Nós e os muros
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Crowley gostava muito de usar roupas azuis com detalhes negros. Gostava de admirar a natureza e conversar. Na ausência de muitos amigos, estava sempre próximo a Abraham, com o qual podia conversar sobre qualquer coisa. O garoto sempre se orgulhou de seus cabelos encaracolados, embora realmente não se importe com a sua aparência em si. Morava com os pais, mas os via pouco, já que todos na cidade eram trabalhadores natos, homens e mulheres.
Seu melhor amigo, Abraham, também morava com os pais, porém não se sabia muito sobre o senhor e a senhora Kärl. Estava sempre usando seu alvo cachecol felpudo e uma camisa esverdeada, que normalmente o permitia uma boa camuflagem no pique-esconde. Nas poucas vezes em que era visto com seus pais, percebia-se que cuidavam do filho como a um pássaro, característica que, adicionada aos detalhes da vestimenta e ao loiro dos cabelos, deram-lhe o apelido de Canário. Como o apelido o constrangia, Crowley apenas o chamava pelo encurtamento “Abe”.
Os pais do garoto de cabelos encaracolados eram muito ocupados, mas demonstravam um amor à maneira deles. No aniversário, davam ao filho objetos rústicos e sempre que chegavam em casa após um dia inteiro de trabalho, espreitavam a porta para checar se o filho dormia bem. O senhor Mavis era um homem magricelo quase careca que usava óculos arranhados o tempo inteiro e cultivava um bigode desordenado. Bigode adorado pela senhora Mavis, que assim como o esposo, tinha os cabelos escuros. Diferente do homem, a mulher ostentava uma farta cabeleira ondulada e tinha as cadeiras largas. Amavam-se muito, mas o trabalho intenso os tornou frios.
Os pais de Canário eram muito mais amorosos. Sempre deixavam recados na geladeira e também trabalhavam bastante, do outro lado da cidade. Herbert Kärl e Laura Kärl eram um casal peculiar. Ele, de cabelos avermelhados como fogo que sempre estavam arrepiados; ela, de cabelos solares amarelados curtos. Ele, com um metro e noventa de altura; ela, com um metro e sessenta e seis. O que os unia era o semblante intelectual que possuíam. Sempre compravam livros novos, mas também sabiam usar muito bem o corpo. Eram um casal laborioso. Alimentavam um amor irrevogável pelo filho conciliado com rugas de preocupação.
Todos eram felizes na calmaria de Farwey. Não era um lugar moderno, e como seus habitantes normalmente não exploravam as áreas além-fronteiras, dificilmente tinham acesso às inovações da sociedade. Questão de segurança. Ainda assim, havia alguns poucos que saíam e voltavam trazendo notícias de um mundo ora perigoso, ora fascinante. Farwey era autossuficiente. Sua localização era favorável, tendo em consideração vegetação e clima. Uma cordilheira cercava o local e a cidade tinha um símbolo natural em seu centro: a cidade inteira formou-se ao redor de uma árvore gigante: a Mãe-Farwey. O baobá tem altura imensurável e não há quem se atreva a escalar. Possui copas mui vastas no topo e raízes dispersas subterraneamente por boa parte da cidade. A Mãe-Farwey é vista como uma planta de Deus, um presente divino aos homens. Boa parte da população é cristã, ainda que lide de tempos em tempos, com situações peculiares, tais como a aparição de gigantes e a existência de feiticeiros. Nada que não possa ser justificado com o livro de Apocalipse.
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