Assim que pôde, Mercedes ressurgiu nas instalações do vestiário do Breadstix onde deixara Santana minutos antes. Queria checar se a outra estava melhor, visto toda a situação que se desenrolou tendo comentários desafortunados e queda de vinho como estopim. Bom, em resumo, para não gerar ainda mais problemas à garçonete, a gerente do restaurante tivera que negociar uma solução diretamente com Sugar. O que significava que, todo o salário da Lopez naquele dia seria descontado, para o reembolso do incidente à freguesa. Pois é... Eram as regras. Nem de longe a melhor saída, mas ainda assim, conseguia ser menos pior do que a reclamação formal que a Motta ameaçava fazer. Sua roupa de grife tinha custado muito caro, e não pouparia palavras para demonstrar sua revolta.

A verdade é que Sugar só não seguiu em frente com àquela ideia em razão de sua melhor amiga, Marley Rose, que ficou ao seu lado incentivando-a a meramente aceitar a resolução oferecida pela Jones, para poderem ir embora numa boa e logo, porque senão, cumpriria com suas palavras sem nem pensar duas vezes. Era uma mimada chiliquenta, desde sempre. Marley enxergava isso na amiga, mesmo que Brittany duvidasse, o fato é que, Sugar nunca deu as costas a Rose e a fazia bem, e todos, absolutamente todos neste mundo tem defeitos. Ser mimada naquele nível era o de Sugar, aí vai do que é possível ou não tolerar da personalidade de cada um. Para Marley aquele traço era tolerável, mas para a Pierce não. De qualquer forma, a vida precisava continuar.

Santana teve as atenções voltadas a porta do vestiário, quando Mercedes se colocou dentro do perímetro. Então, ali do banco onde se encontrava, a latina rapidamente levou as costas de uma das mãos aos olhos, limpando as lágrimas que permaneciam escorrendo por suas bochechas. Resquício de um choro de ódio, tristeza e mais. Não estava fácil. Nunca pensou que lidar com aqueles comentários, olhares e julgamentos seria tão difícil como estava sendo. Nunca pensou que os hormônios a mil fariam ela sentir o que estava sentindo, na intensidade em que estava sentindo. Parecia tudo em dobro. Ou melhor, era tudo em dobro. Pior do que passar pela adolescência, pior do que tudo o que já passou em vida. Mesmo que 20 anos não fosse tanta vida para contar.

Além disso, já fazia praticamente dois meses que não falava com seus pais, Lorenzo e Maribel, e de vez em quando se pegava imaginando como sua vida estaria agora, caso ela tivesse acatado a sugestão deles de não seguir em frente com aquela gravidez. Provavelmente, não teriam brigado e ela ainda teria contato com eles. E talvez, os dois tivessem razão, uma vez que trabalhavam há anos na área de medicina e tinham familiaridade com casos iguais ao seu, por isso temiam que a filha largasse os estudos em consequência e depois se arrependesse.

No instante seguinte, a menina Lopez sentia-se horrível de ponderar sobre tal possibilidade, pois, apesar de não planejar aquele bebê, algo positivo em seu âmago despertou para o imprevisto assim que descobriu a existência de uma vida sendo gerada dentro de si. Algo que não conseguia explicar, e que possivelmente fosse influência dos hormônios, porém, não descartava o fato de existir ali, em seu mais profundo subconsciente. Desse modo, optou por manter a criança.

— Elas já foram embora... — Mercedes disse, aproximando-se de onde Santana estava. — Entramos num acordo.

— Sei bem o que isso significa.

— É, a gente sabe que é uma merda. — Ela se sentou ao lado da Lopez. — Mas, você não vai perder o emprego no que depender de mim e convenhamos que pegou bem feio pra fulaninha o escândalo que ela deu, duvido que a garota volte a dar o ar da graça por aqui tão cedo.

— Obrigada pelo apoio, Cedes... Mesmo. Espero que esteja certa. Foi muito difícil não pular na cara daquela fresca.

— Deu pra ver. Mas, algo te desestabilizou bastante um pouco antes disso, não foi?

Santana assentiu, fungando. Apertou os olhos e passou as mãos no rosto, de novo. Mercedes tinha observado o humor dela piorar significantemente pelo dia, contudo, pareceu chegar ao seu ápice de degradação pouco depois da chegada de Marley, Brittany e Sugar. Eventualmente, em decorrência de um possível rosto conhecido em meio aos clientes noturnos daquela hora. Mas, não tinha a ver com aquelas mulheres até então.

