Nós não Somos os Heróis
1 A Vida perdida de mira
CAPÍTULO 1 — A VIDA PERDIDA DE MIRA
Já era quase meio-dia.
Um homem batia na porta do quarto enquanto falava:
— Filha, vamos acordar! Sua mãe já está brava comigo, e eu tenho que ir para o trabalho!
Do outro lado da porta, ouviu apenas:
— Só mais cinco minutos...
Era Mira respondendo enquanto voltava a dormir.
Minutos depois, a mãe suspirou.
— Ela falou isso faz cinco minutos. E não é a primeira vez.
O pai tentou simplesmente ir embora. Pegou a marmita e falou:
— Ah, você consegue resolver isso, né? Eu tenho que ir para o trabalho.
Antes que ele saísse, a esposa pegou a marmita de suas mãos.
— Primeiro sua filha, depois o trabalho.
Ela lançou um olhar sério.
— Você vai acordar sua filha, querido.
O homem engoliu seco.
— Eu nunca lembro por que você faz isso comigo...
Ela cruzou os braços.
— Você sabe muito bem por que eu faço isso.
Ele pensou por um instante.
"Bom... é por isso que eu me casei com ela. Ela é a melhor cozinheira do mundo e eu não consigo resistir à comida dela."
Rapidamente, ela percebeu o que ele estava pensando.
— E você também se casou comigo porque eu consigo mandar em você facilmente.
Ela estava sorrindo.
O homem acabou sorrindo também.
— Tá bom, tá bom. Vou acordar ela... do meu jeito.
Então ele pegou uma guitarra.
Fez uma pintura rápida no rosto e caminhou até a porta do quarto.
Logo depois, começou a tocar um rock pesado.
Deu uma batida forte na porta e começou a agir como um roqueiro completamente maluco, cantando músicas improvisadas sobre momentos vergonhosos da infância da filha.
Mira acordou imediatamente.
— Pai! De novo não!
Apesar do grito, havia um sorriso em seu rosto.
Ele fazia aquilo desde que ela era criança. Era uma tradição antiga dos dois.
Ela tinha vergonha, mas também gostava.
Por isso, escondeu o rosto com as mãos.
— Tá bom! Já vou levantar! Já vou comer!
O pai riu.
Então se aproximou, deu um beijo na testa dela e falou:
— O papai já vai para o trabalho, entendeu?
Mira apenas desviou o olhar, envergonhada.
— Então se cuida.
Ele apontou para a porta.
— E o Lucas já está lá fora esperando. Então come alguma coisa e vai logo.
Mira levantou da cama.
Estava irritada.
Estava envergonhada.
Mas, acima de tudo, estava feliz.
Depois de levantar, Mira ouviu a mãe dando um sermão no pai por ter feito um barulho tão grande que até o dono do apartamento estava ligando para reclamar.
Rapidamente, ele pegou a marmita, deu um beijo no rosto da querida esposa e simplesmente foi embora antes que tivesse que resolver aquele problema antes de chegar ao trabalho.
Ao passar pelo Lucas, falou:
— Oi, Lucas.
— Oi, tio Mário.
O homem sorriu.
— Você está atrasado, mas chega às 19 horas, então se cuida na escola.
Então ele foi embora.
Enquanto isso, Mira notou novamente o boné de Lucas.
"Ele nunca tira esse boné."
Ela pensou nisso várias vezes, mas nunca havia perguntado o motivo.
Lucas começou a falar sobre algumas coisas que tinha ouvido, mas Mira rapidamente mandou ele ficar quieto e sentar para comer.
Logo depois, Lucas falou:
— Oi, tia Mara.
A mãe de Mira respondeu enquanto continuava cozinhando:
— Oi, Lucas. Tudo bom?
— Tudo.
Então ele perguntou:
— É hoje, né?
Mira olhou para ele.
— O quê?
— Você não lembra?
Ela pensou por um momento.
— Ah, é hoje que a gente vai para a floresta fazer mais um vídeo para o nosso canal, não é?
— Sim. Você não está nem um pouco animada?
Mira apenas continuou comendo.
Depois perguntou:
— Você trouxe a câmera?
— Não. Vou ter que passar em casa primeiro quando a gente voltar, mas eu volto rapidinho com a câmera para a gente gravar o vídeo.
Ela sorriu.
— Claro.
Nesse momento, a mãe colocou mais comida na mesa.
