Adrian acordou. Abriu os olhos. Viu o teto pendurado lá em cima, como os tetos costumam estar.

— Oi, teto.

O teto não respondeu.

Colocou a mão direita na nuca. Estava sentindo uma dor leve e pontiaguda. Pensou que poderia ser devido a tensão.

Levantou-se. Se deparou com a Bruna e a Natália vindo para sala, ainda meio sonolentas.

— Gente, tive outro sonho profético! — Bruna ia começar a contar seu sonho, mas Adrian interrompeu.

— ESPERA! — O garoto gritou. — Isso já aconteceu!

Todos olharam confusos para Adrian. Ele estava meio eufórico.

Em um piscar de olhos, memórias fragmentadas iam tomando forma na mente do garoto. Lembrou do sonho de Bruna, lembrou das Bestas, lembrou do Padre. Lembrou de um banquete. Lembrou de morrer.

Olhou para todos com melancolia. Abraçou Natália.

— Naty, você está viva!

Natália ficou confusa.

— Sim, eu estou. Mas você tá agindo tão estranho que estou começando a duvidar.

Soltou a garota. Puxou o ar com força. Soltou. Colocou todos pensamentos no lugar. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo. Olhou para Bruna e disse:

— Você sonhou com uma igreja, pessoas vestidas de amarelo, a Natália e o Bruce segurando facas. — O garoto ia explicando.

Bruna ficou impactada.

— Estou impactada. — A garota disse. — Foi isso mesmo, como você sabe?

Adrian ficou em silêncio por alguns segundos. Olhou seriamente para Bruce.

— Bruce, aquele anime que eu te mostrei, do cara que voltava no tempo quando morria...

Bruce ficou surpreso e na hora entendeu o que Adrian estava tentando dizer.

— Essa é sua individualidade?! Então você morreu?!

— Pera, pera ai! Explica isso direito. — Bruna disse.

— Bom, eu não sei direito como funciona, mas eu morri. Fui assassinado na verdade. A Naty também foi. Mas de alguma forma eu voltei no tempo pro começo do dia. Essa é minha individualidade, acredito eu. Voltar no tempo quando eu morro. Só pode ser!

— Tem certeza disso, Adrian? Você pode ter sonhado com tudo isso... Você anda meio cabisbaixo por não ter individualidade... — Natália indagou.

— Eu tenho certeza, caralhos!

— Bom, então nos conte tudo o que aconteceu nesse dia que não existe mais. — Bruce disse.

Então Adrian contou sobre a viagem até Cachoeira Paulista, como tudo parecia estar tranquilo de manhã. Contou sobre encontrarem Nora e ela os levar para a igreja de Pereira. E então todos lutaram juntos contra as Bestas para no final serem traídos pelo Padre. Adrian era meio enrolado, então ficou alguns minutos explicando tudo, acrescentou alguns detalhes inúteis também.

— Uau! Que dia, heim! — Bruce suspirou.

— Então qual o plano? Ir se vingar da igreja? — Perguntou Mendigo Carlos enquanto abria uma latinha de cerveja.

— Eles estão armados até os dentes... Acho que não daria certo. — Adrian explicou. — Mas acho que deveríamos ir atrás de Nora. Ela não está segura lá com eles, e além do mais, ela sabe sobre o que aconteceu aqui. Ela pode ser útil.

— Raptar uma senhora de igreja para que ela nos conte sobre o Apocalipse. Esse é meu tipo de rolê! — Bruna estava animada.

— E também temos que sobreviver ao ataque das Bestas quando a noite chegar... — Natália os lembrou.

Assim se prepararam para a viagem. Levaram algumas facas e outras coisas que pudessem usar como armas, só por precaução. Entraram no carro e Bruna dirigiu até Cachoeira Paulista, seguindo as direções de Natália.

A viagem foi tranquila. Entraram na cidade agora seguindo as direções de Adrian. Ele disse saber onde Nora apareceria. Esperaram no ponto até que a mulher aparecesse. Por fim apareceu.

— Ali está ela! Como vamos nos aproximar? — Natália indagou.

— Deixa comigo! — Adrian saiu do carro, seguido por seus amigos.

— Nora! Nora! Nós viemos em paz. Queremos te ajudar. — Adrian disse enquanto lentamente se aproximava da mulher.

— Como você sabe meu nome? — Nora respondeu, assustada.