— Nem sei onde vou arrumar forças pra vir trabalhar amanhã.

— Talvez, devesse reconsiderar minha oferta de folga...

— Não dá. Tenho que vir, ainda mais agora que o dinheiro de hoje foi pro ralo. Dei um tiro no próprio pé.

— A culpa não é sua. Foi um acidente.

— Que eu poderia ter evitado se não tivesse nesse estado...

— Não se cobre tanto assim. Escuta, San... Você que sabe se vem ou não amanhã. Mas, caso mude de ideia, não tem problema tá? É só me ligar avisando.

— Ok. Pode deixar, obrigada.

— Tá se sentindo melhor?

— Não muito. Mas, vou ficar bem.

— Certo. Nesse caso vou voltar ao trabalho. — Ela se levantou, enviando-a um sorriso fraco. — Melhoras.

— Obrigada.

Alguns minutos depois de Mercedes deixá-la sozinha outra vez, Santana recebeu uma mensagem de Sebastian Smythe, seu ex-namorado e, por extensão, o cara que a engravidou, dizendo que chegara na porta do Breadstix e que estava a sua espera. Os dois continuavam muito amigos, apesar do término da relação e, embora o jovem se matasse de trabalhar e estudar também, como a Lopez, Sebastian fazia o possível e o impossível para conseguir buscar a ex-namorada todos os dias no trabalho, mesmo em horas extras. Porque ainda gostava muito dela, muito mesmo, e ainda não tinha entendido o motivo exato que levou a morena a terminar com ele, já que se davam muito bem e, bom... Teriam um filho juntos. O que não era pouca coisa, para dizer o mínimo.

Mas, estava tudo bem, quem ele era para julgar alguma coisa?

Santana estava no direito dela. Os dois podiam ser ótimos pais separados e grandes amigos como sempre foram, sem nenhum romance envolvido, apesar das esperanças do Smythe em reatar aquele relacionamento permanecerem mais vivas que nunca. Assim que visualizou a mensagem dele, a Lopez se dirigiu aos fundos do estabelecimento, encontrando com o rapaz descendo do carrinho surrado de seu avô. Logo o abraçou, permitindo-se chorar novamente. Era estresse demais para dar conta sozinha.

— Ei, San... Assim você me deixa preocupado, tá tudo bem? Quer falar sobre isso?

Ela negou, afastando-se, para poder entrar no veículo. Sebastian então respeitou o silêncio dela, e apenas dirigiu até a atual casa de Santana. Em outras palavras, o apartamento minúsculo que ela dividia com sua prima, Rachel Berry, e o melhor amigo da baixinha, Kurt Hummel. Sebastian e Santana despediram-se então num raio de luz ao chegarem frente ao prédio, posto que a latina queria se ver dentro de seu quarto o mais rápido possível.

— Até amanhã...

— Tchau, Sebastian.

— Fica bem. Qualquer coisa, me liga.

— É... Eu sei.

(...)

Deixando o elevador capenga do edifício, a Lopez finalmente destrancou a porta de entrada do apartamento, atravessando-a em segundos. Para a surpresa dela, no entanto, Rachel residia no sofá vendo TV, o que era raridade, já que ela se utilizava das noites para estudar feito uma condenada junto com Kurt, mesmo as de sexta. A baixinha a fitou de volta, curiosa com as feições da prima. Aparentemente, não fora um bom dia para ela.

— Você tá bem? — A Berry se arriscou a perguntar.

— Eu pareço bem?

— Nem um pouco...

— Pois é, Rach. — Ela bateu a porta, suspirando penosa. Deixou a bolsa no lugar de sempre e foi até o banheiro lavar as mãos. — O dia de hoje poderia ser apagado da face da terra!

— O que aconteceu?

— Ah, nada não... Só um show de horrores mesmo. Tive o salário descontado, ouvi um monte de merda, uma maravilha. — Santana alcançou o sofá, acomodando-se também. Tentou controlar as emoções, enquanto relembrava as ocorrências do dia e contava a outra tudinho, sem a ironia de antes. — Sério, eu me arrependo de tudo que já falei e pensei sobre grávidas antes de me tornar uma. Tudo.

Naquele minuto, ela se encontrou em prantos, outra vez, para seu desgosto.