— Vamos comer logo para vocês irem para a escola.
Lucas olhou para uma panela.
Ela parecia quebrada.
A mãe de Mira percebeu.
— Parece que você esqueceu da bola de futebol ontem, não é, Lucas?
Imediatamente, ele ficou quieto.
Mira começou a rir.
Os dois lembravam muito bem do que tinha acontecido.
Durante uma brincadeira com a bola, a panela caiu e acabou quebrando.
Enquanto continuava comendo, Mira voltou a observar o boné de Lucas.
Dessa vez, decidiu que perguntaria na volta da escola por que ele sempre usava aquele boné e nunca o tirava.
Então chegou o horário do ônibus.
A mãe falou:
— Pelo menos desta vez vocês não se atrasaram para chegar na parada.
Então ela chegou perto de Mira e falou:
— Se cuida, minha filha.
Ela deu um pequeno abraço e um beijo na testa, assim como o pai tinha feito.
— Quero que você se cuide o máximo que puder.
O semblante dela ficou um pouco mais sério.
— Ouvi algumas histórias de vizinhos. Parece que algumas coisas estranhas estão acontecendo por aí.
Mira notou que a mãe parecia nervosa, como se soubesse de algo muito pior do que estava dizendo.
Por isso, apenas respondeu que tomaria cuidado.
Então subiu no ônibus junto com Lucas e foi para a escola.
A viagem até a escola passou rápido.
Lucas descobriu que tinha esquecido um trabalho e passou boa parte da manhã tentando convencer alguém a emprestar o caderno.
Não conseguiu.
No intervalo, Mira colocou os fones de ouvido e ignorou o resto do mundo, como sempre fazia.
Quando percebeu, as aulas já tinham acabado.
Já era quase 18 horas.
Então ela e Lucas pegaram o ônibus de volta.
Durante o caminho, Mira finalmente resolveu perguntar:
— Lucas, por que você sempre usa esse boné?
Pela primeira vez, ele ficou estranho.
Normalmente falava sem parar.
Mas agora ficou em silêncio.
Mira percebeu isso.
Depois de alguns segundos, ele respondeu:
— Era do meu irmão.
Ele tentou continuar.
Mas não conseguiu.
As palavras simplesmente não saíram.
Mira percebeu imediatamente.
Então respondeu:
— Ah... deixa quieto.
Ela colocou os fones de ouvido.
— Se você não consegue falar sobre isso, não precisa.
Então voltou a ouvir música.
Lucas deu um pequeno sorriso.
Enquanto observava a amiga pela janela do ônibus, pensou:
"Bom... acho que é por isso que ela é minha amiga."
O ônibus finalmente chegou perto de casa.
Lucas estava quase dormindo no banco.
Ao notar isso, Mira decidiu acordá-lo.
Ela cutucou o amigo.
— Acorda. Acorda, estamos chegando.
Lucas levantou de uma vez.
Logo em seguida, bateu a cabeça em uma barra de metal do ônibus.
— Ai!
Alguns alunos começaram a rir.
Mira lançou um olhar para eles.
Não precisou dizer nada.
Os risos desapareceram rapidamente.
Pouco depois, todos desceram do ônibus.
A mãe de Mira já estava esperando.
— O ônibus chegou bem atrasado desta vez.
Lucas respondeu:
— É porque uma árvore caiu no meio da estrada. O motorista teve que fazer um caminho diferente.
A mãe suspirou.
— Entendo...
Ela parecia aliviada.
Mais uma vez, Mira percebeu que havia algo estranho.
A mãe estava nervosa.
Mas ela não comentou nada.
Lucas então falou:
— Vou lá em casa pegar a câmera.
Mira fez um sinal positivo.
Então ele foi sozinho para casa enquanto ela entrou para se arrumar.
Pouco depois, o pai chegou do trabalho.
Ao ver a filha pronta, perguntou:
— Então é hoje que vocês vão gravar aquele vídeo?
Mira respondeu:
— Sim. Eu tinha até esquecido, mas o Lucas me lembrou.
— Entendo.
O pai respondeu, mas parecia distraído.
Mira observou o rosto dele.
Ele também parecia preocupado.
Aquilo já estava ficando estranho.
Então ela resolveu perguntar:
— O que está acontecendo?
Os pais trocaram um olhar.
— Como assim? — perguntou a mãe.
— Vocês dois estão estranhos hoje.
