Névoa de Guerra
7 A taverna de Bilgewater
Notas iniciais
Miss Fortune
– Mais rum para todos! — um homem barbudo, sujo e meio bêbado berrou, erguendo sua caneca e deixando a bebida cair aos poucos. A clientela, quase todos em pé e dançando, gritou um Aye em uníssono. Miss Fortune ouviu alguém cantando sobre sereias invadindo navios em meio a um naufrágio.
A Amante do Imediato era uma taverna instalada em um navio inutilizado. O barco quase não balançava — aquela região da ilha ventava muito pouco. Miss Fortune encarava o copo vazio sem muito interesse. Mais rum, isso mesmo. Bêbados sempre falam mais do que devem. Dê a eles mais rum. Olhando ao redor, ela só via bêbados nos mais diversos níveis de embriaguez, um ou dois homens sóbrios jogando cartas e um jovem que tentava disfarçar as olhadelas que ele dava à mulher. Fortune já estava se levantando quando um dos homens jogando cartaz ergue-se violentamente e deu um murro na mesa, fazendo cartas voarem e derramando a bebida do homem com quem jogava — este que, calmo, abaixou o chapéu, não sem Miss Fortune ver seus olhos brilhantes. Não estão jogando baralho. Acho que aquilo é um cartomante. A ruiva tossiu elegantemente para esconder o interesse que teve no assunto, mas o suposto cartomante pareceu ter a percebido, pois com um gesto expulsou o homem calvo que jogara suas cartas ao ar. Entendendo a mensagem — nos navios era raro usar linguagem verbal, não havia tempo para formalidades — Miss Fortune sentou-se na cadeira recém liberada. O homem juntou suas cartas e destacou uma vermelha.
– Pirata? — ele indagou, sem nenhum sentimento na voz. Sua barba era bem cortada, delineando o maxilar, e Fortune notou um corte recente em sua bocheca. Um cartomante briguento? Cada vez mais estranho.
– Sou eu quem faz perguntas aqui. — ela disse, firme, apoiando os cotovelos na mesa. Aquela posição destacava bastante seus seios, mas ela não notou nenhuma distração por parte do homem. — É o seguinte: nós, piratas, temos esse costume tosco de frequentar ciganos e cartomantes. Somos uma gente muito supersticiosa. Então não venha parecer surpreso comigo.
Ele riu baixo, sua voz com um estranho tom vitorioso.
– Não é isso, senhorita pirata. — Ele adicionou, movendo a carta vermelha entre os dedos. — Esta é só a segunda vez que vejo uma mulher neste navio — da outra vez, era uma prostituta. O que Miss Fortune faz nesta espelunca?
– Já devia saber a resposta. Ou é só um cartomante barato?
– Nunca fui um cartomante, mas de fato posso prever umas coisinhas. — ele riu novamente, aquela risadinha com só um lado da boca, típica de pessoas que pregam peças. Miss Fortune arrepiou-se de fúria. Ela ignorou a pergunta.
– Conhece um homem chamado de Gangplank? Nem sei se é o nome real dele. — Fortune começou, interrompendo qualquer tentativa de resposta do não-cartomante. — Eu precisava resolver umas coisas com ele, mas não sem antes saber se esse encontro dará certo. Não estamos em bons termos, minha tripulação ficou menor depois da última tempestade e...
– ...brigas entre piratas são resolvidas no mar. — O homem completou, fazendo-a gaguejar. — Teme que um dos dois diga a coisa errada e partam pros navios. Sua tripulação não sobreviveria a mais um combate, e você perderia o navio, a dignidade e talvez a vida.
Ela sorriu.
Um sorriso nervoso, porém um sorriso. Tem cartas, mas é briguento, diferente dos jogadores desse ramo. Gosta de prever as coisas com presunção e sorri como um demônio prestes a ludibriar alguém. Encontrei-o, Graves. Achei o tal Twisted Fate. Sorriu ainda mais quando resolveu respondê-lo.
