Nós - Brittana

5 Tempo de mudança


A fim de adiar um pouco mais seu retorno para casa naquele dia, Brittany foi até um supermercado. Afinal, precisava fazer compras de qualquer maneira. Isso não tinha nada a ver com suas incertezas... Talvez, tivesse sim. Claro que tinha. Mas, deixaria para pensar nisso uma outra hora, se possível. A verdade é que, mesmo tendo plena convicção do que queria e precisava fazer, tinha medo do próximo passo. Da ação em si. Quem poderia culpá-la? Pedir um tempo a alguém não é lá sinônimo de paz, ao menos para maioria das pessoas... Antes fosse. Quiçá, sua coragem estivesse perdida em um daqueles corredores do estabelecimento comercial, em meio as gôndolas recheadas de preços e produtos diversos. Talvez, nos letreiros piscantes acima, nas geladeiras ou até mesmo em algum lugar da seleta de frutas, legumes e vegetais. Talvez, não. Ela nunca sabia se pensar demais em algo era a resposta, possivelmente só servisse para criar ainda mais questionamentos infindáveis. É... Às vezes invejava a tranquilidade de Kitty, ter o mínimo que fosse de tal virtude para si seria ótimo.

A Pierce começou a transitar pelos corredores, com um carrinho de compras em posse, tentando se lembrar de tudo o que faltava em casa. O que não era uma tarefa tão difícil assim, já que revirara a cozinha inteira pela manhã. Respirou fundo, no intuito de manter-se focada mediante a tudo o que lhe passava pela cabeça e caçou sozinha pelas embalagens de costume. A reação dos outros é quase sempre imprevisível, não importa o quanto você conheça determinada pessoa. Mesmo suas próprias reações podem ser imprevisíveis e, tudo isso, pode se tornar um ‘fator de risco’. Porque, bom, há grandes chances de tais reações causarem estragos irreparáveis nos relacionamentos e a última coisa que Brittany iria querer era isso. Até porque, ainda precisaria conviver com Marley pelos próximos sete dias até a viagem que a modelo faria para a Europa. Postergar a separação temporária era uma opção? Era... Óbvio. Mas, não seria justo da sua parte deixar a outra mulher em constante agonia por simples e puro comodismo. Sua cota disso havia se esgotado, já fizera o bastante. Era tempo de mudança.

Ela se atentou as coisas que a namorada gostava, e, após se apossar de tudo o que as duas precisavam aparentemente, Brittany passou pelo caixa e em questão de segundos estava de volta a seu carro. Tinha ficado dentro daquele supermercado cerca de uma hora e meia, por aí... Agora, era só voltar para casa e conversar com Marley numa boa. A loira tomou fôlego e ligou o carro, seguindo o curto caminho de lá até o apartamento delas. A única coisa que a dos olhos azuis não contava nesse meio tempo, era que havia visita para ela, o que poderia prejudicar um pouquinho a andança de seus planos. Talvez, muito.

(...)

Brittany destrancou a porta, empurrando-a sutilmente, enquanto resgatava as sacolinhas de compra do chão. Ouviu vozes... No plural. Que ótimo, Marley tinha companhia. Belo jeito de chegar em casa, seu humor foi para o chão, num tombo irreversível... Eram seus pais. Sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Só não contava com o dia de hoje.

— Filha! — Liza foi a primeira a chegar até ela. — Fico feliz que esteja bem, nos deixou preocupados.

— Você não respondeu nenhuma das nossas mensagens essa semana, nem atendeu às ligações... — Frank completou, alcançando a visão da Pierce mais nova, simultaneamente a sua esposa. — Quer se explicar, por favor?

— Mãe, pai... Boa noite pra vocês também. — Brittany os deixou para trás no vácuo, indo em direção a cozinha. Sua namorada estava à mesa jantando e os lugares ao lado estavam preenchidos com dois pratos pela metade, claro. — Deveriam voltar a comer antes que o prato de vocês esfrie... Oi, passei no mercado.