— Eu saber significa que somos amigos, certo? Hoje as Bestas irão atacar, nós queremos te proteger! — O garoto exclamou.

— Eu já tenho minha igreja, não preciso de ajuda! — A mulher parecia estar perdendo a paciência.

— Nora Batista Dos Campos Silvestres de Bragança Maria Eduarda do Leste, nós só queremos ajudar! — Adrian insistiu.

A mulher ficou perplexa por uns instantes. Suas maçãs do rosto ficaram coradas.

— Você... Você sabe meu nome completo? — Nora arrumou seu cabelo, o pondo atrás da orelha.

Adrian acenou positivamente com a cabeça.

— Será que você é o meu varão que eu estou esperando a todo esse tempo? — Nora estava envergonhada e sorrindo.

Todos ficaram meio desconfortáveis e perplexos.

— Tá mais pra varinha... — Bruce sussurrou.

Nora foi se aproximando de Adrian.

— O Padre Pereira diz que a vocação de uma mulher é encontrar seu varão e o servir. E eu acho que este homem é você! Me diga o que queres, meu amorzinho. — Nora colocou os mantimentos que segurava no chão e se entrelaçou com o braço de Adrian.

— Essa foi a pior coisa que eu presenciei na minha vida, e olha que estamos num Apocalipse! — Bruna revirava seus olhos.

— Bom... Ela tá convencida... — Bruce notou. — Nora, você sabe um lugar onde podemos nos esconder das Bestas? — Complementou.

A mulher pensou por alguns segundos. Se desgrudou do braço de Adrian.

— Tem um supermercado aqui perto. Ele está vazio porque a igreja já pegou seus mantimentos, mas lá só tem uma entrada. É seguro.

— Então é para lá que vamos! — Natália exclamou.

— Para o infinito e além! — Bruce corria como um ninja em direção ao carro.

Todos entraram, estava meio apertado e Nora aproveitava para abraçar Adrian. Bruce notou que seu amigo estava completamente com seu rosto vermelho de vergonha.

Dirigiram até o supermercado, ocasionalmente desviando de névoas brancas que apareciam no meio da rua, e lá ficaram até a noite cair. Mas não ficaram sem fazer nada todo esse tempo. Criaram barricadas para se protegerem e colocaram ferros na porta.

A noite chegou.

— Certo, eu já estou ouvindo o barulho de algumas Bestas no telhado. Só a gente ficar bem quietinhos aqui que elas não virão! — Adrian murmurava atrás da barricada.

— Galera, eu vou lá! — Mendigo Carlos disse.

— O que? Na onde? Você tá maluco? — Natália se expressou de forma nervosa.

— Eu não posso ficar aqui parado enquanto tem Bestas selvagens atacando a cidade. — O mendigo saiu de trás da barricada e foi em direção a porta. Natália tentou o impedir, mas Adrian não permitiu.

— Deixa ele. Ele é um exímio lutador. Sei que vai ficar bem. — O garoto disse.

Natália se aquietou atrás da barricada.

Mendigo Carlos removia silenciosamente os ferros da porta. Saiu.

Bruce calmamente e sem nenhum barulho foi até a porta colocar os ferros de volta. Ficaram em silêncio dentro do supermercado por meia hora. Ouviam os gritos de batalha de Mendigo Carlos vindo lá de fora. Enquanto ele gritava, sabiam que ele estava vivo.

De repente, começaram a ouvir arranhados na porta.

— QUE QUE ISSO? OLHA O BICHO VINO! — Adrian gritava silenciosamente, algo que só ele sabia fazer.

Começaram a ouvir um choro baixo vindo em direção da porta.

— Eu vou lá ver! — Bruce se esgueirou entre todos, saiu da barricada e foi bisbilhotar por entre a porta.

— Uma bestinha! É uma bestinha! — O garoto sussurrou.

— Adrian, você não falou que essas Bestas eram enormes e assustadoras? Essa aqui parece um filhote. E está assustado!

Bruna ficou de pé.

— Já basta! — Exclamou. — Essas criaturas não devem ser más. E esse daí está assustado, coitado. Ele deve estar com medo do Mendigo Carlos lá fora matando tudo o que vê.

Natália concordou.

— Eu vou buscá-lo. Chega de matança! — Natália estava com medo, então com facilidade conseguiu se teletransportar para fora do supermercado. Se deparou com uma rua ensanguentada, e lá no meio Mendigo Carlos todo cheio de sangue lutando com as grandes Bestas. Se teletransportou novamente, agora para mais próximo dele. O tocou e juntos teletransportaram para dentro do supermercado.

