eu ironizei.
– Não reclame é aqui que você vai ficar. – Ele disse.
Paramos em frente à casa e então Gai me fez sinal para parar. Olhei para ele e então ele começou a examinar a casa. Olhei dos lados e então abriu a porta. Olhou dentro do local e então se virou pra mim.
– Bem vindo, majestade. – Ele disse sorrindo.
Não entendi porque ele me chamou de majestade, mas não iria perguntar. De alguma maneira sabia que essa seria a deixa para ele me zoar.
Entrei na casa e vi uma garota de cabelos e um garotinho de cabelo azul que aparentava ter uns 10 anos sentados em cadeiras em volta de uma mesa.
– Não é que você conseguiu Gai! – Ela riu e então olhou pra mim. – Conseguiu salvar a majestade.
Ouvi a risada de Gai atrás de mim.
– Bem vindo, Akise Kane! – A garota de cabelos rosa disse. – Eu sou Laura, e esse é o nosso pequeno W. – Ao dizer o nome do garoto ela apontou pra ele.
O garotinho sorriu para mim, um sorriso tão carinhoso e infantil que me lembrei de quando Yuno era menor.
– Sente-se, Akise! – Laura disse.
Como ela sabia meu nome? Como todos eles sabiam meu nome?
– Eu acho melhor, ele tomar um banho antes e então depois jantar. – Gai disse sério. – Venha, vou te levar para o quarto.
– Ér, prazer... – Disse para Laura, enquanto Gai me puxava pelo braço.
Não havia notado, mas tinha uma escada velha que levava para outro andar, subi a mesma junto a Gai e me deparei com uma porta. Gai a chutou de leve e entrou no quarto. Entrei junto a ele.
– Dormimos aqui! – Ele falou e apontou para duas camas que caiam aos pedaços.
– Ual, uma cama! – Eu debochei.
– Ande precisa tomar banho e comer alguma coisa. Deve estar com fome. – Gai falou.
Olhei para ele e para um banheiro velho e sem porta que tinha no quarto. Olhei para Gai novamente e pigarreei.
– O que? – Ele perguntou confuso e então depois riu. – Nunca ficou pelado na frente de outro cara? – Seus risos aumentaram e então Gai se retirou.
Fiquei sozinho no quarto e sem demorava arranquei a roupa e tomei uma ducha. A água era morna, não muito cheirosa e transparente, mas era o que tinha para o momento. Ao terminar o banho peguei uma toalha que estava largada sobre a cama e me sequei.
– Ora, minhas roupas... – Falei e então me assustei com Gai entrando no quarto.
– Vista isso! – Gai disse sério e me jogou umas roupas. – Vou lavar as suas.
Ele pegou minhas roupas e se retirou do quarto novamente. Vesti as roupas que ele me deu. Eram negras como as que ele vestia e ficaram um pouco grandes em mim. Com certeza era dele.
O resto da noite passou rápido. Desci, comi junto aos meus novos parceiros e então subi novamente para o quarto. Gai veio comigo e foi tomar banho. Deitei-me em uma das camas e tentei ignorar o fato de que Gai tomava banho pelado, a menos de 2 metros de mim. Gai não demorou muito no banho.
– Pode olhar agora. – Ele disse rindo.
– Eu acho que você me deve respostas. – Eu falei.
– Okay! – Gai disse enquanto secava seu cabelo. Então sentou na cama.
– Quem é você e como sabe o meu nome? – Perguntei.
– Gai Aru. E todos aqui sabem o seu nome, Akise. – Ele disse ríspido.
– Como assim? – Eu perguntei rápido demais.
– Todos estavam esperando você entrar aqui. – Gai disse e então emendou. – Por isso falei que se manter longe dos seus amigos vai poupar a vida deles. Todos querem se divertir com você. Todos os jogadores querem matar você, Akise.
Senti meu coração gelar, que porra é essa? O que eu fiz.
– M-Mas... – Eu comecei.
– É só isso que eu posso falar por hora. O resto você terá de descobrir sozinho, Akise.
Fiquei em silêncio por um tempo. Se todos queriam me matar, Gai também queria? O que eu tinha feito para que todos os participantes quisessem minha cabeça em uma bandeja?
– Deixe pra pensar nisso depois, Akise. Agora só descanse! – Gai disse.
Gai caminhou e então apagou a luz do quarto. Ouvi quando ele deitou na cama ao lado da minha.
– Boa noite, Akise! – Pude ouvir uma malicia assustadora em sua voz quando ele falou meu nome.
Fechei meus olhos, e diferente do que eu pensei, cai no sono rapidamente.
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