Nós - Brittana
32 Voltinha na praia
Assim que Brittany acordou naquela terça-feira, automaticamente sentiu falta de Santana na cama. A Lopez só havia dormido um dia ali com ela – no caso, na noite de domingo para segunda-feira, quando cantaram para Lizzie se aquietar na barriga da grávida; mas tinha sido tão bom, que a Pierce acordara altamente nostálgica. Havia esquecido como era grudenta em seus relacionamentos, já que passou tanto tempo distante de sua ex, e o mais curioso? É que a distância começou assim que elas decidiram morar juntas, entretanto, as circunstâncias eram muito diferentes. Não dava para comparar seu namoro com Santana com o que teve com a Rose.
Além de não serem um casal muito comunicativo na época, Marley e Brittany tinham iniciado a relação enquanto ainda eram universitárias. Ou seja: as preocupações eram outras, bem mais simples. Como cuidar da média e se pegar, por exemplo, separando algum tempo para fazer bicos e arrumar o quarto também, fora dar um jeito de ir em festas toda semana e depois aparecer na sala de aula sem que parecessem zumbis... Nossa, como as coisas haviam mudado.
Foram morar juntas assim que a faculdade acabou, tiveram todo o apoio de seus pais e alguma ajuda financeira por parte de Liza e Frank também. Certa porcentagem para a compra do apartamento foi do bolso de Brittany, quase nada, já a outra metade veio inteiramente da conta bancária que Marley tinha desde a infância, pois começara a trabalhar muito cedo, posando e desfilando. Aí o show de horrores começou, eram contas de luz, água e internet para separar e pagar, supermercado toda semana e brigas pelas coisas mais bestas e irrelevantes. Visitas constantes de Sugar e outros amigos de Marley, quanto aos de Brittany? Nem pensar! Kitty, então? Jamais! A Rose a não a suportava e achava ela muito crítica, e, por algum motivo, sentia que a psicóloga não ia com sua cara desde o início.
Brittany nunca entendeu como Marley conseguia gostar tanto de alguém como Sugar e querer distância da Wilde, mas, acabou aceitando com o tempo, até não suportar mais. Apesar de tudo isso, o relacionamento não tinha sido de todo ruim... Aliás, longe disso. Tinha aprendido bastante com ele, principalmente como um namoro não podia se sustentar na base de uma coisa só. Assim como numa amizade, era necessário diálogo, compreensão, paciência e companheirismo para só aí o amor se sustentar, não só nos melhores momentos, mas, especialmente, nos piores. E a Pierce sabia que nem sempre houve diálogo com Marley, nem sempre houve compreensão ou paciência, ou ainda companheirismo de ambas as partes... Mas, agora, que mantinham contato pós-término pareciam estar criando tudo isso de forma natural e fluída.
Dentro daquela peculiar nova amizade, Brittany e Marley finalmente haviam encontrado o seu melhor momento... Sem cobranças, silêncios estranhos, ou nada do tipo. Eram só elas mesmas cara a cara, sem máscaras. Era a coisa mais doida, mas Brittany estava feliz com isso. Não tinham dado certo como casal, mas havia esperança para serem amigas de verdade dali para frente, coisa que deixaram de lado durante todo o namoro. Bom, o importante é que agora estavam bem... Isso, definitivamente, deixava tudo melhor.
Suas diferenças não as afetava como antes, e a Pierce não precisava se dar ao trabalho de ver Sugar nunca mais, assim como Marley não precisava se incomodar em ver Kitty. E claro, Liza e Frank não tinham mais uma aliada com quem podiam contar. Uma das melhores coisas que Brittany já havia feito, foi não revelar aos mais velhos onde estava morando agora. Nunca esteve tão bem. Tinha este apartamento de aluguel, pagava as próprias contas, trabalhava num estúdio good vibes, sua primeira HQ autoral iria ser lançada ainda aquele mês e Santana era a melhor namorada que poderia ter. Por falar nela, todo esse pensamento da loira trouxe à tona lembranças do dia anterior e Brittany logo se pegou olhando as fotos que haviam tirado à mesa do café da manhã.