— Que? Por que você me tirou de lá? — O mendigo perguntou.

— Essas Bestas, elas tem família! Tem sentimentos. Não tem porque mata-las. — Bruna estava enfurecida.

Mendigo Carlos suspirou fundo. Ainda estava ofegante pela batalha. Suas roupas cortadas mostravam um físico forte, porém seu corpo estava com cortes das garras das Bestas, com certeza se tornariam cicatrizes.

— Certo. Que seja. — O mendigo parecia decepcionado. Se juntou aos cinco ali presentes atrás das barricadas.

Notaram que o choro da Besta lá fora tinha sumido. Porém ainda ouviam os barulhos escandalosos delas andando pela rua e pelo telhado.

— Nora, você poderia nos contar tudo o que você sabe sobre as Bestas? Aliás, tudo o que aconteceu aqui nesses últimos meses? — Adrian acariciava os cabelos da mulher.

— Isso é um tabu. Não falamos sobre o primeiro dia do Apocalipse.

Adrian fez uma expressão parecida com a de um cachorro manhoso pedindo colo.

— Mas por você eu faço qualquer coisa, meu varão! — Nora caiu nos encantos de Adrian, O Galanteador.

— Foi a quase nove meses atrás. Os demônios surgiram do céu em grandes carruagens e disseram que o dia do arrebatamento tinha chego. Eram demônios assustadores. Eram verdes, tinham pescoços longos e olhos amarelos esbugalhados. De início eu pensei que eram anjos que vieram nos buscar, mas o Padre Pereira e vários outros religiosos ao redor do mundo disseram que eles eram uma fraude. Que eram demônios fingindo serem Deuses. Eles falavam coisas boas, que nos levariam para um mundo espiritualmente mais evoluído. Que queriam nos salvar. Então eles levaram todo mundo com eles, menos aqueles que se recusaram. Muitos recusaram. Estão por aí ao redor do mundo, todos fiéis do verdadeiro Deus. Ficamos pra trás para não cair na tentação dos falsos anjos. É sabido. Eles disseram que nosso mundo ia acabar, mas não demos ouvido. Sei que nosso Jeová irá aparecer e nos salvar do Apocalipse.

Todos ficaram de cara.

Bruce se pôs a falar:

— Seriam essas "carruagens", naves espaciais? E seriam esses "demônios", alienígenas?

— Seria os Deuses, astronautas? — Bruna complementou, chocada.

— Chamaram assim. Mas nós da igreja sabemos a verdade. Eram demônios tentando nos enganar!

— A minha doce criança de verão... — Bruce disse balançando sua cabeça para os lados.

— Olha, eu também acredito em Deus. — Natália disse. — Mas me parece que eram aliens querendo salvar o povo da Terra da extinção. Igual a gente vê nos filmes, sabe? — Complementou.

— Você não pensou nessa hipótese? — Adrian falou para Nora.

— Claro que ela não pensou. Ela está cega pela religião. Assim como os outros que ficaram aqui. A minha preocupação agora é: A Terra vai se destruir? Os aliens disseram que o mundo vai acabar, certo? — Bruce fez seu monólogo.

Todos ficaram preocupados.

— Pra falar a verdade, eu cheguei a pensar nisso tudo. Que os demônios não eram demônios, que só estavam querendo ajudar. Mas eu sempre fui de igreja. Então tive medo...

— Eu entendo. — Bruce falou de forma reconfortante.

— Mas e as Bestas? — Natália perguntou.

— Não sei. Elas surgiram depois de dois meses. Surgiram junto com essas névoas que estão por todo redor. Não sabemos o que elas são ou o que querem, só sabemos que elas nos atacam.

— Tem mais alguma coisa que você saiba, Nora? — Adrian indagou.

— Não... Isso é tudo.

Voltaram a ficar em silêncio, e assim ficaram até amanhecer. De acordo com Nora, as Bestas iam embora quando os primeiros raios de sol atingiam o chão. Quando o dia clareou, todos dormiram, cansados.

Adrian acordou. Abriu os olhos. Não sabia ao certo que horas eram. Tentou se mexer. Não conseguiu. Notou que estava todo amarrado por cordas firmes com nós. Tentou se debater, mas não adiantava.

— Mas é o que que tá acontecendo? — Falou assustado.