– Vou lhe contar uma história. — ela começou, com a voz calma, desenhando círculos na mesa com a unha do dedo indicador. Tenho que ganhar tempo pra ele. — A história de uma menina chamada Sarah. Sarah morava numa cidadezinha ordinária, no litoral sul da ilha. Um dia Sarah estava quicando sua bola de meias quando viu uma fumaça em sua casa. A menina Sarah saiu correndo, deixando sua bola de meias estimadas para trás, sem nem mesmo calçar algumas delas para proteger seus pezinhos dos escombros que ia encontrar. — pausou para encostar-se na cadeira, pois passou o tempo todo apoiada na mesa. Respirou fundo e afastou uma mecha vermelha do rosto. — Sarah entrou dentro do barraco que chamava de casa e viu sua mãe toda ensanguentada, morta como um peixe na maré baixa. Sarah berrou e chorou, chamou por ajuda, mas tudo o que recebeu foi uma pancada na cabeça de uma pessoa desconhecida. Ah, Sarah jamais esqueceu os olhos vermelhos de seu agressor. Então a nossa menina protagonista cresceu entre os piratas que tomaram sua cidade, tendo que aguentar piadas sobre seu sangue mensal, e diversas tentativas de estupro. Mas quem disse que Sarah desistiu? Há. — Ela bebeu o gole que restava na caneca do homem que ela suspeitava ser Twisted Fate, que a olhou com um par de olhos brilhantes e irritados. Seu chapéu escondia em parte o cenho franzido, mas aquilo só a encorajava a continuar sua narrariva.
– Bem — ela tossiu, sentindo que em breve ficaria rouca. Ainda naquela manhã teve que berrar com Gangplank — ela nunca o perdera de vista, só usou esse assunto fingido para iniciar conversa com o não-cartomante. Malcolm Graves, um homem que ela conheceu há poucos dias, mas o bastante para serem amigos, procurava por esse tal Twisted Fate de forma até paranoica. Saber que ela o encontrara antes dele lhe trazia grande satisfação. — Continuemos com nossa historinha, e perdoe minha voz. Gangplank berra muito, é preciso berrar mais alto para que ele te ouça. — ela gargalhou, sentindo uma felicidade sem razão alguma. — Vamos lá. Sarah cresceu indo de navio a navio, seduzindo uns caras importantes com sua cabeleira ruiva e seios fartos, mas nunca confiou naqueles desgraçados. Aí ela fez dezesseis anos. Ah, que bela idade. Naquele ano ela conseguiu a alcunha de melhor caçadora de recompensas da região, e depois ela virou a melhor de Bilgewater. Ficou rica, linda e famosa, tudo o que as burguesinhas querem na vida. Nenhum homem resistia a seu charme, e até hoje o único que se diz resistir é o idiota do Gangplank. — ela parou a história somente para ver o homem olhá-la com uma irritação palpável. Hehe, acho que ele já sabe no que caiu.
– E que moral eu devia tirar dessa história, Miss Fortune? — ele disse, ainda movendo a carta vermelha, que estava levemente brilhante.
– Que Sarah Fortune não perderia uma disputa entre navios com qualquer piratinha. Se as balas acabarem, eu pego uma espada. Se a lâmina partir-se, eu tenho um par de punhos. Se cortarem minhas mãos, bem, eu tenho dentes. A munição e a glória do pirata não se resume ao navio, Twisted Fate.
– Antes morrer com seus dentes nos tornozelos de alguém a morrer em uma cama com uma faca no peito. — O homem concluiu, sorrindo.
– Está aprendendo a ideologia dos piratas com rapidez, meu caro. — Fortune levantou-se lentamente. O sol estava se pondo, ela estava exausta e queria poupar voz. — Fiquei nesta taverna durante exatas duas horas e trinta e sete minutos, de acordo com meu belo relógio de bolso. O caminho da loja de armas do senhor Pelt até aqui dura uma hora. Fiquei aqui mais de uma hora e meia a mais do que devia, infelizmente.
Twisted Fate não pareceu surpreso. Uniu suas cartas nas mãos.
– Ele já está a caminho? — ele começou, mas quando ia dizer mais alguma coisa, arregalou os olhos ao ouvir o som de uma arma se engatilhando em sua cabeça. Todos na taverna repentinamente olharam para o homem armado, que passara despercebido até erguer a arma. Muitos só engasgaram e suaram frio, mas outros exclamaram pedindo explicações. O garçom correu para atrás do balcão.
– Pensei que me conhecesse, velho camarada. — Disse Malcolm Graves. — Eu nunca me atraso.
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