Número 002

16 Nós não estamos prontos.


Deixei a casa que vivi com Gai por dois meses. Recusei-me a olhar para trás, as lágrimas ardendo nos olhos.

Então tudo que eu acreditava era mentira?

Eu sou uma mentira?

Eu estou sozinho?

Olhei para o céu e me espantei, a cor azul agora estava sendo tomada por um vermelho sangue. As nuvens desapareceram como num passe de mágica, as flores de algumas árvores ao longe pareciam queimar e se tornar também vermelhas. O que estava acontecendo? Continuei caminhando devagar, tomando cuidado em tudo que pisava e olhando tudo a minha volta. Ao longe podia ouvir algumas explosões. O que estaria acontecendo por lá eu não queria descobrir. Ouvi um grito e quando dei por mim minhas pernas estavam correndo. Corri o mais rápido que podia, e puxei minha arma, segurei a arma com apenas uma mão e cheguei à ponte a qual Gai chamava de ponte velha. Olhei para mesma e me assustei. A mesma tinha partido ao meio e a água que passava em baixo tinha virado vermelha.

– Sangue? – Eu me perguntei baixo.

Outro grito me arrancou dos meus devaneios. Olhei em volta a procura de quem gritava. Então vi duas mãos que seguravam a beirada da ponte onde a mesma havia se partido. Corri até lá e me ajoelhei.

– Calma, eu... – Eu comecei e então olhei para a pessoa. Eu conhecia aquela garota. – Yuno?

– Akise! – Ela sorriu.

– Me de a mão. Não tenha medo.

– Se eu soltar pra segurar as suas mãos eu irei cair, certo, cabeça de vento? – Ela ironizou.

– Certo! – Então segurei a menina pelos pulsos e a puxei com força. Cai pra trás e senti o corpo da garota sobre mim.

– Irmão! – Ela disse sorrindo, e me abraço muito forte. Mas eu não consegui retribuir, não só porque não queria, mas também porque o abraço foi forte até demais, senti uma dor absurda nas costelas.

– Oi, não me mate... – Eu disse fingindo sorrir, a dor era chata.

– Oh. Desculpe! – Ela me olhou nos olhos. – Onde andou? Por que não me procurou? O que está acontecendo?

Olhei para ela. Por que ela não podia ser minha irmã? Há quanto tempo eu conhecia essa garota? Ela era um clone de alguém? Ela me olhou confusa.

– Akise? – Ela me chamou.

Eu não queria acreditar nisso. Ela não era nada minha.

– Palhaço! – Ela disse séria e então me deu um tapa no rosto.

– Ai! – Eu berrei. – Porra!

– D-Desculpa, mas você não respondia... Estava imóvel... Eu achei que estivesse em transe, sei lá. – Yuno confessou sem graça.

– Por onde você andou? – Eu perguntei sério.

– Ah por aí, digamos que eu conheci um cara. – Ela disse sorrindo.

Talvez se eu ainda achasse que ela era minha irmã isso me tivesse incomodado, mas ela não era nada minha, não tinha por que me preocupar.

– E você? – Ela perguntou.

– Bom... Por aí, digamos que eu conheci um cara! – Eu disse meio sem graça. E ao me lembrar de Gai senti uma dor absurda no peito. Tentei afastar o pensamento. Quanto menos eu pensasse nele, melhor seria.

Yuno riu.

– Eu sempre imaginei que você fosse... – Ela pausou. – Gay!

– Eu não sou G-Gay! – Eu disse rápido demais, Yuno riu.

Olhei para ela e minha vontade foi dar um tapão nela. Ela me irritava demais.

– Agora precisamos nos separar, eu ajudei você e só. – Eu disse sério e comecei a me levantar.

– O que? – Yuno disse se levantando também. – Mas somos irmãos!

– Não! Não somos! – Eu berrei e senti as lágrimas arderem nos olhos. Nós não éramos irmãos. Nós não tínhamos laços nenhum, e eu não precisava que uma pessoa boa se envolvesse nos meus problemas, com certeza todos nos jogos devem estar a minha procura. Todos devem achar que essas mudanças sejam minha culpa. Afastar todos de mim era o melhor. – Nós não somos irmãos.

– O que? Que merda você está dizendo? Baterem em sua cabeça com uma pá? – Yuno me perguntou começando a ficar irritada.