A maioria das imagens eram cômicas, mas a desenhista não se permitiu apagar nenhuma delas. Para Brittany, eram as melhores. Mais até que as apresentáveis. Selecionou suas favoritas e postou nos stories do instagram com a seguinte legenda: “todo dia podia ser assim, sem mais hahah”, como sua conta era privada e estava postando só para a lista de melhores amigos não haveria problema, só tinha gente de confiança por lá, então estava tranquila. Logo, a jovem tomou coragem para levantar da cama e começar o dia, foi direto para o banheiro.
Pouco tempo depois de sair do banho, enquanto tomava café, Brittany recebeu uma ligação de Santana. Atendeu sem pestanejar, sorridente. Como queria que ela estivesse ali.
— Bom dia, San-shine! Tudo bem?
— [Bom dia, Britt... Tudo bem, sim. Tanta foto pra postar e escolheu justo aquelas?] — A Lopez gargalhou. — [Tá querendo me provocar, é?]
— Eu não! Só achei que essas... Captaram nossa essência, de verdade! Você tem que concordar comigo.
— [Tá, pode até ser, mas ainda assim... Ah, foda-se, eu adorei!]
— Sabiaa! — Brittany riu com a outra. — E dormiu bem?
— [Não tanto como anteontem, mas sim, dormi. Tive que cantar pra Lizzie uma vez durante a madrugada, aí depois ela sossegou de vez e não acordei mais. E você?]
— Ah, sim. Eu podia ter dormido melhor, sabe... Mas, deu pro gasto. — Ela brincou. — E aí, ainda tá de pé a praia hoje?
— [Claro, já conversei com a Mercedes e ela concordou em me liberar três horas mais cedo. Então, hoje só trabalho até as duas.]
— Beleza, mal posso esperar!
— [Eu também... Enfim, preciso desligar agora. Tão me chamando aqui, Quinn quer me acompanhar até o Breadstix antes de voltar pra Berkeley. Tá parecendo até que tá com medo de voltar pra faculdade sem mim.]
— Talvez, ela esteja mesmo. Só vai sentir a mudança de não ter você lá agora, né...
— [Verdade, não tinha parado pra pensar nisso. Parece que o fim do último semestre foi há décadas atrás, mas só faz três meses quase.]
— Pois é. Mas, vai dar tudo certo. Vocês vão se acostumar logo, logo e virar essa página.
— [Tomara. Até, Britt... Beijo.]
— Beijo.
Elas desligaram e seguiram com a rotina normalmente, exceto pela parte que Brittany marcou de ir fazer os exames de ISTs no dia seguinte numa clínica especializada, mas isso deixaria em off até obter os resultados. Ah, e também toda a sua ponderação sobre possíveis presentes para a festa de aniversário/chá de bebê de Santana. Já tinha algumas ideias, para ambos os casos. Perto das duas da tarde, a loira deixou a Glee Comics indo até o Breadstix. Quando chegou lá, não encontrou Santana à primeira vista, então foi até o balcão falar com a gerente do restaurante enquanto esperava pela namorada.
— Mercedes, oi... Como vai?
— Muito bem e você, Brittany?
— Também. — Ela olhou ao redor diminuindo o volume de sua voz, para dizer as próximas palavras: — Me contaram ontem do chá de bebê... Bem legal, né?
— Sim, sim. A lista é minha parte favorita.
— Então! Não sabia que listas podiam tão ser legais, até ver essa. Sei que não deveria estar falando disso aqui... Mas, tô ansiosa. Ainda não sei o que vou levar pro chá... — Ela lembrou-se na hora das coisas que havia visto no porão de seus pais semanas atrás. — Na verdade, eu até tenho ideia, mas preciso ver se rola. Você acha que seria muito piegas se eu encomendasse um colar de presente de aniversário?