— E agora eu não paro de chorar e me importar com a opinião alheia. É uma droga, Rachel... Você sabe que eu nunca fui assim e eu não quero ser assim, mas agora eu sou!

— Ah, San... Vem cá. — Rachel a abraçou, afagando suas costas. — Não tem problema chorar ou sentir tudo isso. Tá tudo bem.

— Não, não tá!

— Tá sim. Você continua a mesma, são só os hormônios te influenciando. Prometo. — Ela riu, afastando-se sutilmente. — E pelo que disse, a Mercedes contornou a situação, então não se preocupa com o dinheiro ou com nada disso mais, tá legal?

A dos olhos castanhos balançou a cabeça em afirmativa, mesmo sem querer.

— Tá.

— Ótimo... A propósito, o que quer comer? Eu e o Kurt estávamos te esperando pra jantar, então você pode imaginar nossa fome de agora... NÉ, KURT?

— Oi! — Ele abriu a porta de seu quarto, acenando para Santana. — Alguém disse comida?

O Hummel logo percebeu o rosto de choro da morena, preocupando-se.

— Eita... O que aconteceu, Tana? — O rapaz se acomodou no sofá, à medida que Rachel se levantava de lá. — Tá tudo bem?

— Não, mas ela vai ficar assim que fizermos o jantar.

— É pra já então, tudo pela nossa garota!

(...)

Isolada em um dos quartos de seu apartamento, Brittany tentava finalizar algumas ilustrações na mesa digitalizadora que tinha à frente. Pouco tempo depois do jantar improvisado que ela e a namorada tiveram em completo silêncio, a dos olhos azuis fez questão correr para lá. Não estava a fim de papo e precisava agilizar depressa aqueles esboços, para que assim a Glee Comics — a pequena editora de quadrinhos da qual atualmente era empregada — pudesse retornar logo o autor da obra em questão. Entretanto, a mente da loira estava extremamente agitada desde o ocorrido horinhas antes... Isto é, Sugar gritando com a garçonete grávida do Breadstix. Aparentemente, tal situação não a deixaria em paz tão cedo. Mal conseguia se concentrar no que fazia.

— Droga...

Murmurou infeliz, apagando repetidas vezes os novos contornos que traçava na tela digital. Aquilo não estava ficando nem perto de bom. Talvez, a Pierce devesse desistir, ir tomar um remédio para dor de cabeça e se deitar. É... Se continuasse daquele jeito não restaria opção. Ela ouviu passos aproximando-se atrás de sua cadeira, e logo sentiu os braços de Marley passarem sobre seus ombros, tendo o cangote cheirado de brinde. Coisa que não a agradou muito, em decorrência àquele seu estado.

— Vamos pra cama? Você tá muito tensa, amor... A gente pode resolver.

— Não, Mar... Para. — A Pierce pediu esquivando-se do beijo que a namorada começara em seu pescoço. — Por favor.

A modelo bufou, afastando-se aborrecida.

— O que tá rolando, hein?

— Nada. — Ela desconversou. — Eu só tô tentando desenhar, posso?

— Você sempre faz isso...

— Isso o que?

— Me põe em segundo plano por causa desses desenhos.

— Pff... Deve ser porque é o meu trabalho? — Ela rebateu, girando a cadeira para fitar a outra, que a encarava com certa chateação nos olhos. Que merda. — Desculpa, é só que... Não tô com cabeça agora. Tá bom?

— Esse é o problema, Brittany! Você nunca tá com cabeça pra isso agora!

— Marley, eu não quero brigar de novo...

— Pode pelo menos admitir que as coisas andam estranhas pra caralho? — A Rose cruzou os braços. — Vou viajar pra fora do país sábado que vem e ficar longe por MESES e a gente não transa há umas 7 SEMANAS no mínimo... Você parece não se importar nem com um, nem com outro. Como acha que minha autoestima fica?

— Não joga essa responsabilidade pra mim... E é claro que eu me importo!

— Ah, é Brittany? Não parece!

— O que você quer que eu faça?

— Que seja sincera!

— Tá. Como quiser, Marley. Vou ser sincera, então... Minha cabeça anda muito cheia, ultimamente. De tudo. Você sabe, meus pais vivem no meu pé, não consigo desenhar direito assim e isso acaba me estressando ainda mais, estamos brigando toda hora... Isso, sem mencionar o fato de que eu não aguento mais sair com a Motta, o show que ela deu no restaurante hoje... Não precisava daquilo, né? Pra mim foi o cúmulo, a garota tava grávida!