— É, dá pra ver. — Marley continuou comendo, um tanto quanto indiferente, e resolveu perguntar por educação: — Vai se juntar a nós? Monto um prato pra você, se quiser.

— Não, obrigada... — A loira começou a tirar as compras de dentro das sacolas, para poder guardá-las. — Tô sem fome.

— Possa saber o porquê a senhorita está agindo assim? — Liza adentrou a cozinha. — Se não fosse sua namorada, não tínhamos notícia sua.

— É, poxa filha... — O Sr. Pierce acompanhou-a no falatório. — A Marley deve estar cansada de nós até.

— Jamais, Frank. — Marley negou, soltando uma leve risada, ao passo em que engolia a comida com calma. — Fiquem tranquilos, tô sempre à disposição pro que precisarem.

— Agradeço querida, você é um amor...

— Imagina, Liza. Vocês que são.

Blá-blá-blá. Brittany revirou os olhos com o diálogo, sem parar o que fazia. Fechou aquele armário com certa brutalidade e passou para outro. Nunca desejou tanto que seus pais não gostassem de sua namorada. Às vezes aquilo a tirava do sério, exatamente como agora.

— Te demos espaço, mas não custa nada tirar um tempo no dia pra falar com a gente viu, Brittany? Dialogar, sabe? — Seu pai a repreendeu, chegando mais perto do que antes, na esperança dela olhar para eles. — Isso é o básico de qualquer relacionamento, não deveríamos ter que implorar por isso. Somos seus pais.

— E uma semana nos ignorando é demais! — Liza assegurou.

— Certo. Olha... — Brittany parou o que fazia por um instante, virando-se para encará-los. — Se for pra falar do assunto de sempre, custa sim. Vocês já sabem o que eu penso. Não tenho mais nada a dizer.

— Brittany, não está analisando as coisas direito!

— Se tivesse filha, veria que o melhor é...

— Não. — Ela voltou a atenção nas compras que precisavam ser guardadas. — A resposta é não, e vai continuar sendo ‘não’ todas às vezes. Sinto muito.

— Brittany...

— Não.

— Tudo bem, Frank. — Sua mãe disse por fim, adquirindo uma postura meio cabisbaixa e tocando o ombro do marido para que ele desistisse também. Ao menos, por ora. — Vamos terminar de jantar?

— Tá... Vamos.

Eles sentaram-se a mesa, dando enfim um gostinho de paz a filha. Sorriram pouco depois, doidos para continuar o papo de antes com a adorada nora. Brittany, por outro lado, terminou o que fazia e foi tomar um banho, zangada. Atualmente, seus pais eram sua maior fonte de irritabilidade. Mais que Sugar, se bobeasse... Porém, não tinha plena certeza disso. Talvez, tudo dependesse do dia, semana, mês, ocasião e etc, etc. Vida que segue.

— Marley querida, nos conte mais detalhes sobre sua viagem.

— Claro... O que querem saber?

— Tudo.

(...)

Com um ligeiro abraço, Santana finalmente se despediu de Sebastian naquela noite e não demorou muito para subir para seu apartamento logo depois. O jantar com o garoto e seu avô tinha corrido tranquilamente, o que era ótimo. Todavia, a Lopez estava morrendo de vontade de contar a bizarrice que acontecera mais cedo a alguém... De preferência sua prima. E Kurt. Eles eram as pessoas certas pra isso. Enfim, lá estava Santana na presença dos dois. Rachel estava assistindo algo na TV junto ao Hummel, quando ela passou pela porta, tendo os olhares dos amigos inteiramente para si.

— Ué, achei que fossem estudar o dia todo... — A latina riu, aproximando-se.

— Olha a hora que você chegou, se toca. — Rachel deixou-se rir também, entrando na brincadeira. — O dia já acabou. Aliás, onde a bonita estava hein? No Breadstix que não era, já que fechou umas duas horas atrás.

— É, também tô querendo saber. — Kurt avisou, fingindo seriedade. — Não nos esconda nada...

— Fui jantar na casa do Sebastian.

— QUÊÊÊ? — Rachel abriu a boca, pasma. — Mentira!