— Quer que eu seja sincera? — A Jones se certificou de saber, antes de qualquer coisa, então recebeu uma aceno de cabeça de Brittany. — É um pouquinho sim... A Tana não curte muito essas coisas. Mas, você curte, né? Então, possivelmente ela acabe gostando do presente já que é importante pra você. Aposta nisso.
— Ok... Valeu. — Ela sorriu. — E o trabalho? Como anda?
— Bem, às vezes ouço um absurdo ou outro aqui e ali, mas faz parte né... Nada comparado àquela sua amiga, mas sempre me deparo com doido, então tô acostumada... Sem ofensa.
— Nossa, nem me fala disso! Ela nunca foi minha amiga.
— Que bom, com uma amiga dessas eu nem imagino o que esperar da pessoa...
— Sei bem.
Santana saiu do vestiário e quando foi se despedir de Mercedes, percebeu que a namorada estava batendo papo com ela. Quando se aproximou, as mulheres pararam a conversa na hora, encarando-a em completo silêncio. Suspeito.
— Tavam falando de mim, é? — A Lopez riu, cumprimentando Brittany com um selinho. — Oi...
— Oi!
— Não, o mundo não gira entorno de você, San. — Mercedes brincou. — Sei que é difícil de acreditar. Então, só aceita que dói menos.
— Poxa... Não gira, mas bem que podia, né? — Santana olhou para a amiga, risonha, e acenou para ela. — Tchau, Cedes!
— Tchau, divirtam-se!
As namoradas foram até o estacionamento, entrando no carro de Brittany em seguida. Lá, puderam dar um beijo de verdade antes de seguirem para o apartamento de Santana. Depois de buscarem algumas coisas, foram até a praia e começaram a caminhar na beira do mar vestindo biquínis por debaixo de vestidos curtos de estampa floral, que na verdade se tratavam de saídas de praia. O de Brittany era mais puxado para o vermelho e amarelo, já o de Santana para o azul e verde.
Tiraram algumas fotos, comeram em uma quiosque, tudo ia muito bem.
— Então, eu tava pensando em me mudar pra casa dos meus pais nessa sexta. Já avisei pra eles.
— Ah, é? — Brittany sorriu. — Parece uma boa, Sannie! Posso te ajudar.
— Bom, eu ia pedir pro meu pai, mas já que se ofereceu... Vou deixar ele tranquilo. Por falar nisso, isso quer dizer que Lorenzo e Maribel vão finalmente te conhecer? Nossa, tão rápido!
— Sem pressão, por favor...
— Que isso, Britt, só dizendo. Mas, enfim, melhor se eu tiver um tempo pra me instalar com calma lá... Fora começar a decoração do quarto da Lizzie também, né? Mês que vem ela pode chegar, não dá pra deixar pra última hora... Emma falou que posso entrar em trabalho de parto entre a penúltima semana de Outubro e o começo de Novembro, mas não tem como saber exatamente.
— Ah, sim. Faz bem mesmo em adiantar as coisas. E já pensou no que vai fazer nas paredes? Você disse que não queria tudo branco do jeito que tava.
— Então... — Santana se apossou do celular para mostrar algumas imagens no Pinterest para Brittany. — Vi esses desenhinhos e me apaixonei. Agora, como vou fazer não faço ideia.
— Como assim?! Você namora uma ilustradora profissional, San-shine! Eu faço, ué!
— Mesmo?
— Mesmo! — Ela riu, parando para dar um beijo na morena e depois voltou a andar de mãos dadas com ela. Seus pés submersos na água do mar, algumas ondinhas batendo nas canelas. — Muito legal, aliás... Principalmente esse com as montanhas.
— É meu preferido!
— Jura? — Brittany sorriu, dando-a um selinho. — Então, só nos resta fazer!