Por alguns segundos, nenhum dos dois respondeu.
Foi o pai quem quebrou o silêncio.
— Algumas coisas estranhas aconteceram por aqui recentemente.
— Que coisas?
O pai hesitou.
— Não sabemos exatamente.
A mãe cruzou os braços.
Claramente não gostava daquele assunto.
Então o pai continuou:
— Por isso eu e sua mãe vamos junto.
Mira ficou surpresa.
— Vocês nunca fizeram isso.
— Eu sei.
— Então por quê?
O pai suspirou.
— Porque vamos ficar mais tranquilos assim.
A mãe concordou com a cabeça.
— Não vamos atrapalhar vocês.
— Vamos ficar naquela casinha perto da floresta.
— Se acontecer qualquer coisa, estaremos perto.
Mira achou tudo aquilo muito estranho.
Eles nunca tinham feito aquilo antes.
Mas acabou aceitando.
Poucos minutos depois, alguém bateu na porta.
Era Lucas.
— Trouxe a câmera!
O pai e a mãe se levantaram.
— Então vamos.
Eles chegaram até a pequena casinha de madeira que ficava próxima da entrada da floresta.
O lugar era simples e antigo. Algumas tábuas pareciam desgastadas pelo tempo, e a vegetação crescia ao redor das paredes.
O pai parou na frente da porta e falou:
— Nós vamos ficar aqui. Vocês podem continuar.
Ele apontou para a trilha.
— Não se preocupem. Se alguma coisa acontecer, estaremos por perto.
A mãe se aproximou de Mira.
— Só se cuide, tá?
Mira e Lucas responderam quase ao mesmo tempo:
— Claro.
A mãe sorriu.
Mas, por um instante, Mira teve a impressão de que aquele sorriso parecia forçado.
Mesmo assim, não falou nada.
Então os dois seguiram pela trilha.
A floresta estava calma.
O vento passava entre as árvores, fazendo algumas folhas balançarem suavemente.
A luz do fim da tarde atravessava os galhos e criava manchas douradas pelo caminho.
Enquanto caminhavam, Lucas acabou pisando em uma poça de água.
— Ah, sério?!
Ele quase perdeu o equilíbrio.
— De novo não!
Mira apenas olhou para ele.
Lucas reclamou enquanto tentava limpar o tênis.
— Por que a gente sempre entra por esse caminho?
Ele apontou para o chão molhado.
— Eu sempre molho os pés.
— Eu sempre quase caio.
— Eu sempre me ferro.
Mira respondeu sem se preocupar muito.
— Porque foi o caminho que meu pai me ensinou.
Ela continuou andando.
— E é o único caminho que a gente conhece para subir essa montanha.
Lucas ficou quieto.
Ele sabia que ela estava certa.
Então continuaram caminhando.
O som dos pássaros podia ser ouvido entre as árvores.
De vez em quando, algum galho estalava sob seus pés.
Depois de alguns minutos, Lucas apontou para uma área mais aberta da floresta.
— Ei, aquele lugar parece legal.
Mira observou por alguns segundos.
O local tinha espaço suficiente para gravar.
Ela concordou com a cabeça.
— Concordo.
Então pegou os equipamentos.
— Vamos começar o vídeo.
O vídeo começou.
Ou pelo menos tentou começar.
Lucas já tinha errado as três primeiras falas que eles tinham planejado.
— Estamos em uma floresta amaldiçoada...
Ele parou.
Suspirou.
Tentou novamente.
— Estamos em uma floresta amaldiçoada e assustadora...
Parou de novo.
Mira começou a rir.
Lucas apontou para ela.
— Para de rir!
Ela apenas continuou rindo.
Toda vez era a mesma coisa.
Lucas nunca conseguia atuar direito quando sabia que estava sendo filmado.
Depois de mais algumas tentativas, eles finalmente continuaram.
— Estamos em uma floresta assustadora...
— Muito assustadora...
— Extremamente assustadora...
Mira voltou a rir.
Então aconteceu.
Um som.
Algo pisou em um galho.
Os dois ficaram em silêncio.
O vento continuava passando entre as árvores.
As folhas balançavam suavemente.
Mas aquele som não parecia ser o vento.
Lucas olhou ao redor.
— Deve ter sido um galho caindo.
Mira concordou.
— Provavelmente.
Então ouviram novamente.
Passos.
Lentos.
Pesados.
Os dois começaram a ficar nervosos.
