Capítulo 3

Segunda – Feira

O coração de Olívia se acelerou, ela deu um passo para trás quando percebeu um par de olhos verdes a analisando. Aquele não era Daniel.

Um casal que dançava alvoroçado ao seu lado esbarrou em suas costas, amedrontada ela virou-se abruptamente e torceu o tornozelo. O garoto a sua frente a segurou pelo pulso impedindo que ela pisasse em falo e tombasse contra o chão.

“Você está bem?” — indagou ele preocupado.

“Sim”. — afirmou confusa.

Levou um segundo para que ela recolhesse o rapaz. Ela poderia não tê-lo reconhecido por causa da escuridão da danceteria, mas ela identificou rápido o par de olhos verdes que a fitavam. Eram os mesmos daquela manhã. Olívia lembrava de não ter como esquecer a cor cintilante deles.

“Tem certeza que está bem?” — insistiu ele novamente — “Você parece assustada”.

“Estou bem sim” — mentiu ela.

O jovem ofereceu um copo de limonada, mesmo estando um pouco tonta ela aceitou.

Olívia olhou para baixo esperando se acalmar um pouco, seu pé esquerdo estava doendo. Mais do que nunca gostaria de estar em casa. E onde estaria Daniel? Ele nunca estava por perto quando ela precisava dele. Liv ergueu o pescoço em volta da multidão tentando encontrá-lo. Frustrante, ele não estava mais na mesa de bebidas.

“Está procurando alguém?”

“Estou”. — concluiu bebendo toda sua limonada.

“Hã…”. — resmungou o garoto para si mesmo — “Pensei que estivesse sozinha.”

A beleza de Olívia muitas vezes intimidava os garotos, diferentemente dos outros ele não pareceu se importar com isso.

Liv se tranquilizou ao ver os cabelos desgrenhados de Daniel há uns metros atrás. Junto dele estava Bea e o garoto que a pediu para dançar. Deviam estar procurando por ela.

“Eu tenho que ir” — anunciou ela. “Estão esperando por mim”.

“Espera” — exclamou ele a pegando pela mão — “Seu namorado. O garoto que estava com você hoje…ele era seu namorado?

Olívia surpreendeu-se pela pergunta. Ela sabia que no momento em que os garotos há viam eles se encantavam por sua beleza. A maioria dos estudantes da escola sabia que ela não tinha namorado e a maioria deles não eram tão confiantes para conversar com ela, sequer perguntar isso.

“Thomas é meu amigo...” — respondeu escondendo um sorriso. Mesmo que Thomas a visse como uma potencial namorada, não era bem assim. Ela apenas não queria magoá-lo, ele era um bom menino.

Por um momento ela esqueceu o tornozelo dolorido.

“Ah…”. — ele pareceu aliviado.

“Obrigado por hoje…pela senhorita Campos”.

Olívia suspirou. Agora estava bem, pelo visto o que ele queria era apenas agradecê-la, embora parecesse que não sabia como. Ela consentiu com a cabeça.

“Hoje…” — começou ele — “Você esqueceu Neil Gaiman no banco da escola”.

Neil Gaiman?

Neil Gaiman?

Não. Não tinha como ela ter esquecido. O livro estava no meio de seus cadernos. Ao menos se ele estivesse caído. Como Olívia poderia ter sido tão desajeitada? Pensando bem talvez isso fosse normal considerando que acabará de torcer o tornozelo na frente de um desconhecido. Ela bufou. Heranças de mamãe ela pensou.

“Está com meu livro?” — perguntou precipitadamente.

“Posso te entregar amanhã? Não estou com ele aqui”.

Ele pareceu um tanto decepcionado.

Liv consentiu com cabeça.

“Eu preciso ir agora”.

Olivia desviou das pessoas a sua volta e não olhou para trás em direção ao garoto que nem o nome ela sabia. Ela apenas desejou estar em casa e não seguindo por uma escuridão com luzes coloridas e com seu tornozelo torcido.