— Uau. — As namoradas ouviram alguém dizer avante, percebendo que este alguém se tratava de Sugar Motta, bem na frente delas, com um enorme chapéu de praia preto, óculos escuros em formato de coração, maiô vermelho e o cabelo cheio de ondinhas de babyliss com mechas mais loiras que o normal. Estava com um cara qualquer do lado, a Pierce não o conhecia. — E não é que tá de rolo mesmo com a garçonete, Brittany? Você não perde tempo!
— Ignora, Sant... — A loira pediu, tentando se manter tranquila enquanto guiava-a para desviarem de Sugar e continuarem o caminho delas. — Não vale a pena.
— Eu sei.
— Engraçado ver vocês duas juntas assim, é uma estética muito peculiar. Meio desproporcional, eu diria. Sabe, com toda essa... Gravidez precoce. Não combina nadinha com um casal de garotas, parece caridade da sua parte Britt... Pena mesmo. Mas, enfim, a vida é de vocês. Tá sabendo que a Mar vai voltar?
Brittany respirou fundo, virando-se em direção a Motta, irada. Santana também estava, mas a vontade de chorar de ódio e outras coisinhas mais apareceu e ela se viu paralisada. Enquanto a discussão rolava, o homem que acompanhava Sugar deu um passo para trás indiferente e tirou um celular do bolso para responder suas mensagens despreocupado.
— Deus! Cala a porra boca, Sugar! Pelo menos uma vez na vida respeita as pessoas! — A Pierce pediu, nervosa. — Sério, o que se passa na sua cabeça? Só fala merda! Não foi você mesma que disse que “não ia mais perder seu tempo” com uma pessoa que não precisava nunca mais olhar na cara? Pois bem, por que diabos não passou reto por nós? Tinha que vir aqui ser escrota como sempre! Tinha, né?! Se toca! E sim, eu sei que a Marley vai voltar e pode ter certeza que eu vou falar com ela sobre isso, não me esforcei o bastante pra mostrar pra ela a sua verdadeira face enquanto a gente ainda tava namorando, só que agora eu faço questão!
— Rá, eu amo! Boa sorte com isso, miga. Quando incomoda muito é porque a carapuça serve, viu? Pensa bem... — Sugar riu, dando um toque para o homem a acompanhar na direção oposta. — Vem, chuchu. Terminamos aqui.
Eles foram embora, e Brittany chegou perto de Santana angustiada com a situação. Segurou suas mãos, aflita. A latina não deu um pio durante toda a cena, e nem depois. Isso não parecia bom.
— Cê tá bem?
— Não muito.
— Ah, Sannie... — Brittany suspirou. — Acho que não foi uma ideia muito boa virmos aqui hoje, desculpa.
— Não é culpa sua. Eu só queria ter conseguido dizer alguma coisa... Eu acho.
— Sinto muito, m-melhor irmos embora. Vou te levar pra casa, tá bom?
Santana assentiu, e elas voltaram para o carro da loira na sequência. Por mais que não quisesse, a morena passou o resto daquele dia pensando nas palavras de Sugar sobre ela e Brittany. Da praia à sua casa até a aula de yoga pré-natal e, depois, quando foi dormir. Se para a Motta elas eram lidas daquela forma, quem diria para as demais pessoas ao redor... Não queria se importar com isso, não queria mesmo, afinal quem era aquela fresca mal-amada para achar alguma coisa? Ou qualquer outro ser humano? Ninguém. Não tinham a menor relevância.
Mesmo assim, aquilo se impregnou na mente da Lopez de tal forma que era como se estivesse de volta à Junho, ouvindo comentários desestabilizadores por todo canto em relação à sua gestação. E o pior de tudo? Ela conseguia ver o quanto a situação havia afetado Brittany também. Estavam agindo estranho. Só esperava que o sentimento passasse no dia seguinte.
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