— Temos uma recaída pelo boy encantado aqui... — O Hummel deduziu, na zoeira. — É isso mesmo?

— Não. Sinto muito decepcionar vocês, mas só fui dar um oi pro avô dele. Nada demais.

— Aaah! — Rachel e Kurt lamentaram-se de mentirinha, fazendo com que os três rissem simultaneamente. Santana os chamou de “idiotas” e a Berry voltou a abrir a boca logo depois: — Mas e o trabalho, como foi?

— Então... — Santana se acomodou do lado dos amigos no sofá. — Era sobre isso mesmo que eu queria falar com vocês. Aconteceu uma coisa meio doida hoje. Na verdade, super doida.

— E tá esperando o que pra nos contar, Tana? — Kurt perguntou, notoriamente ansioso com a suposta ocorrência incomum. — Desembucha, mulher!

— É!

— Ok, ok! Basicamente... Quando cheguei na porta do restaurante de manhã, uma das amigas daquela mulher que eu derrubei vinho ontem me abordou com o papo de que veio se desculpar por ela, sabe-se lá o porquê, e quis me devolver o dinheiro do reembolso, mas eu neguei.

— Você negou?! — Rachel se surpreendeu. — Por que, San?

— Por que você acha? — Ela revirou os olhos. — Ninguém em sã consciência faz isso né, Rach. Enfim... A maluca ficou por lá assim mesmo, e eu a atendi. Quando ela foi embora, me deixou isso.

Santana resgatou o envelope que recebera de Brittany e mostrou aos amigos. Eles se admiraram com o dinheiro, e não perderam tempo de ler o conteúdo do bilhete improvisado também. Encararam a Lopez, boquiabertos.

— Que loucura, Tana.

— Demais...

— Falei pra vocês. — Ela pegou o envelope de volta, encarando a caligrafia impecável da desconhecida mais uma vez. Isso, por si só, já chamava-a muita atenção... Quem diria o resto da história. — Tô até agora sem entender.

Seus olhos voltaram a enxergar Hummel e Berry num súbito, e, antes que eles tivessem chance de dizer alguma coisa, resolveu falar outra. Tinha que falar, era inevitável. O dia estava cada vez mais próximo. E, levando em conta que já teve coragem de contar para uma pessoa mais cedo (Sebastian, no caso), poderia muito bem contar a outras também.

— Por falar nisso, vou... Trancar a faculdade.

(...)

Marley e Brittany acompanharam os pais da loira até a saída do apartamento. Finalmente os mais velhos iriam embora, depois de tanto papo furado e falsa conformação. Aquele era o melhor momento da noite, se a Pierce tivesse que dizer. Enfim, teria um pouco de sossego.

— Muito obrigado por nos recepcionar, Marley... — Frank dizia, sorridente.

— A comida estava ótima, querida.

— Eu que agradeço, é sempre um prazer ter vocês por aqui.

— Awn... — Liza sorriu, desfazendo-se do abraço com a Rose. — Eu amo essa garota. Britt, deveria ser mais como a Marley.

— Claro. Anotado, mãe. — Ela foi sarcástica, e se aproximou para abraçá-la, passando em seguida para os braços do pai. — Tchau... Tchau.

— Se cuidem! — Marley acenou.

— Vocês também!

Os dois acenaram de volta e deram as costas, indo embora. Assim que sumiram do hall, Brittany fechou a porta e olhou para Marley. Seu rosto não era muito amigável, como já se podia imaginar.

— Por que não me avisou que eles estavam aqui?

— Porque você arrumaria outro motivo pra não voltar pra casa, Brittany. E eles estavam preocupados, você viu... — A morena respondeu, se afastando para sentar-se no sofá. — Podia conversar direito com eles, né?

— Ah, e eu não converso? — A Pierce se exaltou. — Sabe quantas vezes a gente já voltou nesse assunto, Marley? Milhares! E mesmo assim, é sempre a mesma coisa. Não estão nem aí pra o que eu falo.

