Névoa de Guerra

2 A policial em Piltover


Notas iniciais
Nada mais justo do que começar a fanfic com a personagem que me trouxe ao jogo x)

Vi

Jovem, magrela e um tanto insana. A descrição rudemente escrita na papelada da nova prisioneira lembrou Vi de si mesma. Quanto tempo se passou? Um ano? Cinco anos? Meio século? Para ela, os anos na criminalidade pareciam uma vida passada. Havia se adaptado completamente à vida dentro da lei, mas gostava de bancar a fora da linha de vez em quando como uma modesta forma de quebrar o gelo da xerife Caitlyn. Que, aliás, vai me matar se eu não terminar o serviço depressa. Essa mesma prisioneira tinha causado um baita estrago em Piltover, e Caitlyn teve uma imensa dificuldade para alcançá-la. Perder a pestinha estava fora de cogitação.

Enquanto levava a meliante por uma escadaria em espiral que parecia não acabar, observou o fim da tarde pelas imensas janelas redondas que estavam nas paredes da torre de segurança há séculos. Ainda me lembro da primeira vez estive aqui dentro.

Há uma vida atrás, uma pequena coisinha rechonchuda e rosada chamada de Vi roubava e enganava para sobreviver. A menina corria como ninguém, e ninguém ela era. Sua falta de presença a ajudou muitas vezes na juventude, o que seria impossível atualmente, com seus imensos punhos robóticos. A pequena e ligeira Vi corria pelos corredores ladrilhados de Piltover, tossindo com a fumaça industrial e pegando uma ou outra fruta que estivesse em exposição na feira. Mesmo na época mais decadente de minha vida eu parecia mais nutrida que esta mulher, pensou, observando os ossos das costelas da prisioneira, que eram salientes em sua pele pálida.

Sem Vi se dar conta, ela, a prisioneira e a pequena guarnição que as acompanhavam já estavam na frente da grande e velha porta ornamentada do escritório principal. Caitlyn está com a arma em mãos, deduziu ao ouvir os sons de alguém travando um gatilho. Ou talvez destravando.

A porta abriu-se com um gemido em suas frestas, e uma grande sala abobadada repleta de pilhas de papéis, livros e algumas armas ergueu-se à frente do grupo. As botas da prisioneiras deslizaram um pouco no chão de madeira polida e arranhada, e Vi colocou uma pilha de papéis de carregava debaixo do braço direito sobre a mesa de mogno da xerife.

– Demorou bastante. — A xerife reclamou, curvando-se sobre a mesa e apoiando o queixo em suas mãos. Seus cotovelos deslizaram levemente sobre a madeira recém-polida. Vi não pode deixar de notar a arma logo ao lado dos papéis que entregara. — Está engatilhada, não se preocupe.

– Não acredito nela. — protestou a prisioneira, sua voz era rouca e até agradável. As correntes que pendiam de suas algemas tilintaram suavemente. — Vai meter uma bala em mim a qualquer momento.

– Calada. — Vi respirou fundo. — Realmente, xerife, estou atrasada. Mas devo lembrá-la das malditas escadarias e meus punhos ainda mais malditos.

– E eu! — A prisioneira exclamou, parecendo orgulhosa de ter feito algo. — Eu também a atrasei. — ela riu de um modo travesso enquanto agitava as correntes. O som claramente irritou a xerife, embora nenhuma reclamação tenha surgido. Em vez disso, Caitlyn dirigiu-se a Vi.

– Obrigada pelos papéis, policial. Me dê um minuto com a prisioneira.

Vi assentiu solenemente e saiu da sala, seguida pelos dois guardas que estavam com ela.