“Onde você estava?” — um Daniel aparentemente preocupado perguntou. Em companhia de mais alguns garotos que pareciam se divertir enquanto bebiam. Ela não reconheceu nenhum deles. Eles estavam todos no meio da pista de dança quando Olívia os encontrou.

“Eu torci o meu tornozelo”. — murmurou ela, para que apenas ele ouvisse.

“Tudo bem”. — gritou ele — “Não precisa se preocupar eu apenas fui ao banheiro”.

Olívia franziu o cenho, a música estava muito alta no meio da pista. O que quer que ela falasse duvidava que Daniel entendesse.

“Onde está Bea?” — perguntou elevando a voz.

Ele a ignorou.

“Ainda vai querer limonada? Charles Davis está vendendo bebidas”. — Daniel apontou para um garoto no canto da danceteria, ele estava com um cigarro na mão esquerda e um copo de bebida na outra mão. Ele não parecia ser boa coisa. Ao seu lado dois garotos pareciam estar bêbados.

“Não” — exclamou Liv duvidando plenamente que Daniel estivesse bebendo um copo de limonada.

Percebendo que não conseguiria manter uma conversa com Daniel, era melhor procurar por Beatriz antes que as coisas saíssem do controle.

Enquanto tentava encontrar Bea na multidão uma menina quase a atropelou, ela viu um cara oferecer bebida quando passava por um grupo de rapazes. O barulho da multidão aumentava cada vez que Olívia dava um passo. Atrás dela pode escutar o som de vidros sendo quebrado e de vozes irritadas. Alguém a empurrou com força contra as pessoas a sua volta. Ela tentou se equilibrar para não cair.

“Você tem que sair daqui ou vai acabar se machucando de novo” — afirmou uma voz.

Olívia ergueu os olhos para ver quem tinha falado com ela, mas a escuridão a impediu de ver. Sentiu uma mão a puxando seu braço pelo lado oposto da pista. Enquanto o seguia vislumbrou dois garotos brigando e uma multidão de jovens se juntando para ver o ocorrido. Ela se perguntou onde é que estava Bea.

Ignorando a dor que sentia no tornozelo Olívia deixou que a guiassem para fora daquele local.

Na noite não havia nuvens, apenas estrelas, foi o que percebeu quando olhou para o céu. A brisa desajeitava seus cabelos loiros. Olívia suspirou era bom estar fora dali. Ao seu lado o garoto de olhos verdes estava com o semblante ilegível.

“Obrigada”- agradeceu ela.

“Como está o seu tornozelo?”- perguntou ele.

“Está bem, só um pouco dolorido” — Liv pensara que o jovem não havia visto quando ela tropeçara.

“O que uma garota que lê Neil Gaiman está fazendo num lugar como esse?” — indagou ele repentinamente enquanto se aproximava mais de Liv.

Ela sorriu.

“Você também está aqui”. — replicou ela.

Ele ergueu as sobrancelhas.

“Sabe quem eu sou?”- indagou ele.

“Ainda não sei como se chama”.

Ele negou com veracidade a cabeça.

“Sabe por que não devia estar em um lugar como esse?” — perguntou ele de maneira autoritária.

“Por que?” — perguntou curiosa.

O rapaz ficou um momento em silêncio. Olívia sentiu a mão dele afagar delicadamente sua bochecha. Ela pode sentir o ritmo de seu próprio coração.

“Porque você é bonita de mais para isso Livie”.

Olívia podia sentir o cheiro que amanava dele, ele estava tão próximo dela a ainda assim ela pouco conseguia identificar suas feições.

A reação dele paralisou o corpo de Liv. Um segundo depois ele estava a beijando.

Num primeiro momento ele estava lá segurando sua mão, impedindo que caísse, falando sobre Neil Gaiman, a levando para longe daquela multidão, acariciando suas bochechas e em seguida a beijando. E da mesma maneira rápida como tudo aconteceu ele não estava mais lá. No momento seguinte ele desapareceu na escuridão. Chocada com que havia acontecido Liv permaneceu paralisada e se perguntando o por que dele ter feito isso e o por que dela ter aceitado.