— Discordo. Seus pais se importam e muito com o que diz... Por isso insistem, querem o melhor pra você. E eu também quero, por isso acho que devia reconsiderar a oferta, Britt. Afinal de contas, que desvantagem você teria em assumir a rede de concessionárias da sua família? De qualquer forma ela é sua também, então por que não tomar a frente dos negócios? Melhor você do que um terceiro qualquer, né.

— Sério, Marley? Você tá se ouvindo? — Brittany cruzou os braços. — Foram eles que te pediram pra dizer isso?

— Não. Só não entendo o porquê de tanta relutância, é tão simples.

— Eu não quero isso pra mim, já falei. Meu negócio é desenhar, criar, e não administrar um comércio desses. E de carros! Carros, Mar! O que isso tem a ver comigo? É a mesma coisa dos seus pais quererem do nada que, sei lá, você deixe de ser modelo pra ser engenheira.

— Não é a mesma coisa, e sabe por quê? Você anda extremamente distraída e irritada com o seu trabalho, desde que acabamos a faculdade. Sempre tem bloqueios, fica estressada e, enfim, o que eu quero dizer é que, talvez, desenhar seja só um hobby e você acabou se confundindo no processo de escolher uma carreira e por isso tá tão incomodada com tudo, toda hora.

Outra pessoa que não levava sua profissão a sério, maravilha. Como não percebera isso antes? Estava na sua cara o tempo todo, dançando, gritando e esperneando. Já não bastasse seus pais e meio mundo achando que ser ilustrador, desenhista, animador e afins não era coisa séria, agora sua namorada também. Era, realmente... Um dia e tanto, pra dizer o mínimo. Marley se levantou, notando a mudança drástica de expressão da companheira e segurou as mãos de Brittany as suas, tentando suavizar o clima. Sem sucesso, obviamente.

— Minha intenção aqui não é te magoar, nem nada Britt. Mas, conversar com seus pais hoje me fez perceber certas coisas. Só achei que devesse saber.

— Eu quero um tempo... — Revelou, subitamente. Séria.

— Um tempo? — A Rose deu um passo para trás, soltando-a. — Como assim, Brittany?

— De nós. Quero um tempo.

— P-por quê? Por causa do que eu falei agora?

Brittany negou, e foi a vez dela de se sentar ao sofá. Respirou fundo, perdendo os olhos em qualquer outro lugar da sala. Não era assim que havia imaginado conversar com a outra, mas as circunstâncias haviam mudado. A modelo continuou de pé.

— Então, por que Brittany?! Foi ideia da Kitty, é?

— Não. Ela não tem nada a ver com isso. Você sabe, Marley... Precisamos de espaço.

— Uau... É assim mesmo que vai terminar comigo, então? Sem se dar o mínimo trabalho de me explicar direito o porquê?! Não esperava isso de você... Não mesmo!

— Não estamos terminando, só pedi um tempo. É diferente.

— Não, não é! A gente sabe muito bem que “pedir um tempo” é a mesma coisa que terminar! Aliás, é a maneira que os covardes inventaram pra romper com alguém sem se comprometer ou sentir culpa, assim como está tentando fazer agora!

— Tá. Pode ser...

— O-oi?

— Você tá certa. — A dos olhos azuis sibilou, fazendo contato visual. — É o que quer ouvir, não é?

— Eu não tô acreditando nisso... — A Rose forçou uma risada. — Você realmente não liga pra nada, incrível! E quanto ao nosso apartamento aqui, hein Brittany? E tudo o que a gente construiu e viveu?

— Vão continuar existindo, Marley. Ninguém pode apagar. — Ela se ergueu do acolchoado, segurando ambos os braços da morena simpaticamente. Foi sincera: — Eu só quero um tempo, ok? Só isso. Vou dormir no outro quarto hoje... Boa noite.

A Pierce a soltou e passou a caminhar para o cômodo em questão, fechando-se por lá. Nervosa, Marley a imitou e, fazendo o caminho inverso até o outro recinto, bateu com força a porta do mesmo no processo, provocando um alto estrondo por toda a extensão do prédio em que viviam. E as coisas? Nunca estiveram mais estranhas do que agora.

Notas finais
Até ♥