— E daí? Isso automaticamente a transforma numa santa? — Marley balançou a cabeça, indignada. — Incrível como não poupa palavras pra defender desconhecidos, mas quando se trata da Sugar já vem com paus e pedras nas mãos. Sempre assim.

— Fala como se ela fosse a melhor pessoa do mundo, quando nós duas sabemos que não...

— Meu Deus, foi a garçonete que derrubou vinho na menina! Ela apenas se deixou levar pela irritação do momento, se coloque no lugar... Quem nunca extrapolou uma vez na vida?

— O problema é que a Sugar vive sendo uma escrota, Marley!

— Uau, tá legal. Eu não acreditava quando a Sugar me dizia... Mas, agora tô vendo que você cismou com ela mesmo, não é possível!

— Eu cismei com ela? — Brittany riu, surpresa. — Se dependesse de você, ela morava aqui com a gente!

— O que tá insinuando? Ela é minha melhor amiga, Brittany! Quer que eu me desfaça dela, é isso?

— Não, eu não quero nada! Só acho engraçado a gente sempre ter que sair com ela pra todos os lugares, mas quando se trata dos meus amigos você fica se esquivando... Não é como se você morresse de amores pela Kitty, por exemplo. Por que eu tenho que aturar a Sugar?

— Péssimo exemplo! A Kitty é uma puta chata que fica analisando tudo toda hora, fora que ela não vai com a minha cara e você sabe muito bem Brittany. Enquanto a Sugar é muito divertida, sempre com o astral lá em cima, me faz bem e te adora! Deve ser por isso!

— Ah, ser divertida pra você é fazer aqueles comentários infelizes a cada minuto e ser mais superficial que uma porta então?!

Marley pôs as mãos na cintura, suspirando ao passo que olhava o chão aborrecida. Apertou os olhos, sem responder. Não queria que as coisas ficassem ainda mais estranhas. Brittany menos ainda, embora parecesse uma tarefa cada vez mais complicada para ambos os lados e já não era de hoje.

— Olha, esquece... Não vim aqui pra brigar, Britt. Você tem todo o direito de não ter gostado do que aconteceu hoje. E... Enfim, só ia te chamar pra dormir porque tá tarde. — A mulher enfim abriu a boca, voltando a encarar a namorada. — Desculpa.

— Tudo bem, Marley. Não precisa se desculpar. — A Pierce falou, levantando bandeira branca também. — Faz um tempo que tô com uma dor de cabeça forte, devia ter falado logo.

— Melhor deixar pra desenhar amanhã, então...

— É. Você tem razão. Já vou desligar aqui.

— Ok. Enquanto isso, vou buscar um comprimido pra você... Tá?

Brittany abriu um sorriso fraco, assentindo, e Marley se aproximou dela, dando-a um selinho, antes de começar a se afastar, para buscar o remédio em outro cômodo. Com isso, a Pierce suspirou, voltando a fitar os desenhos incompletos na mesa digitalizadora. Optou por desligá-la, como disse que faria à namorada, e levantou-se, indo até a sala de estar. Quando Marley a entregou um copo d´água e um comprimido, a loira finalmente achou que aquele peso em sua cabeça sumiria. Mas... Não foi bem isso que aconteceu. Pelo menos não completamente. Não era uma mera dor de cabeça, estava pensando demais em tudo, especialmente no escândalo do Breadstix.

No que aquilo teria resultado à garçonete? Ou melhor, a Santana. No que?

(...)

Ao se deitar para dormir, Santana se apossou de seu celular para checar se existia alguma nova mensagem por ali. Atualmente tal coisa era sempre uma surpresa, pois há algumas semanas havia deixado o smartphone com as notificações mudas, sem qualquer vibração auxiliar. Isso diminuía sua ansiedade que, pasmem, também era fruto da gravidez. Assim, só descobriria se alguém estava mandando-a mensagens, caso destravasse a tela do aparelho.

Sebastian

Tá melhor?

(10:35 p.m.)

Santana

Aham

(12:17 a.m.)

Sebastian

Que bom

Amo você e nosso bebê...

Boa noite :]

(12:17 a.m.)

Ela não respondeu e suspirou, deixando o celular de lado e fechando os olhos.

Notas finais
O próximo vai demorar também, sorry Até ♥