– Porra, você não é minha irmã, Yuno. – Eu disse sério. – Não temos laços nenhum, entendeu? Eu sou o criador desse jogo. E não, você foi apenas uma invenção, não temos laços nenhum. – Eu sorri. Eu comecei mentir, tinha que tirar ela do meu caminho. – Eu entrei no jogo para vencer e mostrar a todos lá fora que eu era o melhor.

– O que você está falando? – Yuno começou.

– Eu matei o Kun, sabia? – Eu sorri, e me segurei para controlar as lágrimas.

– Não somos irmãos, mas tenho consideração por você, então não cruze meu caminho novamente ou eu lhe matarei sem hesitar. – Eu disse sério. – Adeus, Yuno. – Eu disse sério e me virei. Comecei a correr pra longe dela, não olhei pra trás, mas ouvi ela gritar o meu nome.

Corri de volta para o bosque e comecei a caminhar devagar, as lágrimas agora desciam por minha face sem pudor, não tinha problema, eu queria chorar até eu mesmo deixar de existir. Me sentei encostado numa árvore. E passei o resto do dia ali. Chorei tanto que peguei no sono.

Acordei e estava tudo escuro, não ouvia som nenhum. Lembrei-me então onde eu estava no bosque. Mas onde estava a lua? Olhei para o céu e o mesmo estava vermelho, um vermelho escuro, diferente do que era mais cedo. Meus olhos começaram a se acostumar com a escuridão e eu comecei a enxergar algumas coisas.

Ouvi passos.

– Quem está aí? – Eu disse e então tampei minha mão com a boca. Que droga. Agora quem quer que fosse saberia onde eu estava.

Os passos começaram a chegar perto. Levantei-me e me coloquei em posição de luta, segurei minha espada. Estava pronto para usar o poder da coroa da culpa caso fosse necessário.

A pessoa que vinha até mim, tropeçou e caiu.

– Droga! – A voz familiar falou baixo.

– Anúbis? – Eu perguntei.

– Akise? – Anúbis perguntou ainda no chão.

Sorri e corri ate ele. Ajoelhei-me a sua frente e ele me olhou. Anúbis sorriu também e me puxou para um abraço. Um abraço quente, caloroso, carinhoso.

– Eu achei que você estava morto... Eu acordei e você não estava lá, tinha uma moça com uma lança, achei que tínhamos sido capturados e... – Ele começou, mas eu o calei colocando meu dedo em seus lábios.

– Shhhhhhh! Eu estou aqui! – Eu disse baixo.

– Não ouse morrer, caralho. Você... – Ele começou, mas parou.

– Eu? – Eu perguntei meio confuso.

– Eu... – Anúbis começou, mas então se calou quando um barulho de pigarro em um microfone ecou no bosque.

“Olá meus vencedores!” A voz masculina disse num microfone. “Quero começar parabenizando vocês, vocês foram ótimos na primeira fase.” A voz disse sorrindo. “Estão prontos para a próxima fase? Essa será mais curta e mais horripilante.” Uma gargalhada maligna soou.

Eu conhecia aquela voz, apesar dela estar soando meio robótica por conta do microfone, eu conhecia. Era a minha voz.

“Vamos ao que interessa. Vocês terão cinco dias para se manterem vivos. As regras mudaram, não matem uns ao outros. Na verdade, matem se quiserem.” A voz riu de novo. “Se matarem uns aos outros nossa audiência irá subir. Mas lembrem-se o intuito do jogo não é mais matar os jogadores, é continuar vivo por cinco dias, enfrentem tudo que aparecer. Sobrevivam e ao final dos cinco dias estarão livres.”

O que? Que bosta estava acontecendo?

“Ah eu tenho uma novidade.” A voz disse sorridente. “Quem consegui a cabeça de Gai Aru, terá passagem garantida para sair do jogo.” A voz riu de novo. “Amanhã teremos mais instruções. Durma bem meus vencedores.”

– Gai? – Eu perguntei para mim mesmo.

– Quem é Gai? – Anúbis perguntou.

– Droga, maldito seja você Akise! – Eu gritei sério e me levantei. – Eu preciso encontrar o Gai. – Eu disse sério e olhando para Anúbis. – Vou precisar da sua ajuda!