Mesmo assim, tentaram manter a calma.
Até que ouviram um rosnado.
Dessa vez não havia dúvida.
Aquilo não era um galho.
Aquilo não era o vento.
Alguma coisa estava ali.
Os dois olharam na direção do som.
Primeiro viram um lobo.
Ou pelo menos parecia um lobo.
Por um segundo.
Só por um segundo.
Então perceberam o resto.
Ele andava sobre duas patas.
As garras pareciam facas.
O corpo era grande demais.
Os olhos estavam fixos neles.
Como um predador observando uma presa.
Como algo que estava caçando.
Mira sentiu o coração parar.
Lucas também.
Nenhum dos dois perdeu tempo perguntando o que era aquilo.
Nenhum dos dois tentou ser corajoso.
Os dois correram.
Correram o mais rápido que podiam.
Mira mal conseguia respirar.
Tudo o que conseguia pensar era:
"Corre."
"Corre."
"Corre."
Atrás deles, o rosnado ficou mais próximo.
Então aconteceu.
Lucas pegou um pedaço de madeira.
Girou o corpo.
E acertou um golpe direto na cabeça da criatura.
O boné dele caiu no chão.
Mas não foi suficiente.
Lucas tentou atacar novamente.
Só que errou o passo.
O terreno era irregular.
Ele nunca conheceu aquele caminho tão bem quanto Mira.
Perdeu o equilíbrio.
Tropeçou.
Mira imediatamente pegou o boné dele.
Tentou voltar.
Tentou ajudar.
Tentou levantar o amigo.
Então viu.
O lobisomem tinha agarrado a perna dele.
Lucas gritou.
Pediu ajuda.
Tentou se soltar.
Mira queria correr até ele.
Queria puxá-lo.
Queria fazer qualquer coisa.
Mas seus pés não obedeciam.
Seu corpo não obedecia.
O medo era forte demais.
Ela ficou parada por um instante.
Ouvindo os gritos.
Ouvindo o desespero.
Então deu um passo para trás.
Depois outro.
E começou a correr.
O boné continuava em sua mão.
Atrás dela, Lucas continuava gritando.
Pedindo ajuda.
Pedindo para ela voltar.
Pedindo para ela não deixá-lo sozinho.
Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Mira.
Mas ela continuou correndo.
A única coisa que conseguiu pensar foi:
"Me desculpa."
"Me desculpa."
"Eu quero viver."
Então Mira continuou correndo.
Os galhos batiam em seus braços enquanto ela atravessava a floresta.
Ela mal conseguia enxergar por causa das lágrimas.
O coração parecia querer sair do peito.
Então ela viu alguém correndo em sua direção.
Era seu pai.
Pela primeira vez desde que tinha fugido, sentiu um pequeno alívio.
Ela correu até ele.
Queria falar.
Queria explicar.
Queria dizer que Lucas estava lá atrás.
Queria pedir ajuda.
Mas não conseguia.
O pânico estava forte demais.
Nenhuma palavra saía.
A única coisa que conseguiu fazer foi agarrar a roupa dele.
O pai imediatamente percebeu que Lucas não estava ali.
Por um instante, tentou entender o que estava acontecendo.
Mas não teve tempo.
Algo enorme surgiu entre as árvores.
O som dos passos era pesado.
Os galhos quebravam conforme a criatura avançava.
Antes que Mira pudesse explicar qualquer coisa, o pai falou:
— Corre para a sua mãe.
Mira congelou.
— Corre!
Ele olhou diretamente para ela.
— Agora!
Então empurrou a filha para trás.
Mira tropeçou e começou a correr.
Atrás dela, ouviu o som da luta começar.
Quando finalmente alcançou a cabana, encontrou a mãe esperando.
A mulher imediatamente percebeu que algo estava errado.
Mira estava chorando.
Tremendo.
Tentando falar alguma coisa.
Tentando dizer um nome.
Lucas.
A mãe entendeu.
Mas não teve tempo para perguntar.
Ela puxou Mira para dentro da cabana.
Mesmo assim, deixou a porta dos fundos entreaberta por precaução.
Então pegou o telefone.
As mãos tremiam enquanto tentava ligar para a polícia.
Lá fora, a luta continuava.
Os sons eram assustadores.
Galhos quebrando.
Rugidos.
Impactos.
Algo muito grande estava se movendo pela floresta.