Durante a espera quase eterna, uma onda de lembranças veio à sua mente. Magra e ligeira e insana e teimosa. Era um dia nublado quando Vi e seus companheiros de trupe resolveram roubar a mina. "Lá embaixo tem ouro até pros filhos dos nossos filhos", um dos ladrões gostava de dizer. "Vou pegar todo o bronze e erguerei uma estátua minha nos portões da cidade", dizia outro. Mas qualquer tipo de ambição foi destruída junto com um túnel em obras — acidente que não fora previnido pela trupe. Um erro que podia ser facilmente previsto, pois usávamos explosivos constantemente, Vi recordou, triste. Os escombros caíram encima de dois companheiros, mas os mais danificados foram os mineiros. No mínimo 2/5 dos trabalhadores foram soterrados. A magra e delinquente garota teve seu coração amolecido com o choro de ajuda de um grupo de mineiros, e acabou tirando-os dos destroços com um par de luvas grandes e mecânicas que encontrara. Já tinha desmanchado muitos instrumentos hextec, e lidar com os punhos da mesma tecnologia não fora grande dificuldade. Após seu pequeno heroísmo, ela acabou se entregando. Preferiu ir para a cadeia a viver com medo dos remanescentes da trupe, que poderiam querer matá-la por traí-los. E subiu as escadas em espiral, respirando fundo e observando o sol poente, tendo certeza de que podia ouvir os gritos de ódio de seus parceiros ladrões. Gritos estes que foram silenciados pela piedosa sentença da xerife Caitlyn. "Trabalhará em prol da lei, como uma policial. Seus punhos serão de preciosa ajuda." a xerife dissera, solene e com os olhos congelados que escondiam qualquer que fosse a razão emocional por trás de sua decisão. "Aceita? Não se preocupe com a recusa, as celas não são tão ruins e não serás maltratada. Não enquanto eu respirar."

Eu assenti tão forte com a cabeça que passei aquela noite inteira com dores no pescoço, Vi lembrou-se, rindo. Então a porta ornamentada gemeu novamente, um som repleto de ferrugem e madeira. Sim, sim, obrigada, xerife. Sim, eu aceito trabalhar aqui. Muito obrigada!

– Vi. — Caitlyn chamou, com a voz baixa e claramente impaciente. Usou meu nome, sem nenhum 'policial' antes. Isso é sério. — Basta. Leve-a daqui. Essa aí não tem jeito. — entregou os grilhões da prisioneira para Vi, que observou a jovem magricela levantar os ombros e fingir a expressão de alguma criança que fez besteira enquanto formava a palavra Ops na boca. — Tem permissão para aplicar a correção que achar melhor. Nos calabouços, é claro. — A xerife completou.

– Entendido. — Vi disse em seu melhor tom marcial. A prisioneira ainda parecia imune a qualquer intimidação vinda das duas oficiais. Estou lidando com uma louca. — Você vem comigo. — Enrolou as correntes da garota em seus grandes punhos e a arrastou escada abaixo, embora o prestígio do castigo fosse mais da prisioneira, que não precisava caminhar.

Já era bem noite quando chegaram aos calabouços, e Vi jogou a delinquente na cela, surpresa com a leveza daquele corpo pálido. Agachou-se para olhar nos olhos da garota atrás das grades, que estava sentada no chão de pedra com as pernas magrelas em borboleta.

– Me diga. — Vi exigiu, inexpressiva. — Que tipo de merda você fez pra chegar nos calabouços? A xerife geralmente só manda as pessoas pra celas comuns.

A prisioneira encolheu os ombros e fez uma expressão entediada.

– O mesmo de sempre. — respondeu com a voz baixa. Nenhuma das duas parecia gostar da facilidade com que ecos se formavam no vazio dos calabouços. — Explodir um ou outro prédio, transformar uns robôs em peneira.

Aquilo não satisfez a policial. Há muito mais. Os calabouços são pros mais ousados. Lembrou-se da conversa a sós que a prisioneira teve com a xerife, e a curiosidade iluminou seus olhos.

– O que falou com a xerife Caitlyn quando estavam sozinhas? — indagou, sem deixar a curiosidade derramar-se sobre seu tom de voz. A prisioneira fez uma expressão exausta.

– Meh... eu, na verdade, fiquei quietinha. Ela bombardeou umas bobeiras nos meus ouvidos, entende? Aquela coisa toda de ideal e pessoas especiais, tentando me deixar arrependida. — Ela soprou uma mecha de cabelo pra longe do rosto.

Pessoas especiais? Será que a xerife me citou? Vi indagou-se, movendo nervosamente os dedos por dentro das gigantescas luvas.

– Isso é muito resumido. Precisa detalhar.

Os olhos da prisioneira brilharam de um modo que intimidou a policial. Um largo sorriso psicótico formou-se em seu rosto pálido. Ela brincou com uma de suas longas tranças azuis.

– Lamento, tira. Jinx só sabe retalhar.

Daquela noite, Vi só se lembrara de sentir suas luvas hextec ficando quentes enquanto o pequeno medidor de uso apitava enlouquecido. Sentira o forte cheiro de fumaça e mergulhara na escuridão e dor de cabeça.

Notas finais
Ah, algo que seria interessante de explicar: falas de flashbacks serão sinalizadas com aspas, e as falas da história atual, com travessão. Os pensamentos do personagem é em itálico.