A mãe segurava a mão de Mira enquanto tentava manter a calma.
— Vai ficar tudo bem.
Mas nem ela parecia acreditar nisso.
Então aconteceu.
Os sons da luta pararam.
De repente.
O silêncio tomou conta da floresta.
Mira sentiu o estômago afundar.
Ela não queria acreditar.
Não queria nem pensar na possibilidade.
Então ouviu apenas um último som.
Um rosnado.
Depois nada.
Absolutamente nada.
A mãe também percebeu.
Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.
Então a mulher tomou uma decisão.
— Mira.
Ela apontou para a porta dos fundos.
— Corre.
Mira tentou responder.
Tentou dizer alguma coisa.
Mas ainda não conseguia.
O pânico era forte demais.
A mãe se ajoelhou na frente dela.
— Corre.
Ela colocou um cachecol em volta do pescoço da filha.
Depois deu um beijo em sua testa.
— A polícia está chegando.
A voz dela tremia.
— Eles disseram que vão esperar no começo da floresta.
Ela forçou um sorriso.
— Então corre.
Mira começou a chorar ainda mais.
Mas obedeceu.
Abriu a porta e correu.
Correu sem olhar para trás.
Correu porque queria viver.
Correu porque precisava viver.
Correu porque era a única coisa que conseguia fazer.
Enquanto atravessava a floresta, ouviu um grito.
Era sua mãe.
As lágrimas voltaram.
Mas ela continuou correndo.
Não podia parar.
Não conseguia parar.
Então percebeu algo.
O som do monstro estava ficando mais próximo.
Muito mais próximo.
O desespero voltou com toda a força.
Ela começou a correr ainda mais rápido.
Até que viu luzes piscando entre as árvores.
Vermelho.
Azul.
Sirenes.
Polícia.
Por um instante, sentiu esperança.
Mas uma pergunta surgiu em sua cabeça.
"Como eles chegaram tão rápido?"
Mesmo assim, continuou correndo na direção deles.
Mira finalmente conseguiu se aproximar das sirenes.
As luzes vermelhas e azuis piscavam entre as árvores.
Pela primeira vez desde que começou a correr, sentiu um pouco de esperança.
A polícia tinha chegado.
Ela tentou gritar.
Tentou pedir ajuda.
Tentou falar qualquer coisa.
Mas o pânico ainda prendia sua voz.
Nenhuma palavra saía.
Ela continuou correndo.
Mais alguns passos.
Só mais alguns passos.
Então percebeu algo estranho.
Os policiais não estavam correndo na direção dela.
Não estavam procurando o monstro.
Não estavam tentando ajudá-la.
Eles estavam olhando para ela.
Todos.
Com armas apontadas.
Mirando diretamente nela.
Mira desacelerou.
Confusa.
Por um instante, não conseguiu entender o que estava acontecendo.
Então uma única ideia passou por sua cabeça.
"Eu vou morrer."
Os disparos vieram logo em seguida.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
A força dos tiros a derrubou no chão.
O mundo pareceu girar.
O céu noturno apareceu acima dela.
As árvores balançavam com o vento.
Ela tentou respirar.
Tentou se levantar.
Mas não conseguiu.
Mesmo caída, ainda conseguia enxergar.
Ao longe, viu os policiais avançando.
Dessa vez, contra o lobisomem.
Os disparos continuaram.
A criatura rugiu.
Tentou resistir.
Mas acabou caindo.
Tudo terminou em poucos instantes.
O monstro estava morto.
Mira observou aquilo sem entender.
Sua visão começava a ficar embaçada.
Uma pergunta surgiu em sua mente.
"Se podiam matar o monstro..."
"Por que não me salvaram?"
Ela ouviu passos.
Ouviu vozes.
Ouviu os policiais indo embora.
Como se ela nem estivesse ali.
Como se não importasse.
Tudo começou a ficar escuro.
Cada vez mais escuro.
Mas ainda não completamente.
Ela ainda conseguia enxergar um pouco.
Então ouviu novos passos.
Diferentes dos anteriores.
Mais calmos.
Mais lentos.
Três pessoas estavam se aproximando.
Três homens.
Ela não conseguia ver seus rostos direito.
Apenas suas silhuetas.
Uma delas se ajoelhou ao seu lado.
Então uma voz falou:
— Você aceita fazer um pacto?
Mira tentou responder.
Mas já era tarde.
Seu coração parou.
E ela morreu.
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